Semana On

Quarta-Feira 23.out.2019

Ano VIII - Nº 368

Coluna

Transexuais são excluídos do mercado de trabalho

Com raras oportunidades de emprego, cerca de 90% das pessoas trans no Brasil acabam recorrendo à prostituição

Postado em 14 de Agosto de 2019 - Thaís Cunha – Correio Braziliense

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Quando busca explicar por que o Brasil e outros países da América Latina registram altos índices de violência contra travestis e transexuais, a ONG Transgender Europe cita, como uma das causas, a vulnerabilidade dessas pessoas ao trabalharem na prostituição. Ao fazer isso, a entidade internacional aponta, indiretamente, um dos maiores obstáculos para transgêneros brasileiros: a exclusão do mercado de trabalho.

Segundo o Relatório da violência homofóbica no Brasil, publicado pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH), a transfobia faz com que esse grupo “acabe tendo como única opção de sobrevivência a prostituição de rua”. Não é mera força de expressão. Estimativa feita pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), com base em dados colhidos nas diversas regionais da entidade, aponta que 90% das pessoas trans recorrem a essa profissão ao menos em algum momento da vida.

Foi o que aconteceu com a transexual baiana Ariane Senna, 25 anos. Ao ser expulsa da casa dos avós com apenas 13 anos, restou a ela, como forma de sobrevivência, os programas que combinava nas ruas de Salvador à beira-mar. “A juventude trans morre muito cedo porque, quando a gente é expulsa de casa, a gente vai parar na rua. Não te aceitam, mas vão te procurar na orla à noite”, denuncia a hoje psicóloga (leia seu perfil).

Demissão

A professora Luiza Coppieters, 37 anos, sentiu na pele que mesmo pessoas transexuais com uma condição privilegiada (nível educacional alto, origem na classe média) estão sujeitas à discriminação e à exclusão. Ela dava aulas de filosofia em uma escola particular de São Paulo quando começou a transformação corporal. Aos poucos, contou aos professores, alunos e chefes. A violência veio de forma sutil, mas persistente, e durou dois anos, até Luiza ser demitida, depois de pedir uma licença para tratar a síndrome de pânico que a afetou.

A professora chegou a manter contato com alunos em aulas via Facebook. Alguns pais, porém, proibiram esse contato, com medo de que seus filhos se tornassem transexuais. “Eu, com meu raio transexualizador, poderia provocar isso”, comenta ela, mantendo o bom humor, apesar da gravidade da situação a que foi submetida.

Em nota enviada à imprensa na época, a escola afirmou que a demissão de Luiza ocorreu por “motivos profissionais, ligados ao cotidiano de aulas, compromissos burocráticos e éticos”. Um processo ainda corre na Justiça.

Hoje, mais militante, Luiza dá palestras e aulas sobre gênero, inclusive no YouTube. Foi candidata a vereadora em São Paulo, mas não se elegeu. Agora, luta para pagar as contas: “Moro na cracolândia, estou devendo uma fortuna, cheguei a passar fome. Sou branca e vim da classe média, tenho ensino superior. Eu tive privilégios, mas olhe minhas escolhas...”, desabafa. A certeza da necessidade de lutar por sua identidade, contudo, não foi abalada. “Não me arrependo de nada.”

Oportunidade

Sem legislação específica que garanta espaço no mercado de trabalho, transexuais e travestis dependem de iniciativas pontuais por parte de algumas empresas. Esse movimento, contudo, ainda é muito tímido. Série publicada em maio de 2016 pelo Correio Braziliense mostrou que não há nenhuma companhia nacional entre as 28 participantes do Fórum de Empresas e Direitos LGBT, iniciativa apoiada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT). O grupo acaba sendo formado por multinacionais como Google, IBM, Carrefour e Facebook, que seguem no país as orientações das sedes (leia as matérias aqui, aqui e aqui).

Em São Paulo, os proprietários da hamburgueria Castro Burger decidiram não excluir na hora de montar sua equipe. Depois de publicarem anúncio de emprego que deixava clara a intenção de contratar transexuais, os empresários receberam 348 currículos, sendo 29 de homens trans, 41 de mulheres trans e 14 de pessoas não binárias. Dezesseis funcionários foram contratados. Dois são transexuais.

Com o nome inspirado no bairro de San Francisco que é um dos principais redutos LGBT do mundo, o Castro Burger busca ser um ponto de encontro da diversidade na capital paulista. Heterossexual, cisgênero e um dos proprietários, Luiz Felipe Granata, 30 anos, defende que outras empresas sigam o exemplo: “Não há razão para as pessoas serem excluídas por sua identidade de gênero. Simplesmente não tem lógica. Ainda mais quando são profissionais excelentes”.


Voltar


Comente sobre essa publicação...