Semana On

Segunda-Feira 16.set.2019

Ano VIII - Nº 363

Entrevista

O Brasil não cabe na esquerda, é preciso unir os interesses do mundo da produção e do trabalho, afirmou Ciro Gomes

“O idiota precisa destruir o ambiente da ciência, da educação, da cultura e da arte. Pois estes são os ambientes da sofisticação crítica”, disse o pedetista em entrevista à Semana On

Postado em 18 de Agosto de 2019 - Victor Barone

Foto: Eronemo Barros Foto: Eronemo Barros

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O vice-presidente nacional do PDT, Ciro Gomes, esteve em Campo Grande na última sexta-feira (16). Candidato à presidência em 2018, veio à capital ministrar a palestra “As reformas econômicas e sociais e a retomada do crescimento”, no Teatro Glauce Rocha, na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul).  Em entrevista à revista Semana On, fez fortes críticas ao bolsonarismo e ao petismo e se colocou como alternativa a polarização política que, em sua opinião, prejudica o país. Confira.

 

Nas últimas eleições a centro-esquerda e a esquerda brasileira dividiram-se. O senhor acredita que será possível unir estas propostas para as eleições de 2022?

Acho que o que o Brasil está precisando não é de uma proposta estreita de esquerda. O Brasil não cabe na esquerda. E não estou me referindo ao Brasil da elite não, estou falando do Brasil popular, evangélico, neopentecostal, dos movimentos carismáticos da igreja católica, o Brasil rural, que era paupérrimo e enriqueceu no agronegócio, e que vê comunismo atrás da porta, em todo canto. Temos que ter humildade para entender o nosso pais, o Brasil real. O que precisamos hoje é de um projeto nacional que una na prática os interesses do mundo da produção com os interesses do mundo do trabalho. Portanto, eu não participarei de nenhum gueto de esquerda. Vou propor ao país um projeto. É isso que me faz andar pelo país, conversando, aprimorando, explicando ao jovem o que está acontecendo. A realidade está no nosso nariz, mas não nos deixam entender com esta massa de propaganda e de desorientação. E as portas estão se fechando.

Como foi possível chegarmos a esta crise civilizatória?

Esta é uma pergunta importante. Como que é um homem como Bolsonaro, que nunca administrou uma bodega, uma vendinha, como um homem tão tosco, que desviava dinheiro dos funcionários, que usou fantasmas em seu próprio gabinete, como que um homem dessa qualidade deplorável chega a presidência da República? A explicação é que estamos vivendo a convergência de 3 gravíssimas crises. Uma é civilizatória, e tem a ver com o mundo. A medida em que o socialismo real desmoralizou-se e o neoliberalismo acabou se impondo como ideia única – e isso não correspondeu aos dramas, especialmente entre os jovens – a política se desmoralizou. A linguagem da democracia, que é a política, está muito desmoralizada. E nós só vamos resolver isso com exemplo, novas ideias e militância.

O segundo conflito é nacional, e converge para o mesmo assunto: exauriu-se a social democracia anunciada pela Constituição de 88, que marcou um regime que basicamente alternava o PT e o PSDB, que são as mesmas coisas, um com uma lógica mais de eficiência econômica, o outro com um viés de mais solidariedade social, mas ambos absolutamente descomprometidos com o projeto de desenvolvimento de que o país precisa.

O idiota precisa destruir o ambiente da ciência, da educação, da cultura e da arte. Pois estes são os ambientes da sofisticação crítica.

A terceira crise é do petismo. O petismo, que num certo momento foi algo muito importante para o país, ao ficar no poder por 13 anos não conseguiu fazer nenhuma inovação institucional e nem politizar a população e o debate. Com Lula, o consumo subiu, 40 milhões de pessoas ascenderam socialmente, e com Dilma estas mesmas pessoas foram praticamente devolvidas à pobreza. E aí, instalou-se um ódio. A notícia infame, generalizada e verdadeira da corrupção inseriu um componente passional no assunto. Foi a tempestade perfeita que armou-se sobre a cabeça do povo brasileiro. O anúncio generoso da Constituição de 88 exauriu-se, e a negação tosca dela estava pronta para um interprete irresponsável.  Temos que ter paciência e não culpar quem não tem culpa. Nosso povo não tem culpa.

O que o senhor faria de diferente do atual governo?

Acho este governo um desastre. E como cheguei a esta conclusão? Como as sociedades democraticamente amadurecidas fazem: olhando os números. Como está a educação? É o pior desempenho da execução orçamentária da história do Brasil.  Como vai a saúde? É a pior execução orçamentária da história do Brasil. Como vai indo a segurança pública? Até o presente momento, eles investiram apenas 6,5% do orçamento para o setor, e já vamos terminando o sétimo mês de mandato. Se o governo não executa o orçamento, a prioridade da conversa é mentira. O desastre está aí fora, em números: temos 14 milhões de desempregados, com uma discreta descompressão do desemprego oriunda da gravíssima uberização da economia brasileira. Quem quiser saber o que é isso basta pegar o carro e dar uma volta lá pelas 20h nas ruas de todo o país para ver o cidadão correndo desesperado numa motocicleta, com uma mochila, nas costas para ganhar R$ 5. Uma tragédia criada pela desregulamentação do mercado de trabalho no país. Esta descompressão está produzindo um tipo de emprego que não vai restaurar a capacidade de consumo estrangulada das famílias. Estamos vivendo o maior endividamento familiar da história. São 63,5 milhões de brasileiros com nome no SPC. É o maior colapso de investimento empresarial da história e a pior taxa de investimento sob o ponto de vista do setor público. É um desastre o que está acontecendo. Enquanto isso, o presidente cria um problema novo a cada dia.

As relações internacionais estão em uma situação especialmente grave...

Sim. O presidente acabou de atacar o processo eleitoral de um país soberano vizinho (a Argentina) que é, nada mais, nada menos, o maior mercado para a produção nacional. A indústria de calçados automobilística já está começando a sofrer as consequências do problema argentino. A China está nesta confrontação com os Estados Unidos, e o Brasil só tem a ganhar com isso, pois a grande forma de a China retaliar os americanos nesta guerra comercial é optando por produtos de origem agrícola do Brasil, que é o maior fornecedor do mundo, em detrimento do produto americano. Pois bem, o que o Bolsonaro faz? Agride os chineses e se alinha aos americanos. Agride os alemães, que detém a maior economia da Europa e já estão começando a formalizar suas restrições ao agronegócio brasileiro.

Bolsonaro assinou as pressas, sem ler, sem consultar ninguém, um tratado com a Europa que introduz o princípio da precaução, coisa que o Brasil nunca aceitou. Agora, qualquer empresa ou país europeu pode retaliar ou boicotar produtos oriundos do Brasil pela mera suspeita não provada de que ele tenha uma origem ambientalmente insustentável. Aí autorizou 290 novos agrotóxicos em seis meses, nunca houve isso na história do país. Sendo que 82 destes agrotóxicos são princípios ativos banidos na Europa. As multinacionais europeias não podem mais vendê-los por lá, vão usar o mercado brasileiro para isso. Infelizmente o agronegócio brasileiro, que sustenta este país, votou em massa neste homem, mas vai pagar este preço, pois ele não entende patavinas de nada, é triste falar isso de um presidente da República. É um camarada que está trabalhando contra o país. Não sei se lucidamente, mas está trabalhando contra.

O Brasil não cabe na esquerda. Precisamos de um projeto que una os interesses do mundo da produção com os interesses do mundo do trabalho.

É uma sequência de declarações afrontosas e desrespeitosas, tanto nas relações internacionais quanto nas relações com a oposição e com setores sociais que não o apoiam...

Vejo o comportamento do presidente com um misto de vergonha e revolta. Tenho vergonha como brasileiro. Eu circulo pelo meio acadêmico internacional e não gosto de ver ninguém atacando o Brasil, mesmo que tenha razão. Então, estou arranjando briga para tentar relativizar, digo que é um mal momento, que não representa o que o Brasil é, de fato. Mas, não é fácil. Como homem público estou muito indignado. Não é possível que um governo deste tamanho, com nove generais ministros, não tenha um homem ou uma mulher de personalidade que diga: “Ô panaca, para de falar bobagem, para de criar constrangimentos, respeita esta facha verde e amarela. Isso aqui é a oitava economia do mundo. Para de passar vergonha, de fazer o Brasil passar vergonha. Cala boca, vai trabalhar”. É o que tenho vontade de dizer a ele.

Outra questão preocupante é o conflito que Bolsonaro estabelece com a ciência, com a educação...

A postura dele é coerente. O idiota precisa destruir o ambiente da ciência, da educação, da cultura e da arte. Pois estes são os ambientes da sofisticação crítica. Ele precisa agredir a imprensa, pois ela é muita chata para o homem público. É um desastre. Em todo o mundo a ideia é aperfeiçoada e melhorada pelo pensamento acadêmico. Hoje, nós, no Brasil, estamos espancando a academia.  A inteligência brasileira está expulsa do debate nacional. E temos inteligência qualificada para qualquer desafio.

O senhor propõe uma saída para o Brasil, qual é?

Sou um homem dedicado ao Brasil. Não tenho nenhum escândalo na minha vida. Minha missão é ajudar o povo brasileiro a entender o que está acontecendo e se livrar desta depressão, desta tristeza, desta revolta. Nosso país está em sua pior crise da história moderna. Nós temos saída, mas esta saída exige muita conversa, diálogo e capacidade de raciocinar fora dos modelinhos importados do exterior que, infelizmente são a guia do atual governo. O Brasil é uma sociedade gravemente cortada em classes. Cinco brasileiros acumulam hoje a renda equivalente a 100 milhões de brasileiros. É a mais perversa desigualdade entre todas as economias organizadas do mundo.

Como o senhor analisa a Reforma da Previdência?

Ninguém duvida de que o Brasil precisa construir um caminho novo com sua Previdência Social, mas existem várias caminhos. Nossa proposta é equilibrada em 3 pilares. No pilar social, pagaríamos um salário mínimo de pensão, de Benefício de Prestação Continuada ou de aposentadoria para 100% dos brasileiros, independente de terem contribuído ou não, retirando o ônus deste primeiro pilar da Previdência e colocando-o diretamente no Tesouro. O segundo pilar é um regime de repartição até um teto de R$ 4 a 5 mil para todos, inclusive para os militares. O terceiro pilar é um regime de capitalização público, com contribuição patronal, de adesão voluntária para quem quisesse ter uma aposentadoria maior do que a garantida pelo segundo pilar. Isso garantiria, de forma rápida, em união a outras providências de caráter tributário - como o tributo sobre lucros e dividendos, um tributo mais progressivo sobre heranças, e um desconto de 20% nas atuais renuncias fiscais, que chegam a R$ 486 bilhões por ano – que o Brasil acabasse com o déficit em menos de 24 meses. Mas, governo faz uma proposta em que promete acabar com o déficit em 10 anos; R$ 83 de cada R$ 100 desse sacrifício vai ser no lombo daquela população que vive sob o Regime Geral da Previdência Social, ou seja, os mais pobres.

Bolsonaro não entende patavinas de nada, é triste falar isso de um presidente da República. Não sei se lucidamente, mas está trabalhando contra o Brasil.

Vamos tomar o exemplo dos militares, sem nenhum desrespeito.  Se você não tiver a DRU, que é aquele desvio de dinheiro da Previdência para juro de banco, o déficit da previdência neste ano é de R$ 50 bilhões. Os militares custam, hoje, R$ 47 bilhões aos cofres públicos e contribuem com R$ 3 bilhões. Qual a contribuição que eles vão dar neste reforma? Nenhuma.

Dizem que os políticos vão todos estar submetidos ao teto de R$ 5.800. Fizeram propaganda, colocaram isso na boca de artistas populares para enganar o povo. Isso é mentira. Grossa mentira. Este teto só vai valer daqui 39 anos, quando o novo deputado que se eleger na próxima eleição completar 35 anos de contribuição-  com 65 anos de idade mínima se for homem e 62 se for mulher. Daqui 39 anos vamos ter o efeito moralizador, entre aspas. Isso é ridículo. Além do que, o Brasil todo vai ver, não trará efeito nenhum a curto e médio prazo.

Ainda assim alguns deputados do PDT votaram a favor da reforma...

Os deputados que votaram a favor desta aberração votaram contra o povo, contra uma tese que é muito cara para nós, trabalhistas. Se você é do MBL, do Novo, tudo certo. Mas se você, entre todos os partidos, escolheu integrar um partido que se afirma trabalhista, que fundou o sistema público de previdência, não pode votar contra o povo.

O senhor está percorrendo o Brasil para formar uma base capaz de sustentar sua candidatura em 2022. Há chances reais?

Nós temos condições reais de disputar a presidência da República. Nas eleições passadas cheguei com a menor rejeição, reconhecido como uma pessoa com algum preparo e treinamento. E esta ideia está aumentando. É preciso ter uma base na sociedade para chegar lá e não frustrar o povo, fazer o que tem que ser feito. Então precisamos expandir, crescer.

Moro não recebeu a promessa de um saco de dinheiro, mas recebeu a promessa de um cargo vitalício de ministro no STF. Isso está definido no Código Penal como crime. Ele é um corrupto.

O senhor se coloca em uma posição de enfrentamento ao petismo. Em uma nova disputa pela presidência da República aposta no voto do centro, que lá na frente vai se decepcionar com o bolsonarismo?

Eu não estou apostando em nada.  Eu acho que o PT tem lá os seus 25%. O bolsonarismo, apesar do Bolsonaro, tem seus 25%. Temos, então, cerca de 50% de órfãos no Brasil, pessoas a quem eu quero dizer: “Olha, tem saída, vamos nos organizar. Chega desta polarização. É preciso unir os interesses da produção com os interesses do trabalho, e o inimigo é a especulação financeira”. Para sairmos da situação em, que nos encontramos e fazer frente ao que se apresenta hoje é preciso três coisas: ideias, exemplos e militância. É preciso ajudar a população a entender o que está acontecendo. Oferecer a ela respostas práticas e se afastar do culto à personalidade.

Qual a sua opinião sobre a reeleição?

A reeleição no Brasil, ciada pelo Fernando Henrique Cardoso, é uma perversão. Especialmente diante da internet. Hoje já está provada a influência tremenda do poder financeiro e político norte-americano, via redes sociais, nas eleições brasileiros, deformando opiniões. O TRE não tem ideia do que aconteceu. Estabelecer uma reeleição com esta precariedade institucional gera uma deformação muito grave.

Como o senhor avalia a postura do ministro Sergio Moro diante da política brasileira?

Um homem como Sergio Moro não deveria jamais ter feito o que fez. É outro elemento para demonstrar porque nosso povo está perdendo a crença nas instituições democráticas. Qual sério aceitaria que um juiz condene um político (e não interessa se ele é culpado ou não), tirando este político da eleição, para em seguida aceitar ser ministro do adversário deste político, que ganhou a eleição porque o outro, preso, não pode disputar o pleito? Qual país do mundo aceitaria uma imoralidade conceitual e irreparável como essa? Hoje, está demonstrado que o Moro foi convidado para ser ministro do STF antes da eleição. Ora, vamos raciocinar: se nós descobrissemos que Sergio Moro recebeu a promessa de um saco de dinheiro para fazer o que fez, ele seria oque? Corrupto. Não, ele não recebeu a promessa de um saco de dinheiro, mas recebeu a promessa de um cargo vitalício de ministro no STF. Isso está definido no Código Penal como crime. Ele é um corrupto.


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