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Segunda-Feira 09.dez.2019

Ano VIII - Nº 374

Poder

Insatisfação na PF chega à cúpula, que ameaça deixar cargos se diretor-geral for afastado

Após interferir na Superintendência do Rio, Bolsonaro afirmou que poderia tirar Maurício Valeixo do cargo

Postado em 30 de Agosto de 2019 - Jailton de Carvalho (O Globo), BR Político

Foto: O Globo Foto: O Globo

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Os embates com o presidente Jair Bolsonaro e as derrotas no campo político são duas fontes de desgaste do ministro da Justiça, Sergio Moro, mas não são as únicas. Nos últimos dias delegados começaram a fazer, discretamente, críticas à atuação de Moro em relação à tentativa de Bolsonaro de emplacar o nome do futuro superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro, nem que para isso tenha que demitir o diretor-geral da instituição, Maurício Valeixo. Uma saída de Valeixo com um contexto político e sem justificativa razoável poderia gerar uma debandada em cargos-chaves da PF em solidariedade.

A insatisfação com Moro não se limita mais aos meios sindicais. Alguns delegados, até mesmo do alto escalão, se queixam do silêncio do ministro diante das declarações de Bolsonaro. Estes policiais esperavam que Moro fizesse uma defesa “enérgica” da PF ainda na semana passada, o que não aconteceu. Só na manhã desta terça-feira, cinco dias após a última ameaça de Bolsonaro de afastar o diretor-geral, é que Moro defendeu o “extraordinário trabalho” de Valeixo à frente da PF.

“Alguns policiais queriam que ele (Moro) fosse mais incisivo na defesa da PF”, disse um delegado.

Um eventual afastamento de Valeixo por motivos políticos poderia levar outros diretores a deixar o cargo. Um deles chegou a dizer, em resposta a uma pergunta do GLOBO, que estaria na leva de demissionários. Os delegados entendem que é natural um presidente trocar um diretor da PF. Mas dizem que não poderiam aceitar uma mudança no comando da instituição sem uma boa explicação. Caso contrário, poderia parecer que, de fato, a polícia estaria sofrendo uma intervenção externa.

A Polícia Federal também reconhece a influência histórica de políticos na escolha de alguns cargos, sobretudo de superintendentes. Em geral, diretores procuram indicar para a chefia das superintendências delegados com bom trânsito com autoridades estaduais, sobretudo com governadores. Mas, em geral, a participação dos políticos vem sempre como uma sugestão, quase sempre em caráter reservado. Nunca como uma imposição como, supostamente, Bolsonaro queria fazer.

Alguns delegados, no entanto, minimizam as tensões. Para eles, o presidente abriu as baterias contra alguns cargos de comando na Polícia Federal, mas o alvo indireto dos ataques seria mesmo Moro. As últimas pesquisas de opinião mostram que as ações na área da segurança estão entre as mais bem avaliadas do governo federal e que Moro também continua com índices de aprovação melhores que de Bolsonaro.

Moro relativiza

Após uma “DR” com o presidente Jair Bolsonaro, no último dia 27, Moro foi reticente no dia seguinte, ao ser questionado sobre a possibilidade de Valeixo continuar no cargo depois que o inquilino do Palácio do Planalto indicou que pode haver troca no comando da corporação em mais um sinal de enfraquecimento da relação com o ex-juiz. “Veja, como eu tenho as várias funções aqui do Ministério da Justiça, as coisas eventualmente podem mudar, mas ele (Valeixo) está no cargo, permanece no cargo, tem a minha confiança”, disse o ministro à Globonews nesta tarde.

No entanto, a superintendência da PF no Rio deve ser trocada. Sairia Ricardo Saadi, cuja produtividade foi questionada por Bolsonaro, gerando forte repúdio de policiais federais e agravando a queda de braço com Moro, e entraria Carlos Henrique Oliveira de Souza, atual chefe da instituição em Pernambuco, informa a colunista Bela Megale, do jornal O Globo. Bolsonaro, no entanto, queria outro nome para a PF do Rio. A definição dos superintendentes regionais é de responsabilidade apenas do diretor-geral da Polícia Federal. O órgão é vinculado ao Ministério da Justiça, chefiado por Moro.


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