Semana On

Sábado 16.nov.2019

Ano VIII - Nº 372

Coluna

“Fatura-se”

Os sonhos de Paulo Guedes para a universidade pública brasileira

Postado em 11 de Setembro de 2019 - Leandro Gonçalves

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Enquanto o presidente da república Jair Bolsonaro levanta polêmicas e comete alguns crimes em público[i], Paulo Guedes trabalha. É um trabalhador, esse Paulo Guedes. E é um realizador de projetos (sonhos, também pode-se dizer), um empreendedor, como gostam os liberais. Para cada setor da economia relativamente protegido pela administração direta do Estado, este senhor tem um projeto que o abre à iniciativa privada e à “competição”[ii]. Este é o caso das Universidades Públicas, como é o da Previdência, o do Petróleo e do gás, o das reservas ambientais... mas as Universidades Públicas serão aqui protagonistas, como o são para o senhor Guedes. Neste caso, além da generosidade em relação aos amigos que com ele partilham os prazeres – e as informações privilegiadas – da especulação financeira, Guedes tem aqui interesse direto. Veremos, nas próximas linhas, o que este senhor ganha com o sequestro de recursos financeiros das Universidades Públicas, no exercício orçamentário de 2019, e também com o “Programa Institutos e Universidades Empreendedoras e Inovadoras – FUTURE-SE”, que visa inserir as Universidades no fantástico mundo dos fundos de investimento, da gestão do risco e da especulação[iii], [iv].

A cartada de Guedes

Paulo Guedes é um reconhecido investidor[v] e gestor de fundos de investimento (por “gestor de fundos de investimentos” leia-se “especulador financeiro”). Entre os fundos de investimento que geriu, está um que investiu cerca de seiscentos milhões de reais em um grupo de educação voltado a cursos de medicina, grupo que hoje chama-se Afya. Vinicius Pinheiro, do sítio eletrônico “seu dinheiro”, nos conta[vi] que o nome da gestora do fundo é Crescera e que detém cerca de 37,5% do capital da Afya. A história é longa, e Vinicius nos diz que a gestora chamava-se Bozano, quando tomou a sua parte no grupo de educação, em 2015; a Bozano tinha muitas credenciais[vii] e tornou-se Crescera quando Guedes deixou a gestão do grupo para assumir a do superministério da Economia do governo de Jair Bolsonaro. A mudança de nome da gestora de fundos de investimento torna-se óbvia. Além disso, a Crescera atua no mercado conhecido como “private equity”, cujos investidores são profissionais e detêm ao menos 10 milhões de reais para investir; tais investidores apostam em retornos altíssimos e entregam seus milhões por 8 a 10 anos a estes fundos que a Crescera gere. É muita responsabilidade. O fundo que investiu na Afya é desta natureza.

Trazer os nomes destes empreendimentos é interessante para percebermos o sentido do fluxo do capital e também das nossas instituições e vidas. A Afya igualmente tomou este nome em tempo recente. Ao acessarmos o seu sítio eletrônico[viii], podemos descobrir que Afya significa “saúde e bem-estar” em suaíli, um dialeto falado em extenso território na costa africana banhada pelo oceano índico. A relação do grupo educacional com tal território não é explicitada. Este grupo assumiu “saúde e bem-estar” quando tornou-se a fusão dos grupos NRE educacional, que se diz ser o maior grupo de faculdades de medicina do país, com o grupo Medcel, que se diz ser “marca líder em cursos preparatórios para residência médica”. Para a Afya, a Medcel agrega ao grupo a sua expertise e pioneirismo no uso da tecnologia em processos educacionais. É importante enfatizar que trata-se da fusão de um grupo importante que forma médicos e outro grupo importante que prepara médicos para seguirem suas carreiras rumo às suas especializações. Talvez vejamos as faculdades de medicina voltadas a formar competidores para provas de residência, em um futuro próximo.

Esta Afya, no dia 19 de Julho de 2019, fez uma oferta pública inicial de ações na bolsa Nasdaq, em Nova Iorque[ix]. O valor inicial dos seus papéis era de 19 dólares, um dólar acima do mínimo. No mesmo dia, as ações passaram a 22,70 dólares, tendo um crescimento de 19,50%; com isso, a empresa recolheu cerca de trezentos milhões de dólares, dinheiro com o qual pretende investir na construção de novas escolas, entrar em novos mercados e desenvolver produtos, como dito à revista Exame. O CEO da Afya internacional, Virgílio Gibbon, afirmou, de acordo com a revista citada: “optamos pela Nasdaq porque nossa proposta de valor se baseia no trinômio educação, saúde e tecnologia e lá há empresas com dinâmicas de negócio similares. Estamos criando educação médica disruptiva, conectada com o presente e voltada para a aprendizagem em todas as fases da carreira médica”.

Os sucessos da Afya foram também compartilhados com os seus parceiros e investidores “private equity”. Vinicius Pinheiro tem uma fonte neste mercado que calculou para ele o retorno financeiro que teve a Crescera com o movimento que a Afya fez na Nasdaq. Em 24 de julho, com as ações da Afya à 28,50 dólares na Nasdaq (em 25/08/19, esta cotação estava em 30,50 dólares[x]), a participação do fundo gerido pela Crescera na Afya valia 3,6 bilhões de reais. De seiscentos milhões a 3,6 bilhões, rumo ao infinito. Pela capacidade da Crescera em superar todas as expectativas de retorno estimadas, espera-se que ela fique com 820 milhões de reais de todo este crescimento.

Cinco dias depois de aberto o capital da Afya na Nasdaq, todos os envolvidos tinham muito o que comemorar. Completava-se, neste mesmo dia, uma semana do anúncio do programa “FUTURE-SE”.

Abraham Weintraub: o mensageiro

Quem vê o ministro da Educação Abraham Weintraub em suas performances no youtube[xi] fazendo a comunicação pública do ministério enquanto dança com uma sombrinha, pode imaginar que trata-se de um palhaço que está aí para nos distrair. Em parte isto está certo, pois ele também nos distrai. Por outro lado, como Guedes, ele trabalha muito. Parceiro do superministro, faz tanto o trabalho limpo, abrir o que é da esfera do ministério à iniciativa privada, como o sujo, dançar publicamente com sombrinhas.

Como Guedes, Weintraub é economista e reconhecido player no mercado financeiro[xii]. Fez parte da equipe que construiu o programa de governo do candidato Jair Bolsonaro, aquele que era como uma apresentação de slides[xiii]. Eleito o Bolsonaro, Weintraub fez parte, também, do governo de transição, quando compôs a equipe de técnicos que apoiavam a tarefa. Assumido o governo por Bolsonaro em janeiro, Weintraub foi alocado na secretaria executiva da Casa Civil, chefiada por Onyx Lorenzoni. Pode-se dizer que era o braço direito do braço direito do presidente.

Em janeiro, foi nomeado para o ministério da Educação o insustentável Ricardo Vélez[xiv]. O que ele fazia lá talvez nem Ricardo soubesse. Contudo, não se deve subestimar a capacidade de trabalho de Guedes e seus mensageiros: Vélez pode ter sido aquilo que não nos fez ter um profundo estranhamento quando um economista e reconhecido especulador assumiu o ministério da Educação. No dia 8 de abril o especulador Weintraub foi nomeado e em pouco mais de vinte dias, no dia 30 de abril, ameaçou três das melhores Universidades Federais do país de terem seu custeio cortado por promoverem “balburdia”[xv]. No mesmo dia, diante da reação de contrariedade pública generalizada mobilizada pelo tom autoritário do ministro, ele disse efetivamente o que faria: reteria 30% do orçamento de custeio de todas as Universidades federais[xvi].

Entre 30 de abril e 17 de julho - menos de três meses, portanto -, quando anunciou o programa “FUTURE-SE”, Weintraub colecionou polêmicas performances no twiter, youtube e em eventos públicos, interagindo ora com sombrinhas, ora com bombons de chocolate, brincando com o orçamento público em operações matemáticas simples que não correspondiam ao resultado esperado[xvii]. Só acreditou que o ministro não sabia contar quem não sabia que ele era acostumado a usar o dinheiro de investidores para a especulação. Weintraub é capaz de fazer operações matemáticas complexas. Inclusive, de calcular o momento exato para o lançamento de um programa, o “FUTURE-SE”, que se dirige a instituições que só tem dinheiro para se custear até setembro de 2019. O momento exato é aquele que antecedia em dois dias a abertura de capital da Afya na bolsa Nasdaq[xviii].

Apesar do desespero, as Universidades federais ainda dizem não ao “FUTURE-SE”[xix]. Até quando?

A Nasdaq disse sim a Afya e ao “FUTURE-SE”.

Paulo Guedes, um homem de bem e de família

Além de trabalhador e bem relacionado, Paulo Guedes é também um “homem de bem”, categoria definidora do brasileiro honesto que preza pela ordem e pelo progresso e que usa, sempre quando pode, o verde e o amarelo. Um homem que tem o trabalho e a família como princípio ético.

Guedes tem uma irmã: chama-se Elizabeth Guedes e é presidente da Associação Nacional das Universidades Privadas (ANUP), que representa mais de 200 instituições brasileiras de ensino superior[xx] - entre elas o grupo Kroton, o maior grupo educacional privado brasileiro. Trabalhadora como o irmão, neste primeiro semestre de 2019 tem tido acesso ao primeiro escalão do governo federal sempre que precisa e, por isso, tem tido rotina intensa de reuniões. Sobre a sua agenda no executivo, em fevereiro de 2019, Elizabeth Guedes falou sobre o futuro do ensino superior na área da saúde à própria ANUP[xxi]. Este futuro é privado e é à distância. Como Virgílio Gibbon, da Afya, usou na sua entrevista um termo com o qual precisaremos nos acostumar nos debates sobre o futuro do ensino superior no Brasil: “A novidade disruptiva da educação vai vir da tecnologia”. Entre outras coisas, argumentou que o ensino superior privado sofre com o preconceito no Brasil e que os Conselhos profissionais e o Congresso nacional deliberam demais sobre e tentam regular em excesso a direção pedagógica do ensino superior brasileiro na área da Saúde. Alertou que no Brasil sempre se tende ao atraso e que recusar o ensino superior a distância é recusar o futuro.

Com tudo o que se disse até aqui, parece claro que há grupos organizados e articulados propondo um projeto concreto e consistente para o ensino superior brasileiro. Para que este projeto siga adiante, a Universidade pública não pode existir como é hoje: ela controla cerca de 25% do “mercado”, fechando-o à especulação; pior que isso, atua como um regulador do ensino superior privado, visto que este só é reconhecido como de baixa qualidade porque ainda temos a excelência das Universidades públicas para produzir comparação.

Os sonhos “disruptivos” dos especuladores e das entidades privadas de ensino superior nunca foram tão possíveis. Paulo Guedes está em um lugar estratégico e conta com muito prestígio nos meios hegemônicos para levar esses sonhos adiante. Precisamos estar atentos, pois sob a aparente confusão e falta de direção do governo atual, há quem trabalhe intensamente e há projetos. Agora Guedes acena com a queda das definições constitucionais para os gastos em educação[xxii].

Há quem pense que planos, projetos, táticas e estratégias são coisas do século passado... Pois é, não são. Eles os usam intensamente. Nós, que temos como princípio ético e político a solidariedade, precisamos de modo urgente contrapor os sonhos deles aos nossos. Precisamos de um projeto solidário para a Universidade pública brasileira.

Leandro Gonçalves - Farmacêutico, professor de saúde coletiva na UFRJ.

 

[i] Conrado Hubner Mendes, “17 crimes de responsabilidade: Bolsonaro tem fé na impunidade que catapultou sua trajetória”. Disponível em: https://epoca.globo.com/17-crimes-de-responsabilidade-23894352 (acessado em 25/08/2019)

[ii] Lucas Borges Teixeira, ‘"Somos 200 milhões de trouxas explorados", diz Paulo Guedes sobre o Brasil’. Disponível em: https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2019/07/04/ministro-paulo-guedes-dia-pop-star-sp.htm?cmpid=copiaecola (acessado em 25/08/2019)

[iii] “Programa Institutos e Universidades Empreendedoras e Inovadoras – FUTURE-SE”. Disponível em: https://isurvey.cgee.org.br/future-se/ (acessado em 25/08/2019)

[iv] Leonardo Cisneros, “Future-se: a universidade a serviço da especulação imobiliária”. Disponível em: http://www.justificando.com/2019/08/13/future-se-a-universidade-a-servico-da-especulacao-imobiliaria/ (acessado em 25/08/2019)

[v] Luiz Antônio Araujo, “Bolsonaro presidente: Investidor ultraliberal, polemista e investigado: as faces de Paulo Guedes, guru econômico de Jair Bolsonaro”. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45770911 (acessado em 25/08/2019)

[vi] Vinicius Pinheiro, “Gestora de fundos criada por Paulo Guedes tem retorno de seis vezes com investimento na Afya”. Disponível em: https://www.seudinheiro.com/fundo-paulo-guedes-afya/ (acessado em 25/08/2019)

[vii] Diego Lazzaris Borges, “Bozano: conheça a empresa de investimentos do economista de Bolsonaro“. Disponível em: https://www.infomoney.com.br/onde-investir/fundos-de-investimento/noticia/7709497/bozano-conheca-a-empresa-de-investimentos-do-economista-de-bolsonaro- (acessado em 25/08/2019)

[viii] Afya. Disponível em: https://www.afya.com.br/ (acessado em 25/08/2019)

[ix] Karla Mamona, “Brasileira Afya, idealizada por Paulo Guedes, dispara em estreia na Nasdaq:

Afya, grupo brasileiro de educação médica, levantou 300 milhões de dólares”. Disponível em: https://exame.abril.com.br/mercados/brasileira-afya-dispara-em-estreia-na-nasdaq/ (acessado em 25/08/2019)

[xi] Portal Youtube, “Weintraub grava vídeo com guarda-chuva contra fake News”. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=dLKnBijWSyU (acessado em 25/08/2019)

[xii] BBC Brasil, “Quem é Abraham Weintraub, o novo ministro da Educação do governo Bolsonaro”. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47859934 (acessado em 25/08/2019)

[xiii] Bernardo Mello Franco, “Bolsonaro e o PowerPoint eleitoral”. Disponível em: https://blogs.oglobo.globo.com/bernardo-mello-franco/post/bolsonaro-e-o-powerpoint-eleitoral.html (acessado em 25/08/2019)

 

 

[xiv] André Ítalo Rocha, Daniel Weterman, Mateus Fagundes e Pedro Venceslau, “Vélez diz que 'única coisa insustentável é a morte', sobre permanência no MEC”. Disponível em: https://www.terra.com.br/noticias/educacao/velez-diz-que-unica-coisa-insustentavel-e-a-morte-sobre-permanencia-no-mec,f1a2e6d8e867938d3c63c002821a74ca55gh5ap9.html (acessado em 25/08/2019)

[xv] O Globo, “MEC vai cortar verba de universidades que tiverem 'baixo desempenho' e fizerem 'balbúrdia'”. Disponível em: https://oglobo.globo.com/sociedade/mec-vai-cortar-verba-de-universidades-que-tiverem-baixo-desempenho-fizerem-balburdia-23631766 (acessado em 25/08/2019)

 

[xvi] Renata Mariz, “Ministro da Educação vai cortar 30% das verbas de todas as universidades federais”. Disponível em: https://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/ministro-da-educacao-vai-cortar-30-das-verbas-de-todas-as-universidades-federais-23634159 (acessado em 25/08/2019)

[xvii] Christian Ingo Lenz Dunker, “A Balbúrdia de Weintraub”. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2019/05/a-balburdia-de-weintraub.shtml (acessado em 25/08/2019)

[xviii] Geraldo Samor, “Tudo sobre o IPO da Afya, a plataforma de educação médica que já nasce unicórnio”. Disponível em https://braziljournal.com/afya-plataforma-de-educacao-medica-deve-estrear-valendo-us-15-bi-em-ipo (acessado em 25/08/2019)

[xix] Estadão Conteúdo, “Weintraub espera adesão de 1/4 das universidades federais no Future-se”. Disponível em: https://exame.abril.com.br/brasil/weintraub-espera-adesao-de-1-4-das-universidades-federais-no-future-se/ (acessado em 25/08/2019)

[xx] Gabriela Vinhal, “Empoderada no governo, irmã de Guedes tem livre acesso ao 1º escalão”. Disponível em: https://www.metropoles.com/brasil/politica-br/empoderada-no-governo-irma-de-guedes-tem-livre-acesso-ao-1o-escalao (acessado em 25/08/2019)

[xxi] ANUP, “Elizabeth Guedes, Vice-presidente da ANUP, fala sobre o futuro do EAD nas graduações em Saúde”. Disponível em: https://anup.org.br/noticias/elizabeth-guedes-vice-presidente-da-anup-fala-sobre-o-futuro-do-ead-nas-graduacoes-em-saude/# (acessado em 25/08/2019)

[xxii] Cesar Callegari, “O 'chiqueirinho' de Paulo Guedes”. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2019/08/o-chiqueirinho-de-paulo-guedes.shtml (acessado em 25/08/2019)


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