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Quinta-Feira 21.nov.2019

Ano VIII - Nº 372

Brasil

Wajãpi questionam investigação sobre morte de cacique: “Temos certeza que invasores entraram na nossa terra”

Indígenas questionam laudo sobre morte de Emyra Wajãpi e rumo das investigações, que ignoram relatos e indícios de invasão a sua terra indígena

Postado em 29 de Agosto de 2019 - CIMI

Povo Wajãpi, durante comemoração dos vinte anos da demarcação de sua terra, em 2016. Foto: Rede de Cooperação Amazônica (RCA) Povo Wajãpi, durante comemoração dos vinte anos da demarcação de sua terra, em 2016. Foto: Rede de Cooperação Amazônica (RCA)

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Após a divulgação de um laudo preliminar da Polícia Federal (PF) sobre a morte da liderança Emyra Wajãpi, que apontou a causa da morte como afogamento, o Conselho das Aldeias Wajãpi (Apina) emitiu uma nova nota, questionando as conclusões dos investigadores.

Logo depois da divulgação dos resultados do exame necroscópico, o Ministério Público Federal (MPF) do Amapá informou que sua principal hipótese investigativa sobre o caso passava a ser a de acidente, descartando a investigação sobre um possível assassinato.

“Entendemos que o laudo da Polícia Técnica que concluiu que a causa da morte do chefe Emyra foi afogamento não significa que esta morte tenha sido por acidente, pois o laudo também confirma ferimentos na cabeça”, questionam os Wajãpi na nota.

Apesar de descartar a hipótese de assassinato, o laudo da PF confirma o período da morte indicado pelos indígenas, entre os dias 21 e 23 de julho.

“Continuamos acreditando na versão da família do chefe de que a morte foi violenta, pois vimos as imagens do corpo onde aparecem marcas de pancadas na cabeça, cortes atrás da orelha e abaixo do olho e um furo no pênis que parece ter sido feito por uma faca”, sustentam os indígenas.

O Apina ainda destaca que o corpo da liderança foi encontrado em um igarapé raso, “onde é muito difícil uma pessoa adulta se afogar por acidente”. As imagens mencionadas pelos Wajãpi foram entregues à PF, à Funai e à Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados (CDHM).

“Os homens já voltaram a caçar e as mulheres já estão indo para suas roças, mas todos ainda continuam preocupados porque não temos certeza que os invasores realmente foram embora”

Presença de invasores

Os indígenas também reafirmam os relatos sobre a presença de invasores na Terra Indígena (TI) Wajãpi. Segundo o MPF, as diligências terrestres e aéreas da PF, realizadas com apoio da Secretaria de Estado da Justiça e Segurança Pública do Amapá, “não detectaram indícios da ocorrência dos crimes [de invasão]”.

Os Wajãpi já questionaram o fato de que, quando esteve na terra indígena, a polícia não quis seguir os rastros identificados e indicados pelos indígenas como possivelmente deixados pelos invasores. Para comprovar, publicaram vídeos mostrando esses indícios no canal do Apina no youtube.

“Temos certeza que invasores entraram na nossa terra, conforme ouvimos de testemunhas que viram essas pessoas na região da aldeia central Mariry e próximo à aldeia CTA, na região da BR 210”, reafirmam os indígenas. Em outra nota, eles relataram que os invasores chegaram a tomar uma das aldeias localizadas em seu território.

Além do testemunho dos indígenas que viram invasores, os rastros indicados pelos Wajãpi aos policiais incluíam pegadas de botas, galhos quebrados e trilhas abertas na mata pela passagem de pessoas.

“Ao abdicar da ideia de que faz parte da natureza, o homem urbano perdeu a capacidade de ler os seus sinais”, escreveu Sônia Guajajara, da coordenação da Apib, em artigo sobre o tema. “O mais provável é que os policiais foram incapazes de enxergar as evidências apontadas pelos Wajãpi. O que para os meus parentes era claro, para eles era grego”.

Outro esclarecimento feito pelo Apina na nota é sobre as informações que circularam, caracterizando os invasores como “garimpeiros”. Eles explicam que, devido a um histórico de invasões e conflitos relacionados ao garimpo, “garimpeiro”, na língua Wajãpi, é sinônimo de invasor – o que não significa que os invasores de agora sejam, de fato, garimpeiros.

“A palavra ‘garimpeiro’ foi usada por alguns Wajãpi para se referir a estes invasores porque desde o tempo da invasão do nosso território por garimpeiros, na década de 1970, acostumamos a usar esta palavra para falar na nossa língua sobre qualquer pessoa estranha que entra na nossa terra sem autorização”, explicam os indígenas.

Além de reafirmarem, mais uma vez, que seu território foi de fato invadido em julho, os Wajãpi informam que “desde o dia 7 de agosto nossos guerreiros pararam de realizar buscas porque não foram encontrados novos rastros”.

“Os homens já voltaram a caçar e as mulheres já estão indo para suas roças”, prossegue a nota do Apina, “mas todos ainda continuam preocupados porque não temos certeza que os invasores realmente foram embora”.

“Também constatamos que houve invasão, sim, das terras Wajãpi, o que deixa os indígenas em situação de vulnerabilidade”

Diligência e questionamentos

Em nota, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) pede que “as investigações sejam realizadas de maneira séria e responsável” e afirma que “a perícia foi encaminhada de forma duvidosa e tem como objetivo descredibilizar a palavra dos indígenas e também encerrar as investigações, como já vem sendo tentado por autoridades, imprensa local, e especialmente, pelo governo federal”.

Após diligência ao Amapá, realizada no último final de semana, a CDHM também questionou as conclusões do laudo oficial e pediu mais investigações sobre morte de Emyra Wajãpi.

“A CDHM questiona as conclusões da Polícia Federal e recomenda o aprofundamento das investigações, porque o que se tem até agora não é suficiente para chegar às verdadeiras causas”, afirmou Camilo Capiberibe (PSB-AP). “Também constatamos que houve invasão, sim, das terras Wajãpi, o que deixa os indígenas em situação de vulnerabilidade. Queremos que as medidas de segurança na área sejam ampliadas”.

A deputada Joenia Wapichana (Rede-RR), que também participou da diligência, afirma que “ainda é preciso que seja esclarecido todo o caso para evitar qualquer tipo de dúvida sobre o trabalho investigativo, inclusive porque não foi feita uma perícia do local onde o corpo foi encontrado e o vídeo mostra que o corpo sofreu violência”.


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