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Sábado 21.set.2019

Ano VIII - Nº 364

Mundo

Após ofensas, filha de Brigitte Macron lança campanha contra misoginia

Em vídeo, Macron reclama de Bolsonaro; Piñera, aliado do brasileiro, concorda

Postado em 10 de Setembro de 2019 - Redação Semana On

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Tiphaine Auzière, filha da primeira-dama da França, Brigitte Macron, reagiu às ofensas do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, e do ministro da Economia, Paulo Guedes, contra sua mãe.

Em um vídeo divulgado no último dia 6, Auzière apareceu com uma folha impressa que mostra uma reportagem do jornal Le Monde sobre a fala de Guedes, que disse na última quinta-feira que a primeira-dama francesa é "feia mesmo".

"Estamos em 2019 e dirigentes políticos ainda têm como alvo o físico de uma mulher que é uma personalidade pública. Isso ainda existe? Sim", afirmou no vídeo Auzière, uma advogada de 35 anos que é filha do primeiro casamento de Brigitte.

Sem citar diretamente Bolsonaro, Guedes e sua mãe, ela disse que essa é uma oportunidade para que as pessoas se mobilizem contra a misoginia.

"Vamos juntos, a partir de amanhã, reagir, nos engajar dentro de nossas famílias, no nosso trabalho e nas urnas para denunciar os misóginos.”

Ela também afirmou que o comportamento de Bolsonaro e de Guedes não é exclusivamente brasileiro e que a França nem sempre é um exemplo nessa área.

"Não estamos aqui para dar lição em ninguém, pois a França não está livre disso", disse.

Em seguida, ela lembrou que em 2012 a então ministra francesa da Habitação, Cécile Duflot, foi alvo de comentários machistas e assobios por parte de deputados quando discursou com um vestido florido na Assembleia Nacional do país. Auzière ainda citou o caso de uma deputada que em 2013 foi interrompida enquanto discursava por um deputado que imitou o cacarejar de galinhas. 

Auzière concluiu o vídeo exibindo um cartaz com os dizeres #Balancetonmiso (denuncie o seu misógino).

No mesmo dia, em entrevista ao jornal Le Parisien, Auzière disse que tomou a iniciativa de publicar o vídeo por iniciativa pessoal. "Diante dessas notícias, como mãe de uma menininha, filha de uma mãe insultada e advogada que defende mulheres, eu tive vontade de me manifestar contra a misoginia e o sexismo ordinário", disse ao jornal.

No dia 29 de agosto, Brigitte Macron já havia se manifestado sobre as falas de Bolsonaro. Na ocasião, ela agradeceu o apoio que recebeu de brasileiros que não concordaram com a atitude do presidente.

"Apenas queria dizer duas palavras para os brasileiros e as brasileiras, em português: Muito obrigada! Muito, muito obrigada a todos que me apoiaram", disse a primeira-dama, durante uma cerimônia em Azincourt, no norte da França.

Escalada de ofensas

No dia 24 de agosto, em meio a uma escalada de tensão envolvendo as queimadas na Amazônia entre Bolsonaro e o marido de Brigitte, o presidente francês Emmanuel Macron, o chefe de Estado brasileiro endossou um comentário sexista contra Brigitte.

No Facebook, um seguidor de Bolsonaro publicara uma montagem que comparava a aparência de Brigitte com a da primeira-dama brasileira, Michelle, quase 30 anos mais jovem que a francesa, que tem 66 anos. "É inveja presidente, do Macron, pode crê", disse o seguidor.

Logo abaixo, Bolsonaro escreveu "Não humilha, cara. Kkkkkkk", endossando o comentário sexista, que sugeria que Macron vinha criticando o brasileiro por invejar seu casamento. Bolsonaro está na sua terceira união e Michelle é 27 anos mais jovem que ele.

Após o comentário repercutir negativamente, vários usuários brasileiros, entre eles celebridades, começaram a publicar mensagens com a hashtag #DesculpeBrigitte no Twitter.

Durante a reunião do G20, em agosto, o presidente francês se manifestou sobre a ofensa.  "O que posso dizer? É triste, é triste para ele, primeiramente, e para os brasileiros. Penso que os brasileiros, que são um grande povo, têm um pouco de vergonha de ver esse comportamento. Tenho muito respeito e admiração pelo povo brasileiro, e espero muito rapidamente que eles tenham um presidente que se comporte à altura [do cargo]", disse o francês.

Diante da repercussão negativa, Bolsonaro apagou o comentário sobre Brigitte no Facebook. Ele ainda tentou minimizar sua resposta na publicação ofensiva afirmando que não se tratava de um ataque a Brigitte.

O assunto parecia ter esfriado, mas no último dia 5 foi a vez de o ministro da Economia, Paulo Guedes, lançar novos insultos, desta vez mais diretos. Durante um evento em Fortaleza, Guedes afirmou: "O Macron falou que estão colocando fogo na Amazônia. O presidente [Bolsonaro] devolveu, falou que a mulher do Macron é feia. O presidente falou a verdade, ela é feia mesmo. Mas não existe mulher feia, existe mulher observada do ângulo errado. E fica essa xingação", disse Guedes.

A plateia do evento riu da fala do ministro. Mais tarde, diante da repercussão, Guedes se desculpou e disse que fez o comentário porque é um "brasileiro típico". "Eu sou um brasileiro típico, eu piso na jaca, eu rolo na lama. Eu estou há duas horas aqui e tentando não pisar. Quando eu vejo que vou pisar, até mudo a postura."

Macron, Piñera e Merkel  condenam Bolsonaro

Um vídeo dos bastidores da última reunião do G7 mostra o presidente da França, Emmanuel Macron, criticando o presidente Jair Bolsonaro em uma conversa com o presidente do Chile, Sebastián Piñera.

O vídeo é parte de um programa de mais de 25 minutos que foi ao ar no domingo no canal CNews, mostrando os bastidores da reunião de cúpula que aconteceu no final de agosto, em Biarritz. A cena da conversa de Macron com Piñera aparece por volta dos 16 minutos e 4 segundos do vídeo .

A conversa ocorre no segundo dia da cúpula do G7 , logo depois de uma entrevista coletiva de Macron e Piñera, na qual o presidente francês criticou o comentário de Bolsonaro sobre sua mulher, dizendo que ele foi "triste" para os brasileiros, uma "vergonha" para as mulheres brasileiras e "extremamente desrespeitoso" .

No início do vídeo, Piñera, um dos mais fortes aliados de Bolsonaro na América do Sul, comenta a ofensa do brasileiro chamando-a de "incrível".

“Claro, eu tinha de reagir. Você entende?”, diz Macron ao presidente chileno, que concorda com a afirmação. ”Eu queria ser pacífico. Queria ser correto, construtivo com o cara [Bolsonaro] e respeitar sua soberania. Tudo bem. Mas eu não poderia aceitar isso”. Neste momento, a chanceler Angela Merkel se aproxima dos dois e mostra que concorda com a última frase de Macron: "Não".

Macron, então, continua, lembrando do episódio em julho em que o presidente brasileiro cancelou um encontro com o chanceler francês em Brasília e foi cortar o cabelo , com transmissão ao vivo, no momento em que a reunião deveria acontecer:

“Você sabe o que aconteceu quando meu ministro de Relações Exteriores foi lá? Ele deveria recebê-lo e cancelou no último minuto para ir cortar o cabelo. E filmou a si mesmo. Lamento muito, mas isso não é a atitude de um presidente”, disse Macron a Piñera, que, embora o Chile não pertença ao G7, foi convidado pelo francês para a cúpula na França.


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