Semana On

Quinta-Feira 14.nov.2019

Ano VIII - Nº 371

Coluna

Cachorro louco

O jornalista Victor Barone resume a semana política, com humor e acidez

Postado em 11 de Setembro de 2019 - Victor Barone

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O vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro, se envolveu em mais uma polêmica em suas redes sociais. Dessa vez, afirmou que “por vias democráticas a transformação que o Brasil quer não acontecerá na velocidade que almejamos”.

Todas as autoridades acomodadas na linha de sucessão da Presidência da República admoestaram o rapaz por sua postagem antidemocrática. Presidente em exercício, o general Hamilton Mourão declarou que a democracia é "fundamental". O presidente do Senado Davi Alcolumbre expressou o seu "desprezo". Para o mandachuva da Câmara, Rodrigo Maia, a manifestação de Carluxo produz "insegurança".

E quanto a Jair Bolsonaro? Zzzzzzzzzz! Bolsonaro tampouco animou-se a comentar a tentativa de Carluxo de atribuir a péssima repercussão de sua teroria à má-fé da imprensa. Chamou os jornalistas de "canalhas".

Questionado sobre a reação do presidente, o general Otávio Rêgo Barros, porta-voz do Planalto, disse que, para Bolsonaro, postagens feitas nas redes sociais são de responsabilidade dos seus autores. Para desassossego geral, ficou entendido que o descontrole do filho Zero Dois acontece sob absoluto controle do pai-presidente.

Foi assim também quando Carluxo empurrou para fora da secretaria-geral da Presidência o então ministro Gustavio Bebianno. Deu-se a mesma coisa quando o personagem se juntou ao polemista de estimação da família, Olavo de Carvalho, para fustigar o vice-presidente Hamilton Mourão e expurgar da Secretaria de Governo o general Santos Cruz.

Bolsonaro não seria o Jair que todos conhecem se admoestasse o filho pelas palavras de timbre golpista dias depois de ter elogiado o ditador chileno Augusto Pinochet.

Com Josias de Souza

Depois de ver o irmão ser criticado, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) saiu em defesa do vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) no plenário da Câmara. Sob protesto de alguns deputados de oposição, o parlamentar disse que a fala de Carlos relativizando a democracia “não tem nada de mais”. “O que Carlos Bolsonaro falou não tem nada de mais. As coisas em uma democracia demoram porque exigem debate. Ele falou só isso. Não temos condições de mudar o Brasil na velocidade que gostaríamos. Por nós, teria outra velocidade, mas o tempo do Congresso não é o tempo da sociedade”, disse o deputado que almeja ocupar o cargo de embaixador do Brasil em Washington, nos EUA.

Vale lembrar que durante a campanha eleitoral do pai, uma declaração nada diplomática de Eduardo Bolsonaro que veio à tona também colocou em xeque o compromisso do 03 coma democracia. “Cara, se quiser fechar o STF, sabe o que você faz? Você não manda nem um jipe. Manda um soldado e um cabo. Não é querer desmerecer o soldado e o cabo, não”, disse.

“A confusão de enigmáticas formulações que o vereador Carlos Bolsonaro frequentemente publica em suas redes sociais, especialmente no Twitter, costuma ser motivo de troça. No entanto, poucas vezes o “02” foi tão claro como na segunda-feira passada. ‘Por vias democráticas’, escreveu, ‘a transformação que o Brasil quer não acontecerá na velocidade que almejamos’.”

Trecho de editorial do Estadão

O ex-ministro da Secretária-Geral da Presidência, general Santos Cruz, também mandou sua mensagem em defesa da democracia. Sem citar o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), Santos Cruz afirmou que “a democracia necessita de atenção permanente” e que “as bravatas, oportunismos, desequilíbrios e infantilidades precisam ser repudiadas pela sociedade”. A opinião foi publicada na conta do Twitter do ex-ministro.

Também por meio do Twitter, o PSDB divulgou uma nota repudiando a declaração do filho do presidente:

O presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, afirmou à Folha que “não há como aceitar uma família de ditadores” em referência ao comentário do filho do presidente, Carlos Bolsonaro, de que a transformação “que o Brasil quer” não ocorrerá por vias democráticas de forma rápida. Para Santa Cruz, que viveu recente embate com o presidente Jair Bolsonaro sobre a morte de seu pai, morto sob custódia do Estado, “é hora de os democratas darem um basta. Chega”.

Antes da polêmica postagem, Paulo Arantes, um dos mais importantes pensadores brasileiros, que formou décadas de filósofos na Universidade de São Paulo, conversou com o Jornalista Leoinardo Sakamoto sobre o governo Bolsonaro. Coincidentemente, entre os assuntos abordados com o professor aposentado do Departamento de Filosofia, a presença de um componente revolucionário no bolsonarismo e como o presidente está comendo instituições – Ministério Público, Receita Federal, Coaf, Polícia Federal – em nome de seu projeto de poder. "Pode chegar o momento, daqui a três anos, em que Bolsonaro vai dizer 'não admito nenhuma alternativa que não seja minha reeleição'. Como já disse 'não admito qualquer coisa que não seja minha vitória', na eleição do ano passado", analisa Arantes.

Eduardo Bolsonaro, o Zero Três, revelou-se um atirador-ostentação. Deixou-se fotografar armado ao lado do leito hospitalar em que o pai convalesce da quarta cirurgia pós-facada. Foi como se desejasse avisar aos navegantes que não está para brincadeira. O gatilho de Dudu surgiu horas depois de Jair Bolsonaro ter divulgado um vídeo para avisar que estaria de volta ao "batente" já nesta terça-feira. Na prática, dará alta para Hamilton Mourão, liberando-o informalmente da interinidade. O capitão também vê inimigos escondidos na alma dos amigos.

Em tempos normais, o comentário de um vereador jamais chamaria atenção para além dos limites da Câmara Municipal onde ele tivesse assento. Se fosse muito estridente e original, talvez ganhasse um registro de pé de página na gazeta local. Mas os tempos que correm são estranhos como repete o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal. E por estranhos, o comentário poderá ser respondido pelos principais líderes políticos do país, entre eles o vice-presidente da República.

Foi o que aconteceu, para satisfação do vereador Carlos Bolsonaro (PSL-RJ), sempre à procura de holofotes, que na véspera escrevera no Twitter que por vias democráticas jamais será possível apressar as mudanças de que o Brasil tanto precisa.

De fato, ninguém respondeu ao Zero Dois. Os que o fizeram valeram-se do filho para responder ao pai desde domingo calado e preso a um leito de hospital. Como os irmãos, Carlos é um boneco de ventríloquo que vocaliza o que o pai pensa ou manda que diga.

A ele e aos demais Zeros falta cultura para proporem ideias a ser aproveitadas pelo país. Também falta ao pai, um insignificante deputado federal do baixo clero por quase 30 anos que trocava de partido como um bebê troca de fraldas. Trocou oito vezes.

Bolsonaro em nada evoluiu durante todo esse tempo. Foi o país que andou para trás e então os dois se encontraram. Os garotos são um espelho do pai que os criou com mão de ferro à sua imagem e semelhança. Natural que quando falem, seja o pai que fala por eles.

O deputado que sempre defendeu a ditadura militar de 64 e que certa vez disse não confiar na força do voto para mudar coisa alguma, é o presidente que há pouco tempo ameaçou usar a borduna se for impedido de governar ao seu gosto.

Se não houver forte reação ao que prega de viva voz e ao que defendem os filhos quando ele finge estar mudo, sua tarefa ficará mais fácil. Não há, pois, reação exagerada aos desvarios de uma família que marcha unida “com Deus pela liberdade”.

Esse filme já passou. Não vale a pena assisti-lo outra vez. A produção é péssima, o roteiro uma porcaria e os atores medíocres.

Por Ricardo Noblat

Depois de atear fogo na conjuntura com um post de teor golpista, o vereador Carlos Bolsonaro retornou às redes sociais para informar que não disse o que escreveu. Num esforço para se reposicionar em cena, Carluxo traduziu seu raciocínio anterior do carluxês para o português. "O que falei: por vias democráticas as coisas não mudam rapidamente. É um fato. Uma justificativa aos que cobram mudanças urgentes". O filho Zero Dois de Jair Bolsonaro culpou a imprensa, como de hábito, por suas confusões mentais. "O que jornalistas espalham: Carlos Bolsonaro defende ditadura". Bem ao seu estilo, Carluxo encerrou a nova postagem com uma canelada verbal: "CANALHAS!"

Regimes democráticos são, de fato, custosos. Entretanto, segundo um velho ensinamento de Churchill, a democracia continua sendo o pior regime imaginável com exceção de todos os outros. Assim, se o capitão não entregar as transformações que prometeu, o eleitor terá a oportunidade de cometer erros novos na próxima eleição. Carluxo parece empenhado em excluir do leque de opções o combo presidencial que vem com a família junto.

Dedicado exclusivamente à função de digital influencer, após se licenciar por 120 dias do mandato de vereador no Rio, Carlos Bolsonaro (PSC) está tendo uma sequência de chiliques nas redes sociais após ser criticado pelas declarações em que defende uma "ditadura Bolsonaro"

Carlos Bolsonaro, o Carluxo, fala demais e cala demais. Quando a popularidade de Jair Bolsonaro entra em declínio, o filho 'Zero Dois' corre às redes sociais para anotar que, "por vias democráticas, a transformação que o Brasil quer não acontecerá na velocidade que almejamos." Se a imprensa repara no viés golpista do palanfrório, Carluxo, de bate-pronto, afirma que seus comentários foram deturpados por jornalistas "canalhas".

Entretanto, Carluxo cala quando se descobre que ele está sob investigação por suspeita de empregar fantasmas no gabinete e de rachar com as assombrações os contracheques bancados com o suor do contribuinte. Em vez de esclarecimento, o cavaleiro do Apocalipse do clã Bolsonaro despeja nas redes novas diatribes: "Imprensa lixo, não adianta me chamar para a briga, com desinformações que vocês sempre fomentaram…" etc. e tal.

Carluxo vai se revelando um personagem desconexo e perigoso. Não perde a oportunidade de perder oportunidades. Fala quando ninguém quer ouvir comentários que flertam com a ruptura institucional. Cala quando todos desejam escutar suas explicações a respeito de práticas que desrespeitam o suor alheio e a ordem constitucional.

"Protejam a democracia brasileira, arduamente erguida em caminhos de avanços e retrocessos, mas sempre sobre norte que a democracia é o maior modelo para construir uma sociedade de maior desenvolvimento humano", disse a Procuradora Geral da República, Raquel Dodge, em seu último pronunciamento no STF.  A procuradora lembrou que o STF não age de ofício, ou seja, por conta própria e "precisa ser acionado para que possa decidir".

Ao discursar, Toffoli destacou que o MPF deve se manter independente dos Três Poderes. "Sem um Ministério Público forte e independente, os valores democráticos e republicanos desenhados e propugnados da Constituição estariam ameaçados", disse. "A doutora Raquel Dodge chefiou o MP firme na defesa de todos esses valores. Sustentou, por exemplo, a inconstitucionalidade dos dispositivos que determinava que mulheres grávidas atuassem em atividades insalubres. Fez uma defesa contundente nas liberdades de expressão, de manifestação de pensamento, de reunião e do pluralismo de ideias", completou Toffoli.

AS TRAPALHADAS DE CRIVELLA

Toda vez que uma autoridade aponta o dedo para grupos sociais minoritários e afirma que seu comportamento é inapropriado e inadequado, mesmo quando se trata da simples representação de um beijo entre duas pessoas do mesmo sexo, a mensagem transmitida é que a camada da população que sempre sofreu preconceito pode perder os poucos direitos que conquistou com base em suor, sangue e lágrimas. Pois o poder público apoia esse retrocesso.

Para cada político afirmando que beijo gay é uma conduta questionável e, portanto, deve ser censurada, existem milhares de pessoas dispostas a "censurar" aqueles que são chamados de "abominações". Na rua, na escola, no trabalho, nos estádios de futebol. Com xingamentos, socos e pontapés, tacos de baseball, cacos de garrafas, ácido, canivetes e pistolas.

Comportamentos como o do prefeito Marcelo Crivella, que ordenou a censura de um gibi que contém o tal beijo entre dois rapazes, e do desembargador Claudio de Mello Tavares, presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, que afirmou ser inadequado uma publicação de super-heróis, para crianças e jovens, trazer um beijo gay sem estar lacrada e com aviso, empoderam indivíduos e grupos que não toleram a existência da população LGBTQ+ e estão à espreita.

Ambos tomaram decisões que mostram que o problema não é o beijo, mas ele não ser heterossexual. Ou seja, não é o ato em si, mas as pessoas envolvidas. Ignorando a Constituição, que aponta que todos são iguais perante a lei, querem provar que uma parte da população tem tratamento diferenciado por ser cidadã de segunda classe. Pior, ser humano de segunda classe. Crivella, que eu me lembre, não abriu uma cruzada contra Bolsonaro pela, hoje, icônica golden shower divulgada para milhões de seguidores no Carnaval.

Um beijo. Não foi uma cena de sexo grupal, envolvendo pandas, guaxinins e um eucalipto, enguias em preservativos, terminando num bukkake, tudo no pé da estátua do Cristo Redentor. Foi um mísero beijo.

Por Leonardo Sakamoto

O youtuber Felipe Neto, responsável por distribuir 14 mil exemplares de livros LGBT na Bienal do Rio, tem passado por perseguições nas redes sociais por parte da deputada federal Carla Zambelli (PSL). Zambelli publicou a foto de crianças, acompanhadas de seus pais, segurando os livros que o youtuber distribuiu na Bienal. A deputada quis usar a foto como argumento de que Felipe Neto distribuiu livros LGBT para crianças, classificando o conteúdo como “impróprio para a idade”. Como resposta, o youtuber disse que nenhuma criança pegou livro sem estar com os pais ou representantes legais.

A campanha a favor do amor entre iguais conquistou a mulher de Sergio Moro. Rosângela reproduziu a imagem do beijo gay entre personagens da HQ pivô da briga entre o prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB) e a Justiça. A legenda do post no Instagram dizia: “Só o amor constrói”, informa a revista Época. O ódio, no entanto, se fez presente nos comentários no limite de obrigá-la a apagar a postagem. Ela até que tentou argumentar: “Ninguém hackeou nada meu. Não acho certo julgar as pessoas por suas escolhas. Escolha é uma coisa, caráter é outro. Que cada um viva à sua maneira. Ponto.”. Em outro momento, insistiu: “Eu só peço respeito! Só isso. Conviver com diferenças e respeito a pessoa ao lado! Só isso!”.

Por Equipe BR Político

ESTELIONATO ELEITORAL

O presidente Jair Bolsonaro convive com o fantasma de estelionato eleitoral desde que a realidade do caso Queiroz começou a avançar contra seu filho, Flávio Bolsonaro (PSL-SP). O senador é investigado pelo Ministério Público do Rio em função de movimentações financeiras atípicas de seu ex-assessor. A assombração tem se materializado nas recentes interferências do presidente em órgãos como a Polícia Federal, Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e Procuradoria-Geral da República. O resultado colhido até o momento é o afastamento do governo dos movimentos e personalidades que apoiaram sua eleição e foram às ruas em defesa do combate à corrupção, como MBL e Vem Pra Rua, informa o Estadão.

“Se fosse qualquer pai em qualquer cidade do Brasil a gente poderia dizer que pai é pai. Acontece que este pai tem poder”, disse Adelaide Oliveira, porta-voz do Vem Pra Rua. O coordenador da força-tarefa da Lava Jato, o procurador Deltan Dallagnol, afirmou que “com certeza” a fase atual é a pior em ataques à operação. “Identifico um enfraquecimento no combate à corrupção vindo de vários pontos”, disse. No dia 25, o humorista Marcelo Madureira precisou sair escoltado de um ato na praia de Copacabana depois de criticar o presidente. Segundo o cantor Lobão, alvo de fortes ataques quando passou a criticar o presidente, Bolsonaro está a cada dia mais isolado junto ao núcleo duro do bolsonarismo e a tendência é que as pessoas que o apoiaram por rejeição ao PT pulem do barco sob o risco de ficarem estigmatizadas. Para o cientista político José Álvaro Moisés, da USP, o governo “está se afastando do que foi uma linha extremamente importante na campanha, o combate à corrupção”.

Equipe BR Político

BOLA NAS COSTAS

Numa palestra feita em dezembro do ano passado, Sergio Moro disse que topou integrar o governo de Jair Bolsonaro porque estava "cansado de levar bolas nas costas". De duas, uma: ou o ex-juiz da Lava Jato está arrumando as gavetas ou o personagem que está sentado na cadeira de ministro da Justiça é um sósia de Sergio Moro, pois o lançamento de bolas nas costas tornou-se uma espécie de esporte preferido de Bolsonaro. A indicação de Augusto Aras para o posto de procurador-geral da República é parte dessa rotina.

Dizia-se que Bolsonaro não ousaria escolher o sucessor de Raquel Dodge sem consultar Moro. Escolheu. Afirmava-se que jamais indicaria um nome que não tivesse a simpatia da força-tarefa da Lava Jato. Os procuradores de Curitiba enxergam em Aras a figura de um adversário doméstico. A julgar pela reação de parlamentares da banda encrencada do Congresso, o apoio do novo procurador à maior operação anticorrupção já realizada no país é apenas retórico. (assista ao comentário abaixo)

TÁ RUIM, VAI PIORAR?

A coluna Esplanada, de Leandro Mazzini, deu uma notinha bem plausível que a gente torce para que seja ‘barriga’, como se diz no jargão jornalístico. Segundo o colunista, que cobre os bastidores do poder em Brasília, surgiu no Palácio do Planalto a ideia de nomear Osmar Terra para o Ministério da Saúde. No lugar do titular da Cidadania, entraria a também ministra Damares Alves. Mandetta, que com todos os defeitos é um dos ministros mais razoáveis do governo Bolsonaro, seria defenestrado.

DE VOLTA À CARGA

A intenção não é nova – foi anunciada, inclusive no discurso de posse de Paulo Guedes, mas foi reafirmada pelo ministro da Economia em entrevista dada ao Valor Econômico. “Vamos desindexar, desvincular e desobrigar todas as despesas de todos os entes federativos”. Ele continua: “A classe política brasileira está condenada a mexer em 4% do orçamento porque 96% está destinado ao gasto obrigatório. Isso é a negação da política. Temos R$ 1,5 trilhão de orçamento e os parlamentares brigam por 4% desse valor, ficam atrás de uma emenda impositiva de R$ 5 milhões. São R$ 3,5 trilhões de recursos para alocar nos três níveis de governo. Esse dinheiro fica empoçado em fundos públicos, é capturado por piratas privados junto com interesses corporativos e, às vezes, burocratas corruptos. Cerca de 80% desses recursos vão para o pagamento da própria máquina, em salários e aposentadorias.”

Saúde e educação têm pisos mínimos de investimento que foram definidos depois de muita luta e, obviamente, seriam afetadas pela desvinculação. Mas Guedes está mais preocupado com a ‘liberdade’ dos agentes políticos do que com patamares básicos de qualidade nesses serviços públicos que são direitos constitucionais. “Cada prefeito e cada governador tem que ter a decisão de onde gastar mais. Um vai querer investir mais na saúde, outro mais na educação. Essa decisão não pode ser de um burocrata de Brasília ou de um político que já morreu. Somos escravos do dinheiro carimbado. Vamos descarimbar.”

PELA PESQUISA

A Abrasco publicou nota contra o corte de 50% do orçamento da Capes – agravados pelos cortes no próprio MEC e no CNPq. “O SNPG [Sistema Nacional de Pós-Graduação] pressupõe a entrada continua de novos pesquisadores na medida em que os recém-formados saem para o mercado de trabalho. Essa rotatividade é inerente ao sistema, a renovação de bolsistas não implicando em expansão, senão em mera manutenção do sistema”, diz o texto.

MUITO VULNERÁVEIS

Em 2018, foram registrados 145 mil casos de violência de homens contra mulheres que sobreviveram – o que dá uma agressão a cada quatro minutos, em média. Desse total, 64,8 mil se enquadram como violência física; 34,4 mil são violência psicológica; 22,4 mil, sexual; e há 3.658 casos de tortura. E 70% das ocorrências aconteceu na casa das vítimas, sendo o cônjuge o agressor em 36% dos casos e o ex-companheiro em 14%. Os dados, inéditos, são do Sistema de Informação de Agravos de Notificação do Ministério da Saúde e foram obtidos pela Folha com base na lei de acesso à informação. 

Outro levantamento, feito pela ONG Instituto Liberta, a partir da revisão de vários estudos e dados governamentais, projeta o Brasil como o segundo país com maior número de crianças e adolescentes exploradas sexualmente, depois da Tailândia. Calcula-se que haja, anualmente, 500 mil vítimas por aqui. Dos 20 mil casos denunciados formalmente no país entre 2014 e 2019, a esmagadora maioria – 75,6% – vitima meninas. Viviana Santiago, da ONG Plan International, explica a OGlobo que não se pode caracterizar essa população como “profissionais do sexo, porque uma adolescente e uma criança não têm capacidade de tomar essa decisão”. Sendo os elos mais fracos da corrente, sofrem espancamentos, estupros, são submetidos a dívidas forçadas (o que caracteriza, inclusive, trabalho análogo ao de escravo), são iniciados no consumo de álcool e drogas e são alvo fácil para doenças, pois não conseguem negociar o uso de preservativos. 

FLORESTA ARRASADA

Já temos uma ideia do tamanho do estrago: segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o desmatamento na Amazônia aumentou 222% em agosto deste ano, em comparação com o mesmo período de 2018. No acumulado do mês, foram destruídos 1,701 km2 de floresta.

ONDE NÃO APARECE

Em entrevista à BBC, o especialista em saúde ambiental Paulo Sadiva (USP) começa falando da fuligem amazônica em São Paulo e acaba enveredando por outros problemas da poluição, que mata cinco milhões de pessoas no mundo a cada ano. Acontece que, de acordo com Sadiva, quem mais adoece não tem visibilidade e não suscita políticas públicas. Ele dá, como exemplo, um caso anterior ao do recente dia-noite na capital paulista: antigamente, o cultivo de cana de açúcar envolvia queimadas frequentes e a fumaça dessa queima também escurecia o céu de SP. Como no episódio da Amazônia, era uma fumaça causada por queima de biomassa. Como afetava um estado de grande visibilidade, isso acabou gerando pesquisas, pressões, e a indústria da cana foi obrigada a se modernizar e usar outras técnicas. Mas nem sempre é assim.

“A gente também estudou biomassa em casas que usam fogão (à lenha) para esquentar ou cozinhar. Você olha a parede e ela está preta; e quanto mais pobre, mais usa – inclusive, agora está crescendo como consequência do aumento do preço do gás, até mesmo em zonas urbanas. No mundo, são 3,5 milhões de pessoas que morrem anualmente por poluição intradomiciliar por causa disso, mas essas casas não têm voz. Já no caso da cana de açúcar no estado de São Paulo teve mais visibilidade e suscitou políticas porque caiu na primeira classe do Titanic (…). Há publicações mostrando que onde há poluição não tem artigos (científicos); e onde tem artigos, não tem poluição”, diz ele, que fala também sobre como a população mais pobre é mais afetada pela poluição atmosférica que vem do trânsito, por exemplo, e não tem meios de escapar dela.

Além das diferenças na contaminação de pessoas dentro do mesmo país, tem ainda o fluxo global da poluição: “Tem uma coisa chamada “racismo ambiental“. Certos processos mais sujos, por exemplo reciclar a bateria do seu celular, você acha que isso vai ser feito onde? Ásia e África”, explica ele. 

IMAGEM INTERNACIONAL

Um vídeo dos bastidores da última reunião do G7 divulgado por uma emissora francesa mostra o presidente da França, Emmanuel Macron, criticando o presidente Jair Bolsonaro em uma conversa com o presidente do Chile, Sebastián Piñera, depois de o brasileiro fazer no Facebook um comentário ofensivos à primeira-dama francesa, Brigitte Macron. O vídeo é parte de um programa de mais de 25 minutos que foi ao ar no domingo no canal CNews, mostrando os bastidores da reunião de cúpula que aconteceu no final de agosto, em Biarritz. A cena da conversa de Macron com Piñera aparece por volta dos 16 minutos e 4 segundos do vídeo. A conversa ocorre no segundo dia da cúpula do G7, logo depois de uma entrevista coletiva de Macron e Piñera, na qual o presidente francês criticou o comentário de Bolsonaro sobre sua mulher, dizendo que ele foi "triste" para os brasileiros, uma "vergonha" para as mulheres brasileiras e "extremamente desrespeitoso" .

Tiphaine Auzière, filha da primeira-dama da França, Brigitte Macron, reagiu às ofensas do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, e do ministro da Economia, Paulo Guedes, contra sua mãe. Em um vídeo, Auzière apareceu com uma folha impressa que mostra uma reportagem do jornal Le Monde sobre a fala de Guedes, que disse na última quinta-feira que a primeira-dama francesa é "feia mesmo". "Estamos em 2019 e dirigentes políticos ainda têm  como alvo o físico de uma mulher que é uma personalidade pública. Isso ainda existe? Sim", afirmou no vídeo Auzière, uma advogada de 35 anos que é filha do primeiro casamento de Brigitte. Sem citar diretamente Bolsonaro, Guedes e sua mãe, ela disse que essa é uma oportunidade para que as pessoas se mobilizem contra a misoginia. "Vamos juntos, a partir de amanhã, reagir, nos engajar dentro de nossas famílias, no nosso trabalho e nas urnas para denunciar os misóginos.”

O jornalista Guga Chacra fez um desabafo que está preso na goela de milhões de brasileiros. Vale ouvir.

Depois de o ministro da Educação, Abraham Weintraub, ter um ataque histérico ao ser criticado por movimentos indigenistas, foi a vez do ministro da Educação, Paulo Guedes, ter um piti ao ser criticado na orla do Leblon, no Rio de Janeiro, pelas declarações sobre a primeira-dama francesa, Brigitte Macron. “Que feio, hein, ministro, que vergonha!”, gritou um grupo de pessoas, referindo-se a declaração de Guedes que chamou Brigitte de “feia mesmo”. “Foi muito feio. Na verdade, coisa de brasileiro”, teria respondido Guedes, querendo colocar a posição da população brasileira, que maioritariamente repudiou a declaração, na mesma caixinha que a dele. Diante da insistência das pessoas nas críticas, Guedes surtou e saiu ralhando pela orla. “Na terceira abordagem como essa, eu largo tudo e vou embora. Aí vocês vão ver o que é bom, como é que fica”.

BRASIL BEM NA FOTO

O ministro da Defesa do Uruguai, José Bayardi, afirmou na sexta passada, 6, ao programa Quien es Quien da emissora de tv estatal que o Brasil deveria ser retirado do Mercosul “pelo que significou a última eleição e o afastamento de Dilma Rousseff”. A reação do Brasil veio rápida em forma de curto artigo publicado no jornal El Observador pelo embaixador do País no Uruguai, Antonio Ferreira, dizendo que a declaração era recebida “com absoluta perplexidade” por serem “levianas e fora de contexto”. “Os comentários do ministro Bayardi sobre a sociedade brasileira estão carregados de fortes preconceitos e demonstram total desconhecimento da realidade em que vivem 210 milhões de brasileiros, uma sociedade com grande vigor democrático”, escreveu Ferreira na publicação local.

Equipe BR Político

DEPUTADO FANTASTICO

Ao menos 25 pessoas afirmam ser vítimas de um golpe milionário aplicado pelo deputado federal Luis Miranda (DEM-DF). Em reportagem exibida na noite de domingo, 8, pelo Fantástico, eles dizem que o parlamentar não cumpriu promessas de investimentos feitas na época em que ainda morava nos Estados Unidos, até o ano passado.

O deputado vendeu mais de 8 mil cursos, chamado Os Segredos da América. Neles, Miranda prestava consultorias sobre como entrar nos Estados Unidos de maneira legal e chegar a morar lá, adquirindo um green card. O negócio tinha como objetivo como mostrar a possibilidade de crescer e prosperar nos EUA. Miranda também chegou a ter uma outra área de atuação, trabalhou na compra e venda de veículos de leilão, com promessa de lucro líquido de 6% ao mês, que seria dividido entre ele e o cliente.

Recentemente, o deputado esteve no noticiário depois que a Polícia Civil do DF apontou um grupo de quatro pessoas como sendo integrantes de organização criminosa suspeita de extorquir o deputado. Na ocasião, um homem foi preso.

Ao Fantástico, o parlamentar sustenta que tudo está sendo pago em seu devido tempo, segundo ele, não há calote. Miranda também afirma que, se houveram irregularidades, elas são de responsabilidade das vítimas. “Era ele (denunciante) que assinava, ele que preparava. Eu não sou especialista em números. Ele era a pessoa que se responsabilizava por isso. Ele vai responder por isso e vai responder de verdade”, justificou.

Nas redes sociais, Luis Miranda agora ostenta as incursões que tem feito no Palácio do Planalto e nos meios bolsonaristas, colecionando fotos ao lado de figuras como Helio Negão (PSL-RJ), Alexandre Frota (PSDB-SP), o vice-presidente, Hamilton Mourão, e ministros de Bolsonaro – além do próprio presidente e de Onyx Lorenzoni.

FROTA DÁ EM CARLOS

O deputado federal Alexandre Frota (PSDB-SP) compartilhou uma publicação nas redes sociais em que o vereador Carlos Bolsonaro cita Winston Churchill e Ronald Reagan como exemplos de “presidentes militares”. Na mesma publicação, Carlos tomou uma invertida de uma internauta, que o corrigiu dizendo que Churchill nunca foi presidente, mas sim primeiro-ministro do Reino Unido. Frota então ironizou o filho do presidente, dizendo que Carlos “colava na escola”.

“Gente o Analfabeto sou eu mas quem colava na escola era esse carequinha do Carlos . PQP podia dormir sem essa. Bom Domingo”, escreveu o tucano. Carlos errou em sua colocação sobre os exemplos de “presidentes militares”, conforme apontou a internauta, pois Winston Churchill foi primeiro-ministro do Reino Unido, já que a nação vive uma monarquia parlamentar. Com relação ao ex-presidente americano Ronald Reagen, há a menção de uma breve passagem pelo serviço militar, de 1937 a 1945. Reagen foi capitão na Força Aérea dos Estados Unidos.

UM POUCO DE CULTURA

Em vídeo o chefe do Executivo aparece na cama do Hospital Vila Nova Star, em São Paulo, enquanto assiste a um episódio de Chaves. Ontem, ele se submeteu a uma cirurgia para correção de uma hérnia incisional. “Pessoal, só segunda-feira que eu tô de folga, hein. Amanhã volto ao batente. Por enquanto, meu programa favorito aqui. O ‘Chaves. Tamo juntos, um abraço todo mundo aí”, disse o presidente.

A PINDAÍBA DA CIÊNCIA

A ciência brasileira está desmoronando. E, se depender do orçamento proposto pelo governo para o setor no próximo ano, a situação ainda vai piorar, já que o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) vai perder 87% da verba de fomento à pesquisa em 2020. Neste ano, a verba reservada para a agência foi de R$ 127,4 milhões. A cifra despencou para R$ 16,5 milhões, segundo dados informados pelo CNPq, no projeto enviado pelo presidente Jair Bolsonaro ao Congresso.

Esse recurso é usado para custear insumos, reagentes, equipamentos, laboratórios, entre outros materiais de trabalho, segundo o Globo. Já o dinheiro que é direcionado ao pagamento de bolsas de pesquisa, que em 2019 tem sido afetado por falta de orçamento, no próximo ano deve aumentar em 27,4%. A previsão é de R$ 1 bilhão, ante R$ 784,7 milhões definidos neste ano.

Sobre reconhecer a importância da pesquisa e dos pesquisadores para o desenvolvimento do País, a Folha desta segunda-feira, 9, traz uma entrevista com o físico russo Konstantin Novoselov, criador do grafeno, material do qual o presidente Bolsonaro é entusiasta, que afirma que parte do trabalho dos cientistas educar o público sobre a importância da ciência e da tecnologia. “Os cientistas precisam explicar às pessoas que muitas vezes a ciência não traz benefícios no curto prazo, mas no longo prazo ela é vital”, afirmou.

MUNDO DA LUA

Olavo de Carvalho virou alvo de piadas nas redes sociais por causa de um vídeo. Nas imagens, o escritor afirma que o compositor das músicas dos Beatles foi o sociólogo e filósofo alemão Theodor Adorno, que morreu nove anos após a criação da banda inglesa. A cena em questão viralizou e foi tema de memes na internet. Não se sabe a data exata de quando foi publicado o vídeo, mas desde o último sábado o assunto viralizou entre os internautas. Nas imagens que têm aproximadamente dois minutos, Olavo de Carvalho relata que leu um artigo em holandês sobre o Quarteto de Liverpool, mas "que ainda iria investigar" apesar do assunto parecer "verdadeiro pelo contexto".

SEM PUDOR

Desde que a Agência Internacional para Pesquisa sobre o Câncer (IARC, na sigla em inglês) classificou o glifosato como “provável carcinógeno” em 2015, congressistas dos Estados Unidos têm pressionado para drenar o financiamento do organismo ligado à ONU. E, no Intercept, Lee Fang examina (e cita) documentos que indicam como esse ataque político foi, em parte, “roteirizado pela Monsanto”, recentemente comprada pela Bayer: “Arquivos recém-divulgados pelo escritório de advocacia Baum Hedlund incluem e-mails, documentos e transcrições de depoimentos da empresa, mostrando que os advogados e lobistas da Monsanto orientaram os legisladores, coordenando esforços para questionar a credibilidade da IARC e reduzir o apoio dos EUA ao organismo internacional”. 

A estratégia incluiu antagonizar os reguladores. A Monsanto enviou lobistas para influenciar “funcionários-chave” da EPA (Agência de Proteção Ambiental dos EUA), e do Departamento de Agricultura, por exemplo, para criar dúvidas sobre o processo científico da IARC. Um funcionário do Departamento de Saúde também foi visitado. 

E tem mais: os documentos sugerem que houve “ameaças investigativas para moldar a ciência usada para pesquisar o glifosato e outros compostos químicos controversos, como parte de uma campanha maior para silenciar os críticos e desacreditar a IARC”. Algumas dessas estratégias vieram à tona no ano passado, quando a Monsanto foi criticada por escrever estudos científicos de forma apócrifa sobre a segurança do glifosato, que foram apresentados como pesquisas independentes. Um consultor da empresa chegou a ser  pego fingindo ser um jornalista que trabalhava para a BBC.

O agrotóxico Roundup, à base de glifosato, é hoje o principal herbicida do mundo e a “galinha dos ovos de ouro” da Monsanto. Além de vender o produto, a empresa também fabrica as sementes transgênicas para plantações resistentes a ele. 

REINALDÃO

O jornalista Reinaldo Azevedo foi ovacionado no ato em defesa da liberdade de imprensa, no Salão Nobre da Faculdade de Direito da USP, no largo São Francisco, região central de São Paulo. Lotado, o auditório veio abaixo quando o nome dele foi anunciado: “não há provas contra Lula”, exclamou. Assista ao discurso dele abaixo.

HUCK E BOLSONARO

Durante o Exame Fórum, evento da revista Exame, o apresentador da Globo, Luciano Huck, fez longo pronunciamento sobre a desigualdade que já acompanhou pelo país através de ações de seu programa, Caldeirão do Huck, e chamou a atenção inúmeras vezes sobre a necessidade da elite brasileira de deixar de ser passiva e contribuir com mudanças sociais, se não o país vai “implodir”. No entanto, em determinado momento, Huck se contradiz e diz que a agenda econômica neoliberal de Jair Bolsonaro (PSL) é correta e que “as pessoas querem que avance”.

POLÍCIA FEDERAL EM CRISE

Ao declarar que o comando da Polícia Federal precisa de uma "arejada", Jair Bolsonaro traçou o que seria o perfil do provável substituto do diretor-geral Maurício Valeixo: "Tem que ser Moro Futebol Clube". Em verdade, o preferido do capitão para a chefia da PF, delegado Anderson Gustavo Torres, joga no time do próprio Bolsonaro. Relaciona-se bem com o presidente. É amigo de dois de seus filhos, Eduardo e Flávio. E frequenta o gabinete do ministro mais prestigiado do Planalto, o secretário-geral da Presidência Jorge Oliveira, um major da reserva da PM brasiliense, que também priva da amizade dos Bolsonaro.

Ao abrir investigação para apurar a conduta da Polícia Federal que investigava irregularmente Hélio Negão, o deputado amigo de Jair Bolsonaro, Sergio Moro reagiu a cobranças da Polícia Federal para que defendesse Maurício Valeixo e o superintendente Ricardo Saadi. Como o Radar revelou na semana passada, a investida contra Negão foi o que detonou a guerra de Bolsonaro contra os delegados. Uma ala da PF mirou em Negão justamente para queimar Saadi no Planalto, mas atingiu Valeixo (leia mais em O real motivo da guerra de Bolsonaro contra a PF). O movimento, no entanto, talvez seja tardio. Como o Radar mostrou, Anderson Torres, cotado para o lugar de Valeixo na Polícia Federal, foi festejado na semana passada como novo “DG” (leia mais em Cenas de um possível novo diretor da Polícia Federal).

RECORDE DE VIOLÊNCIA SEXUAL

Batemos mais um recorde ruim. Em 2018, foram registrados 66.041 casos de estupro no país – o que dá uma média de 180 por dia. O número representa um crescimento de 4,1% em relação a 2017 e é o maior já registrado pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública, que começou a ser feito em 2007. As vítimas são, em geral, mulheres (81,8%). Infelizmente, essa não é a única má notícia do estudo divulgado ontem. 

“A cada quatro horas uma menina com menos de 13 anos é estuprada no Brasil.” O título da reportagem do El País sintetiza bem o principal (e triste) achado do Anuário: 53,8% das vítimas de violência sexual foram crianças do sexo feminino nessa faixa etária. Mais especificamente: o número de casos cresce a partir dos sete anos e atinge pico aos 13.  Os meninos também são alvo de ataques e, geralmente, os sofrem ainda mais jovens. Entre eles, as ocorrências aumentam drasticamente a partir dos três anos, com ponto máximo aos sete. 

De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança, responsável pela produção do Anuário, 76% dos autores desse crime são conhecidos da vítima que, geralmente, é violentada dentro de casa por pais, padrastos, avôs, tios, primos, vizinhos…  

EM VEZ DE PROTEÇÃO, VIOLÊNCIA

E há outros números bem emblemáticos no levantamento: caíram as mortes violentas intencionais, os crimes contra o patrimônio e os homicídios contra policiais… Mas as mortes causadas por policiais dispararam, cresceram os feminicídios e aumentou o registro de novas armas legais. 

Nas mortes violentas intencionais, a queda foi de 10,8% (após o recorde do ano anterior), e o número de casos foi 57.341 – o menor desde 2014. Mas os assassinatos decorrentes de operações policiais nunca foram tantos. No ano passado, foram 6.220 mortos, uma alta de 19,6% em relação a 2017. Isso não para de crescer desde 2013 e, desde então, o aumento foi de nada menos que 183%. Enquanto isso, a quantidade de policiais assassinados caiu de 373 registros para 343, chegando ao menor número desde 2013. Não há uma explicação única para a queda nas mortes violentas e roubos, e se acredita que pode haver vários fatores. Na matéria da Ponte, pesquisadores apontam desde a dinâmica do conflito nacional entre PCC e CV até a macroeconomia e os investimentos em segurança pública. 

Numa coisa a maior partedos especialistas concorda: a queda de homicídios não é provocada pela alta nas mortes cometidas pela polícia. “Caso contrário, São Paulo não teria visto uma redução de 11% na taxa de homicídio, já que os policiais também mataram 10% menos. Ou então, em Roraima, estado mais violento do país no ano passado, não teria havido um crescimento de 65% na taxa de homicídio, uma vez que a taxa de mortes policiais subiu 183%”, exemplifica a reportagem da Piauí, que relaciona a letalidade policial com os estupros.

E chega à desconfortante conclusão de que a violência vem de quem deveria proteger:  “Acreditávamos no mito de que o Brasil era cordial e estava avançando em direitos humanos. Mas muitas pessoas não queriam esse caminho (…). Há um discurso punitivo que acaba invertendo os papéis em muitos momentos: ‘Eu deveria estar protegendo, mas tenho domínio sobre o corpo do outro.’ Seja a polícia decidindo sobre o corpo do jovem. Seja o familiar ou conhecido decidindo sobre o corpo da menina dentro de casa”, resume Cristiane Lima, coronel da reserva da PM do Pará.  

FUJÃO

A ausência do procurador Deltan Dallagnol na audiência pública promovida pelo Câmara dos Deputados na terça-feira (10) para tratar sobre a conduta dos agentes públicos envolvidos Vaza Jato foi criticada nas redes sociais. Esta foi a segunda vez que o coordenador da Operação Lava Jato “fugiu” dos deputados. O jornalista Leandro Demori, editor do The Intercept Brasil, foi um dos convidados da sessão e criticou a falta de Deltan. O procurador disse que não debateria questões políticas e, por isso, não foi à audiência.

Deputados criticaram duramente a “desculpa”. “Segundo a justificativa de ausência, Deltan não compareceu à audiência pública porque não debate questões políticas. Bom, a verdade é que a lava jato era um jogo de cartas marcadas e ele não teve coragem de assumir isso longe do telegram”, declarou Frei Anastácio (PT-SP). Internautas lembraram também das ausências dos deputados do PSL e das palestras dadas por Dallagnol, em que o procurador cobrava altos valores para participar. Com as críticas, as tags #DelataDeltan e #DeltanFujão ficaram em alta no Twitter.

HARVARD

 “Quanto mais a gente ensina mais aprende o que ensinou!”, escreveu o ex-deputado federal Jean Wyllys em seu Instagram, citando um poema de Jorge Portugal. O texto foi postado como legenda para uma foto mostrando seu crachá da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, uma das mais prestigiosas do mundo. O ex-deputado fará uma residência na instituição durante um semestre, e também dará algumas aulas na faculdade, de acordo com o jornal Extra.

A residência acontecerá no Instituto de Pesquisa Afro-Latino-Americanos da universidade. Wyllys continuará a desenvolver uma pesquisa que já havia iniciado para a fundação Open Society, a respeito de fake news e discursos de ódio contra minorias sexuais e étnicas. Durante o período em que foi deputado federal, de 2011 a 2019, Wyllys ficou conhecido por ter uma atuação voltada à defesa dos direitos humanos, e em especial à defesa da comunidade LGBT.

GLENN DÁ O TROCO

“Um dos principais temas do VazaJato é que os promotores do Ministério Público abusam de seu poder de destruir a reputação de seus inimigos usando vazamentos ilegais e falsas acusações. Eles apenas forneceram um exemplo perfeito ao vender contra nós nosso jornalismo”, diz o jornalista Glenn Greenwald após acusações contra seu marido, o deputado David Miranda (Psol).

PATAVINAS

Enquanto as cidades brasileiras batem recorde de calor em pleno inverno, em palestra na Heritage Foundation, em Washington, o ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, criticou o que chamou de “climatismo” e afirmou que há um “alarmismo climático”. Tudo isso, seguindo a cartilha que é comum a membros do governo: sem citar dados ou estudos para justificar as referências que, ao atacar a ideologia, são bastante ideológicos.

Durante cerca de uma hora, Araújo disse que “o ponto do climatismo é acabar com o debate democrático” e que “nem comer carne é permitido mais”. Com citação crítica a Antonio Gramsci, Bertolt Brecht e Rosa Luxemburgo, o ministro falou sobre stalinismo, socialismo, religião, histórica e a importância de “símbolos”.

“Depois de todas as experiências ruins no mundo sobre socialismo, como alguém pode sonhar em impor controle socialista da economia em um país como os EUA? Nunca através do debate democrático, é claro, somente através de uma declaração de emergência. Então ‘crise climática’. Como alguém em tempos de paz pode sonhar em quebrar a soberania de um país como o Brasil dizendo que a Amazônia está em chamas? De novo por causa de ideologia, dessa reclamação de crise climática, ‘vamos salvar o planeta’”, disse Araújo. “O clima se tornou o silenciador do debate”, afirmou.

O discurso chamou atenção de um colunista de política internacional do Washington Post. Em uma sequência de publicações no Twitter, Ishaan Tharoor se mostrou negativamente impressionado com Araújo. “Este é um discurso fascinantemente ideológico para um ministro das Relações Exteriores no exterior (e um tanto incoerente)”, escreveu.

Por Equipe BR Político

BEBIANNO DÁ EM CARLOS E EM EDUARDO

Em entrevista à repórter Mariana Sanches, da BBC News Brasil, ex-ministro do governo Bolsonaro, Gustavo Bebianno, faz avaliações duras sobre a atual gestão e a família presidencial. Bebbiano foi coordenador de pré-campanha e campanha de Bolsonaro ao longo de mais de dois anos. Para ele, a indicação de Eduardo para a embaixada nos EUA é "cara de pau" do presidente. "Coitado, não tem a menor condição. Sequer sabe o papel de embaixador. Não tem noções básicas de negociação, é um garoto, um menino, um surfista que teve mandato por causa do pai”. Quanto a Carlos, pivô de sua demissão, ele afirma que o segundo filho de Bolsonaro tem "certa dificuldade cognitiva". "Tem ideias totalmente equivocadas, ele não tem raciocínio com início, meio e fim. É complicado isso porque o pai passou a ouvi-lo de uma maneira demasiada", diz. Quanto a Flávio e as acusações de corrupção em contratações no gabinete da Assembleia Legislativa do Rio, Bebbiano dispara: “nada mais é do que a velha política”. Na avaliação do ex-ministro, o governo hoje é composto por "puxa-sacos, que não fizeram nada ou fizeram muito pouco ao longo da campanha": "O rei não tem quem lhe avise que ele está quase nu".

LULA NO LE MONDE

 “O presidente Jair Bolsonaro não faz nada. Ele destrói”, afirma o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso desde abril de 2018, em uma entrevista publicada na quinta-feira (12) no jornal francês “Le Monde”. “É um governo de destruição, sem nenhuma visão de futuro, sem programa, que não é qualificado para o poder”, denuncia Lula, condenado a oito anos e dez meses de prisão por corrupção. Lula cita, especialmente, a educação, os direitos dos trabalhadores, a indústria e as privatizações, assim como a ausência de uma política ambiental no governo de Jair Bolsonaro.

Em relação à Amazônia, devastada pela violência dos incêndios e pelo avanço do desmatamento, o petista afirma que “o povo deve reagir”. “É preciso que os brasileiros se mobilizem”, insiste.

Em relação a seu próprio destino, Lula, que foi entrevistado na sede da Polícia Federal em Curitiba, diz que “não pede nenhum favor, nenhuma redução de pena”. “Apenas justiça! Minha casa não é uma prisão. E as tornozeleiras eletrônicas são boas para os pombos-correio”, brinca. “Tudo que eu quero é que reconheçam minha inocência”, completou o ex-presidente.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu, na quinta-feira (12), a visita do Prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel, e do sociólogo espanhol Ignacio Ramonet. O argentino Pérez Esquivel chamou a atenção para o fato de que, dentro de aproximadamente um mês, vai ser designado o premiado com o Nobel em 2019. “Não sabemos o que pode ocorrer, mas seria muito importante que fosse outorgado a Lula. Seria o primeiro prêmio Nobel do Brasil”, disse.

TUDO O QUE ELES QUEREM

Esta é para ler com calma. O professor de Saúde Coletiva da UFRGS Alcides Miranda deu uma longa entrevista ao IHU-Online em que fala sobre o mercado de planos privados da saúde, explicando como surgiu, cresceu e se consolidou a saúde suplementar no Brasil e como, para ela, a grande intenção é que o SUS seja complementar ao setor privado – e não o contrário, como reza a Constituição. Nesse sentido, um “mercado especializado em doenças” configura a grande ameaça na medida em que até se interessa pela continuidade do SUS, mas para o sistema público arcar com despesas de alto custo que gerariam eventuais prejuízos financeiros. Em outras palavras: pagando pelo que o setor privado não quer pagar, como tratamentos e remédios caros.

O professor ainda critica duramente a regulação estatal das operadoras, que considera “quase uma piada de mau gosto”. Isso por conta de uma opção política, feita ainda nos anos FHC, de que a regulação aconteça “sem controle público, sob governança intercorporativa e sob a tutela dos oligopólios concorrentes ou parasitários das políticas públicas”. Ele cita textualmente os “fatos inequívocos de escolhas burlescas de altos dirigentes para a ANS. Dirigentes com biografias e ‘folhas corridas’ de serviços prestados para operadoras de planos de saúde, intermediários da tutela deste oligopólio sobre tal instância de regulação agenciada”.

De modo que a pressão dos planos para garantir autorregulação “chega a ser irônico”: “lembra um dito popular: ‘Se ficar melhor, estraga…’. Para este oligopólio, a atual tutela sobre ANS tem a vantagem de disfarçar os termos de direcionalidade das dinâmicas regulatórias do setor e ensaiar, de vez em quando, algumas medidas simbólicas de controle e punibilidade com apelo popular”.

TRÊS VEZES MAIS

No Brasil, a taxa de suicídio de indígenas é mais que o triplo da média na população em geral: 21,8 mortes para cada 100 mil pessoas (contra 6,1 da média). O Nexo ressalta o caso dos guarani-kaiowá, na Reserva Indígena Dourados, no Mato Grosso do Sul. É onde há a maior concentração de indígenas do país e os conflitos são constantes: só em junho deste ano, foi registrado, em média, um assassinato a cada dois dias e meio.

Em julho, jovens guarani-kaiowá fizeram um encontro em Bela Vista e daí saiu, justamente, uma carta final abordando o que chamam de “epidemia de suicídio”. Nela, eles afirmam que vivem confinados em reservas ou aldeias superlotadas ou acampando na margem de rodovias, em “desespero permanente e sem esperança em viver bem nas nossas terras”. São taxados como “bugre incapaz”, e ouvem falas como “índio nem deveria mais viver”: “A soma de todos esses fatores preconceituosos e humilhantes sofridos afeta diretamente a nossa psicologia e influenciam os nossos comportamentos”, escrevem.

Entre as sugestões para lidar com isso estão apoio para ter grupos de jovens e para estudar, além da demarcação de novas terras. Sendo que a promessa de Jair Bolsonaro é não demarcar mais nenhuma…

A reportagem ainda menciona que a alta taxa de suicídio entre indígenas não é algo restrito ao Brasil. Nos EUA, por exemplo, ela é 82% maior do que no resto da população; em algumas regiões do Canadá, o suicídio entre jovens indígenas é 800 vezes maior que a média nacional; e taxas mais altas também são encontradas em povos na Noruega, Finlândia e Rússia.

UMA PROMESSA

Enquanto isso… O secretário de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura Nabhan Garcia organizou uma audiência pública em Miracatu, pequena cidade no interior de São Paulo onde fazendeiros se opõe à demarcação. No salão repleto de empresários, posseiros e proprietários rurais estavam 40 indígenas guarani mbya – que não haviam sido convidados. “Foram chamados de ‘paraguaios’ pelo advogado do sindicato rural, e escutaram o presidente da Funai [Marcelo Xavier da Silva] prometer aos produtores que vai reavaliar as terras indígenas. Saíram de lá com a certeza de que os processos de demarcação estão ameaçados”, descreve Diego Junqueira, na Repórter Brasil. Quem convidou Nabhan para conhecer os “problemas de Miracatu” foi o presidente do sindicato rural, conhecido como Tico Bala. Que é aliado de Renato Bolsonaro – irmão de Jair.

SOLTOS

O ministro do STF Gilmar Mendes concedeu habeas corpus aos empresários Miguel Iskin e Gustavo Estellita. Eles foram acusados de comandar um esquema de fraudes na compra de materiais para hospitais públicos do Rio durante o governo Cabral. Presos em Bangu há mais de um ano por ordem do juiz Marcelo Bretas, Iskin e Estellita foram detidos na operação SOS. Segundo O Globo, entre os argumentos apresentados pela defesa para soltar os empresários, está o fato de Estellita ter sofrido três “apagões” no período em que ficou preso. Eles serão obrigados a comparecer em juízo, mas não precisarão usar tornozeleira eletrônica. 

BANNON E BOLSONARO

Em um jantar fora da agenda oficial, o chanceler Ernesto Araújo se reuniu com o ex-estrategista de Donald Trump, cujo status atual é de desafeto, Steve Bannon. No encontro, entre outras coisas, eles trataram do discurso do presidente Jair Bolsonaro no próximo dia 24, em Nova York, na abertura da Assembleia-Geral da ONU.

A reunião aconteceu na noite de quarta-feira, 11, na residência da embaixada brasileira em Washington, onde Araújo está hospedado. O atual encarregado de Negócios da Embaixada do Brasil em Washington, o diplomata Nestor Forster também esteve presente no encontro, de acordo com o Estadão.

A expectativa é de que o discurso na Assembleia-Geral seja pautado pela defesa ao respeito à soberania da Amazônia. O Palácio do Planalto teme protestos no momento do discurso de Bolsonaro e assessores têm orientado o presidente a moderar suas falas para evitar novos problemas diplomáticos. Por isso, discutir a fala do presidente em um evento tão grande como o do dia 24 com uma figura tão controversa e radical como Bannon, não deve ajuda em nada na melhora da imagem do Brasil.

Por Equipe BR Político

FOGO NAS RUAS

Em entrevista a BBC News Brasil, o ex-ministro Ciro Gomes (PDT), que concorreu contra Jair Bolsonaro e Fernando Haddad (PT) na disputa pela Presidência, diz não se arrepender de sair do Brasil durante o pleito, decisão que ainda o persegue nas redes sociais. Não havia razão para ficar, argumenta Gomes, que fez 12% dos votos no primeiro turno, contra 29% de Haddad. Para ele, a derrota do petista era iminente e seu apoio não faria diferença alguma, o que teria ficado claro na análise dos números. Ele afirma que também não se arrepende de não ter apoiado Haddad, mesmo dizendo que o governo de Bolsonaro é muito pior do que imaginava.  Leia os principais trechos da entrevista.

Com informações de Carta Capital, Outra Saúde, Sul 21, o Globo, BR-18, Folha de SP, Leonardo Sakamoto, Josias de Souza, Fórum, Veja, Dora Kramer, BRPolítico, Vera Magalhães, Marcelo de Moraes, Radar e Bela Megale


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