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Sábado 21.set.2019

Ano VIII - Nº 364

Poder

Dados do Imazon mostram tendência de crescimento do desmatamento na Amazônia

Não é só Bolsonaro. Nosso padrão de consumo ajuda a derrubar a Amazônia

Postado em 16 de Agosto de 2019 - RBA, Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL)

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Dados do último Boletim do Desmatamento da Amazônia Legal, divulgados na manhã de sexta-feira (16) pelo Imazon, instituto de pesquisa nacional independente, confirmam a tendência de crescimento da devastação local. No período que vai de agosto de 2018 a julho de 2019, foram 5.054 quilômetros quadrados desmatados, o que corresponde a um aumento de 15% em relação a igual período do calendário anterior.

Considerando os números somente do mês de julho, foram 1.287 quilômetros quadrados desmatados na região, elevação de 66% comparando-se ao mesmo mês de 2018, quando o desmatamento somou 777 quilômetros quadrados. Em julho de 2019, o estado que contribuiu com o maior índice de desmatamento foi o Pará (36%), seguido do Amazonas (20%).

A novidade deste relatório é a presença do Acre, que não costuma aparecer nos primeiros lugares do ranking, com 15%, mesmo índice de Rondônia. No mesmo boletim do ano passado, o estado foi responsável por 5% do total do período, com um aumento de 257%.

O Imazon aponta ainda que em julho de 2019, 55% do desmatamento ocorreu em áreas privadas ou sob distintos estágios de posse. O restante foi registrado em assentamentos (20%), Unidades de Conservação (19%) e Terras Indígenas (6%).

O instituto utiliza o Sistema de Alerta de Desmatamento para realizar seu monitoramento na Amazônia com base em imagens de satélites. De acordo com o Imazon, o sistema que opera desde 2008 consegue detectar desmatamentos a partir de 1 hectare mesmo sob condição de nuvens.

Loucura ambiental vive a fase de rasgar dinheiro

"Podem fazer bom uso dessa grana, o Brasil não precisa disso", declarou Jair Bolsonaro ao ser indagado sobre a decisão do governo da Alemanha de suspender o repasse de R$ 150 milhões que seriam destinados a projetos de proteção da floresta amazônica. Em mais uma evidência de que a locura ambiental tem razões que a sensatez desconhece, o capitão soltou fogos. Para ele, a Alemanha "não vai mais comprar a Amazônia, vai deixar de comprar à prestação a Amazônia."

A decisão da Alemanha é decorrência da aparente despreocupação do governo com a elevação do desmatamento na Amazônia. Dados do Inpe apontam indícios de que, na comparação com junho e julho de 2018, o tombamento da floresta aumentou respectivamente 88% e 278% nos mesmos meses em 2019. O governo desqualifica os dados científicos. E não esboça reação contra o flagelo ambiental.

O gesto alemão é café pequeno perto do que está por vir, pois a administração Bolsonaro ergue barricadas contra o Fundo Amazônia, maior projeto de cooperação internacional já concebido para preservar a floresta amazônica. Em uma década, o fundo recebeu doações de R$ 3,4 bilhões. A Alemanha também contribuiu, mas o grosso (93%) veio da Noruega. Dinheiro a fundo perdido, sem a necessidade de ressarcimento.

O Fundo Amazônia subiu no telhado depois que o ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) passou a questionar a gestão dos recursos, feita sob a supervisão do BNDES. Salles diz coisas definitivas sem definir muito bem as coisas. E os financiadores ameaçam bater em retirada. Para satisfação de Bolsonaro, que logo convocará os refletores para repetir: "O Brasil não precisa desse dinheiro".

O governo do capitão não chega a negar a escalada do desmatamento. Apenas alega que uma orquestração das imagens de satélite e dos cientistas do Inpe, mancomunados com a mídia comunista, trata a encrenca com alarmismo. Não se enxerga, porém, nenhuma "orquestra" em cena. O que há é gente colocando a boca no trombone para realçar a maluquice de um governo cujo Ministério do Meio Ambiente descuida do ambiente inteiro.

Além de refugar o auxílio financeiro internacional, o governo do capitão anuncia a intenção de contratar um novo sistema de aferição do desmatamento. Sem uma demonstração cabal de que o monitoramento do Inpe produz dados "mentirosos", como alega Bolsonaro, gastar dinheiro público para atestar mais do mesmo não é senão uma variação do costume atribuído aos loucos de rasgar dinheiro.

O problema é que os doidos ambientais picotam verbas que a Receita Federal arranca na marra dos brasileiros antes de chamá-los indevidamente de "contribuintes". Num ambiente assim, só não reconhecem que o governo está mesmo meio doido as pessoas que estão inteiramente malucas.

Padrão

O governo Bolsonaro está rifando a qualidade de vida desta e das futuras gerações com o seu comportamento predatório com relação ao meio ambiente. Para tanto, menospreza a ciência, enfraquece a fiscalização, difama populações tradicionais, abraça o naco anacrônico do agronegócio e deixa claro que o combate a crimes ambientais deixou de ser prioridade, enquanto apoia legislação sobre o tema que faria inveja à da ditadura. Na narrativa conspiratória do governo, quem critica o pacote "terra arrasada" não é patriota, quem aponta desmatamento é um traidor, quem fala de outras formas possíveis de crescer em respeito ao meio é um entreguista. E enquanto denuncia uma suposta trama internacional contra a Amazônia, o próprio presidente próprio sugere "abrir para Donald Trump explorar a região amazônica em parceria".

Vai muito, mas muito além do ex-presidente Michel Temer que, para manter no poder seu grupo político denunciado por corrupção, fez a vontade de uma parte retrógrada do setor produtivo e do Congresso Nacional. A proposta de redução da proteção na Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará, ou o ataque direito aos direitos de populações indígenas a seus territórios (que apresentam, em média, taxas de conservação maiores que as unidades sob responsabilidade direta do governo) foram exemplos disso. Isso sem falar na polêmica envolvendo a Reserva Nacional do Cobre e Associados (Renca).

Também não é novidade que Dilma Rousseff não morria de amores pela questão ambiental. Um dos maiores crimes cometidos contra a Amazônia, seus povos e trabalhadores em nossa história recente responde pelo nome de usina hidrelétrica de Belo Monte, menina dos olhos da ex-presidente. Comunidades indígenas e ribeirinhas impactadas e deslocadas, trabalhadores mortos, tráficos de pessoas para exploração sexual a fim de atender aos canteiros de obras, criação de novos vetores de desmatamento, ocupação desordenada do solo urbano e rural, tudo contribuindo para mudanças climáticas. Ironicamente Dilma estava ao lado de um modelo de desenvolvimento predatório e violento que foi levado a cabo durante a ditadura contra a qual ela lutou.

Poderíamos citar todos os mandatários da Nova República e dar especial ênfase aos ditadores entre 1964 e 1985 nessa lista suja. Mas o que as pessoas esquecem é que esse modelo de terra arrasada serve para abastecer um padrão de consumo, vendido em publicidades brilhantes, propagandas excitantes e merchands delirantes, que nós engolimos bovinamente, sem questionar.

Sim, a panela de alumínio (com a qual muitos resumem sua participação na vida pública) bebeu energia e comeu minerais extraídos da Amazônia brasileira. Sim, muitos bens de consumo têm em seu custo o desaparecimento de aldeias indígenas e o desmatamento ilegal.

De onde você acha que vem o aço de nossos automóveis? E o couro dos estofados? E a madeira utilizada no processo de construção de nossas casas e apartamentos? E a carne que comemos diariamente? E a soja que está em muitos de nossos produtos industrializados e na ração de outros animais? E o dendê do biodiesel? E o ouro dos circuitos eletrônicos? Nem todos são produzidos de forma danosa ao meio e ao ser humano, claro, mas muita coisa vem sem controle algum.

Do que adianta não questionar os padrões de comportamento ao qual todos nós – e não me excluo desse coletivo – estamos inseridos e depois colocar uma foto nas redes sociais do tipo "SOS Amazônia"? Você busca se informar sobre o impacto de seu consumo e, a partir daí, questionar os fornecedores de seus produtos preferidos?

Muitos defendem a mudança no comportamento da sociedade para combater a destruição do meio ambiente, mas, no sigilo do carrinho de supermercado, continuam comprando um

produto mesmo sabendo que ele está envolvido em danos ambientais. Autointulam-se

ecoconscientes, porque é bonito e pega bem, mas sustentam uma pegada ecológica do tamanho de um mundo.

Não querem mudanças no modelo de desenvolvimento que impactariam nosso "American Way of Life" importado, apenas reciclam latinhas de alumínio e dão três descargas a menos no vaso sanitário por dia. E, pior, acreditam em promessas sem lastro, só por um discurso bonitinho, mas completamente ordinário, que não vale o esterco em que são adubadas em tempos de eleições.

Dessa forma, seguimos nossa cruzada em prol do desenvolvimento a todo o custo. Para produzir e, assim, exportar, gerar divisas, pagar juros de empréstimos, e assim poder contrair mais empréstimos e investir na produção. Não sem antes destruir outro lugar e outra comunidade. Que pode ser indígena, mas também ribeirinha, camponesa, quilombola, caiçara ou mesmo moradores da periferia de grandes cidades.

Isso não se resume a um boicote, que é instrumento muito importante de pressão e alerta, mas não resolve problemas estruturais. Precisamos fazer acompanhamento crítico de nosso consumo no cotidiano. Porque consumir é um ato político. Quando você compra algo, está depositando seu voto na maneira como aquele produto foi feito, não apenas em sua estética, mas também em sua ética. Criticamos com desenvoltura nas redes sociais a forma como acontece a política, mas não criticamos a maneira como produtos são feitos. Exigimos mudanças nessa mesma política, mas não alterações profundas no processo de produção. Por quê?

Como já disse aqui antes, isso não é um chamado à culpa, o que não levaria a nada. E só podemos defender consumo consciente se, antes, ajudarmos a população a se informar sobre o que acontece. Atuo com a investigação de cadeias produtivas do agronegócio e do extrativismo desde 2003, tendo coordenado o rastreamento de mais de 1,7 mil unidades produtivas. Ao mesmo tempo, tenho um doutorado exatamente sobre esse tema. Isso não me torna autoridade de nada, mas me permite dar meu testemunho pessoal: a mudança é lenta, muito lenta, mas possível. Há muita gente boa e dedicada envolvida nisso: empresários, ativistas, procuradores, políticos, professores, jornalistas, economistas, cidadãos.

Isso é um lembrete que todos temos responsabilidade, uns mais outros menos. A nossa, claro, é menor do que a dos governos e de empresários do agronegócio, do extrativismo, da indústria, do varejo e do sistema financeiro. Mas temos um papel a cumprir, preferindo políticos e produtos que atuam em nome da qualidade de vida e excluindo do rol de possibilidades quem não se importa com o meio e as pessoas que nele vivem. Lembrando que não há debate possível que não passe por repensar o próprio capitalismo.

Lutar contra a pilhagem da Amazônia, do Cerrado e do Pantanal é difícil, porque aprendemos a gostar do conforto das coisas a um preço baixo. Mas a luta é necessária.

Pois, não raro, alguém, a milhares de quilômetros de onde moramos, está pagando um preço muito alto pela nossa alegria.


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