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Terça-Feira 19.nov.2019

Ano VIII - Nº 372

Poder

Desemprego em 12,6 mi e Guedes acha tempo para achincalhar esposa de Macron

Ministro demora a converter gogó em resultados

Postado em 06 de Setembro de 2019 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL)

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"O Macron falou que estão colocando fogo na Amazônia. O presidente devolveu, falou que a mulher do Macron é feia. O presidente falou a verdade, ela é feia mesmo. Mas não existe mulher feia, existe mulher observada do ângulo errado. E fica essa xingação", disse o ministro Paulo Guedes, no evento "A Nova Economia do Brasil", na quinta (5), em Fortaleza.

Diante da esperada repercussão negativa, o czar da Economia pediu desculpas, dizendo que estava ilustrando um argumento e o objetivo não era fazer ofensas pessoais. O que não importa, pois efetivamente as fez.

Temos um presidente da República que, devido à falta de familiaridade com o debate público respeitoso ou de capacidade de apresentar argumentos para contrapor outros argumentos, apela recorrentemente para o ad hominem – a falácia de negar uma ideia criticando seu autor e não o seu conteúdo.

Por exemplo, o governo brasileiro é acusado pelo presidente francês de ser responsável pelo desmatamento e pelas queimadas? Chama-se a mulher do presidente francês de feia. O governo brasileiro é acusado pela alta comissária para os Direitos Humanos da ONU de redução do espaço democrático? Ataca-se o pai de Michele Bachelet que foi executado pela ditadura chilena.

Agora, o ministro da Economia endossa as palavras do chefe. Poderia estar apresentando sua proposta de política nacional para fomentar a geração de empregos com carteira assinada – afinal, faz mais de oito meses que assumiu o posto. De preferência, um projeto consistente, que inclua estímulos para o consumo e investimentos públicos. Mas preferiu estampar as manchetes por um comentário bizarro.

Guedes herdou uma crise econômica, então não é o responsável por ela. Mas à medida que o tempo passa, o governo vai se tornando sócio dela. Bolsonaro tem no combate ao desemprego a sua pior avaliação entre 18 áreas, de acordo com pesquisa Datafolha, divulgada no último dia 2. Após oito meses, 65% da população considera a atuação de seu governo como ruim ou péssima nesse quesito.

Na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) Contínua, divulgada pelo IBGE, na última sexta (30), a taxa de desocupação caiu de 12,5% (no trimestre encerrado em abril) para 11,8% (no encerrado em julho). São 12,6 milhões de brasileiros procurando trabalho sem encontrar. A informalidade bateu recorde na série histórica. A taxa de desocupação vem caindo através do aumento de postos sem carteira assinada (mais 441 mil frente ao trimestre anterior) e dos trabalhadores por conta própria (mais 343 mil). Vagas sem 13o salário, férias, descanso semanal remunerado, limite de jornada. Ou seja, sem direitos.

O país necessita de mais medidas do que as Reformas da Previdência e Tributária para combater o desemprego no curto prazo. O ministro certamente sabe que copiar os rompantes desagradáveis e machistas do seu chefe não é uma delas.

Posto Ipiranga

Quando Bolsonaro declarou que havia encontrado um Posto Ipiranga para abastecer sua ignorância econômica, faziam-se apostas sobre qual das diatribes do capitão produziria a crise que faria o ministro jogar tudo para o alto e cumprir a ameaça que repetiu há três meses: "Pego um avião e vou morar lá fora". Sabia-se que Guedes não consertaria Bolsonaro. O que ninguém imaginava é que Bolsonaro pudesse estragar em tão pouco tempo um economista egresso da escola de Chicago.

Guedes encaixou Brigitte em sua prosa a pretexto de criticar a imprensa. Empilhou iniciativas adotadas pela equipe econômica. E lamentou que, a despeito de enxergar "progressos em várias frentes", os meios de comunicação preferem pendurar nas manchetes as polêmicas que brotam dos lábios de Bolsonaro: os ataques à ex-presidente chilena Michelle Bachellet, as referências à idade e feiúra da mulher do Macron… Questionado pelos repórteres, classificou sua própria descortesia de brincadeira.

Horas depois, Guedes mandou sua assessoria soltar uma nota oficial. Nela, está escrito que "a intenção foi ilustrar que questões relevantes e urgentes para o país não têm o espaço que deveriam. Não houve qualquer intenção de proferir ofensas pessoais." A emenda conseguiu piorar o soneto.

Supunha-se que o ministro já tivesse notado que a crise está na ponta da língua de Bolsonaro, não no noticiário que reproduz suas barbaridades. Se o presidente trouxesse suas palavras na coleira e o ministro convertesse gogó em resultados, a imprensa mudaria de assunto instantaneamente.

O problema é que Bolsonaro não para de produzir insensatez. A penúltima foi o vaivém sobre o teto dos gastos. Num dia, a revisão do teto é um imperativo matemático. O porta-voz do Planalto ecoou o chefe, endossando-o. Na manhã seguinte, o recuo nas redes sociais. E o país fica autorizado a suspeitar que Bolsonaro está mais preocupado com as urnas de 2022 do que com os cofres de 2019. Cofres que Guedes prometera sanear no primeiro ano de governo.

O governo entrou no nono mês. E o ministro da Economia ainda não levou ao Congresso uma proposta lapidada de reforma tributária. O fim dos subsídios? Nada. A facada na mamata do Sistema S? Nem sinal. A coleta de R$ 1 trilhão com a venda de estatais e imóveis públicos? Necas. A desvinculação de gastos obrigatórios do orçamento? Lhufas. Por enquanto, há uma reforma previdenciária saindo do forno, um presidente que produz crises diárias na saída do Alvorada e um ministro da Economia com uma garganta enorme.

Os governos do Brasil tem convivido com ministros econômicos que se consideram extraordinários. Alguns têm o prestígio de super-ministros. No final das contas, vários apresentam um defeito comum. Costumam encontrar as verdadeiras soluções para os problemas econômicos do país quando se transferem do palco para a crítica. Para evitar a sina dos ex-ministros geniais, Paulo Guedes deveria adotar como prioridade serenar a retórica do presidente, não aderir à mesma incivilidade.


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