Semana On

Segunda-Feira 16.set.2019

Ano VIII - Nº 363

Coluna

O audiovisual nacional censurado

Vivemos uma ditadura democrática homofóbica

Postado em 21 de Agosto de 2019 - Danilo Custódio

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Que esse conservadorismo retrógrado passou a ser a maior ameaça ao cinema nacional, disso ninguém discorda. Principalmente agora, depois que o próprio Presidente da República veio a público, em live via facebook, informar ao cidadão de bem que a Agência Nacional de Cinema não vai mais financiar filmes destinados ao público LGBTQI+. Bolsonaro foi categórico: “Fomos garimpar na Ancine filmes que estavam prontos para captar recursos no mercado. E outra, provavelmente esses filmes não têm audiência, não têm plateia, tem meia dúzia ali, mas o dinheiro é gasto. São milhões gastos”.

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Um filme chama Transversais. Olha o tema: ‘Sonhos e realizações de cinco pessoas transgêneros que moram no Ceará’. Conseguimos abortar essa missão”. O projeto em questão é apresentado por Emerson Maranhão e Allan Deberton e foi selecionado na categoria Diversidade de Gênero do PRODAV 2018. A proposta de realizar uma série de documentário com cinco episódios apresentando a rotina de personagens transgênero que vivem no Ceará.

Afronte. ‘Mostrando a realidade vivida por negros homossexuais no Distrito Federal’. Confesso que não dá para entender. Então, mais um filme aí, que foi pro saco, aí. Não tem cabimento fazer um filme com esse enredo né?”. Esse é o projeto de Bruno Victor Santos e Marcus Azevedo e também foi selecionado na categoria Diversidade de Gênero.  A proposta é produzir uma série de documentário para contar histórias e mostrar rotinas de personagens negros homossexuais na cidade de Brasília.

O nome eu não sei pronunciar. ‘Religare Queer’. O filme é sobre uma ex-freira lésbica, ok? E daí, são vários episódios. Tem a ver com religiões tradicionalmente homofóbicas ou transfóbicas. Tudo tem a ver. Sexualidade LGBT com evangélicos, católicos, espíritas, testemunhas de Jeová, umbanda, budismo, candomblé, judaísmo, islamismo e Santo Daime”. Esse é um projeto proposto pela Válvula Produções, que já produziu filmes sobre a quadrinista Laerte e a cantora Linn da Quebrada.

Outro filme aqui. Sexo reverso. ‘Bárbara é questionada pelos índios sobre sexo grupal, sexo oral e sobre certas posições sexuais’. É o enredo do filme. Com dinheiro público”. Esse projeto parte de uma pesquisa da antropóloga Bárbara Arisi, professora da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) que realiza um trabalho junto à tribo dos Matis, no Amazonas, onde participou de uma pesquisa dos próprios indígenas sobre práticas sexuais dos brancos.

Todos esses projetos que foram especificados na declaração do Presidente foram selecionados através da Chamada Pública BRDE/FSA PRODAV – TVS PÚBLICAS – 2018, que nada mais é do que uma licitação para financiar conteúdo audiovisual nacional destinado a programação de TVs comunitárias, universitárias, legislativas e educativas. Depois de vomitar todo seu preconceito homofóbico ao citar os projetos garimpados, o Presidente enfatizou que não censurou nada, completando que “se a iniciativa privada quiser fazer filme de Bruna Surfistinha, fique à vontade, não vamos interferir nisso daí”.

Mas na prática, isso significa que não são apenas os incentivos públicos diretos que estão ameaçados. No Brasil de hoje, mesmo se a iniciativa privada quiser fazer filme de Bruna Surfistinha, ela não poderá fazê-lo via isenção fiscal, que é o principal mecanismo articulador das leis de incentivo à cultura de todo país. E é curioso pensar que essa rasteira acontece no momento exato em que o audiovisual nacional vive o seu melhor momento, em toda sua história.


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