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Sexta-Feira 20.set.2019

Ano VIII - Nº 363

Poder

Nós usamos publicação científica, não balela, diz ex-diretor do Inpe a ministro do Meio Ambiente

O incrível silêncio do Partido Novo sobre Ricardo Salles

Postado em 16 de Agosto de 2019 - G1 e Sérgio Praça (Exame)

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Em meio ao descontentamento do governo com os números publicados sobre o desmatamento da Amazônia, o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles e Ricardo Galvão, ex-diretor do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), trocaram acusações no programa Painel, da GloboNews, comandado por Renata Lo Prete, exibido na noite do último dia 10.

Alvo de duras críticas do presidente Jair Bolsonaro por seu trabalho à frente do Inpe, Ricardo Galvão voltou a defender os dados e a metodologia do instituto. “Um programa de desenvolvimento sustentável tem que ser articulado entre a academia, empresas e governo. O que nós usamos é publicação científica. Fui ver trabalho científico, não balela, não coisa de jornalzinho, de Twitter”, afirmou.

O ex-diretor do Inpe voltou a condenar a postura do presidente afirmando que "qualquer dirigente de um país tem que entender que, quando se trata de questões científicas, não existe autoridade acima da soberania da ciência. Nem militar, nem política, nem religiosa”. O ministro Ricardo Salles criticou a declaração de Galvão. “O problema é quando a ideologia está disfarçada dentro da ciência”, respondeu. “O que nós vemos há muito tempo é a ciência se arrogando do direito de dizer isso ou aquilo”.

“Há um grau de aparelhamento dessas instituições. A sua postura com o presidente mostrou isso, a forma como o senhor se referiu ao presidente da República”, disse Salles, afirmando que Galvão havia sido desrespeitoso com Bolsonaro. “Desrespeitoso foi o presidente da República com a ciência brasileira”, rebateu o ex-diretor do Inpe. “Ele falou categoricamente que os dados do Inpe são mentirosos. Ele está acusando todos os cientistas do Inpe de terem cometido crime de falsidade ideológica”.

O programa também teve a participação de Marcello Brito, presidente da Abag (Associação Brasileira do Agronegócio), que opinou sobre os rumos da política ambiental e o impacto no seu setor. “Se a gente pega a detração contra o agro brasileiro lá fora, uma parcela vai vir daqueles que concorrem diretamente conosco. Agora você tem uma parte que vem da mídia especializada, de dados e de estudos, e isso é um problema muito forte”, disse ao comentar as repercussões negativas que os últimos acontecimentos tiveram na imprensa internacional.

Empresa privada na monitoração

No debate, Salles reafirmou a intenção do governo de contratar uma empresa privada para apurar com mais tecnologia dados sobre o desmatamento da Amazônia. Galvão rebateu que é preciso usar a “ciência brasileira” para isso, porque já existem, segundo ele, ONGs e institutos capacitados no país para colher essas informações. Salles criticou a postura do ex-diretor dizendo que era “ufanista” e afirmou que não se pode utilizar um sistema técnico que não seja avançado “só porque é brasileiro”.

Crise no Inpe

Em 19 de julho, Bolsonaro acusou o Inpe de mentir sobre dados de desmatamento e de estar "agindo a serviço de uma ONG". As críticas do governo aos dados e à direção do instituto continuaram durante o início do mês de agosto. O presidente chegou a afirmar que os responsáveis pela divulgação das informações agiram de "má-fé para prejudicar o governo atual e desgastar a imagem do Brasil".

Depois de trocar acusações com o presidente, Ricardo Galvão, diretor do Inpe, foi exonerado do cargo. No dia 5 de agosto, o ministro Marcos Pontes, da Ciência e Tecnologia, anunciou o militar Darcton Policarpo Damião como diretor interino do instituto.

Silêncio

O Partido Novo foi a principal novidade das eleições de 2018. Conseguiu eleger oito deputados federais — nada mal para um partido que disputou sua primeira campanha. Romeu Zema foi eleito governador de Minas Gerais, derrotando as máquinas petistas e tucanas nos municípios de um dos principais estados brasileiros — um feito notável. Mas, dez dias atrás, o partido se deparou com um problema típico dos velhos. Ricardo Salles, candidato a deputado federal pelo Novo e indicado como ministro do Meio Ambiente por Jair Bolsonaro (PSL), foi condenado por improbidade administrativa em primeira instância.

A acusação não é, em comparação ao que nós, brasileiros, aprendemos a nos acostumar, tão grave quanto poderia ser. Salles teria favorecido empresas de mineração em 2016 ao acolher mudanças feitas nos mapas de zoneamento do Plano de Manejo da Área de Proteção Ambiental do Rio Tietê. Salles era, à época, secretario estadual do Meio Ambiente de São Paulo. O juiz do caso ressaltou que a decisão do político acabou não sendo aprovada, e não implicou “enriquecimento ilícito” nem “lesão ao erário”. Os direitos políticos de Salles foram suspensos por três anos. Obviamente ele já está recorrendo da decisão.

O Partido Novo não iniciou, ainda, investigação sobre o futuro ministro. Bolsonaro já disse que manterá a indicação. Até aí, não haveria nada de chocante tratando-se de política brasileira. Condenações judiciais pouco mobilizam os partidos. Mas o Novo pretende ser, oras, novo. Um típico tuíte do perfil oficial do partido é: “#Em2019EuVou dar o exemplo diminuindo os gastos públicos com parlamentares do Novo cortando número de assessores em seus gabinetes. #NOVOnaPrática”. Sobre Salles, apenas duas frases foram publicadas há três semanas: “O Novo é independente do governo eleito e seus filiados têm a liberdade de prestar serviço público, desde que não contrariem os princípios e valores da instituição. Desejamos sucesso ao futuro ministro Ricardo Salles.”

Depois disso, apenas silêncio nas redes sociais. Li todo o estatuto do partido e ele é suficientemente ambíguo para que Salles tenha longa vida no partido enquanto não for condenado em segunda instância. Diz o artigo 2: “O Novo tem como objetivo (…) defender os princípios republicanos de respeito à coisa pública e ao bem comum, buscar a eficiência e qualidade na gestão pública (…)”. E o artigo 13: “São deveres dos filiados (…) exercer com probidade, dedicação e até o final do respectivo termo os mandatos eletivos assumidos sob a legenda do Novo”.

Bem, Salles foi condenado por improbidade administrativa. No mínimo, é algo para a Comissão de Ética Partidária – prevista no artigo 72 do estatuto – analisar. Salles pode continuar filiado ao partido até ser condenado em segunda instância. Mantê-lo no Novo é até razoável, pois o estatuto do partido não é suficientemente claro sobre esse tipo de situação. Mas a velha prática do silêncio é patética.


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