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Sábado 21.set.2019

Ano VIII - Nº 364

Poder

Agronegócio sente pressão internacional e já se afasta de Bolsonaro

Brasil não precisa desmatar mais para ampliar produção, afirma presidente da Sociedade Rural Brasileira

Postado em 23 de Agosto de 2019 - Mariana Schreiber (BBC News Brasil) e Fórum

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Os discursos do presidente Jair Bolsonaro (PSL) com relação à política ambiental do país tem preocupado autoridades e empresários do agronegócio, em especial os exportadores. A percepção é de que o setor corre sério risco de sofrer boicotes internacionais, como já tem acontecido na área de proteção ambiental, e que será necessário agir sem o apoio do presidente.

O chefe da Associação Brasileira do Agronegócio, Marcello Brito, disse em entrevista ao Valor que acredita ser “questão de tempo” tais boicotes e que “vai custar caro ao país reconquistar a confiança de alguns mercados”.

“Precisamos parar com essa mania de achar que o Brasil é o único produtor mundial de alimentos e que, se a gente não fornecer, ninguém o fará. A lei de mercado é clara: deixe um espaço vazio e alguém irá ocupar”, afirmou Brito. Para ele, o setor precisará trabalhar “de forma uníssona” para tentar reverter os danos causados pela percepção sobre a política ambiental do governo. “Não podemos transformar o presidente da República”, disse.

A exigência de um agronegócio que seja pautado na proteção ambiental é algo trivial fora do Brasil. No entanto, sustentabilidade é um tema que apresenta prioridades diferentes no governo Bolsonaro com relação aos países europeus. Esse choque de interesses poderá trazer consequências graves, como o cancelamento do acordo de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia.

O ex-ministro da Agricultura no governo de Michel Temer, Blairo Maggi (PP), chama atenção para a cláusula do acordo entre os blocos permite que a Europa barre importações do Brasil, o que poderia ter complicações por conta das falas do presidente. “Essas confusões ambientais poderiam criar uma situação para a UE dizer que o Brasil não estaria cumprindo as regras. E não duvido nada que a gritaria geral que a Europa está fazendo seja para não fazer o acordo. A França não quer o acordo”, disse.

Brasil não precisa desmatar mais para ampliar produção

Enquanto o presidente Jair Bolsonaro diz que uma "psicose ambiental" ameaça o agronegócio brasileiro, o presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Marcelo Vieira, não vê contradição entre preservar as florestas e aumentar a produção agropecuária no país.

Em entrevista à BBC News Brasil, no entanto, ele evitou fazer críticas ao governo e elogia a atuação do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

"A área atualmente ocupada pela agropecuária é de 30% do território brasileiro apenas, mas com os ganhos de produtividade que vêm ocorrendo, nós temos condição de produzir mais que o dobro do que nós produzimos hoje na mesma área. Então, a agropecuária brasileira não precisa expandir (a área utilizada)", afirmou.

Nos últimos dias, a destruição da Floresta Amazônica ganhou repercussão internacional por causa da forte onda de queimadas na região. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mostram um aumento de 83% no número de incêndios florestais no Brasil entre 1º de janeiro e 19 de agosto de 2019, na comparação com igual período de 2018.

A piora da preservação e a retórica mais inflamada de Bolsonaro e Salles têm levado algumas lideranças do agronegócio, como o ex-ministro da Agricultura Blairo Maggi, a manifestar preocupação com possíveis retaliações internacionais às exportações brasileiras.

Marcelo Vieira minimizou o problema dizendo que as queimadas são normais nessa época do ano, estação de seca na Amazônia. Ele também refutou denúncias de ambientalistas de que o fogo esteja sendo usado por pecuaristas para "limpar" terreno desmatado para pasto.

"O ministro do Meio Ambiente está muito preocupado e está trabalhando para montar uma melhor estrutura de controle do desmatamento ilegal. Isso leva um bom tempo para trazer resultados substanciais", defendeu.

Vieira atua há cerca de 40 anos como produtor e administrador de empresas nos setores de café, açúcar e álcool. Entre 2005 e 2014, foi diretor no Brasil da Adecoagro, empresa do megainvestidor americano George Soros que adquiriu usinas de Vieira em Minas Gerais e Mato Grosso do Sul.


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