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Sexta-Feira 20.set.2019

Ano VIII - Nº 363

Brasil

‘Xingu sem parque seria o inferno na terra’

Pesquisadora alerta para importância de territórios indígenas

Postado em 06 de Setembro de 2019 - Annie Castro - Sul21

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A Amazônia enfrenta neste ano o recorde de queimadas, embora não seja um ano de estiagem extrema. Só entre 1º de janeiro e 29 de agosto os focos de calor na região amazônica foram os maiores já registrados nos últimos dez anos. Um estudo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), realizado com base em dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, mostra que 81% das queimadas nesse período ocorrerem em áreas da Amazônia que não possuem proteção legal, como propriedades privadas, florestas públicas não-destinadas, áreas sem informação cadastral e assentamentos rurais.

O estudo também mostra que as áreas onde ocorreram os menores focos de incêndio são áreas preservadas por povos indígenas, com 6%, unidades de conservação, com 7%, e áreas de proteção ambiental, também com 6%. Embora os territórios indígenas representem uma das duas áreas com os menores registros de incêndios, os povos indígenas são afetados diretamente pelas queimadas realizadas em outras áreas do bioma Amazônia.

Atualmente, 98,25% da extensão de todas os territórios indígenas do país estão na Amazônia Legal, que é composta pelos estados de Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins, e parte do Maranhão. Ao todo, o território amazônico abriga mais de 400 áreas indígenas, o que corresponde a 23% da região. De acordo com o último Censo do IBGE sobre o tema, feito em 2010, cerca de 306 mil indígenas vivem na Amazônia. Ainda, um estudo da Agência France Presse (AFP), com dados fornecidos pela Fundação Nacional do Índio (Funai), mostrou que existem ainda cerca de 107 povos indígenas isolados na região amazônica.

Entre julho e agosto deste ano, dos 400 territórios indígenas os dez mais de afetados pelas queimadas foram o Parque Indígena Araguaia (TO), a TI Pimentel Barbosa (MT), TI Parabubure (MT), TI Apyterewa (PA), TI Marãiwatsédé (MT), TI Kayapó (PA), TI Areões (MT), TI Kanela (MA), TI Mundurucu (PA) e a TI Pareci (MT), conforme aponta um levantamento do Instituto Socioambiental (ISA).

Diretora de Ciência do Ipam, Ane Alencar, que há 25 anos pesquisa os incêndios na Amazônia e é uma das principais especialistas sobre o tema, afirma que as queimadas afetam de diversas maneiras os povos indígenas que vivem na região. Um dos impactos se dá em razão de as queimadas estarem associadas ao desmatamento, conforme explica Ane: “O desmatamento ao redor das terras indígenas cria um problema muito grande para a questão da água, por exemplo, porque desmata as matas ciliares que estão ao redor das terras indígenas, fazendo com que a água que corre para dentro das terras seja comprometida, um exemplo disso é o próprio Parque do Xingu”.

Já o outro efeito das queimadas para os povos indígenas é a fumaça ocasionada pelo fogo, conforme aponta Ane. “Os povos indígenas sofrem bastante pelas fumaças que são geradas por esse tanto de desmatamento ao redor de suas áreas”. Ela ressalta que uma vez que essa área ao redor das terras indígenas é desmatada e queimada diversas vezes, a floresta fica mais seca, aumentando a suscetibilidade de que ela espalhe o fogo, tornando possível que a queimada e a fumaça resultante dela chegue cada vez mais perto e até mesmo dentro dos territórios indígenas. Ainda, esse degradamento da floresta amazônica faz com que ela possa também pegar fogo acidentalmente com uma frequência maior do que seria a natural para uma região úmida como a Amazônia, o que faz com que os territórios indígenas sejam afetados também por incêndios naturais.

“Naturalmente a floresta Amazônica age como barreira ao fogo, ela é úmida o suficiente para não deixar que as chamas se espalhem. Em ano de secas extremas, há uma suscetibilidade maior da floresta ao espalhamento do fogo. Naturalmente, essa floresta pegaria fogo de 500 a 1000 anos no mesmo lugar, esse é o intervalo natural de fogo dela. Os nossos estudos apontam que existem áreas de florestas densa na Amazônia que tiveram retorno de fogo de seis e 12 anos, que são retornos de fogo do Cerrado. Estamos passando por um processo de empobrecimento em função do desmatamento”, explica Ane.

Além dos impactos das queimadas, os povos indígenas que vivem Amazônia também são afetados por outras ameaças, como a mineração na região, a exploração de maneira ilegal dentro dos territórios indígenas e a ocupação ilegal de áreas dentro de suas terras. “A mineração, que eu diria que é uma das piores ameaças, afeta diretamente os recursos naturais da região. Por acontecer nas comunidades, também afeta a estrutura cultural e social desses povos porque leva para dentro dos territórios prostituição, álcool, drogas, por exemplo”, afirma Ane. Segundo ela, o mesmo efeito de disruptura na hierarquia social das comunidades indígenas também é gerado pela exploração de madeira ilegal dentro das terras indígenas.

Ainda, a Diretora do Ipam aponta que os povos indígenas vivenciam outra ameaça atualmente: os discursos por parte de integrantes do governo brasileiro que geram um processo de tentativa de descredibilização dos indígenas. “Isso é muito perigoso porque acaba incitando as pessoas a invadirem as terras indígenas e deixa claro que nada irá acontecer”, diz Ane.

Papel dos povos indígenas na preservação ambiental

De acordo com a pesquisadora, que ao longo de sua carreira buscou entender como as florestas da Amazônia se tornam inflamáveis e qual a relação disso com o desmatamento, com a fragmentação da paisagem e com as mudanças climáticas, o ser humano é responsável por estar mudando o regime de fogo devido a tantos desmatamentos realizados na região. “As queimadas representam o último estágio do processo de desmatamento. Se alguém quer colocar pasto em um hectare de floresta, a pessoa vai lá e desmatada, corta todas as árvores e espera secar por mais ou menos um à três meses em média, dependendo do lugar. Uma vez que isso está seco, essas áreas são submetidas ao fogo, elas são queimadas”, explica Ane.

Porém, ela pontua que neste ano não existia nenhum evento climático que ocasionasse um período de seca extrema na região, o que faz com que o recorde de queimadas esteja diretamente relacionado ao desmatamento. Em função disso, Ane ressalta a importância dos territórios e dos povos indígenas, que mantêm grande parte da floresta preservada, na conservação da biodiversidade da Amazônia e na diminuição do aquecimento global.

Segundo Ane, os povos indígenas têm papel fundamental na preservação da Amazônia em função de seu modo de vida. “Eles têm um modo de vida que é harmonioso com a natureza, já que eles precisam dela funcionando em todos seus processos. Existe toda uma relação harmoniosa dessas comunidades com os recursos naturais e a biodiversidade. Eles usam os recursos sem que eles faltem”, explica Ane. “Quando usam muito recursos, por exemplo, durante as festas indígenas em que eles têm que caçar um determinado animal em um determinado período, eles só caçam aquilo naquele período porque sabem que naquele momento não irá fazer com que falte em outro”.

A respeito dos territórios indígenas enquanto mantenedores da floresta, a diretora do Ipam aponta que eles possuem um papel fundamental para amenizar os efeitos das mudanças climáticas locais e até mesmo regionais. “Imagina o Xingu sem o Parque do Xingu, seria o inferno na terra. Já temos uma diferença de 5ºC de temperatura de superfície dentro e fora do parque, mostrando claramente um efeito climático que esses territórios têm”, afirma. Para Ane, a existência de territórios indígenas preservados e habitados por povos que possuem uma relação harmoniosa com a natureza é totalmente positiva e significa apenas ganhos para a preservação do meio ambiente.

Segundo Ane, grande parte da população brasileira ainda desconhece os povos indígenas e a importância da existência de seus territórios: “Infelizmente, os brasileiros conhecem pouco sobre o seu território, sobre o papel dessas áreas e sobre o papel dos povos indígenas também. Os povos indígenas têm um conhecimento tradicional de várias ervas da medicina, do jeito de se relacionar com a terra. São culturas importantes e que estavam aqui antes da gente chegar. São culturas tão brasileiras quanto as nossas e tem que ser respeitada”. Além de ajudar na preservação ambiental, os territórios indígenas também servem como espaço para que os povos possam manter sua cultura e tradições vivas.


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