Semana On

Segunda-Feira 18.nov.2019

Ano VIII - Nº 372

Coluna

O inferno é aqui

O jornalista Victor Barone resume a semana política, com humor e acidez

Postado em 04 de Setembro de 2019 - Victor Barone

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Edir Macedo, bispo evangélico da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da Rede Record, comparou Deus a Jair Bolsonaro, durante a realização de um culto no Templo de Salomão, no Brás, em São Paulo, no último dia 1º. Em seguida atacou a imprensa, dizendo que estão todos contra o presidente. “Vivenciamos o inferno da mídia, mas eu estou aqui e o presidente está lá. Ele (Bolsonaro) vai arrebentar lá, não porque sou eu, não porque é ele, é porque é o espírito de Deus”, afirmou.  “Hoje nós estamos recebendo a presença do presidente Jair Bolsonaro e ele foi eleito porque acreditamos na palavra dele. Aqueles que perderam a eleição foi porque nós não cremos na palavra deles. Sim ou não?”, perguntou Macedo aos fiéis, que disseram sim.

O culto teve início às 9h30 e, às 10h10, Macedo chamou Bolsonaro ao altar, para fazer uma oração pelo presidente. Por solicitação do bispo, Bolsonaro se ajoelhou diante do altar e de costas para os fiéis e Macedo disse que Deus escolheu Bolsonaro para liderar 210 milhões de brasileiros. Colocou as mãos sobre a cabeça do presidente e fez a unção. “Uso de toda a autoridade que me foi concedida por Deus para abençoar este homem, para lhe dar sabedoria, para que este país seja transformado, que faça um novo Brasil”. Após o término, o presidente deixou o culto para fazer uma visita pela igreja.

Jair Bolsonaro tenta obter o aval de setores da mídia a seu governo, para neutralizar o que considera uma parcela da imprensa hostil, que ele identifica nos grandes jornais e revistas e na Rede Globo. Foi emblemática desse esforço a cena –que certamente passará à história como uma das mais marcantes do atual governo– do presidente ajoelhado e de olhos fechados diante do bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus e da Record, para ser “consagrado a Deus” por ele. A emissora ligada à igreja tem sido constantemente citada nas redes de Bolsonaro, dos filhos e dos aliados como aquela que veicula informações confiáveis. Na semana passada, a Record produziu uma reportagem com acusações contra jornalistas da Globo –expediente que já usou também nos governos petistas, quando Macedo apoiava Lula e Dilma Rousseff. O titular da Secom, Fábio Wajngarten tem um relacionamento antigo e próximo com a Record e também com o SBT –cujo dono, Silvio Santos, Bolsonaro visitou no fim de semana. A emissora, aliás, se comprometeu com o assessor de Bolsonaro, em reunião realizada em São Paulo há algumas semanas, a participar ativamente da Semana do Brasil, com reportagens em tom patriótico.

Por Vera Magalhães

MAIS UM VEXAME INTERNACIONAL

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) atacou a ex-presidente chilena e a atual comissária da ONU para os direitos humanos, Michelle Bachelet, depois de ela ter expressado preocupação com a “redução do espaço democrático” no Brasil e com o aumento do número de mortes por policiais. Somente no estado do Rio de Janeiro, 881 pessoas foram mortas pela polícia no primeiro semestre de 2019, alta de 15% em relação ao mesmo período do ano passado. Já no estado de São Paulo, 426 pessoas foram mortas pela polícia no 1º semestre, alta de 3%.

Em entrevista concedida nesta quarta em Genebra, Bachelet destacou o aumento das mortes nestes dois estados e salientou o fato de que a violência polícia “atinge mais as pessoas de ascendência africana ou as que vivem em favelas”. Ela também alertou para o fato de que esses índices aumentam no momento em que o Brasil e estes estados são governados por pessoas que adotam um discurso que “legitima execuções sumárias e uma falta de responsabilização”.

Em resposta, Bolsonaro disse que Bachelet “está defendendo direitos humanos de vagabundos”. “E ela [Bachelet] diz mais ainda. Ela critica dizendo que o Brasil está perdendo o seu espaço democrático. Senhora Michelle Bachelet, se não fosse o pessoal do Pinochet derrotar a esquerda em 73, entre eles o seu pai, hoje o Chile seria uma Cuba. Acho que não preciso falar mais nada para ela”, disse.

O pai da ex-presidente chilena, Alberto Bachelet, era general da Força Aérea do Chile e foi contra o golpe dado por Pinochet em setembro de 1973. Preso e torturado, morreu como consequência das agressões feitas pelo sistema de repressão chileno. A ex-presidente também foi presa, em 1975, e também foi torturada na prisão. Ela presidiu o Chile em duas oportunidades, entre 2006 e 2010 e entre 2014 e 2018. O Chile não tem reeleição.

Bolsonaro não expressou preocupação com o aumento do número de mortes pela polícia.

É falsa a impressão de que Jair Bolsonaro leva o seu governo para a direita quando ataca críticos e adversários. Na verdade, ele puxa o governo para baixo. E leva o Brasil junto. Mal comparando, o que Bolsonaro disse sobre a ex-presidente chilena Michelle Bachelet e o pai dela, o general Alberto Bachelet, é a repetição em escala internacional de uma vergonha doméstica.

Aliado do presidente Jair Bolsonaro, o presidente do Chile, Sebastián Piñera, condenou as declarações do inquilino do Palácio do Planalto sobre as críticas relativas ao Brasil da ex-presidente chilena, Michelle, Bachelet, hoje Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos. “Não compartilho a alusão feita pelo presidente Bolsonaro a uma ex-presidente do Chile e, especialmente, num assunto tão doloroso quanto a morte de seu pai”, disse Piñera em pronunciamento no Palácio de La Moneda.

Miriam Leitão, colunista de O Globo e comentarista da GloboNews, fez duras críticas ao ataque despropositado de Jair Bolsonaro à ex-presidenta da Chile e atual Alta Comissária de Direitos Humanos da ONU, Michelle Bachelet. “É patológica a compulsão de Bolsonaro pelas ditaduras e sua admiração ilimitada pelos regimes tirânicos, como o de Pinochet. É doentio seu prazer em ferir pessoas atingidas pelos crimes das ditaduras latino-americanas, como fez com o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz”, escreveu a jornalista, em sua coluna de O Globo, cujo título é “Mente autoritária e seus métodos”. Em outro trecho, Miriam destacou: “Mentir sobre o passado do Chile, ou do Brasil, na política ou na economia, não alterará a história real. Tentar apropriar para uma ideologia de extrema-direita os símbolos nacionais não dará certo agora, como não deu no passado. Os amigos e auxiliares que tenham qualquer influência sobre ele deveriam aconselhá-lo. O que ele falou sobre Michelle Bachelet jamais poderia ter sido dito. É sobretudo desumano”.

ONU

A decisão de Jair Bolsonaro de falar na abertura da Assembleia Geral da ONU sobre Amazônia é uma evidência de que há males que vêm para pior. Um acerto dificilmente pode ser melhorado. Mas não há sob Bolsonaro erro que não possa ser aperfeiçoado. A despeito da nova cirurgia a que será submetido, o presidente disse que irá à ONU mesmo que seja sentado numa cadeira de rodas ou deitado numa maca.

Bolsonaro antecipou as linhas gerais do discurso que pretende fazer na ONU. Quer mostrar, com "muito patriotismo", que a Amazônia "foi praticamente vendida para o mundo". Deseja deixar claro que não vai "aceitar esmola de país nenhum a pretexto de preservar a Amazônia". Resistirá porque é por meio desse auxílio externo que, segundo ele, a floresta "está sendo loteada e vendida."

Por trás desse discurso do presidente Bolsonaro estão velhas obsessões do ex-deputado Bolsonaro. Hoje, o presidente se queixa do excesso de reservas indígenas. Em abril de 1998, quando ainda era um deputado do baixíssimo clero, disse na Câmara que "a cavalaria brasileira foi muito incompetente. "Competente", segundo ele, "foi a Cavalaria norte-americana, que dizimou seus índios no passado e hoje em dia não tem esse problema em seu país."

Desde que assumiu o trono, Bolsonaro tenta conciliar duas exigências conflitantes: ser Bolsonaro e exibir o bom senso que a Presidência exige do seu ocupante. Quando fala de Amazônia, o presidente se enche de tambores e clarins. Se disser na ONU 10% do que anuncia, Bolsonaro mostrará que é errando que se aprende… A errar. Fornecerá material para a retaliações contra exportadores brasileiros. Ficará demonstrado que o patriotismo também pode ser uma forma de suicídio comercial.

Por Josias de Souza

DERRETENDO

A mais recente pesquisa feita pelo Instituto Datafolha aponta para um presidente da República que derrete. A rejeição à gestão Jair Bolsonaro nos oito primeiros meses supera os índices de seus antecessores. Mas a mesma pesquisa mostra que, ao mesmo tempo, Bolsonaro mantém um "núcleo de resistência" de apoiadores que beira os 30%. É a velha máxima do copo meio cheio e meio vazio, a depender do ponto de vista.

Em um mês, a rejeição ao governo Bolsonaro passou de 33% para 38%. Entre julho e agosto, o presidente se viu tragado pela crise das queimadas, os discursos anti-ONGs, as brigas com países de primeiro mundo sob alegação de que a Amazônia é nossa. Nesse mesmo período, aumentou o contingente de pessoas que passaram a reprovar a conduta do presidente. O percentual passou de 25% para 32%.

Segundo o levantamento, caso o segundo turno das eleições fosse hoje, Fernando Haddad (PT) venceria Bolsonaro por 42% a 36% dos votos. Outros 18% votariam branco ou nulo e 4% não souberam responder. Nas eleições de outubro passado, Bolsonaro foi eleito presidente com 55,13% dos votos válidos (excluídos brancos, nulos e indecisos). Haddad obteve 44,87%.

Entre aqueles que declararam voto em Bolsonaro no ano passado, 74% manteriam a opção se a eleição fosse hoje. Um total de 10% migraria para Haddad, e 13% votariam branco ou nulo. Já 88% dos eleitores do petista manteriam seu voto hoje. Somam 4% os que mudariam o voto para Bolsonaro e 6% os que votariam nulo ou branco.

A pesquisa revela ainda a queda de desempenho entre aqueles mais ricos, com renda mensal acima de 10 salários mínimos. Neste segmento, a aprovação ao presidente caiu de 52% em julho para 37% agora —bastante significativa, ainda que se mantenha acima da média.

FALANDO EM PESQUISA

Também no último Datafolha, a saúde foi citada como o principal problema do país. Foi mencionada por 18% dos entrevistados, enquanto educação e desemprego foram lembradas por 15% cada. 

NOVA CIRURGIA

O presidente Jair Bolsonaro passará por nova cirurgia em decorrência da facada que levou durante ato de campanha em Juiz de Fora. Essa será a quarta intervenção cirúrgica de Bolsonaro, feita para corrigir uma hérnia surgida no abdômen em decorrência das outras cirurgias. O atentado completa um ano na sexta-feira, e é lembrado, a partir do relato dos médicos, em reportagem da Folha.

CIUMEIRA

Sergio Moro vive um inusitado paradoxo: Popularíssimo na sociedade, ele se tornou um ministro impopular no gabinete do presidente da República, cujo prestígio declina. Segundo o Datafolha, a taxa de aprovação de Moro é 25 pontos maior do que a de Jair Bolsonaro: 54% a 29%. O atrito de Bolsonaro com Moro se deve a dois sentimentos nocivos: a inveja e o medo.

Os governos costumam ter um excesso de cabeças e carência de miolos. O governo de Bolsonaro sofre do mesmo mal, só que opera com uma cabeça só. Bolsonaro é o tipo de político que segue a teoria da palmeira única. Não convive muito bem com a ideia de dividir o gramado com outra palmeira, sobretudo se essa outra árvore tem quase o dobro do seu prestígio.

Da inveja para o medo é um pulinho. O presidente passou a enxergar o ex-juiz da Lava Jato como um potencial rival na sucessão de 2022. Corre o risco de transformar a neurose em realidade. Até outro dia, o sonho de Sergio Moro era fazer um bom trabalho no ministério e ganhar uma poltrona no Supremo Tribunal Federal. Empurrado para escanteio, nada impede que passe a enxergar na política sua melhor alternativa.

Por Josias de Souza

LINGUARUDOS

"O Macron falou que estão colocando fogo na Amazônia. O presidente devolveu, falou que a mulher do Macron é feia. O presidente falou a verdade, ela é feia mesmo. Mas não existe mulher feia, existe mulher observada do ângulo errado. E fica essa xingação", disse o ministro Paulo Guedes, no evento "A Nova Economia do Brasil", na quinta (5), em Fortaleza. Diante da esperada repercussão negativa, o czar da Economia pediu desculpas, dizendo que estava ilustrando um argumento e o objetivo não era fazer ofensas pessoais. O que não importa, pois efetivamente as fez.

Temos um presidente da República que, devido à falta de familiaridade com o debate público respeitoso ou de capacidade de apresentar argumentos para contrapor outros argumentos, apela recorrentemente para o ad hominem – a falácia de negar uma ideia criticando seu autor e não o seu conteúdo. Por exemplo, o governo brasileiro é acusado pelo presidente francês de ser responsável pelo desmatamento e pelas queimadas? Chama-se a mulher do presidente francês de feia. O governo brasileiro é acusado pela alta comissária para os Direitos Humanos da ONU de redução do espaço democrático? Ataca-se o pai de Michele Bachelet que foi executado pela ditadura chilena.

Agora, o ministro da Economia endossa as palavras do chefe. Poderia estar apresentando sua proposta de política nacional para fomentar a geração de empregos com carteira assinada – afinal, faz mais de oito meses que assumiu o posto. De preferência, um projeto consistente, que inclua estímulos para o consumo e investimentos públicos. Mas preferiu estampar as manchetes por um comentário bizarro.

O embaixador francês no Brasil, Michel Miraillet, “caiu em desgraça” no Palácio do Planalto por causa de uma resposta que deu ao presidente Jair Bolsonaro. Em sua transmissão semanal ao vivo no Facebook, Bolsonaro anunciou que doravante não usaria mais a caneta BIC para assinar seus despachos. Por quê? Ora, porque BIC é uma marca francesa. E Bolsonaro se acha em guerra com o presidente francês Emmanuel Macron por conta da devastação da Amazônia. Sem desrespeitar as normas de elegância que orientam a atuação de diplomatas em qualquer parte do mundo, Miraillet postou no Twitter: “Sim, o BIC é francês… mas ele também é brasileiro! O BIC é um dos principais empregadores de Manaus e provavelmente centenas de colaboradores ficarão surpresos com o fato de essa realidade ainda não ter atingido o Planalto”. Diplomatas experientes do Itamaraty comemoraram a resposta sem fazer alarde. Por ali, desde que o embaixador neófito Ernesto Araújo assumiu o Ministério, as normas da boa educação estão em baixa. No site oficial da BIC consta que a empresa está no Brasil desde 1956 e que emprega mais de 1.200 pessoas em diversas regiões do país produzindo itens de papelaria, lâminas e isqueiros.

SEM SAÍDA

Depois de acompanhar a rotina de Tâmara Pereira por 25 dias, João de Mari escreve no Intercept os problemas dessa mulher para cuidar da saúde do pai e dos três filhos, que cria sozinha desde que o caçula (três anos) nasceu. A família mora em Cidade Tiradentes, bairro paulistano. É onde se morre mais cedo na capital de SP, aos 58 anos em média.

Na UBS de referência de Tâmara só há dois médicos responsáveis por atender 9,5 mil pessoas cadastradas. A espera para obter uma consulta dura em média 72 dias, contra 45 no resto da cidade. Se for preciso um especialista, é ainda mais longa.  No bairro, 80% dos residentes dependem do SUS. Mesmo os serviços privados baratos não são uma opção: o pai de Tâmara já cogitou usar o Dr. Consulta, mas um único atendimento lhe custaria 10% do salário de marceneiro. 

À dificuldade para se conseguir uma consulta seguem-se outras, como a compra de remédios que precisam de receitas atualizadas a cada mês. Os dias passam com imensa agonia – as necessidades se acumulam, nada é resolvido e Tâmara ainda está sempre cercada pelo risco iminente de ser demitida da loja onde trabalha porque vive precisando faltar, chegar atrasada ou sair mais cedo para caçar atendimento. No último dia do relato, é justamente isso que acontece.

PARA QUEM VENDEM

Repórter Brasil conseguiu levantar informações apontando que fazendeiros multados por desmatamento vendem para grandes frigoríficos brasileiros, como JBS, Marfrig e Frigol. Mesmo que as três declarem adotar políticas para abolir de suas compras o chamado “boi pirata”, ou seja, produzido em áreas desmatadas sem autorização. 

SHOWZINHO

O ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM-RS), fez um churrasco com convidados seletos do governo de Jair Bolsonaro (PSL). Na festa, estavam os dois irmãos Weintraub, Abraham e Arthur, além dos filhos do presidente, Eduardo e Flávio Bolsonaro. No Twitter, o ministro da Educação publicou um vídeo que mostra Onyx de churrasqueiro cantando “Alegrete”, enquanto os irmãos Weintraub o acompanhavam na gaita e violão. “Fechando o domingo em boa companhia, cantando o Alegrete com amigos”, escreveu o ministro Weintraub. “Somos todos brasileiros e este é o nosso país! Inclusive a Amazônia!”, completou. O ministro fez referência ao embate internacional em torno da floresta que o governo de Jair Bolsonaro tem protagonizado. De acordo com a pesquisa Datafolha divulgada no último dia 1º, o presidente da França, Emmanuel Macron é visto como mais preparado para lidar com o problema do que Jair Bolsonaro. Em outros vídeos, ele aparece ao lado do irmão cantando músicas brasileiras.

DE OLHO NO PAPA

E como se não faltasse mais nada, o presidente Jair Bolsonaro confirmou que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) monitora o Sínodo da Amazônia. O encontro de bispos previsto para ocorrer no mês que vem em Roma vai discutir temas ambientais e é visto com ressalvas pelo governo brasileiro. “Tem muita influência política lá sim”, afirmou o presidente em almoço com jornalistas na tarde do último dia 31, no quartel-general do Exército, em Brasília. Quando questionado sobre o monitoramento da Abin, Bolsonaro afirmou que agência monitora todos os grandes grupos. A declaração do presidente contraria o que o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) informou em fevereiro. Na ocasião, em nota divulgada à imprensa, o órgão a qual a Abin está subordinada negou que o evento fosse alvo de monitoramento. “A Igreja Católica não é objeto de qualquer tipo de ação por parte da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) que, conforme a legislação vigente, acompanha cenários que possam comprometer a segurança da sociedade e do estado brasileiro”, diz trecho do comunicado enviado na época.

PODRE

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, usou suas redes sociais para dizer o que acha de Aldemir Bendine, ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobrás. Depois de condenado e preso por conta dos crimes apontados pela Operação Lava Jato, Bendine acabou tendo uma de suas condenações anuladas pela Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal porque os ministros consideraram que ele teve sua defesa cerceada. Foi a primeira vez que uma condenação feita pelo então juiz e agora ministro da Justiça, Sérgio Moro, foi anulada pela Corte. A decisão preocupa os integrantes da Lava Jato que avaliam que pode abrir o precedente para a revogacão de outras condenações. Ao comentar uma fala de Moro, que argumentara ter sido generoso com a defesa de Bendine e não a cerceado, Weintraub disparou contra o ex-presidente das duas poderosas empresas. “Pensamento da semana: o ministro Sérgio Moro foi ‘generoso’ na avaliação. Tive o desprazer de conhecer o Bendine…gostaria vê-lo apodrecendo na prisão“, escreveu o ministro.

Por Marcelo de Moraes

CORONEL BOLSONARISTA

O Ministério Público Federal (MPF) no Rio de Janeiro denunciou o coronel reformado do Exército Antônio Carlos Alves Correia, com base na Lei de Segurança Nacional, pelo crime de incitação à animosidade entre as Forças Armadas e outros poderes da República, entre eles o Supremo Tribunal Federal (STF). Caso condenado, o oficial da reserva poderá pegar pena prevista de reclusão de 1 a 4 anos. Durante as eleições de 2018, o coronel publicou vídeos ameaçando ministros, como a presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Rosa Weber, e Dias Toffoli, presidente do STF, caso o então candidato Jair Bolsonaro não ganhasse as eleições para presidente da República. Até o então ministro de Segurança Pública, Raul Jugmann, foi alvo das ameaças.  Entre os dias 31 de setembro e 19 de outubro de 2018, durante o período de propaganda eleitoral, o coronel da reserva publicou em seu canal no Youtube oito vídeos com diversas ameaçadas aos ministros do STF e também incitando os demais militares a se engajarem em promover uma intervenção militar.

SALLES E O NAZISTA

O youtuber canadense Stefan Molyneux publicou em suas redes sociais entrevista com o ministro brasileiro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. O vídeo tem duração de 24 minutos e trata da recente crise ambiental envolvendo as queimadas na floresta amazônica, que ganhou repercussão internacional. Stefan Molyneux é autoproclamado filósofo e também já entrevistou o escritor gaúcho Olavo de Carvalho. Em 2012, o youtuber esteve no Brasil e participou de um debate organizado pelo Instituto Mises do Brasil. A instituição promove os valores do mercado livre. Na mídia da América do Norte, Molyneux é conhecido pela sua defesa das ideias supremacistas brancas e também do liberalismo livre da regulação do Estado, além do combate ao chamado marxismo cultural.

Reportagem da CNN, de 2018, relata, por exemplo, que, em agosto de 2017, Molyneux, em uma das entrevistas que fez pelo Youtube, disse que os brancos tentaram semear as sementes da liberdade em regiões não brancas do mundo, incluindo a África do Sul, mas que esses países sofreram "retrocessos" depois que a população branca saiu ou se tornou uma minoria. Ele é apoiador do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e também está no centro do debate sobre o anti-americanismo no Canadá, já que representa a ala dos canadenses que nutrem grande admiração pela política e desejam aumentar a cooperação com o país vizinho.

A entrevista com o ministro Ricardo Salles foi feita virtualmente. O youtuber apresenta Salles como a pessoa que ocupa o cargo mais excitante do planeta nas últimas semanas e questiona sobre a responsabilidade do governo brasileiro pelo desmatamento na Amazônia. Salles responde que desde que os portugueses descobriram o Brasil, apenas 16% da floresta foi desmatada para uso humano. Ele afirma que atualmente 84% da floresta está preservada e que as pessoas que vivem na região sãos as mais pobres do Brasil, sem apoio de nenhuma política pública.

MAIS UM CORTE NAS BOLSAS

A Capes, vinculada ao MEC, anunciou um novo corte de mais 5.613 bolsas de mestrado, doutorado e pós-doc que estavam previstas até dezembro. Junto com os dois anúncios anteriores, o total de bolsas canceladas chega a cerca de 11,8 mil. A medida se deve ao contingenciamento do orçamento da Capes, que este ano perdeu R$ 819 milhões, ou 20% dos R$ 4,2 bilhões previstos.

E vai piorar no ano que vem: o projeto de lei orçamentária prevê que a Capes conte com R$ 2,2 bilhões em 2020, ou seja, quase a metade do que havia sido previsto para 2019 e apenas 64,1% do valor real deste ano, após o contingenciamento. De acordo com o presidente da instituição, Anderson Ribeiro Correia, em 2019 a Capes vai deixar de investir R$ 37,8 milhões de reais em pesquisa. Nos próximos quatro anos, R$ 544 milhões devem deixar de ser investidos em bolsas. A matéria da Deutsche Welle ainda aponta que, hoje, o Brasil investe menos de 1% do PIB na área de ciência, tecnologia e inovação – em comparação, na Europa o percentual médio gira em torno de 3%, enquanto nos EUA é de cerca de 2%.

VACAS MAGRAS

O projeto de lei orçamentária do governo Bolsonaro atingirá, em 2020, algumas das políticas mais populares do PT. O Minha Casa, Minha Vida ficou com R$ 4,6 bilhões. Um corte que pode inviabilizar qualquer novo contrato de construção de moradias, e bem contrastante com a média destinada entre 2009 e 2018 (R$ 11,3 bi). O Fies, para o qual foram aprovados R$ 13,8 bi em 2019, nos planos do governo perderá R$ 3,6 bi no ano que vem. E o Bolsa Família ganhará os mesmos recursos: R$ 30 bilhões… Mas na prática, sem nenhum centavo a mais para corrigir a inflação, o programa sofre um corte. O próprio governo prevê que o atendimento, que hoje abarca 13,8 milhões de pessoas, cairá para 13,2 milhões com esses recursos. 

CONTROLE SOCIAL

Na Câmara, a Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público aprovou o projeto de decreto legislativo 113/19, para suspender aquele decreto presidencial (9.759/19) que acabou com colegiados da administração pública federal, como conselhos, comitês e grupos de trabalho. Para lembrar: o texto assinado por Bolsonaro em abril determinou o fim dos colegiados que não foram criados por lei, caso do Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, por exemplo. O PDL 113/19 será analisado agora pela Comissão de Constituição e Justiça, depois segue para o plenário.

NO MESMO BARCO

Foi lançado o movimento “Direitos Já”, frente suprapartidária e com representantes da sociedade civil criada em defesa do Estado Democrático de Direito. Representantes de 16 partidos declararam apoio à iniciativa, dentre eles Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Eduardo Suplicy (PT), Ciro Gomes (PDT) e Flávio Dino (PCdoB). O evento contou com palestra de Noam Chomsky. 

INGOVERNÁVEL

Segundo o presidente Jair Bolsonaro, o Brasil está “chegando a um ponto quase que da ingovernabilidade no tocante às reservas”, se referindo aos territórios indígenas demarcados. “A intenção dessas grandes reservas, e isso sempre se discutiu na ONU, é que, pela autodeterminação dos povos indígenas, seriam novos países no futuro”, afirmou em entrevista ao canal da apresentadora bolsonarista Antonia Fontenelle.

Por Equipe BR Político

PEGOU MAL

O volume das críticas à indicação de Augusto Aras ao cargo de procurador-geral da República surpreendeu tanto o subprocurador escolhido como o presidente Jair Bolsonaro e a cúpula do Planalto. Ambos esperavam resistência devido à acirrada disputa pelo comando da Procuradoria-Geral da República (PGR) que aconteceu nos últimos meses, mas não no tom e no volume em que vieram. A avaliação no Planalto e de aliados de Aras é que a manifestação em massa de procuradores, principalmente aqueles ligados à Lava-Jato, questionando a indicação de Bolsonaro foi essencial para inflar os apoiadores do presidente nas redes sociais. Apesar das críticas, Aras tem dito a aliados que seu objetivo é pacificar o Ministério Público Federal.

A escolha do subprocurador Augusto Aras para chefiar a Procuradoria-Geral da República desagradou tanto à Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) que a entidade decidiu convocar a classe para um protesto na próxima segunda-feira, 9. “Diante da absoluta contrariedade da classe com a referida indicação, conclama os colegas de todo o país para o Dia Nacional de Mobilização e Protesto, que ocorrerá na próxima segunda-feira (9)”. A ANPR diz que Aras não tem “liderança” para comandar o Ministério Público Federal, que a escolha é resultado de uma “escolha pessoal” do presidente com o escolhido, que o MP é um órgão independente, que a escolha representa “um retrocesso institucional e democrático” e que a decisão de não seguir a lista tríplice, elaborada pela ANPR, “interrompe um costume constitucional de quase duas décadas, seguido pelos outros 29 Ministérios Públicos do país”.

Ao confirmar a indicação do subprocurador Augusto Aras para o comando da Procuradoria-Geral da República, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) afirmou que “uma das coisas conversadas com Aras” foi a questão ambiental. “O respeito ao produtor rural e também o casamento da preservação do meio ambiente com o produtor”, disse. O presidente afirmou já estar “apanhando da mídia” por causa da indicação. “Isso é um bom sinal. Sinal de que a indicação nossa é boa”. A indicação de Aras terá de ser aprovada pelo Senado.

A live de Jair Bolsonaro na quinta-feira (5) teve uma inédita chuva de críticas. Normalmente assistida por seguidores fanáticos do presidente, prontos a elogiar o “Mito” por tudo, a transmissão ao vivo desta semana teve como reações por mais de mil carinhas bravas e muitos comentários enfurecidos. Bolsonaro sentiu o golpe. Sua fala sobre a escolha de Aras foi em tom defensivo e, lá pelas tantas, o presidente chegou a dizer que agora é com o Senado: ele indicou, mas, se os senadores não chancelarem o nome do novo PGR, ele pode indicar outro. Mais explicitamente, o presidente chegou a sugerir que os seguidores irritados apagassem os comentários negativos. “Eu peço a vocês. No Facebook, você fez um comentário pesado, retira, dá uma chance pra mim. Você acha que eu quero colocar alguém lá para atrapalhar a vida de vocês? Não quero!”, afirmou. Foi a mais pesada reação até aqui da base bolsonarista militante virtual.

Por Vera Magalhães

GLENN

O jornalista, advogado e cofundador do site The Intercept Brasil, Glenn Greenwald foi o entrevistado do Roda Viva na segunda passada. Com passagens pelo jornal britânico The Guardian e pelo portal Salon, Greenwald se destacou por conta de suas reportagens sobre a NSA (Agência de Segurança Nacional – EUA), recebeu o Prêmio George Polk de Reportagens sobre Segurança Nacional; o Prêmio de Jornalismo Investigativo e de Jornalismo Fiscalizador da Gannett Foundation; o Prêmio Esso de Excelência em Reportagens Investigativas no Brasil (foi o primeiro estrangeiro premiado); e o Prêmio de Pioneirismo da Electronic Frontier Foundation. Ao lado de Laura Poitras, a revista Foreign Policy o indicou como um dos 100 principais pensadores globais de 2013. As reportagens sobre a NSA para o jornal The Guardian receberam o Prêmio Pulitzer de 2014 na categoria Serviço Público. À frente do Intercept, o jornalista teve atuação decisiva na divulgação das mensagens trocadas entre procuradores da Operação Lava Jato e o ex-juiz e atual ministro da Justiça, Sergio Moro.

Se você assistiu ao vídeo acima percebeu que a atuação dos entrevistadores do Roda Viva ante o jornalista Glenn Greenwald, o obrigou a dar uma aula sobre a profissão. Tentaram colocar Glenn contra a parede, como se o crime nas revelações do The Intercept Brasil, e não no conluio com objetivos políticos, entre juiz e procuradores. As perguntas insistiram na ideia da imprensa corporativa – liderada pela Globo – de defesa cega da Lava Jato. Em vez de colocar na pauta o conteúdo do material obtido por Glenn, que incrimina gente poderosa como o ex-juiz, hoje ministro do governo Bolsonaro, Sergio Moro, elegeram como vilã a forma como o material foi obtido. Não poucas os entrevistadores beiraram a hostilidade, insinuando que Glenn Greenwald teria relação com hackers.

Das 38 perguntas feitas pela bancada do Roda Viva, apenas seis tiveram relação com o conteúdo das ilegalidade reveladas pelas reportagens do The Intercept Brasil, envolvendo Moro e os procuradores liderados por Deltan Dallagnol. As outras 32 foram intimidações para que Glenn falasse sobre suas fontes, preocupação com o futura da Lava Jato, insinuando que Glenn estaria arruinando o combate à corrupção no Brasil. O jornalista mostrou que não: a Vaza Jato fortalece o combate à corrupção ao revelar os métodos corruptos de Moro e da Lava Jato. Glenn teve de repetir conceitos básicos da profissão de jornalista para jornalistas. Foi obrigado a lecionar.

A jornalista Milly Lacombe, da revista TPM, postou em sua conta no Twitter a análise dos entrevistadores do Roda Viva. “O que me causa estranheza – ontem como intuição, hoje como tabulação – é dedicar 84% das perguntas para colocar Greenwald numa parede em que deveriam estar Deltan, Moro e cia”, questionou. Milly lembrou que, naturalmente, questões sobre o método jornalístico apareceriam na entrevista. É de interesse comum. Mas o bizarro foi a atenção total. “Portanto, apenas 16% das perguntas questionaram o conteúdo de revelações que podem mudar a história do Brasil. Eu acho natural que haja perguntas sobre o hacker, sobre os métodos da Vaza Jato, sobre riscos para a Lava Jato. Isso também é jornalismo (…) Isso sem falar na paranoia de um dos jornalistas com o Lula, cujo nome entrava em quase todas as perguntas que ele fazia. Eu acho uma pena”, finalizou.

Ainda sobre a obtenção do material e a obsessão dos entrevistadores, o editor-chefe do The Intercept Brasil, Leandro Demori, ironizou: “Outras perguntas que eu sempre estranho em entrevistas (e foram repetidas no Roda Viva) são as sobre a ética da fonte ou sobre possíveis crimes da fonte, como se jornalistas só trabalhassem com informações obtidas com a Virgem Maria (…) Jornalistas conseguem informações com traficantes, com assassinos, com milicianos e com corruptos de toda sorte. Quantos furos Eduardo Cunha deu para jornalistas brasileiros? Por que isso nunca virou um caso tão debatido assim?”

BABAQUICE E O ESCAMBAU     

O presidente Jair Bolsonaro não mediu palavras em café da manhã com a Folha de S.Paulo. Disse que já acertou com o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, mudança no comando da Polícia Federal, chamou de “babaquice” a reação de integrantes da corporação às declarações dele sobre trocas em superintendências regionais. “Está tudo acertado com o Moro, ele pode trocar [o diretor-geral, Maurício Valeixo] quando quiser”, afirmou. “Essa turma [que dirige a PF] está lá há muito tempo, tem que dar uma arejada”, acrescentou.

De acordo com o presidente, apesar de sua insatisfação, não há, por ora, nenhuma definição sobre prazo de troca na PF. “Mais difícil é trocar de esposa. Eu tive uma conversa a dois com o Moro...[O diretor-geral] tem que ser Moro Futebol Clube, se não, troca. Ninguém gosta de demitir, mas é mais difícil trocar a esposa. Eu demiti o Santos Cruz, com quem tinha uma amizade de 40 anos”, disse, referindo-se à saída, em junho, do seu ex-ministro da Secretaria de Governo.

Bolsonaro não poupou nem mesmo dois de seus principais ministros: Moro e Paulo Guedes (Economia). Segundo o presidente, o ex-juiz da Lava Jato era um “ingênuo” e ainda hoje não passaria em uma sabatina no Senado para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). Já Guedes era um “chucro” até entrar em seu governo.

O presidente foi cáustico ao comentar sobre as possibilidades eleitorais do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), apontado como possível candidato tucano à sucessão presidencial. Segundo ele, Doria não tem chance em 2022 porque é uma "ejaculação precoce". E deveria pensar “talvez” somente nas eleições de 2026. "Ele não tem apoio popular", disse. Bolsonaro contou que pretende concorrer à reeleição “se estiver bem lá”. Na semana passada, o presidente acusou o governador paulista de ter “mamado nas tetas do BNDES” durante os governos petistas, em referência a empréstimos obtidos pelo tucano para financiar a compra de um jatinho. Ele contou também que conversou com Moro sobre uma eventual candidatura ao Planalto. “Já falamos, eu disse para ele que essa cadeira de super-homem é feita de kriptonita. Se quiser sentar, senta.”

Ainda na conversa com os jornalistas Sergio D’Ávila e Leandro Colon, Bolsonaro recorreu a uma metáfora do jogo de xadrez para definir a importância de cada peça em seu governo. “Eu sou o rei, os ministros são os bispos, como a Tereza Cristina [Agricultura], por exemplo. E o PGR é a dama”, disse, querendo se referir à rainha do tabuleiro. Questionado sobre que função teria neste jogo o ministro Sergio Moro (Justiça), o presidente respondeu: “Ele seria a torre”.

Como amanheceu, o ministro Sergio Moro depois que leu a entrevista que o presidente Jair Bolsonaro concedeu à Folha de S. Paulo? Voltou a dormir depois do que leu? Já pensou no que dirá se jornalistas lhe perguntarem a respeito? Sente-se disposto a enfrentar mais um dia de trabalho estafante? O diretor-geral da Polícia Federal é homem de confiança de Moro que o escolheu. Bolsonaro disse que está na hora de tirá-lo. Bem como de arejar a PF trocando os superintendentes. Bolsonaro admitiu que tem um nome para dirigir a PF: o delegado Anderson Gustavo Torres, atual secretário de Segurança do Distrito Federal. E contou o que disse a Moro: “Ninguém gosta de demitir, mas é mais difícil trocar a esposa. Eu demiti o Santos Cruz, com quem tinha uma amizade de 40 anos”.

NINGUÉM QUER

O Datafolha divulgou na quarta-feira (4) novos dados de sua mais recente pesquisa de avaliação do governo de Jair Bolsonaro (PSL). Dessa vez, aponta que mais de 70% dos brasileiros são contra a nomeação do terceiro filho do presidente, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), como embaixador brasileiro em Washington (EUA). Segundo o levantamento, apenas 23% dos entrevistados disseram que ele age bem ao indicar o filho.

SEM PARTICIPAÇÃO, COM PARALISAÇÃO

Essa é mais uma prova de como os conselhos de participação da sociedade civil nas políticas públicas criados por lei – e, portanto, livres dos efeitos do decreto 9.759 na teoria – estão sendo afetados no governo Bolsonaro. O Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente foi criado em 1991. Ao longo de todo o ano, tem tido dificuldade de alcançar o quórum necessário para debater e deliberar sobre qualquer assunto. 

Primeiro porque, em maio, o Ministério da Família, Mulher e Direitos Humanos anunciou (conforme a previsão do decreto presidencial, é bom frisar) a suspensão dos recursos voltados ao custeio de passagens e hospedagem para que conselheiros das diferentes regiões do país pudessem participar das reuniões em Brasília. A Pasta prometeu videoconferência, mas, segundo a Folha, a estrutura nunca foi disponibilizada. 

Em um ato de resistência e sacrifício pessoal, os conselheiros resolveram pagar as próprias passagens. Eles não recebem um tostão para participar do órgão. Mas, mesmo assim, não houve quórum necessário. O motivo? O governo, que tem vários assentos, faltou à reunião. A pauta era discutir um plano de aplicação de recursos do Fundo Nacional para a Criança e Adolescente. O que fazer com R$ 12 milhões (R$ 8,4 mi depois do contingenciamento) segue sem definição.

E, como se não bastasse tudo isso, Ministério de Damares Alves exonerou a secretária-executiva do Conanda, Verena Martins de Carvalho, na semana passada. Sem autorização do plenário do órgão, como prevê o regulamento do conselho. Não é a primeira vez: também na semana passada, causou grande comoção a demissão da coordenadora-geral do Conselho Nacional de Direitos Humanos, Caroline Dias dos Reis, pela mesmíssima caneta. 

UM DIA DE CADA VEZ

Em uma manobra emergencial, o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, remanejou R$ 82 milhões para que o CNPq possa pagar as cerca de 80 mil bolsas financiadas pela agência. O pagamento será feito em outubro, com referência ao mês de setembro. Mas ainda é necessário que o Ministério da Economia dê uma autorização para ampliação do limite orçamentário do CNPq para se concretizar. Para fechar o ano, ainda serão necessários cerca de R$ 250 milhões.  

NÃO VAMOS PAGAR NADA

Mais uma do ministro da Educação, Abraham Weintraub: durante audiência pública no Senado, ele sugeriu que o Revalida seja custeado por quem quer a revalidação do diploma de medicina, e não pelo Estado.  “Estamos falando de R$ 6 mil a R$ 10 mil por pessoa. A minha sugestão: quem vai pagar o exame é o estudante. Ele faz um primeiro exame básico, só de questões, nada de prático. Porque fica barato. Passou, aí, sim, tem o exame técnico, que precisa de laboratório, de banca etc. para ver se esse aluno tem condições de ser médico.” Pela Constituição, o SUS tem a obrigação de ordenar a formação de recursos humanos na saúde…

DECAPITADO

O presidente Jair Bolsonaro exonerou — ou cortou a cabeça, de acordo com palavras dele — Luiz Augusto de Souza Ferreira do cargo de presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI). Pelo Twitter, Ferreira contestou a demissão. Ferreira disse ter sido pressionado por Carlos d Costa, titular da Secretaria de Produtividade, Emprego e Competitividade do Ministério da Economia, para realizar ações “não republicana”, como revelou o Estadão.

SEM GÊNERO

Foi a vez do MEC entrar na mira do presidente Jair Bolsonaro. Na terça-feira (3), o chefe do Executivo escreveu no Twitter que determinou ao Ministério da Educação que prepare um projeto lei proibindo o que ele chama de “ideologia de gênero” no ensino fundamental. Para justificar a medida, o presidente afirmou que a Advocacia-Geral da União (AGU) decidiu que cabe ao governo federal legislar sobre questões de gênero. André Mendonça, atual advogado-geral da União, retuitou o comentário de Bolsonaro.

A declaração segue o estilo “quem manda sou eu” de algumas promessas e medidas recentes do presidente, como a troca do superintendente da PF no Rio de Janeiro, e a ameaça de demitir um secretário do ministério da Economia. No Facebook, o presidente explicou que a AGU não se manifesta de maneira favorável nem contrária à “ideologia de gênero”, somente decide a quem compete legislar sobre o assunto. O presidente diz, então, que determinou que o MEC crie o PL “tendo em vista o princípio da proteção integral da criança e do adolescente, previsto na Constituição Federal”.

Por Equipe BR Político

Na mesma linha que Bolsonaro, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), anunciou a retirada de circulação de um livro didático dedicado a alunos do 8º ano que continha um capítulo sobre identidade de gênero e sexualidade. Doria classificou a ocorrência como um “erro inaceitável”. Apesar dos esforços para se descolar de Bolsonaro para trilhar um caminho mais ao centro mirando 2022, o tucano demonstra que os dois ainda compartilham pautas como essa.”Solicitei ao Secretário de Educação o imediato recolhimento do material e apuração dos responsáveis. Não concordamos e nem aceitamos apologia à ideologia de gênero“, anunciou o governador no Twitter.

BLINDADO

O ex-procurador da República integrante da força-tarefa da Lava Jato, Carlos Fernando dos Santos, hoje aposentado e dedicado a cursos de compliance a empresas, vê nas interferências de Jair Bolsonaro em órgãos de controle, como Coaf e Receita, uma tentativa de blindar o filho investigado por suspeitas da chamada “rachadinha”, em que salários de assessores parlamentares são divididos entre integrantes de gabinete. Questionado se a mão grande sobre as instituições seria para proteger Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), ele respondeu à BBC Brasil: “Para tentar dificultar as investigações em relação ao Flávio Bolsonaro. Infelizmente, uma questão menor, um crime dos mais banais envolvendo políticos, a “rachadinha” dos salários no gabinete, está inviabilizando o combate à corrupção no Brasil”.

INIMIGAS

Não convidem jamais para a mesma mesa as deputadas Joice Hasselmann e Carla Zambelli, ambas do PSL. As duas já não se entendiam desde o início da Legislatura, quando passaram a trocar farpas públicas. A relação azedou de vez hoje quando Joice escreveu no twitter: “Pai bendito, que vergonha”. Referia-se ao episódio do filho da deputada Carla Zambelli matriculado no sexto ano do ensino fundamental do Colégio Militar de Brasília sem que tivesse de passar pelo processo de seleção, como os demais candidatos.

SEM NOÇÃO

FHC DETONA MORO

Para Fernando Henrique Cardoso "foi um erro" Sérgio Moro trocar a magistratura pelo cargo de ministro da Justiça. "Se eu estivesse lá, me demitiria", declarou o ex-presidente tucano em entrevista exibida na madrugada desta quinta-feira no programa Conversa com Bial, da TV Globo. "Fosse eu o presidente, seria um erro também, porque ele é juiz. E um juiz que mostrou ser independente". A condição de magistrado, acrescentou FHC, não dá a Moro qualificação "para o exercício de uma função política." O grão-mestre do tucanato disse ter "a impressão de que o ministro Moro não tem as características de um líder político, tem as características de um juiz."

Também presente ao programa, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) afirmou que Moro "não deveria ter assumido" o ministério. "Não boto muita fé em juiz que rasga a toga e vai servir à política. Acho que, de fato, ele já foi demitido pelos atos, pelos fatos, pelos acontecimentos".

PREVISÍVEL

Um relatório do governo dos EUA afirma que crianças migrantes que foram separadas de seus pais na fronteira com o México no ano passado sofreram estresse pós-traumático e outros problemas graves de saúde mental. O documento se baseou em entrevistas com profissionais de saúde mental que mantiveram interações regulares com as crianças. Um menino de sete ou oito anos (não se tem certeza) achava que seu pai havia sido morto, e ele seria o próximo – precisou de atendimento psiquiátrico de urgência. Outras crianças acreditavam que tinham sido abandonadas pelos pais. E algumas tiveram sintomas físicos devido aos traumas mentais: “Meu peito dói”, “Não consigo sentir meu coração” e “Toda batida do coração dói” eram algumas das frases ouvidas. 

O psiquiatra infantil Dr. Gilbert Kliman, que entrevistou dezenas de crianças migrantes em abrigos, disse à Associated Press que nem todas vão superar isso, mas outras, não: “Quando crianças, eles têm terrores noturnos, ansiedade de separação e problemas de concentração. Quando se tornam adultos, enfrentam maiores riscos de desafios mentais e físicos, da depressão ao câncer.

MAIS UM

O jornalista Fabio Pannunzio, apresentador do Jornal da Noite, anunciou pelo Twitter na noite de quarta-feira (4) que está deixando a TV Bandeirantes após “mais de duas décadas de uma relação muito produtiva e feliz”. O anúncio acontece dois dias após bate-boca com o chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, Fábio Wajngarten, a quem Pannunzio acusou de ser um “dedo-duro intrigante que só sabe pedir cabeças de jornalistas” – depois de uma série de críticas do jornalista ao governo Jair Bolsonaro. O jornalista alega que sua saída da emissora se deu porque precisa “ter, por recomendação médica, uma vida menos tensa e mais pacata”. No entanto, na mesma sequência de tuítes, Pannunzio afirma que fará uma “série especiais de reportagem” e se dedicar a um projeto na internet.

Limpando as gavetas

Após a despedida, Pannunzio voltou às redes para ironizar o bate-boca com Wajngarten, perguntando novamente ao secretário de comunicação de Jair Bolsonaro se ele já havia arrumado as gavetas.

O tuíte remete à discussão, em que Wajngarten mandou Pannunzio perguntar aos diretores da Bandeirantes se eles confirmariam que ele pede a cabeça dos jornalistas. “Se ele confirmar eu me demito. Se ele negar vc se demite, fechado??? Vamos ser objetivos e verdadeiros”, desafiou o bolsonarista. Na ocasião, Pannunzio respondeu: “Pode ir limpando as gavetas”.

CENSURA

Uma exposição de charges foi suspensa Na Câmara de Vereadores de Porto Alegre. Em um dos trabalhos, o presidente Jair Bolsonaro está ajoelhado, lambendo os sapatos do presidente norte-americano Donaldo Trump. Em outro, o ministro Sergio Moro está vestido de super-herói e é representado como um boneco de ar, que está se esvaziando. A exposição reunia 36 trabalhos de 19 autores.

MAIS CENSURA

O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos), determinou aos organizadores da Bienal do Livro da cidade que recolham dos estandes a HQ Vingadores – A Cruzada das Crianças, da Marvel Comics. Em pronunciamento nas redes sociais, afirmou que a história em quadrinhos traz “conteúdo sexual para menores” e deve ser comercializada apenas se embalada em um plástico preto e lacrado, “com aviso sobre seu conteúdo”. A história traz, na verdade, um beijo entre dois personagens LGBT. E só...

NEGRINHO

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, continua a colecionar declarações. Durante debate ontem na Câmara, a deputada Talíria Petrone (PSOL-RJ) o acusou de desconhecer sobre educação pública, disse que ele é contra cotas raciais e também e não tem informações sobre políticas afirmativas no ensino superior. Na sequência, a deputada deixou a comissão por outro compromisso, mas disse que ouviria depois a resposta de Weintraub, que foi a seguinte: “Gostaria que ficasse registrado aqui: meu avô é mais escuro que ela. Quando ela se atribui como defensora do povo negro, não sei quem lhe deu esse cargo. E não existe povo negro. Existe brasileiro de pele escura. Não tem que dividir o povo brasileiro. O negroque está do meu lado é meu irmão. Meu avô era de pele escura. Então, chega desse discurso. Quem deu direito a ela de falar que ela é representante de todos os negros do Brasil. Meu avô era mais escuro que ela” – rebateu o ministro, à sua moda.

Por Radar

LULA E MINO

Mino Carta e Sergio Lirio, diretor de redação e redator-chefe de CartaCapital, entrevistam o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso há mais de 500 dias na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba. Esperançoso, Lula comentou os novos vazamentos da Vaza Jato, pelo site The Intercept, a situação atual da Amazônia e de Jair Bolsonaro. "Meu problema não é o Bolsonaro, meu problema é o projeto que ele representa", afirma.

Com informações de Carta Capital, Outra Saúde, Sul 21, o Globo, BR-18, Folha de SP, Leonardo Sakamoto, Josias de Souza, Fórum, Veja, Dora Kramer, BRPolítico, Vera Magalhães, Marcelo de Moraes, Radar e Bela Megale


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