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Sexta-Feira 20.set.2019

Ano VIII - Nº 363

Poder

Da Amazônia ao comunismo, Bolsonaro cria inimigos imaginários para governar

Desemprego em alta tira a paciência da população com bobagens do presidente

Postado em 06 de Setembro de 2019 - Leonardo Sakamoto - UOL

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Bolsonaro parece que não consegue governar se não eleger inimigos a todo instante. Eles são usados para convencer seus seguidores de que o presidente é criticado por "ir contra interesses poderosos", "revelar a verdade que ninguém tem coragem de dizer" e "fazer o que deve ser feito a fim de defender o país". Na verdade, os "inimigos imaginários" servem para maquiar os erros e a incompetência do próprio governo e dourar políticas que não melhoram a vida da população.

Na recente crise da Amazônia, por exemplo, Bolsonaro usou os comentários toscos do presidente francês a respeito de uma hipotética ação internacional para proteger a região no intuito de surfar na onda do nacionalismo e da "defesa da soberania". Pela reação dos colegas europeus de Emmanuel Macron, verifica-se que não há qualquer risco estrangeiro à soberania brasileira sobre a região. Mas isso pouco importou para que o governo estimulasse uma narrativa paranoica junto à população. De lambuja, Bolsonaro conseguiu juntar a ala olavista do governo com o grupo dos militares, que vivem às turras uns com os outros, em torno de um fantasma.

"Apanhei muito a semana passada, mas conseguimos despertar, no coração do povo brasileiro, o seu sentimento de nacionalidade, de soberania e, mais do que tudo, a nossa Amazônia, tão esquecida ao longo de tanto tempo", disse o presidente em registro do UOL.

Ironicamente, hoje, a maior ameaça é trazida pelo próprio Bolsonaro. Em mais de uma ocasião, convidou Donald Trump, um líder estrangeiro, para explorar a região e vem defendendo a presença de mineradoras norte-americanas em territórios indígenas. Este último ponto, aliás, tem sido usado para convencer senadores almejais e os lucros da mineração a aprovarem o nome de seu filho para o cargo de embaixador nos Estados Unidos.

As bobagens conspiratórias sobre "risco à soberania" têm a profundidade de um pires, mas são absorvidas facilmente por quem procura respostas rápidas e fáceis para problemas complexos, como o desenvolvimento sustentável da Amazônia. E o uso de patriotadas em geral é perfeito para terceirizar um problema. A origem do caos é sempre o outro, nunca nós mesmos. Ao invés de admitir que sua forma de conduzir a política ambiental para a Amazônia é desastrosa e implementar mudanças, Bolsonaro culpa ONGs, afirmando que trabalham para nações estrangeiras.

O governo parece gastar mais tempo em narrativas conspiratórias contra indígenas (e a mentira de que eles desejam criar países independentes) ao invés de responder sobre as causas do desmatamento e do fogo. Porque as chamas que consomem a floresta são consequências de um governo que não deu apoio à fiscalização e atacou as instituições de monitoramento. E, principalmente, cuja retórica presidencial desautorizou a punição a quem degrada a floresta dando a certeza de impunidade a garimpeiros, madeireiros, grileiros e pecuaristas.

Por trás da cortina de fumaça de soberania, esconde-se a responsabilidade de Bolsonaro pelo que está aí. Todos os governos, da ditadura até agora, são culpados por degradar o bioma. A culpa do atual mandatário foi permitir um salto no ritmo da destruição.

Isso se repete em uma série de outros temas, com Bolsonaro criando falsas polêmicas, unindo seus seguidores em torno de pautas de costumes e comportamentos, desviando o foco de atenção dos verdadeiros problemas nacionais.

Por exemplo, até agora o governo não apresentou um plano nacional para a geração de empregos formais. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, divulgada no último dia 30, mostra que a redução no número de desempregados (hoje, em 12,6 milhões) vem ocorrendo via crescimento de empregos sem carteira assinada (aumento de 441 mil pessoas, frente ao trimestre anterior) e o crescimento de pessoas que trabalham por conta própria (mais 343 mil). Ou seja, empregados informais em lojas, vendedores de comida nas ruas, motoristas de aplicativos – todos sem direitos mínimos como 13o salário, férias, descanso semanal remunerado, limite de jornada.

O trabalho precário e o desemprego são inimigos reais a serem combatidos, mas eles não contam com a mesma quantidade de atenção do presidente, que prefere dizer que quem gera empregos é a iniciativa privada e sua função é não atrapalhar. Dessa forma, demonstra que não faz ideia de como agir.

Em março deste ano, durante discurso oficial, ao lado de Donald Trump, nos jardins da Casa Branca, como parte de sua visita ao presidente norte-americano, Bolsonaro conclamou uma série desses "inimigos imaginários". Afirmou que o Foro de São Paulo "esteve próximo de conquistar o poder em toda América Latina", reforçando as teorias da conspiração sobre esse fórum inexpressivo de partidos de esquerda latino-americanos. E disse que ambos os países estão irmanados contra a "ideologia de gênero", o "politicamente correto" e as "fake news".

Melhor se fosse contra o desemprego, a pobreza, a corrupção, a guerra, a violência urbana. Mas aí seria trabalhar de verdade, articulando, dialogando, compondo, correndo atrás de recursos. Combater fantasmas de um comunismo que nunca existiu de fato por aqui e considerar a golden shower ou a mamadeira de piroca fake problemas nacionais gera mais polêmica, agrega mais seguidores, é mais fácil do que enfrentar problemas reais.

Combater fantasmas serve para transformar algo insignificante em um inimigo terrível. Anima, dessa forma, a batalha da extrema direita ruidosa, aliada de primeira hora, cujo engajamento é peça-chave para um governo que pretende manter a campanha eleitoral acesa até o seu último dia, fomentando um estado de apreensão constante para a coesão de sua guerra política visando à sua "revolução popular".

É papel de Bolsonaro e assessores convencerem a opinião pública que a população brasileira lhes deu mandato para liberá-la do socialismo, do marxismo, do "globalismo", do "gayzismo", do "coitadismo", do "abortismo", do "mimimismo" e qualquer outra fantasia que viralize nas redes sociais a partir de sua ilimitada criatividade – por mais que isso não seja a realidade. Enquanto isso, é papel da imprensa livre e da sociedade civil fiscalizá-lo, pressioná-lo e denunciá-lo quando ele extrapolar seu mandato constitucionalmente atribuído. Talvez por isso, ele deteste a imprensa e as organizações da sociedade civil.

Liberar o Brasil de algo que não existe, como um risco de invasão da Amazônia ou a chegada do comunismo, é igual a tentar aterrorizar uma população para os riscos do Homem do Saco ou da Mulher de Branco. O problema é que uma parcela da população parece gostar de acreditar em contos de fada.

Muita bobagem e pouco trabalho

Bolsonaro tem no combate ao desemprego a sua pior avaliação entre 18 áreas, de acordo com pesquisa Datafolha, divulgada no último dia 2. Após oito meses, 65% da população considera a atuação de seu governo como ruim ou péssima nesse quesito. O top 5 da tristeza se completa com saúde (59%), combate à fome e à miséria (58%), meio ambiente (49%) e educação (49%). Sua reprovação geral passou de 33%, no início de julho, para 38% e a aprovação, de 33% para 29%.

O presidente da República teria mais liberdade para a sua pauta medieval em costumes e comportamento caso tivesse conseguido reduzir drasticamente o desemprego no país. A maioria da população brasileira, que não é de direita, nem de esquerda, mas pragmática, digeriu as denúncias do Mensalão e reelegeu Lula, em 2006, em meio ao crescimento econômico. Toleraria mais facilmente, portanto, o pacote bolsonarista desde que o seu governo garantisse dignidade econômica. O que não tem sido o caso.

A geração de empregos segue patinando. Na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) Contínua, divulgada pelo IBGE, na última sexta (30), a taxa de desocupação caiu de 12,5% (no trimestre encerrado em abril) para 11,8% (no encerrado em julho). São 12,6 milhões de brasileiros procurando trabalho sem encontrar.

Mesmo diante desses números, o presidente não apresentou até o momento um projeto nacional para fomentar geração de postos formais de trabalho. Pelo contrário: pressionado, já disse: "Tenho pena? Tenho. Faço o que for possível, mas não posso fazer milagre, não posso obrigar ninguém a empregar". O argumento é intelectualmente indigente, uma vez que governos podem e devem criar ambientes propícios para o crescimento econômico e a geração de postos de trabalho.

Acreditando que tinha cacife junto à população ou apostando no acirramento de posições para agregar aliados em torno de sua proteção, Bolsonaro apertou a tecla "foda-se" a partir de uma live no Facebook no dia 18 de julho. Não que ele já não fosse Bolsonaro antes disso, mas parece que qualquer indício de freio desapareceu.

Desde então, ele trouxe o cocô para o centro da retórica presidencial, abraçou publicamente o nepotismo e a filhocracia e brigou com o mundo quando reclamaram que ele estava permitindo a maior fogueira tropical do planeta. Com o desemprego e a informalidade em alta, um indulto às suas loucuras foi negado pela maioria da população como se pode ver pelos números do Datafolha.

A informalidade bateu recorde na série histórica da PNAD Contínua. A taxa de desocupação vem caindo através do aumento de postos sem carteira assinada (mais 441 mil frente ao trimestre anterior) e dos trabalhadores por conta própria (mais 343 mil). Vagas sem 13o salário, férias, descanso semanal remunerado, limite de jornada. Ou seja, sem direitos.

O que vai ao encontro de outro bordão presidencial: "o trabalhador vai ter que decidir se quer menos direitos e emprego, ou todos os direitos e desemprego". Essa relação tende a ser binária apenas em matrizes de pensamento simplistas, que excluem a possibilidade de um empregado produzir mais riqueza quando está sob condições saudáveis.

Os números da informalidade, por incrível que pareça, são comemorados por membros de sua equipe que veem nisso um momento em que brasileiros se "libertam" do jugo da CLT. Confundem o empreendedor consciente com o precarizado desolado. Ignoram que muitos dos que trabalham como vendedores de quentinhas e bolos na rua e motoristas para serviços de aplicativos trocariam seu CNPJ de MEI por um emprego que garantisse segurança e direitos num piscar de olhos.

Parte de seus apoiadores vendeu a falsa ideia de que, com o avanço da Reforma da Previdência, leite e mel correriam no meio fio das calçadas de imediato e unicórnios vomitariam arco-íris nos trabalhadores. Mesma ladainha, aliás, vendida pelo governo Michel Temer com a Reforma Trabalhista, que prometeu um dilúvio de empregos formais. Agora que a vida real se impõe, encontram outras desculpas.

Bolsonaro inverteu a ordem das coisas, acreditando que manter uma base bolsonarista bem alimentada e com energia para sair às ruas é a melhor garantia de proteção ao seu mandato. Optou por manter o país em Estado de campanha eleitoral constante, fazendo com que a principal meta do governo não seja emprego, saúde, combate à miséria, meio ambiente, educação, mas sua reeleição e o bem-estar de seus filhos. Se a campanha, em 2018, foi a mais curta da história recente, durando 45 dias, a de 2022 será a mais longa, e vai durar quase quatro anos.

O problema é que a maior parte da população está ficando irritada em ver um presidente comprar briga com tudo e com todos, pondo em risco a imagem e os negócios do país, enquanto entrega, no lugar de empregos decentes, vídeo de golden shower e declarações com cocô.


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