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Terça-Feira 22.out.2019

Ano VIII - Nº 368

Brasil

Queimadas na Amazônia não são naturais e têm impacto global, afirma pesquisador

Sem extensão conhecida, chamas em áreas de desmatamento podem atingir florestas primárias até o fim da época de seca. Estrago tem poder de varrer árvores do mapa de forma definitiva e afetar a biodiversidade da região

Postado em 29 de Agosto de 2019 - Geisa Marques e Guilherme Henrique (Brasil de Fato), Nádia Pontes (DW)

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Os resultados da destruição da Floresta Amazônica extrapolam os limites geográficos das localidades atingidas diretamente e podem causar impactos negativos em todo o planeta. Essa é avaliação do professor e pesquisador Wagner Costa Ribeiro, do curso de Geografia da Universidade de São Paulo (USP).

De acordo com Ribeiro, os impactos das queimadas que atingem a maior floresta tropical do mundo podem ser compreendidos em três níveis: local, nacional e global.

Na escala local, o pesquisador ressalta o empobrecimento do solo, que pode levar a um crescimento ainda maior das áreas desmatadas.

“Nós sabemos que o solo amazônico é muito pobre, então, se você tira a cobertura vegetal, ele não tem capacidade de regeneração. Com isso, ele pode permitir uma ou outra safra, e esse é um dos fatores que leva sempre à expansão. Se introduz o gado, depois a soja, o e solo começa a ficar pobre em nutrientes, aí você tem que entrar com os agrotóxicos ou então acaba ocorrendo mais desmatamento para manter a produção”, explica.

A perda da biodiversidade como consequência da destruição da floresta, por sua vez, interfere na dinâmica atmosférica. A escuridão que tomou conta de cidades do estado de São Paulo no meio da tarde do dia 19 de agosto é um exemplo prático de como acontece essa interferência.

“Esse lamentável episódio trouxe claramente a possibilidade de visualizar que há uma dinâmica atmosférica. Nesse caso, veio a fuligem e a fumaça, mas também pode vir em forma de chuva. Há uma série de elementos que são gerados na floresta e que chega às regiões Sul e Sudeste. Esses serviços ambientais que a Amazônia fornece, que viabilizam, de certo modo, a agricultura, são muito afetados com as queimadas”, pontua o pesquisador.

O outro ponto destacado por Wagner Ribeiro é o impacto em escala global. Em primeiro lugar, é preciso lembrar que a Amazônia não é o “pulmão do mundo”, uma vez que a maior parte do oxigênio produzido pela floresta é absorvido por ela mesma.

Mas, como destaca o professor, as árvores têm um papel fundamental na regulação do clima global, uma vez que elas funcionam como um grande estoque de carbono (CO2).

“Quando você tem a derrubada de vastas áreas, esse volume de CO2 que estava estocado nas árvores é jogado na atmosfera, e isso faz com que a gente tenha mais um vetor para agravar o aquecimento global, já que o CO2 é um dos gases do efeito estufa.”

Queimadas não são naturais

Wagner Ribeiro também afirmou que as queimadas na Amazônia não são naturais e tratam-se de uma questão política.

Ele elencou uma série de ações, que associadas ao discurso do presidente Jair Bolsonaro, contribuíram para o cenário visto atualmente. Entre elas, o desmonte de instrumentos de fiscalização e a desqualificação de dados sobre desmatamento divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

"Não teve nada de natural nesses incêndios. Ainda que tivesse surgido um foco, não seria da dimensão que acabou ocorrendo. Isso mostra que, de certa maneira, parte da população, especialmente as camadas mais abastadas que têm na terra fonte de riqueza, acabou sendo estimulada a atear fogo na floresta, e as consequências a gente está verificando agora", acrescenta. 

A ajuda proposta pelos países integrantes do G7, bloco liderado pelo presidente francês, Emmanuel Macron, que reúne as maiores economias do mundo, também foi abordada pelo pesquisador. De acordo com ele, a cooperação é bem-vinda e, nesse caso, deve ser distinguida de ingerência internacional.

“Esse alerta [de que a Amazônia tem interesse internacional] está posto, e não é de hoje. Nesse aspecto, é preciso distinguir o tipo de cooperação com ingerência. A cooperação é muito importante, mas é evidente que a gestão da Amazônia deve ser feita pelos países Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA).”

A OTCA é uma instituição intergovernamental composta por oito países-membros: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela. Segundo Ribeiro, atualmente o grupo está fragilizado.

“A instituição não tem um corpo técnico e vive de episódios e recursos internacionais. É preciso qualificar a OTCA para que os países possam articular um pacto de proteção e desenvolvimento da Amazônia, que mantenha a floresta em pé”, finaliza.

Danos irreversíveis

Sem extensão conhecida, chamas em áreas de desmatamento podem atingir florestas primárias até o fim da época de seca. Estrago tem poder de varrer árvores do mapa de forma definitiva e afetar a biodiversidade da região.

O estrago causado pelo fogo que vem consumindo a Amazônia nas últimas semanas deve permanecer desconhecido por muito tempo. Até novembro, quando acaba a estação seca, as queimadas provocadas em pastos ou no que sobrou de áreas desmatadas podem invadir zonas de floresta fechada e provocar danos irreversíveis, preveem especialistas.

"A gente não sabe bem o quanto essas queimadas que estão acontecendo nessas fronteiras agrícolas vão escapar e causar incêndios florestais", afirma Paulo Brando, cientista do Woods Hole Research Center e do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).

Por enquanto, satélites identificam a existência de fogo na vegetação. O sistema de monitoramento do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) não avalia, contudo, o tamanho da área que está queimando ou a condição de "saúde" dessa vegetação.

Os pontos em chamas sobre o mapa do Brasil despertaram comoção internacional. De janeiro a agosto de 2019, o aumento no número de focos de queimadas no Brasil foi de 82% em relação ao mesmo período de 2018. O mês de agosto já é o pior dos últimos nove anos: são quase 26 mil pontos registrados somente na Amazônia.

O cálculo da área devastada pelas queimadas é mais complexo. "Trabalha-se com imagem de alta resolução, analisando a resposta da vegetação ao fogo, e não o fogo em si", detalha Brando.

Em termos de área, 1998 foi um dos anos mais destrutivos: 40 mil quilômetros quadrados de florestas foram queimados, mais de quatro vezes o desmatamento registrado no ano passado.

Na Amazônia, zona de floresta úmida, o fogo é associado ao desmatamento e áreas degradadas. "Quando a pessoa desmata, ela queima depois para limpar", explica Paulo Barreto, pesquisador do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).

Com uma tendência de aumento desde 2012, a expectativa é que a taxa de desmatamento em 2019 seja uma das maiores dos últimos anos.

Acúmulo de problemas

Conforme a floresta primária se fragmenta devido a clareiras abertas por desmatamento e garimpo ilegal, por exemplo, as "bordas" aumentam, e as árvores ficam mais secas e inflamáveis.

"Florestas degradadas ficam mais sujeitas ao fogo por causa do dano causado, principalmente por conta da extração de madeira", comenta Paulo Barreto, do Imazon.

Em anos secos, a floresta fica mais estressada e segue uma estratégia para sobreviver. Para diminuir sua demanda por água, ela joga fora suas folhas. Sem a proteção das copas das árvores, o solo também recebe mais luz do sol, ou radiação.

É a combinação para o fogo sair da fronteira agrícola e destruir florestas primárias. "Para ter incêndio florestal, tem que ter fonte de ignição", comenta Brando. As folhas secas no chão, a temperatura mais alta e a floresta fragmentada fazem com que o fogo arda por vários dias. 

Consequências drásticas

Testes feitos no Mato Grosso pela equipe de Paulo Brando mostram que a resposta ao fogo pode ser abrupta. "Em anos de seca, a mortalidade pode chegar a 90% das árvores, principalmente na borda da floresta", diz um estudo científico publicado recentemente, mencionando os impactos das queimadas.

Com a alta mortalidade, a paisagem muda drasticamente. "A gente observou a invasão de gramíneas na floresta, viu uma redução bastante grande na biodiversidade, no número de espécies", explica Brando.

Nessas condições, o fogo pode varrer do mapa a floresta densa que já ocupou a área atingida. "Nove anos depois dos experimentos, vimos uma degradação prolongada. A gente continuou observando a mortalidade das árvores grandes. A expectativa de vida das árvores foi encurtada bastante", diz o pesquisador sobre os efeitos irreversíveis.

Em áreas onde houve uma certa recuperação após o fogo, a análise mostrou que florestas da Amazônia degradadas levam pelo menos sete anos para recuperar a capacidade de bombear água para a atmosfera e absorver carbono.

Estudos feitos na região com a participação de pesquisadores da Universidade Federal de Lavras (UFLA) indicaram que a biodiversidade é bastante afetada depois da passagem do fogo.

Mesmo que parte da estrutura da floresta retorne, a diversidade de espécies das árvores pode não se restabelecer. Segundo os pesquisadores, a complexidade da floresta tropical mais biodiversa do mundo não permite uma recuperação fácil.

E as condições climáticas na região não são mais as mesmas de décadas passadas. A Amazônia já está um grau mais quente em relação aos últimos 60 anos, e a estação seca já aumentou em média três semanas nos últimos 40 anos, pontua Brando.

As queimadas podem deixar a floresta tão degradada que ela já não tem mais cara de floresta. A invasão de gramíneas e a perda da diversidade das espécies não permitem que a floresta volte a ser densa – o que são impactos irreversíveis nesse cenário de temperatura subindo e estação de seca mais prolongada.

"É um processo não linear", diz Brando, sobre os impactos de queimadas na floresta. "E quanto mais a gente muda o clima, maior é a chance de essas transformações serem abruptas."


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