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Sexta-Feira 18.out.2019

Ano VIII - Nº 367

Poder

O governo Bolsonaro está “transformando” o Brasil em uma Venezuela?

Quando integrantes do governo saem irresponsavelmente falando sobre a possibilidade deste ou daquele país vizinho se converter em uma Venezuela caso vença as eleições um candidato do qual não gostam, o que deveriam fazer antes seria dar uma boa e detida mirada no espelho

Postado em 30 de Agosto de 2019 - Leonardo Sakamoto - UOL

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Parte importante do discurso de Jair Bolsonaro e de sua base de apoio ideológica é a de que, sob o PT, o Brasil estava a caminho de se tornar uma Venezuela. A estratégia costuma ser eficaz, pois ninguém quer se tornar a Venezuela – pelo menos não hoje, um país em profunda crise política e econômica, presa pelo jugo do regime falido e autoritário de Nicolás Maduro, que há anos vem rasgando a Constituição de seu país, que vive miséria e corrupção em larga escala.

No entanto, a obsessão de Bolsonaro e de vários dos seus ministros pela Venezuela pode ter raízes psicológicas mais profundas. Há farta literatura sobre o fenômeno em que pessoas costumam acusar outras de defeitos que elas próprias têm em alto grau. Quer esse fenômeno esteja por trás da obsessão ou não, o fato é que, com o passar do tempo, o governo brasileiro vai dando mostras que o bolsonarismo é primo-irmão do bolivarianismo madurense.

Sob o risco de se tornar um pária global com as críticas pelo aumento no desmatamento e das queimadas na Amazônia, o governo Bolsonaro dispara contra o mundo. Aponta para um complô a fim de internacionalizar a região e retirar a soberania do nosso país sobre o território, coisa que nunca esteve em discussão.

O bolivarianismo, criado pelo ex-presidente Hugo Chávez e endurecido sob o comando de seu sucessor, tem diversas características que o definem. Mas também definem o bolsonarismo. Abaixo, listo algumas das principais, que, imagino falarão por si mesmas:

1) Histrionismo verbal e provocação de brigas: tanto Chávez quanto Maduro são conhecidos por sua incontinência verbal. Ataques virulentos aos opositores e pouca aversão ao ridículo. Enquanto Chávez chamava os Estados Unidos de "O Grande Satã", e levou um "por que no te callas" do Rei da Espanha (sim, aquele que caçava elefantes), Maduro, entre incontáveis desarranjos verbais, chegou a dizer que o espírito de Chávez, depois de morto, falou com ele na forma de um passarinho. Bolsonaro, por sua vez, como este blog vem registrando, insulta qualquer um que o questione, ataca parlamentares periodicamente, xinga a sociedade civil, transforma o "golden shower" em pauta nacional, desmarca audiência com um chanceler estrangeiro para cortar o cabelo. Levou o cocô ao centro de sua retórica de governo. Literalmente.

2) Terceirização das responsabilidades e teoria da conspiração: Maduro sempre dá um jeito de culpar os Estados Unidos e as "conspirações capitalistas" pelos efeitos de seus erros. Bolsonaro, ao invés de admitir que sua forma de conduzir a política ambiental para a Amazônia é desastrosa e implementar mudanças, dá um jeito de colocar a culpa em ONGs, em uma suposta conspiração do marxismo cultural e em maquinações do Foro de São Paulo (na verdade, um congresso inexpressivo de burocracias de partidos da esquerda na América Latina). Em ambos os casos, isso ajuda a manter coesa sua base de apoio e em estado de alerta seus seguidores mais fiéis.

3) Militarismo: Chávez era coronel aposentado, mas o mais importante é que trouxe as Forças Armadas para o centro de seu governo. Seu sucessor, Maduro, apesar de civil, manteve e ampliou essa característica, loteando os cargos de primeiro escalão a generais, e oficiais de patente mais baixa "aparelharam" diversos ministérios. Bolsonaro hoje tem mais ministros fardados do que os próprios ditadores do regime militar: dos 22 ministros, seis vieram das Forças Armadas e um da Polícia Militar, trazendo inúmeros oficiais de mais baixa patente para ocupar cargos os mais diversos. Levantamento do jornal O Globo apontou que o total de militares da ativa cedidos ao governo federal cresceu 13,7% nos primeiros seis meses de Bolsonaro. Isso sem contar que o vice-presidente é um general da reserva.

4) Ocultação e desmoralização de dados oficiais: o chavismo, quando começou a receber más notícias econômicas, preferiu matar o mensageiro: interveio em institutos de pesquisa e estatística, questionava os próprios dados e buscou reconstruir essas instituições com dados maquiados e sem a menor credibilidade – no que foi imitado, embora em menor grau, também pelos governos kirchneristas na Argentina. Bolsonaro, em questão de meses, demitiu o cientista que dirigia o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais por não gostar de seus números prévios sobre desmatamento na Amazônia.

Também disse a metodologia de cálculo de desemprego do IBGE está errada porque não concorda com ela. Enquanto isso, o general Augusto Heleno disse que as taxas de desmatamento são infladas; o ministro Osmar Terra não confia em pesquisas da Fiocruz, instituição de renome internacional; o chanceler Ernesto Araújo não acredita em mudanças climáticas e diz que estações de medição de temperatura que estavam no "mato" hoje estariam no "asfalto"; Paulo Guedes menosprezou a importância do Censo.

5) Erosão das instituições democráticas: no que talvez seja a característica mais desabonadora do regime de Maduro na Venezuela, as instituições democráticas tradicionais foram sofrendo um ataque progressivo pelo poder central, seja pelo uso abusivo da máquina, seja por meio do esvaziamento de instituições representativas. A Assembleia Constituinte, ligada ao governo, passou a substituir, na prática, o Congresso Nacional – controlado por adversários políticos. Parte da oposição venezuelana também não é democrática, o que dificulta as coisas por lá. De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, as violações são sistemáticas, com ataques, tortura e morte de opositores a Maduro.

Bolsonaro vem intervindo no funcionamento de órgãos que atuam no combate à corrupção, como a Polícia Federal e o Coaf, sendo acusado de atuar para evitar investigações relacionadas a seu filho senador. Enquanto isso, apoia manifestações de rua que defendem emparedar o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal – atos que contaram, inclusive, com a presença de ministros de seu governo. O bolsonarismo, como o bolivarianismo de Maduro, trabalha com a ideia de revolução popular, com sinal ideológico trocado. Bolsonaro tirou o apoio ao mecanismo nacional de combate à tortura, tendo sido cobrado pela ONU por conta disso, além de atacar sistematicamente opositores.

6) Ataque à imprensa livre: O bolivarianismo de Maduro tem sido acusado de cercear a liberdade de imprensa, fechando veículos de comunicação e criando entraves ao trabalho de jornalistas, o que inclui aprisionamento, interrogatórios e deportações de profissionais estrangeiros. Bolsonaro, desde que assumiu o governo, vê a imprensa livre e crítica não como um dos pilares da democracia, mas como um inimigo a ser combatido. Insulta, ataca e difama jornalistas e tem dito que certas políticas tomadas pelo seu governo tem o objetivo de enfraquecer jornais. Ele tem sido especialmente agressivo com jornalistas mulheres, como foi o caso de Miriam Leitão, Talita Fernandes, Marina Dias e Constança Rezende – só para citar casos deste ano. No ranking global de liberdade de imprensa da organização Repórteres Sem Fronteiras, em 2019, o Brasil ficou na 105a posição, de 180 países avaliados, enquanto a Venezuela está na 148a posição. A expectativa é de que nossa posição caia ainda mais este ano.

Em suma: quando integrantes do governo saem irresponsavelmente falando sobre a possibilidade deste ou daquele país vizinho se converter em uma Venezuela caso vença as eleições um candidato do qual não gostam, o que deveriam fazer antes seria dar uma boa e detida mirada no espelho.


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