Semana On

Sábado 21.set.2019

Ano VIII - Nº 364

Brasil

Bolsonaro queima o filme do Brasil com o mundo

Pouco caso para com o meio ambiente pode causar gravíssimos prejuízos ao país

Postado em 23 de Agosto de 2019 - DW e Leonardo Sakamoto (UOL)

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Diante da crise gerada pelas queimadas na Amazônia, o governo do presidente francês, Emannuel Macron, disse nesta sexta-feira (23) que Jair Bolsonaro mentiu ao assumir compromissos em defesa do meio ambiente durante a cúpula do G20 no Japão, algo que, segundo a França, deve inviabilizar a ratificação do acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul.

"Dada a atitude do Brasil nas últimas semanas, o presidente da República [francesa] só pode constatar que o presidente Bolsonaro mentiu para ele na cúpula [do G20] em Osaka", declarou o Palácio do Eliseu, sede do governo francês, em nota.

"Nessas circunstâncias, a França se opõe ao acordo com o Mercosul", conclui o comunicado, lembrando que o Parlamento da França ainda precisa ratificar o acordo comercial.

Na quinta-feira, Macron já havia sugerido que as queimadas e o desmatamento da Amazônia brasileira deveriam ser tema de reuniões na cúpula do G7, que ocorre a partir desta sexta-feira em Biarritz, no sudoeste da França. A proposta foi apoiada pela chanceler federal da Alemanha, Angela Merkel.

O governo da Irlanda também adotou uma posição similar à francesa, afirmando que não deve ratificar o acordo por causa da falta de comprometimento dos brasileiros "em honrar seus compromissos ambientais".

Nas últimas semanas, a França e outros países europeus vêm criticando a política ambiental do governo brasileiro. Desde que tomou posse, Bolsonaro e membros do seu governo vêm defendendo a exploração de minerais em terras indígenas, contestando dados científicos sobre aumento do desmatamento, propondo a legalização de garimpos, esvaziando órgãos de proteção ambiental e promovendo mudanças unilaterais no Fundo Amazônia, que conta com financiamento europeu.

Bolsonaro também já ameaçou em algumas ocasiões deixar o Acordo de Paris sobre o clima e, mais recentemente, reagiu com desprezo quando a Alemanha e a Noruega suspenderam repasses para programas ambientais diante da nova guinada na política ambiental brasileira.

No final de julho, Bolsonaro ainda esnobou uma visita do ministro francês das Relações Exteriores, Jean-Yves Le Drian. Na ocasião, o presidente cancelou de última hora o encontro com o ministro que estava agendado em Brasília e, pouco depois, apareceu ao vivo na internet cortando o cabelo. O gesto teatral repercutiu mal na imprensa francesa.

A queda de braço com os franceses ocorre em meio a dúvidas sobre o futuro do acordo entre a UE e o Mercosul, fechado em junho após 20 anos de negociações. À época, o governo Bolsonaro celebrou o desfecho como um trunfo da política externa, mas não parou de antagonizar com vários países da UE, cujos parlamentos ainda precisam ratificar o acordo.

Na França, o presidente Macron já havia colocado um reforço da proteção ambiental no Brasil como condição para implementação do acordo de livre-comércio. Após um início tenso na cúpula do G20, em junho, o líder francês disse que o acordo foi finalmente fechado porque Bolsonaro havia oferecido garantias de preservação do meio ambiente brasileiro.

"A verdadeira mudança na fase final de negociação foi a afirmação clara pela qual o Brasil se comprometeu com o Acordo de Paris e na luta pela biodiversidade", disse Macron na ocasião, em Osaka, no Japão.

Os brasileiros, por sua vez, continuam a reagir mal às críticas do governo francês. Na noite de quinta-feira, o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente da República, publicou em sua conta no Twitter um vídeo que chama Macron de “idiota”.

O general Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército Brasileiro que hoje é assessor do Gabinete de Segurança Institucional, chegou a afirmar, sem qualquer prova, que a França fez “ameaças de emprego do poder militar” contra o Brasil. Já o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, voltou a divulgar teorias conspiratórias, afirmando que o Foro de São Paulo, uma organização que reúne partidos de esquerda, está por trás de uma suposta campanha para prejudicar a imagem do Brasil.

A afirmação de Macron veio depois de Bolsonaro acusar o presidente francês de "ter mentalidade colonialista" e de pretender "instrumentalizar" o assunto "para ganhos políticos pessoais".

O comentário foi publicado no Twitter, em resposta a um tuíte do chefe de Estado francês, em que ele classifica os incêndios na Amazônia como uma "crise internacional" e convoca os países industrializados do G7 "a conversar sobre esta emergência".

Paris há muito vê de forma critica o acordo com o Mercosul, também devido a preocupações dos agricultores franceses. No início de julho, Macron havia se oposto à rápida ratificação do tratado negociado pela UE e pediu "garantias" adicionais, como a proteção da Floresta Amazônica.

Merkel defende incluir incêndios na Amazônia na agenda do G7

Os incêndios na Amazônia constituem uma "situação de emergência aguda" que deve ser discutida na cúpula do G7 neste fim de semana, declarou em Berlim o porta-voz da chanceler federal alemã, Angela Merkel, em apoio a proposta do presidente francês.

A sugestão de abordar o tema já contava com o apoio do primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, outro representante de país-membro do G7. 

O porta-voz do governo alemão, Steffen Seibert, destacou que, exatamente como Macron, a chanceler federal considera que a questão deve integrar a agenda dos países do G7 quando eles se reunirem neste fim de semana em Biarritz, na França.

Seibert sublinhou também que "a magnitude dos incêndios [na Amazônia] é assustadora e ameaçadora, não apenas para o Brasil, mas para o mundo inteiro". Ele ponderou, entretanto que o tema deve ser abordado "em diálogo e em cooperação com o Brasil".

O ministro do Exterior da Alemanha, Heiko Maas, ofereceu ajuda ao Brasil na luta contra as chamas. "Se a floresta tropical queima há semanas, então, não podemos ficar indiferentes. A proteção da herança natural única da Amazônia é uma tarefa internacional que diz respeito a todos nós", escreveu Maas no Twitter.

Finlândia sugere que UE pare de importar carne brasileira

O governo da Finlândia, que no momento detém a presidência rotativa da União Europeia (UE), declarou que vai propor aos países do bloco uma suspensão geral da importação de carne bovina brasileira por causa das queimadas que atingem a Amazônia.

"O ministro das Finanças, Mika Lintilä, condena a destruição das florestas na Amazônia e sugere que a UE e a Finlândia revisem com urgência a possibilidade de banir as importações de carne bovina brasileira", afirmou, em comunicado, o Ministério das Finanças da Finlândia.

Em 2018, o Brasil exportou 118,3 mil toneladas de carne bovina para a União Europeia, que renderam 728 milhões de dólares, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). 

Nos últimos dias, vários países europeus vêm manifestando preocupação com as queimadas que atingem a Amazônia e com o aumento do desmatamento na região, que registrou uma alta de 278% em julho em relação ao mesmo mês do ano passado.

Varadkar ainda disse estar "muito preocupado" com o aumento das queimadas na Amazônia. "Os esforços do presidente [brasileiro] em culpar ONGs ambientalistas pelo fogo são orwellianos", completou o irlandês, fazendo referência ao escritor britânico George Orwell, que em seu livro 1984 aborda a distorção dos fatos e da verdade por um governo totalitário.

O peso do ativismo digital em defesa da Amazônia

Imagens da Floresta Amazônica em chamas correram o mundo e provocaram uma reação forte no mundo digital. O tema esteve no topo das buscas do Google em países como Alemanha, França, África do Sul, Índia e Estados Unidos. No Brasil, os termos mais pesquisados nessa mesma data eram relacionados ao Campeonato Brasileiro de Futebol.

A reação às queimadas na maior floresta tropical do mundo também colocou a hashtag #PrayForAmazon (Orem pela Amazônia) e variações dela em destaque nas redes sociais. Personalidades brasileiras e internacionais – como Leonardo DiCaprio – aderiram à pressão pela proteção da floresta na internet.

Desde que a campanha #PrayForAmazon ganhou amplo espaço nas redes, protestos em defesa da Amazônia foram marcados para os próximos dias em várias cidades do Brasil e do mundo. Esse exemplo pode ser um reflexo prático da atividade virtual, afirma Pablo Ortellado, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) que coordena o Monitor do Debate Político no Meio Digital.

"Desde 2013, temos visto um nível de engajamento muito alto. É como se o ativismo digital estivesse dando linha na sociedade, influenciando e mobilizando", analisa o pesquisador.

Esse tipo de pressão funcionou no governo Michel Temer. Em 2017, quando anunciou a abertura para a exploração de minérios da Renca, uma reserva no meio da Floresta Amazônica, Temer voltou atrás após uma grande mobilização, inclusive internacional, para que a medida fosse cancelada.

No caso de Bolsonaro, contudo, é baixa a expectativa por medidas rápidas, afirma Márcio Astrini, do Greenpeace. "Em oito meses, com o desmatamento em alta, e agora as queimadas, o governo ainda não apresentou um plano real de combate a esse cenário", analisa.

O que se viu até agora, segundo Astrini, foi uma "cortina de fumaça" criada pelo presidente. "Em vez de atacar o problema, ele terceiriza a responsabilidade, culpa as ONGs, ataca os governadores, diz que fazer menos cocô vai preservar o meio ambiente", acrescenta ele, em referência a alguns dos posicionamentos recentes de Bolsonaro quando questionado pela imprensa sobre o tema.

Cientista da Nasa analisa incêndios na Amazônia

A chegada de Bolsonaro à Presidência mudou o cenário, surpreendendo os pesquisadores. "O fato de Bolsonaro se apoiar no agronegócio fez com que ele assumisse essa postura antiambiental. E como a máquina de enfrentamento dele está ligada a mil, ele colocou isso no centro das polêmicas e aparentemente está gerando engajamento", detalha o pesquisador da USP.

Dados apurados por Ortellado mostram que, na última semana, mensagens de oposição ao Fundo Amazônia, que conta com financiamento europeu, dominaram os círculos políticos que apoiam Bolsonaro nas redes sociais.

Para Francisco Paoliello Pimenta, pesquisador da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), a preocupação ambiental na internet ocorre na medida em que os interesses cotidianos de populações passam a ser afetados.

"Talvez esse engajamento visto nos últimos dias dentro e fora do país seja reflexo disso: de que as pessoas estejam começando a perceber de fato o que a destruição da Amazônia representa para o equilíbrio do planeta, para todas as formas de vida que lá estão e, consequentemente, para a vida delas", pondera.

Contudo, o efeito da mobilização nas redes sociais deve ser limitado se não chegar à economia. Para representantes do setor agrário, a única pressão à qual Bolsonaro poderia realmente ceder seria à pressão econômica.

A Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) se preocupa com a repercussão negativa da destruição da Amazônia. "A gente reforça que o desmatamento ilegal é grave e tem que ser combatido de forma eficiente, rígida, contundente", diz Luiz Cornacchioni, diretor executivo da Abag, à DW Brasil. Segundo ele, o Brasil vive "um problema seríssimo" e passa a percepção de ter "perdido o controle".

Os sinais mandados para dentro e para fora do país podem trazer problemas econômicos sérios, afirma Cornacchioni. "Podemos ser prejudicados, sofrer sanções, embargos, o que ninguém sério no agronegócio quer", diz o agrônomo.

Marcelo Vieira, da Sociedade Rural Brasileira, também diz defender o combate ao desmatamento ilegal. "Preocupa que a imagem do Brasil fique prejudicada e dificulte o acesso a mercados, como o acordo que está sendo negociado com a União Europeia", afirma Vieira.

Na contramão da proteção ambiental

Segundo Izabella Teixeira, ministra do Meio Ambiente nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, é a primeira vez desde a redemocratização que um governo vai na direção contrária à proteção da Amazônia.

"Os órgãos ambientais que cuidavam disso estão sendo desmontados, toda a estrutura do Ibama foi desmontada", afirma.

Depois de toda a repercussão vista nas redes e na imprensa internacional, Teixeira diz esperar que Bolsonaro reaja com firmeza.

"O Brasil está com uma imagem completamente queimada por causa do desleixo, do descuido das políticas públicas que combatem o desmatamento." Procurado, o Ministério do Meio Ambiente não comentou a questão.

Por que a Amazônia é vital para o mundo?

A Floresta Amazônica produz imensas quantidades de água para o restante do país e da América do Sul. Os chamados "rios voadores", formados por massas de ar carregadas de vapor de água gerados pela evapotranspiração na Amazônia, levam umidade da Bacia Amazônica para o Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. Esses rios voadores também influenciam chuvas na Bolívia, no Paraguai, na Argentina, no Uruguai e até no extremo sul do Chile. 

Segundo estudos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, uma árvore com copa de 10 metros de diâmetro pode bombear para a atmosfera mais de 300 litros de água em forma de vapor por dia – mais que o dobro da água usada diariamente por um brasileiro.

Uma árvore maior, com copa de 20 metros de diâmetro, pode evapotranspirar mais de 1.000 litros por dia, bombeando água e levando chuva para irrigar lavouras, encher rios e as represas que alimentam hidrelétricas no resto do país.

Assim, preservar a Amazônia é essencial para o agronegócio, para a produção de alimentos e para gerar energia no Brasil.

O desmatamento prejudica a evapotranspiração e, por consequência, a rota desses rios, podendo afetar assim o regime de chuvas no restante do país e diversas atividades econômicas. Além disso, o Rio Amazonas é responsável por quase um quinto das águas doces levadas aos oceanos no mundo.

Mudanças climáticas

A Amazônia e as florestas tropicais, que armazenam de 90 bilhões a 140 bilhões de toneladas métricas de carbono, ajudam a estabilizar o clima em todo o mundo. Só a Floresta Amazônica representa 10% de toda a biomassa do planeta.

Já as florestas que foram degradadas ou desmatadas são as maiores fontes de emissões de gases do efeito estufa depois da queima de combustíveis fósseis. Isso porque as florestas saudáveis têm uma imensa capacidade de reter e armazenar carbono, mas o desmatamento para o uso agrícola ou extração de madeira libera gases do efeito estufa para a atmosfera e desestabiliza o clima.

O Acordo de Paris, firmado em 2015 e cujo objetivo é manter o aquecimento da temperatura média do planeta abaixo de 2°C, passa necessariamente pela preservação de florestas. Dados da ONU de 2015 apontaram o Brasil como um dos dez países que mais emitem gases do efeito estufa no mundo, com 2,48% das emissões.

No âmbito do acordo internacional, o Brasil se comprometeu a reduzir as emissões de gases do efeito estufa em 43% em relação aos níveis de 2005 até 2030. Para alcançar tal meta, o país se comprometeu a aumentar a participação de bionergia sustentável em sua matriz energética e reflorestar 12 milhões de hectares de florestas, entre outros pontos.

Segundo o documento que detalha a chamada pretendida Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) do Brasil para o alcance do objetivo do Acordo de Paris, anunciada em setembro de 2015, o país se propôs a "fortalecer políticas e medidas com vistas a alcançar, na Amazônia brasileira, o desmatamento ilegal zero até 2030 e a compensação das emissões de gases de efeito de estufa provenientes da supressão legal da vegetação até 2030".

Equilíbrio ambiental

Como a maior floresta tropical do mundo, a Amazônia possui a maior biodiversidade, com uma em cada dez espécies conhecidas. Também há uma grande quantidade de espécies desconhecidas por cientistas, principalmente nas áreas mais remotas.

Assegurar a biodiversidade é importante porque ela garante maior sustentabilidade natural para todas as formas de vida, e ecossistemas saudáveis e diversos podem se recuperar melhor de desastres, como queimadas.

Preservar a biodiversidade amazônica, portanto, quer dizer contribuir para estabilizar outros ecossistemas na região. O recife de corais da Amazônia, por exemplo, um corredor de biodiversidade entre a foz do Amazonas e o Caribe, é um refúgio para corais ameaçados pelo aquecimento global por estar em uma região mais profunda.

Segundo o biólogo Carlos Eduardo Leite Ferreira, da Universidade Federal Fluminense, esse recife poderá ajudar a repovoar áreas degradadas dos oceanos no futuro, mas petroleiras Total e BP têm planos de explorar petróleo perto da região dos corais da Amazônia, ameaçando assim esse ecossistema.

A biodiversidade também tem sua função na agricultura: áreas agrícolas com florestas preservadas em seu entorno têm maior riqueza de polinizadores, dos quais depende a produção de alimentos, como café, milho e soja.

Produtos da floresta

As espécies da Amazônia também são importantes pelo seu uso para produzir medicamentos, alimentos e outros produtos. Mais de 10 mil espécies de plantas da área possuem princípios ativos para uso medicinal, cosmético e controle biológico de pragas.

Em 2017, uma pesquisa da Faculdade de Medicina do ABC, em São Paulo, mostrou que a planta unha-de-gato, da região Amazônica, além de ser utilizada para tratar artrite e osteoartrose, reduz a fadiga e melhora a qualidade de vida de pacientes em estágio avançado de câncer.

Produtos da floresta são comercializados em todo o Brasil, como açaí, guaraná, frutas tropicais, palmito, fitoterápicos, fitocosméticos, couro vegetal, artesanato de capim dourado e artesanato indígena. Produtos não madeireiros também têm grande valor de exportação: castanha-do-brasil (também conhecida como castanha-do-pará), jarina (o marfim vegetal), rutila e jaborandi (princípios ativos), pau-rosa (essência de perfume), resinas e óleos.

Filme queimado

Bolsonaro conseguiu uma façanha: levou o Brasil a perder o protagonismo no combate global às mudanças climáticas e o respeito na área ambiental por parte de outras democracias, correndo o risco de nos tornar um pária internacional e ver limitado nosso acesso a mercados. Tudo em menos de oito meses.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, afirmou que está "profundamente preocupado com os incêndios na floresta amazônica". Protestos estão sendo organizados em frente a embaixadas brasileiras no exterior.

Tudo porque o presidente da República decidiu atender aos desejos suicidas da parcela anacrônica do agronegócio e do extrativismo. Sua retórica serviu como o combustível para que produtores rurais e madeireiros queimassem e derrubassem a floresta. E para que garimpeiros ficassem à vontade para invadir territórios indígenas. Os ataques a quem fiscaliza (Ibama e ICMBio) e a quem monitora (INPE) passam a mensagem de que o governo garantirá a impunidade.

Onyx Lorenzoni, ministro-chefe da Casa Civil, disse que os europeus usam a questão ambiental com o objetivo de "estabelecer barreiras ao crescimento e ao comércio de bens e serviços do Brasil". Mas também "para confrontar os princípios capitalistas", pois – segundo ele – esse teria sido o destino da esquerda após a queda do muro de Berlim e o fim da União Soviética.

Qualquer urso polar deprimido por estar preso em um pedaço de gelo flutuando no Ártico, contudo, seria capaz de explicar ao ministro que o processo de mudanças climáticas não tem a ver com esquerda e direita, mas com a nossa sobrevivência como espécie. Ou seja, é um tema que separa a civilização e a barbárie. E, infelizmente, o governo que ele representa parece ter escolhido o seu lado na História.

Sob Bolsonaro, o Brasil adotou uma perspectiva medieval e negacionista quanto ao meio ambiente e o clima, muitas vezes usando argumentos como "se outros países levaram o mundo ao precipício, nós temos o direito de empurrá-lo de vez para a vala". E quando o problema começou a ser notado, na forma de nuvens de fumaça em fotos de satélite, o governo fugiu da responsabilização, tentando culpar sociedade civil, governadores da região Norte, o tempo seco, a crise econômica.

Não é que a Amazônia seja pulmão do mundo. Ela imobiliza bilhões de toneladas de carbono que, se lançadas à atmosfera, farão do planeta um lugar pior para se viver. Sem ela, menos água é retirada do solo e jogada no ar. Sem ela, São Paulo pode dar adeus à sua agricultura porque nosso sistema de chuvas dela depende. Sem ela, sobrará um deserto que avançará sobre outras áreas de produção. Isso sem falar que nela está a maior biodiversidade do planeta. E que nela vivem milhões de pessoas, incluindo populações tradicionais, suas línguas e culturas.

Por ser um importante produtor de alimentos e commodities, o Brasil desperta a ira de setores econômicos em países concorrentes – dos Estados Unidos, passando pela Europa até chegar a Austrália. Por isso, temos visto tentativas de erguer barreiras comerciais a mercadorias brasileiras usando como argumento o desrespeito aos direitos humanos ou agressões ao meio ambiente, mesmo que o interesse seja puramente protecionista. A França, de Macron, por exemplo, defende com unhas e dentes seu setor agrícola.

Infelizmente, damos subsídios para isso devido a uma parte de nossa produção insistir em agir de forma predatória. Há atores econômicos estrangeiros que usam o discurso ambiental de forma hipócrita em nome do seu protecionismo? Sim. Outros países também poluem? Claro. Mas o Brasil está ajudando a piorar a vida no planeta com seu comportamento medieval? Também.

Muitas vezes, o país já evitou as tais barreiras comerciais, mostrando que estava implementando uma política firme e que havia transparência de informação para que o mercado gerenciasse seu risco. Transparência é fundamental para que o capitalismo funcione a contento. Um governo atacar sua principal fonte de dados sobre o desmatamento (INPE) é sinal de que também pode sonegar informações relevantes que devem ser ponderadas por um comprador, um financiador ou um parceiro comercial em suas decisões.

Bolsonaro pode falar grosso com outros mandatários que têm alertado para um retrocesso galopante na política ambiental do Brasil. Pode se lambuzar na piscina do conspiracionismo e da paranoia, onde seus seguidores mais fiéis se sentem bem. Mas, ao final do dia, a questão que precisa ser respondida por ele é se o governo está mesmo disposto a combater as ameaças reais que colocam em risco nosso planeta, mudando seu comportamento quanto ao meio ambiente, ou zombará delas enquanto queima dinheiro de exportações de carne, soja, entre outros, que ficarão bloqueadas em portos pelo mundo, acusadas de crimes ambientais e sociais.

Bolsonaro não precisa acreditar em mudanças climáticas, basta acreditar em boicote.


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