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Sexta-Feira 20.set.2019

Ano VIII - Nº 363

Poder

Procuradores da Lava Jato pedem demissão coletiva em retaliação contra Raquel Dodge

Procuradora Geral da República tem final de mandato melancólico

Postado em 06 de Setembro de 2019 - Congresso em Foco e Josias de Souza (UOL)

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Seis procuradores que fazem parte da equipe que investiga a Lava Jato, entregaram os cargos hoje. Segundo informou o Estadão, o motivo seria "incompatibilidade" com o entendimento da Procuradora Geral da República (PGR), Raquel Dodge.

A crise acontece à poucos dias de Dodge deixar o cargo, o que acontecerá no dia 17 deste mês. Segundo circula na imprensa, os procuradores que pediram desligamento dos cargos são: Raquel Branquinho, Maria Clara Noleto, Luana Vargas, Hebert Mesquita, Victor Riccely e Alessandro Oliveira. O Estadão ainda aponta que o desentendimento da equipe com Raquel Dodge está relacionado com a delação premiada do executivo Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS.

Segundo circula na imprensa, os procuradores teriam compartilhado o pedido de dispensa via grupos de Whatsapp.

Mensagem via Whatsapp

“Devido a uma grave incompatibilidade de entendimento dos membros desta equipe com a manifestação enviada pela PGR ao STF na data de ontem (03.09.2019), decidimos solicitar o nosso desligamento do GT Lava Jato e, no caso de Raquel Branquinho, da SFPO [Secretaria da Função Penal Originária]. Enviamos o pedido de desligamento da data de hoje. Foi um grande prazer e orgulho servir à Instituição ao longo desse período, desempenhando as atividades que desempenhamos. Obrigada pela parceria de todos vocês. Nosso compromisso será sempre com o Ministério Público e com a sociedade.”

Em nota, a Procuradoria Geral da República rebate as acusações dos membros do MP e afima que "em todos os seus atos, age invariavelmente com base em evidências, observa o sigilo legal e dá rigoroso cumprimento à Constituição e à lei".

Nota da PGR 

Ao confirmar que recebeu pedido de desligamento de integrantes de sua equipe na área criminal, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, reafirma que, em todos os seus atos, age invariavelmente com base em evidências, observa o sigilo legal e dá rigoroso cumprimento à Constituição e à lei. Todas as suas manifestações são submetidas à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).

Fim melancólico

Oficialmente, o mandato de Raquel Dodge à frente da Procuradoria-Geral da República termina em 17 de setembro. Na prática, morreu muito antes. A morte de uma gestão significa, em última análise, um pouco de vocação. Embora Dodge continue dando expediente, sua atuação é tão pouco militante que seus próprios colegas anteciparam o funeral.

Com o pedido de desligamento dos promotores, foi como se Raquel Branquinho, Maria Clara Noleto, Luana Vargas, Hebert Mesquita, Victor Riccely e Alessandro Oliveira atirassem no gabinete de Dodge a última pá de cal. Há um mês, o coordenador do grupo, José Alfredo de Paula, já havia formalizado uma exoneração com aparência de coroa de flores.

José Alfredo puxara o cortejo insatisfeito com o ritmo do velório. Dodge pisara no freio. Mantinha na gaveta desde janeiro, por exemplo, a delação de Léo Pinheiro, da OAS. De repente, Dodge enviou a peça ao Supremo, para homologação. A turma da Lava Jato sentiu um cheiro de enxofre.

Dodge requereu de antemão ao ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato, o arquivamento dos trechos em que Léo Pinheiro encosta mais um caixa dois na reputação de Rodrigo Maia, presidente da Câmara; e diz ter pagado propina a José Ticiano Dias Toffoli, ex-prefeito de Marília e irmão do presidente do Supremo. Os delatados negam as imputações.

No ocaso de um mandato de dois anos, Dodge passou a exibir um comportamento inusual. Decidiu não disputar a eleição que resultou na formação da lista com os três nomes preferidos da corporação para ocupar a sua poltrona. Fugiu da disputa porque sua impopularidade entre os próprios pares a levaria a cavalgar uma candidatura natimorta.

Ao pressentir que Jair Bolsonaro daria de ombros para a lista tríplice dos procuradores, Dodge ofereceu, por assim dizer, seus préstimos ao presidente da República: "Eu estou à disposição, tanto da minha instituição quanto do país, para uma eventual recondução. Não sei se isso vai acontecer." A despeito do apoio que Dodge recebeu de personagens como Rodrigo Maia e Dias Toffoli, sua recondução não aconteceu. "Será um homem", avisava Bolsonaro no alvorecer da semana.

Há dois anos, Dodge consideraria o oferecimento dos seus serviços ao presidente de plantão como um arranjo político-partidário. Ela dissera em 2017: "Sou uma dentre os inúmeros procuradores da República que confiam na lista [tríplice] como um instrumento que serve de biombo entre uma escolha meramente político-partidária e uma escolha de alguém que possa desempenhar com desenvoltura, com destemor, plenamente as atribuições deste cargo".

Autoconvertida numa espécie de ex-Dodge, a agora quase ex-procuradora-geral da República reagiu à demissão coletiva do seu staff na área criminal com uma nota oficial. Nela, está anotado que "age com base em evidências, observa o sigilo legal e dá rigoroso cumprimento à Constituição e à lei."

Para os ex-auxiliares de Dodge, a peça sobre a delação de Léo Pinheiro teve o peso de uma lápide. Mas a sensação de fenecimento começou antes, muito antes. As flores, a cal e a laje chegam como derradeiros símbolos de um lento, suave e penoso processo. Dodge tornou-se algo muito parecido com uma ex-chefe do Ministério Público Federal no exercício da chefia.


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