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Quarta-Feira 13.nov.2019

Ano VIII - Nº 371

Entrevista

‘Não há país desenvolvido que não tenha investido em ciência’

Vencedora de prêmio para mulheres cientistas, Marina Trevisan diz que Brasil pode acabar se tornando apenas um importador de tecnologias

Postado em 19 de Agosto de 2019 - Annie Castro – Sul 21

A professora Marina Trevisan foi uma das finalistas de prêmio voltado para mulheres cientistas. A professora Marina Trevisan foi uma das finalistas de prêmio voltado para mulheres cientistas.

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Frente ao cenário de cortes de verbas destinados às Universidades Federais promovidos pelo Governo de Jair Bolsonaro (PSL) e que afetam a produção de pesquisa científica no país, o Brasil pode acabar se tornando apenas um importador de tecnologias de outros países, deixando de ser produtor e de potencializar o seu desenvolvimento científico. O alerta é de Marina Trevisan, professora do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e uma das sete cientistas vencedoras do prêmio nacional ‘Para Mulheres na Ciência’, promovido pela L’Oréal Brasil, em parceria com a Unesco Brasil e com a Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Apesar de gostar de ciência desde criança, ao ter que decidir o que cursaria no vestibular, Marina conta que optou por Engenharia Elétrica na Universidade de São Paulo (USP), no campus de São Carlos. Porém, ao longo da graduação redescobriu sua paixão pela astronomia e decidiu que terminaria o curso, mas não seria engenheira. “Continuei o curso de Engenharia Elétrica e comecei a estudar astronomia por conta, tentando pegar disciplinas na [Faculdade de] Física”, relembra.

Foi em 2005, quando começou um mestrado em Astrofísica pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que Marina passou a estudar formalmente, dentre diversos temas, galáxias, astronomia extragaláctica e astrofísica estelar. Atualmente, ela é professora da UFRGS e chefe substituta do Departamento de Astrofísica da Universidade.

Intitulada ‘A sobrevivência das galáxias ao longo da teia cósmica’, a pesquisa da cientista que foi contemplada pelo prêmio ‘Para Mulheres na Ciência’ estuda se o ambiente em que uma galáxia está inserida pode afetar seus processos de evolução. “Hoje a gente observa as galáxias do jeito que elas são, mas um dia elas começaram a se formar e houve todo um processo no meio do caminho para deixá-las do jeito que elas são hoje”, explica Marina. Além do reconhecimento, a premiação contemplou a pesquisa com uma bolsa-auxílio de R$ 50 mil para que a pesquisadora possa investir em seu estudo.

De acordo com Marina, a premiação da L’oréal é uma iniciativa que dá mais visibilidade às mulheres cientistas. Segundo a professora, hoje há uma maior consciência de que as mulheres precisam ser incentivadas a estarem na ciência. “Ao longo da história, as mulheres não foram incentivadas a serem cientistas. Isso foi um problema e talvez por isso houve um déficit de mulheres na ciência”, afirma. Porém, a pesquisadora acredita que hoje há um movimento que busca mudar esse cenário. “Por isso é tão importante a questão da representatividade. Quando uma menina que está no ensino médio vê uma cientista, ela pensa ‘eu posso ser também’. Então, quanto mais mulheres tem na ciência hoje, mais mulheres serão cientistas no futuro”, diz.

Segundo Marina, o tipo de estudo que ela desenvolve é chamado de pesquisa básica, ou seja, são pesquisas que não têm impacto imediato nas sociedades, mas que ajudam no aumento do conhecimento acerca de determinados temas. A pesquisadora também destaca que a tecnologia utilizada nos estudos pode ser adaptada para outras necessidades das pessoas. “Tem muitos softwares que a gente usa para analisar imagens de galáxias que agora foram adaptados para analisar imagens de tecido humano. Essa tecnologia permite que seja possível detectar câncer”, exemplifica.

 

Como você começou a se interessar pela ciência?

Eu gosto de ciência desde pequena, mas quando eu fui fazer vestibular acabei escolhendo um curso mais seguro. Fui fazer Engenharia Elétrica, no meio da minha graduação eu já gostava de astronomia e acabei começando a me envolver mais. Vi que era realmente aquilo ali que queria fazer. Continuei o curso de Engenharia Elétrica e comecei a estudar astronomia por conta, tentando pegar disciplina na [Faculdade de] Física. Terminei o curso de Engenharia sabendo que não seria engenheira.

Então, eu terminei o curso em 2004 e comecei o mestrado em astrofísica no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) em 2005.

Você mencionou que desde pequena gostava de ciência. O que te chamava a atenção nessa área?

Eu sempre fui muito curiosa, sempre gostei muito de entender as coisas. Quando criança gostava muito de biologia, acreditava que ia ser bióloga. Depois, cheguei a cogitar fazer astronomia na graduação, mas acabei fazendo engenharia. Acabei voltando para a astronomia, não teve jeito.

As suas pesquisas são desenvolvidas em astronomia extragaláctica, populações estelares e astrofísica estelar. O que te motivou a escolher estudar esses temas?

Eu já atuei em algumas áreas. No meu mestrado eu trabalhei com radiação cósmica de fundo. Radiação cósmica é tipo uma luz que vem de um universo muito antigo. No meu doutorado, eu comecei a trabalhar com estrelas da nossa galáxia, mas estava acostumada a estudar com outras galáxias também, a estudar extragaláctica, que é tudo que está fora da nossa galáxia. No meio do meu doutorado, eu comecei a trabalhar com galáxias e estrelas em outras galáxias

Você pesquisa temas que normalmente não estão no cotidiano das pessoas. Qual a importância de pesquisas que abordem tais assuntos?

As áreas que eu estudo são o que a gente chama de pesquisa básica, que são pesquisas que não têm uma aplicação direta no cotidiano. Mas a humanidade evoluiu muito fazendo pesquisa básica e hoje conhecemos sobre o que nós somos e sobre o nosso universo por causa de pesquisas básicas. Ainda que essas pesquisas não sejam aplicadas diretamente no cotidiano, a tecnologia que desenvolvemos para elas são úteis para as pessoas.

Por exemplo, tem muitos softwares que a gente usa para analisar imagens de galáxias que agora foram adaptados para analisar imagens de tecido humano. Essa tecnologia permite que seja possível detectar câncer.

Você poderia explicar mais sobre a sua pesquisa sobre a evolução de galáxias que foi reconhecida pelo prêmio ‘Para Mulheres na Ciência”?

Basicamente, hoje a gente observa as galáxias do jeito que elas são, mas um dia elas começaram a se formar e houve todo um processo no meio do caminho para deixá-las do jeito que elas são hoje. E esse processo envolve tudo que acontece dentro ou fora delas. O projeto que eu submeti pra L’oréal é voltado para tentar entender como o ambiente de uma galáxia as afeta, porque elas não evoluem sozinhas, elas estão em estruturas maiores. Tem gases girando em torno delas. Meu projeto tenta entender o processo de evolução dessas galáxias.

Qual a importância desse prêmio?

Eu fui classificada na versão nacional, que é a versão para jovem cientista. Nessa versão, o prêmio só é concedido para quem terminou o doutorado há menos de sete anos. E esse prêmio é importante em dois aspectos. O primeiro é o reconhecimento do trabalho porque, em qualquer profissão, qualquer pessoa gosta de ver seu trabalho reconhecido. Então, é uma satisfação muito grande ver o reconhecimento desse trabalho. Ainda mais vivendo em um período em que a ciência no Brasil está atravessando um momento muito complicado, com cortes de verbas por todos os lados.

O segundo ponto é que esse recurso que está vindo com o prêmio chegou em uma hora certíssima. Com ele eu vou poder ajudar alunos que eu oriento as pesquisas, vou poder comprar coisas para o laboratório. É um momento em que estão cortando verbas para pesquisa, estão é muito importante ter esse dinheiro agora.

Além do reconhecimento, a premiação também inclui um montante em dinheiro, isso?

Sim! Eu ganho R$ 50 mil para gastar com coisas relacionadas à minha pesquisa, como material, equipamentos para o laboratório, computadores.

Você mencionou a questão dos cortes de verbas destinados à pesquisa científica no Brasil. Os contingenciamentos que temos observado nos últimos meses afetaram as universidades e institutos federais e também agências de fomento à pesquisa, como CNPq e Capes. Para você, quais os impactos que a falta de investimentos e a desvalorização de pesquisas científicas podem ter na sociedade?

É bem grave, porque não tem país desenvolvido que não tenha investido pesadamente em ciência, em desenvolvimento científico e em pesquisa. O corte de verbas vai causar um atraso muito grande no Brasil porque vamos ter que comprar tecnologia para tudo de fora. Isso é muito grave e muito sério.

Por exemplo, minha pesquisa não tem aplicação direta na sociedade, mas, como mencionei antes, muito da tecnologia das pesquisas básicas são revertidas para as pessoas. É fundamental investir em ciência porque um país desenvolvido tem que investir em desenvolvimento, em tecnologia. Sem tecnologia a economia não vai para q frente, os países começam a comprar de outros. Se não vamos produzir tecnologia e ciência, vamos produzir o quê? Só recurso agrário? Tecnologia é o que mais dá dinheiro, as economias que mais lucram no mundo hoje são de tecnologia. O nosso país vai ficar muito para trás.

Para você, o que faz com que tantas pessoas no Brasil não se importem com as pesquisas científicas ou com os cortes de verbas para essas áreas? Há uma falta de conhecimento a respeito do que é feito dentro das universidades?

Acredito que sim, que há uma falha na comunicação entre a sociedade e os pesquisadores que gera essa falta de conhecimento. Mas, por exemplo, aqui no departamento nós estamos cada vez mais investindo nisso, temos aqui um programa de divulgação em que fazemos o trabalho de levar até a sociedade o que a gente faz aqui e levar o conhecimento que a gente produz.

Talvez hoje essa comunicação seja falha e precisamos investir nela. E talvez seja por isso que acontecem tantos ataques, porque não sabem o que a gente faz e não sabem o quão fundamental é o que a gente faz enquanto pesquisadores.

Nos últimos tempos, é possível perceber mulheres ganhando visibilidade dentro da ciência, um ambiente que durante anos foi majoritariamente masculino. Por exemplo, quando foi divulgada a primeira imagem do buraco negro o nome de uma das cientistas responsáveis pelo feito se tornou mundialmente conhecido. Como você enxerga a presença de mulheres dentro da ciência atualmente?

A presença das mulheres está aumentando e se criou a consciência de que, ao longo da história, as mulheres não foram incentivadas a serem cientistas. Isso foi um problema e talvez por isso houve um déficit de mulheres dentro da ciência. Mas hoje isso já se leva como um problema a ser resolvido e é incentivando mulheres a serem cientistas que vamos consertar isso. Há hoje todo um movimento para tentar mudar esse cenário e por isso é tão importante a questão da representatividade. Quando uma menina que está no ensino médio vê uma cientista ela pensa ‘eu posso ser também’. Então, quanto mais mulheres tem na ciência hoje, mais mulheres serão cientistas no futuro.


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