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Segunda-Feira 16.set.2019

Ano VIII - Nº 363

Poder

Pressionado, Sergio Moro não tomará iniciativa de sair do governo

Pessoas próximas ao ministro dizem que Bolsonaro terá de assumir o desgaste de demitir seu auxiliar de maior popularidade

Postado em 23 de Agosto de 2019 - Jailton de Carvalho (O Globo) e Josias de Souza (UOL)

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Já se sabia que Bolsonaro havia jogado Sergio Moro na frigideira. Descobre-se agora que o presidente aderiu à cozinha experimental. Implantou no seu governo uma inovação culinária. Depois de verificar que o ex-juiz da Lava Jato exibe uma resistência incomum ao óleo quente, Bolsonaro decidiu testar a fritura por micro-ondas.

Empurrou o ministro para dentro do forno ao insinuar que, se lhe encherem o saco com as intervenções que realiza na Polícia Federal, pode atropelar Moro para trocar o próprio diretor-geral do órgão, Maurício Valeixo. Bolsonaro virou o botão para a temperatura máxima ao dizer coisas assim: "Está na lei que eu que indico, não o Sergio Moro". Ou assim: "Ele é subordinado a mim, não ao ministro. Deixo bem claro isso aí."

Bom, já não há espaço para dúvidas. O que está em jogo não é o pescoço do superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro ou o escalpo do diretor-geral da polícia. Quem frequenta o noticiário com a cabeça a prêmio é o próprio Sergio Moro. Bolsonaro parece decidido a tostar o auxiliar antes de descartá-lo.

Bem passado, Moro teria, na visão do presidente, menos condições de virar um adversário político. Diante da operação culinária executada por Bolsonaro, Moro pode optar por dois caminhos: ou pede para sair ou opta pelo cinismo, e vai desfrutar da ilusão de que um pedaço de carvão pode ser ministro de Estado.

Moro deve aguentar calado derrotas e desautorizações públicas a que vem sendo submetido pelo presidente. O chefe do Executivo terá que assumir o desgaste de demitir o ministro mais popular da Esplanada se quiser ver Moro fora do governo e, claro, explicar os motivos da demissão. Quem diz isso são pessoas que convivem com o ministro.

Na quinta-feira (22), mesmo depois das declarações de Bolsonaro sobre a possibilidade de trocar o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Maurício Valeixo, Moro manteve a agenda sem qualquer alteração. Participou de duas solenidades e várias reuniões com auxiliares e com parlamentares. Reservado, o ministro não explicitou críticas ou queixas.

Interlocutores de Moro consideram que as declarações de Bolsonaro têm sido excessivas, sobretudo sobre mudanças na PF. Para eles, o presidente estaria interessado em “desidratar” o ministro para que não faça sombra sobre ele. Bolsonaro estaria de olho em 2022 e não quer, segundo esses interlocutores, nenhum concorrente forte por perto.

Tão reservado quanto Moro, o diretor da PF também decidiu se manter em silêncio. Depois da nota da semana passada na qual desmente Bolsonaro sobre as razões da troca do superintendente no Rio , Ricardo Saadi, Valeixo e os demais diretores resolveram aguardar os movimentos do presidente sem fazer novas manifestações públicas. Na nota, Valeixo disse que Saadi deixaria o cargo por vontade própria. Na quinta-feira passada, Bolsonaro afirmou que o delegado sairia por problemas de “gestão” e “desempenho”.

As declarações de Bolsonaro sobre Saadi foram as primeiras manifestações públicas de um presidente da República sobre um cargo de segundo escalão da Polícia Federal.

A praxe

Em geral, políticos, sobretudo governadores, tentam influenciar na indicação de superintendentes. Mas isso é feito, em geral, de forma indireta. E a cúpula da polícia evita indicar para as superintendências delegados sem bom trânsito com administradores locais, especialmente governadores.

Ao anunciar a saída de Saadi e mencionar um outro nome para o cargo, diferente do escolhido pelo diretor-geral, Bolsonaro interferiu na administração interna da polícia. Valeixo e os demais diretores teriam se sentido atropelados pela imposição do presidente. Da mesma forma, Bolsonaro teria se sentido afrontado pela nota em que a PF informa sobre os motivos da troca de comando no Rio e indica o nome do sucessor de Saadi, diferente do que o presidente anunciara.


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