Semana On

Quinta-Feira 14.nov.2019

Ano VIII - Nº 371

Coluna

A interminável fase anal do presidente

A semana política, do jeito que eu vi. Com o jornalista Victor Barone

Postado em 14 de Agosto de 2019 - Victor Barone

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

A língua de Jair Bolsonaro dá ao seu dono a aparência de um sujeito escrachado —do tipo que, avesso ao hábito de ouvir e dotado da dificuldade de ler, cultiva a mania de falar dez vezes antes de pensar. Improvisadora contumaz, a língua ultrapassa as fronteiras do paroxismo. Vão resumidas abaixo três cenas das últimas 72 horas. Ajudam a compreender o drama.

1) Na saída do palácio residencial do Alvorada, um repórter perguntou ao capitão se ele acredita ser possível harmonizar preservação ambiental com crescimento econômico. A resposta foi positiva. A língua lecionou: "É só você fazer cocô dia sim, dia não". (assista abaixo).

2) Nos salões do Planalto, Bolsonaro concedeu a um grupo de estudantes gaúchos o ar de sua graça. Exibiu-se aos visitantes com Sergio Moro a tiracolo. Atendeu gostosamente ao pedido para que autografasse uma camiseta. Repassou-a para Moro. Após acomodar seu jamegão sobre o tecido, o ministro devolveu a peça. E a língua, do nada, sapecou um "Lula livre!", emendando uma gargalhada que deixou embasbacado o ex-juiz da Lava Jato. (repare no vídeo)

3) Numa transmissão ao vivo pela internet, Bolsonaro facultou a Sergio Moro a oportunidade de vender à plateia um pacote anticrime que, horas antes, a língua dissera não ser mais prioritário. Ao final, Moro pediu licença para "trocar de lugar" com o ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente). A língua não perdeu a piada: "Vai fazer um troca-troca com o Salles aí?" Às gargalhadas, aconselhou: "Troca só a cadeira…"

Vá lá que o Bolsonaro da Presidência da República não precisa ser completamente diferente do Bolsonaro que assombrou a Câmara por 28 anos. Mas a língua do capitão exagera ao adicionar pitadas de escatologia e de asneiras a bizarrices como a concessão do título de "herói nacional" a um torturador de mostruário do porte de Brilhante Ustra.

Admirador dos Estados Unidos, Bolsonaro deveria inspirar-se em Theodore Roosevelt. Ele dizia que a Presidência da República oferece àquele que a ocupa uma tribuna vitaminada. Chamava-a de bully pulpit —púlpito formidável, numa tradução livre. De um bom presidente, ensinou Roosevelt, espera-se que aproveite o palanque privilegiado para irradiar confiança e bons exemplos. De Bolsonaro não se espera tanto. Mas uma dose de recato já pareceria um extraordinário avanço institucional.

Por Josias de Souza

Se a sensibilidade auditiva fosse transportada das orelhas para o nariz, quem ouve as entrevistas e os discursos de Jair Bolsonaro sentiria um mau cheiro insuportável. Num instante em que o Congresso exercita um inédito ímpeto reformista, o presidente da República faz uma opção preferencial pelo excremento.

Após concluir a aprovação da reforma da Previdência, a Câmara arremata a votação da medida provisória da "liberdade econômica" e desengaveta a proposta sobre a aposentadoria dos militares. No Senado, tenta-se empurrar os servidores de estados e municípios para dentro da emenda previdenciária.

Simultaneamente, Bolsonaro gruda sua oratória no intestino grosso. No final de semana, ensinou a um repórter que, para preservar o meio ambiente, basta "fazer cocô dia sim, dia não". Dias depois, instado a explicar-se, disse que não se deve esperar que ele seja "politicamente correto".

O capitão reiterou: "É só você cagar menos que, com toda certeza, a questão ambiental vai ser resolvida." Na sequência, queixou-se de entraves ambientais impostos pela Funai. Declarou que basta o "cocozinho petrificado" de um índio para barrar a realização de uma obra.

Nesta quarta-feira, em visita à cidade piauiense de Parnaíba, Bolsonaro prometeu "acabar com o cocô do Brasil." Tratou de definir cocô: "É essa raça de corruptos e comunistas. Vamos varrer essa turma vermelha do Brasil." O ímpeto presidencial anticorrupção fraqueja nas manobras contra o Coaf. E a ameaça comunista só existe nos pesadelos do Alvorada.

A dedicação à oratória fecal impede o presidente de surfar a onda pró-reformas econômicas que bate na praia do Legislativo. Quando tomou posse, Bolsonaro instilava boas expectativas. O mercado projetava taxas de crescimento acima de 2% para 2019. Hoje, às voltas com a perspectiva de "recessão técnica", o governo de Bolsonaro desperta receios que retardam investimentos.

Os brasileiros de boa vontade ficam imaginando que cenário magnifico haveria no Brasil se, de repente, por milagre, baixasse no cérebro do presidente da República uma epidemia de ridículo.

Por Josias de Souza

Analisando a mais recente escalada escatológica do presidente, Christian Dunker, psicanalista e professor titular do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo - um dos coordenadores do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP e ganhador do prêmio Jabuti pelo livro "Estrutura e Constituição da Clinica Psicanalítica" – diz o seguinte: "Ele está optando pela pauta moral. O que combina com a ideia mais básica da analidade – criança aprende a controlar os esfíncteres, aprende o que é o lugar do banheiro, aprende que tem que manter a higiene corporal. Isso tudo é o que? O início da moralidade. É também o momento em que a gente começa a aprender o processo civilizatório, do decoro, da vergonha e, mais adiante, da culpa. O discurso moral, quando você vai enxugando psicanaliticamente, frequentemente vai dar na merda, na bosta, exatamente o que o presidente está praticando".

Por Leonardo Sakamoto

Bolsonaro sempre recorreu a comentários de conotação sexual ao longo de sua carreira. Em uma live recente, questionou se o ministro da Justiça, Sérgio Moro, faria "troca-troca" com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, constrangendo-o. O psicanalista Christian Dunker (leia acima)  analisa essa questão como um misto de conveniências políticas com limitações pessoais do presidente, de se mostrar autêntico junto com uma grande insegurança estrutural.

Por Leonardo Sakamoto

A fala escatológica de Bolsonaro sobre a preservação do meio ambiente foi destaque em vários sites internacionais. O título de um artigo no da Forbes: “Presidente do Brasil: o que há de errado com o conselho dele sobre cocô”.

DESPREZO

O presidente Jair Bolsonaro ampliou na quinta, 15, a lista de países desprezados na semana ao comentar a decisão da Noruega de congelar o financiamento de R$ 155 milhões para projetos ambientais no Brasil. “Noruega? Não é aquela que mata baleia lá em cima, no Polo Norte, não? Que explora petróleo também lá? Não tem nada a oferecer para nós”, disparou. A Alemanha também foi alvo de comentário parecido nos últimos dias, assim como a Argentina, de quem o Brasil “não precisa para crescer”, conforme afirmou o ministro Paulo Guedes nesta quinta, 15. Bolsonaro mandou o governo norueguês “pegar a grana” bloqueada para “ajudar” a chanceler alemã Ângela Merkel a reflorestar a Alemanha. Os dois países são responsáveis por 99% das doações do Fundo Amazônia, que financia ações de preservação ambiental. Muitos investimentos em projetos ambientais de países desenvolvidos fazem parte de compromissos firmados por eles, por exemplo, na Convenção Internacional do Clima da ONU, a pedido de países em desenvolvimento para compensar atividades mineradoras realizadas em várias partes do mundo. Em 2018, o grupo norueguês Norsk Hydro reconheceu que sua fábrica de alumínio Hydro Alunorte, no Brasil, derramou água sem tratamento no Rio Pará.

A ministra do Meio Ambiente na Alemanha, Svenja Schulze, respondeu ao presidente Jair Bolsonaro após ele reagir, dizendo que não precisa dinheiro do país europeu, à decisão da pasta de suspender financiamento de projetos ambientais no Brasil. O congelamento não atinge o Fundo Amazônia. “Apoiamos a região amazônica para que haja muito menos desmatamento. Se o presidente não quer isso no momento, então precisamos conversar. Eu não posso simplesmente ficar dando dinheiro enquanto continuam desmatando”, afirmou a ministra à Deutsche Welle.

BOBO DA CORTE

Borat, bobo da corte e protagonista do clássico de terror Massacre da serra elétrica – essas foram algumas das associações feitas ao presidente Jair Bolsonaro pelo programa humorístico alemão Extra 3, transmitido na noite de quinta-feira (15).

Atração de horário nobre da ARD, principal rede de televisão pública alemã, o programa satirizou por quase cinco minutos o governo do presidente brasileiro, criticando principalmente sua política ambiental e o desmatamento na Amazônia. O vídeo intercala cenas de Bolsonaro com imagens de cortes de árvores e queimadas na Amazônia, além de atividade agrícola e pecuária.

"Um sujeito que não pensa nem um pouco sobre sustentabilidade e emissão de CO2 é o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, o 'Trump do samba'. Mas alguns dizem também 'o boçal de Ipanema'", afirma o apresentador Christian Ehring, em frente a uma fotomontagem de Bolsonaro vestindo a sunga do personagem Borat, criado pelo humorista britânico Sacha Baron Cohen.

"Bolsonaro deixa a floresta tropical ser destruída para que gado possa pastar e para que possa ser plantada soja para produzir ração para o gado", continua Ehring, após mencionar os mais recentes dados sobre desmatamento no Brasil e diante de outra montagem, dessa vez mostrando Bolsonaro com uma serra elétrica nas mãos.

"Desde a posse do presidente Jair Bolsonaro, o desmatamento cresceu significativamente e pode continuar aumentando a longo prazo", diz uma voz em off, após aparecer uma foto do líder brasileiro como um "bobo da corte do agronegócio", segurando uma garrafa de pesticida.

O apresentador destaca ainda que o presidente "não se importa nem um pouco" com a suspensão de verbas para projetos ambientais anunciada pelo Ministério do Meio Ambiente alemão no fim de semana. "Pegue essa grana e refloreste a Alemanha, tá ok? Lá tá precisando muito mais do que aqui", afirmou Bolsonaro ao reagir com desprezo ao congelamento dos repasses.

Ehring também fala sobre o acordo comercial negociado entre a União Europeia e o Mercosul, chamando o pacto de um "romance destrutivo". Atrás dele aparece uma fotomontagem retratando o presidente e a chanceler federal alemã, Angela Merkel, como uma dançarina sentada em seus braços.

"Bolsonaro ainda demitiu o chefe do próprio instituto que registrou o desmatamento na floresta tropical, e nomeou a principal lobista da indústria agropecuária como ministra da Agricultura", ressalta o comediante, referindo-se primeiro à demissão de Ricardo Galvão do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Em seguida, ele apresenta um videoclipe da chamada Bolsonaro-Song, uma paródia da música Copacabana, sucesso nos anos 70 na voz do americano Barry Manilow.

Humorístico conhecido principalmente pela sátira política, o programa Extra 3 tem como alvos principais os dirigentes alemães. Mas líderes internacionais como o americano Donald Trump, o norte-coreano Kim Jong-un, o britânico Boris Johnson e o russo Vladimir Putin também são personagens recorrentes do programa.

Nem sempre a brincadeira é levada na esportiva pelos estadistas. Um dos mais recentes debates provocados pelo Extra 3 foi uma paródia musical com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, veiculada em março de 2016. O caso gerou um desconforto diplomático entre Berlim e Ancara, e o Ministério do Exterior turco chegou a convocar o embaixador alemão no país para explicações.

A controvérsia chegou ao ápice poucas semanas depois, com uma sátira a Erdogan apresentada em outro programa televisivo, dessa vez pelo humorista Jan Böhmermann. O imbróglio foi parar na Justiça e acabou ganhando as capas dos jornais como o "caso Böhmermann".

COMUNICADOR

Sete meses após chegar ao Palácio do Planalto, o presidente Jair Bolsonaro assumiu o controle total da comunicação do governo e tomou para si o papel de decidir os rumos da narrativa da sua gestão. Em conversas reservadas, alguns dos seus principais auxiliares admitem que, além da espontaneidade que agrada o eleitor fiel, Bolsonaro utiliza uma boa dose de cálculo político que o mantém como protagonista, pautando o noticiário e sendo matéria-prima de piadas na internet. Para o bem ou para o mal, ele segue o assunto principal e, ao mesmo tempo, evita que coadjuvantes, como o vice-presidente, Hamilton Mourão, e ministros que comandam algumas das principais pastas roubem-lhe a cena.

“O presidente Jair Bolsonaro se valeu das redes sociais para compensar a baixa exposição de sua candidatura à Presidência da República no ano passado por meios ditos tradicionais, como as propagandas no rádio e na TV. Desde o início da década de 2010, notadamente a partir da onda de protestos de junho de 2013, o papel das redes sociais na vida política do País foi amplificado. Bolsonaro soube identificar e aproveitar como poucos essa transformação no relacionamento entre os políticos e uma significativa parcela do eleitorado. Não só foi eleito presidente, como consolidou uma base de apoio fiel, acrítica e bastante ruidosa no Twitter e no Facebook, plataforma em que semanalmente faz suas já conhecidas lives, transmissões diretas e informais por meio das quais trata do que lhe vier à cabeça no dia.”

Trecho de editorial do Estadão.

DOIS GOVERNOS

Há dois governos em Brasília, o alternativo e oficial. Num, Jair Bolsonaro comanda o departamento de efeitos especiais. Noutro, o ministro Paulo Guedes e sua equipe se esforçam para que não desande no Congresso a agenda sobre os problemas do Brasil real. Tasso Jereisssati, relator da reforma da Previdência no Senado, pede a Bolsonaro que se cale. Rodrigo Maia, já habituado à verborragia presidencial, cuida de colocar em pé uma reforma tributária predominantemente do Legislativo.

No governo dos efeitos especiais, Bolsonaro trata de tudo o que não faz sentido: da influência do funcionamento do intestino na preservação do meio ambiente à interferência nos assuntos eleitorais da Argentina; da defesa do fim dos radares nas rodovias à nomeação do filho despreparado para a embaixada em Washington. No governo do mundo real, Guedes pede "um pouco de paciência" às vítimas da ruína econômica.

O vaivém errático de Bolsonaro dá ao governo tocado por Guedes uma aparência de falta de rumo. A movimentação do ministro da Economia e do Congresso é um esforço para fazer com que o país saia do buraco em vez de continuar jogando terra em cima de si mesmo. O ano de 2019 já está comprometido com a mediocridade. Tenta-se salvar 2020. O silêncio de Bolsonaro ajudaria. Mas ele não virá.

O presidente da República parece determinado a empurrar para dentro da agenda do país todos os rancores que acumulou nos 28 anos que frequentou o baixo clero da Câmara. Por sorte, Paulo Guedes e o Legislativo se convenceram de que as únicas contas que precisam ser ajustadas são as contas públicas do Brasil real.

Por Josias de Souza

CALA-TE

O relator da reforma da Previdência no Senado, Tasso Jereissati (PSDB-CE), disse em entrevista à Folha que espera que o presidente Jair Bolsonaro não contamine o ambiente favorável à aprovação da Reforma da Previdência com suas declarações. “Acho que a postura que ele deve ter é quanto mais calado, melhor, que aí as coisas fluem com mais tranquilidade, sem criar nenhum ponto de atrito”, opinou.

IMCOMPATIBILIDADE

O presidente Jair Bolsonaro voltou a defender suas respostas “sem papas na língua” e recomendou “votar no outro” em 2022 para quem considera seu jeito “incompatível” com o cargo de presidente da República. Bolsonaro respondeu a uma pergunta se suas falas não “acirram a polarização”. “Você quer que eu seja um vaselina? Um politicamente correto? Um ‘isentão’? Não, é resposta direita. Fui eleito assim”, disse, dizendo que respondeu uma “pergunta idiota” na última semana, quando recomendou para um jornalista “fazer cocô dia sim, dia não” para ajudar o meio ambiente. “Não é compatível com o presidente? Votem no outro em 2022, é muito simples”, completou.

FRITADA

Declarações do presidente sobre propostas e condutas do ministro da Justiça suscitaram a interpretação de que Jair Bolsonaro tivesse posto Sergio Moro na frigideira de incinerar subordinados. Não é isso. Bolsonaro pode ser visto como maluco, age como tal, mas não rasga votos.

Uma coisa é o presidente procurar diminuir o tamanho do ministro a fim de reduzir também o volume da sombra que lhe faz Moro no certame de popularidade. Outra bem diferente é Bolsonaro abrir mão de um capital tão importante quanto Sergio Moro, conforme indicam as pesquisas de opinião. O bolsonarista de raiz gosta de Moro e, portanto, uma demissão por iniciativa presidencial só lhe traria prejuízos.

No lugar da “fritura” seria mais correto interpretar que o presidente cozinha o ministro em fogo baixo. Não tão fraco que permita o auxiliar se sentir muito independente devido ao respaldo popular nem tão forte que provoque a perda de um ativo eleitoral de peso.

A dúvida é qual a razão de Sergio Moro aguentar humilhações sem aparentemente se perturbar. A resposta talvez esteja na constatação de que não fez o melhor negócio do mundo ao deixar a carreira de juiz, mas que agora a única opção para atravessar o deserto é seguir em frente na mesma trilha na esperança de encontrar adiante o conforto de um oásis.

Por Dora Kramer

GANHANDO MENOS…

“Não passou [no Revalida] vai arranjar outra profissão ou então ficar como enfermeiros, ganhando menos, é uma proposta pra eles”: o comentário de Bolsonaro em entrevista à Leda Nagle na semana passada não passou desapercebido. O Coren-SP (Conselho Regional de Enfermagem de SP) publicou uma nota direcionada ao presidente para esclarecer “o verdadeiro valor e as competências” da profissão. “Também causa profunda indignação, junto à inferiorização da categoria, o presidente da República tratar a desvalorização como algo natural, ao citar os baixos salários da categoria, quando na verdade deveria combatê-la, na busca por mais justiça social”.  Mais tarde, o Cofen (Conselho Federal) em conjunto com todos os conselhos regionais de enfermagem (Cofen e Coren)  publicaram em conjunto uma carta aberta: “Vinda do mais alto mandatário da nação, [a declaração] é inaceitável“. Os profissionais da enfermagem são a maior força de trabalho na saúde no Brasil.

Aliás… O que aconteceu com a ideia do ‘Mais Saúde’? Logo após sua indicação para o Ministério da Saúde, ainda no ano passado, Mandetta disse em entrevista ao Globo que este deveria ser o nome do Mais Médicos, justamente porque era preciso pensar nos outros profissionais. “Eu não gosto do nome do Mais Médicos. Prefiro Mais Saúde. Você negligencia enfermagem e está dizendo que não precisa de um fisioterapeuta, de terapeuta ocupacional, de nutricionista, de psicólogo, de odontólogos, de uma série de profissionais. Você precisa começar pelos essenciais: enfermeiro e médico”, disse, garantindo que haveria dinheiro. A responsável pelo Mais Médicos no governo Bolsonaro, Mayra Pinheiro, disse o mesmo no El País.  Meses depois, nasce o Médicos pelo Brasil… 

LADEIRA ABAIXO

A saúde é um dos 87 indicadores que mais sofreu deterioração no governo Bolsonaro, de acordo com levantamento feito pela Folha. Os dados do Datasus compilados pelo jornal apontam piora na oferta de assistência na atenção básica, com queda no número de consultas de pré-natal e consultas em geral e redução no número de médicos que atuam nas unidades básicas de saúde, que passou de 30 mil, segundo dados de junho de 2018, para 26 mil neste ano. Também houve diminuição no número de agentes comunitários de saúde em atuação, embora o jornal não revele números. Foi verificado aumento no número de internações de menores de cinco anos por pneumonia, indicador que está atrelado à piora na atenção básica. Na contramão, o número de equipes de Saúde da Família teve aumento –em ritmo bastante menor em relação aos últimos anos, frisa o jornal. No total, 44 indicadores pioraram (educação e meio ambiente entre eles), 15 se mantiveram estáveis e 28 apresentaram alguma melhora.

Leandro Colon, na Folha: “No sábado (10), o repórter Daniel Carvalho encontrou a aposentada Maria Aparecida Firmino Ferreira, 78, deitada havia dois dias em uma maca em um corredor (lotado de pacientes) do hospital de Ceilândia à espera de cirurgia após sofrer fratura. Maria Aparecida é avó da primeira-dama, Michelle Bolsonaro. Minutos depois de a reportagem procurar o governo do DF, ela foi transferida a um hospital de melhor estrutura para que fosse, enfim, operada.  A aposentada não poderia furar fila só pelo fato de ser avó da primeira-dama. Assim como também pouco importa a relação que teve ou tem com a neta e mulher do presidente. O episódio deveria servir para Bolsonaro entender que sua verborragia diária cansou. Há prioridades urgentes. O paciente do SUS não aguenta mais ser tratado como um mané.”

REINO DA IMPRECAUÇÃO

Reportagem de capa da Época fala sobre a liberação recorde de agrotóxicos no país. E embora o assunto seja recorrente, a repórter Renata Vieira explora alguns ângulos novos. Por exemplo, o papel moderador que o mercado consumidor externo tem no Brasil. Só no setor de suco de laranja, primeiro os EUA, e mais recentemente, a União Europeia proibiram a importação de produtos com agrotóxicos muito utilizados no país (dimetoato, no caso europeu; cipermetrina e a beta-cipermetrina no caso estadunidense). “Como, hoje, 70% de todas as exportações do setor de cítricos tem como destino a Europa, ou os produtores brasileiros de laranja deixam de usar o produto proibido ou terão de deixar o mercado europeu. A segunda opção dificilmente é cogitada, considerando que o mercado de sucos de laranja movimenta cerca de US$ 2 bilhões por ano”, diz a reportagem. E emenda: “O fato de o Brasil ter esperado determinações de mercados exportadores para mudar sua política é um emblema do setor agrícola no país: a Anvisa e o Ibama, diante de dados de campo ou de movimentações internacionais, são considerados lentos para colocar substâncias em reavaliação e estabelecer restrições em razão de riscos de saúde.”

Nesse sentido, problemas que vão além da liberação vêm à tona, revelando um cenário regulatório muito problemático. A Anvisa reanalisa há nada menos do que 11 anos três agrotóxicos: o glifosato, a abamectina e o tiram. E o Ibama começou a reavaliar o impacto de quatro agrotóxicos sobre as abelhas apenas em 2017, mas até hoje não chegou a conclusão alguma. Por aqui, os limites máximos de agrotóxicos são muito superiores aos permitidos na União Europeia: nas culturas de café e cana-de-açúcar, a dose de glisofato é dez vezes maior. O limite de resíduos de malationa é 400 vezes maior aqui do que no bloco europeu. 

A matéria dá destaque para o papel da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, na costura do acordo entre Mercosul e União Europeia. Ela conseguiu flexibilizar o princípio da precaução, presente no texto, segundo o qual todo produto pode causar dano à saúde ou ao meio ambiente até que se prove o contrário. Implementou um mecanismo de defesa para o Brasil, segundo o qual o país pode acionar a Organização Mundial do Comércio sempre que entender que o dispositivo da precaução esteja sendo usado de forma discriminatória. E distanciou a possibilidade de aplicação desse princípio ao uso de agrotóxicos.

BATE-BOCA

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e o ex-diretor do Inpe, Ricardo Galvão, participaram de um debate no Painel Globonews de sábado. Galvão retomou as acusações de Bolsonaro contra ele próprio e o Inpe, perguntando se o ministro não achava “isso errado”. Em resposta, Salles defendeu que o presidente é “uma autoridade política que tem liberdades“. Ofensas à parte, Salles reafirmou a intenção do governo de contratar uma empresa privada para apurar os dados sobre o desmatamento, enquanto Galvão defendeu que a ciência brasileira seja usada. Para o ministro, isso é ufanismo. Ele também disse que não critica manipulação dos dados, mas o “sensacionalismo” na sua divulgação, pois o Deter não mede desmatamento – apenas faz o levantamento de alertas de evidências de alteração na cobertura florestal. Galvão concordou, mas ressaltou que não foi o Inpe quem divulgou os números. 

A DIREITA E A MACONHA

Bolsonaro não quer a aprovação da cannabis medicinal, mas alguns de seus apoiadores, sim. O Nexo destaca o general Villas-Bôas (que, como dissemos aqui, acha hipocrisia não defender o uso) e a deputada federal Carla Zambelli(PSL-SP), que disse ter passado a apoiar essa aprovação após conhecer famílias que precisavam de medicamentos à base de canabidiol. 

RACISTA

Principal candidato peronista à presidência da Argentina, Alberto Fernández agradeceu ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela mensagem de apoio enviada após a vitória da oposição nas eleições primárias realizadas no país no último domingo. Mais tarde, em entrevista ao programa de TV Corea del Centro, Fernández comentou ataques de Jair Bolsonaro à sua candidatura e disse que “celebra” ser criticado pelo atual chefe de Estado brasileiro, a quem classificou como “um racista, um misógino e um violento que é a favor da tortura”. “Muito obrigado, querido amigo Lula. Como você bem disse, devemos dar esperança ao nosso povo e cuidar dos que mais precisam”, escreveu Fernández no Twitter, em resposta à mensagem enviada pela equipe de Lula na mesma rede social.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), defendeu em entrevista ao Programa Roda Viva, que o Brasil não interfira no processo eleitoral argentino. Alberto Fernández, que tem a ex-presidente e Cristina Kirchner como vice, teve 47,66% dos votos. O atual presidente Maurício Macri, que tem o apoio de Jair Bolsonaro, recebeu 32,08% dos votos, uma diferença de 15%. O deputado saiu em defesa do Mercosul e defendeu que haja cautela por parte do presidente brasileiro em suas declarações sobre o país vizinho. “A gente deveria primeiro aguardar o resultado do processo eleitoral para depois tomar qualquer tipo de atitude”, disse Maia.

“Isso é importante para não ficar parecendo tentativa de interferência. Não sei se essa tentativa é real ou não. Mas sendo, acho que talvez dê voto e até consolide voto pra chapa da ex-presidente Kirchner. Creio que ninguém gosta de ver interferência de um país no outro”, afirmou. Maia enfatizou que eventual mudança do governo argentino não deve ser motivo para que o Brasil cogite romper o acordo com o Mercosul. Para ele, o acordo de livre-comércio fechado entre o Mercosul e a União Européia serviu para reafirmar a importância do bloco.”Se é o presidente A, ou o presidente B, isso não deve ser motivo para a nossa decisão. Não é porque o presidente Macri pode ou não perder a eleição que essa importância do Mercosul vai acabar”, defendeu o presidente da Câmara.”O Mercosul é maior que os governos. Acho que a gente tem que acreditar que o bloco é relevante para o desenvolvimento da região”, concluiu.

O presidente Jair Bolsonaro referendou a declaração do ministro da Economia, Paulo Guedes, de que o Brasil pode deixar o Mercosul caso o candidato Alberto Fernández, que tem como vice a ex-presidente Cristina Kirchner na chapa, vença as eleições na Argentina e queira “fechar” o bloco (para acordos externos). “O Paulo Guedes, perfeitamente afinado comigo, por telepatia, já falou: se criar problema, o Brasil sai do Mercosul. E está avalizado, não tem problema nenhum”, declarou o presidente ao deixar o Palácio da Alvorada.

Segundo Bolsonaro, com a sua chegada na Presidência do Brasil, foi possível “afastar o viés ideológico de esquerda” do bloco. O presidente Brasileiro se disse disposto a conversar com Fernández, caso o resultado das prévias se confirme e ele seja eleito nas eleições argentinas em outubro. “Estamos dispostos, ele que vai ter que dar o sinal”, declarou Bolsonaro. “Estou pronto para conversar. Eu não acredito que ele queira seguir nessa linha de liberdade e democracia. Esse pessoal quando se apodera do poder não quer sair mais. eles sempre viveram às custas da coisa pública”, disse Bolsonaro.

Bolsonaro prevê uma hecatombe caso a chapa presidencial Alberto Fernández-Cristina Kirchner saia vitoriosa na eleição de outubro na Argentina, a julgar pelo tom usado para reclamar da vitória da dupla nas primárias do último dia 11, como se o próprio tivesse sido derrotado. O vice-presidente, Hamilton Mourão, no entanto, acredita que o Brasil deverá dialogar com quem quer que vença a eleição. Em conversa com a Folha, o general afirmou que é “lógico que tem de ter (diálogo). Um dos grandes estadistas ingleses, o Lord Palmerston, dizia o seguinte: ‘Nós não temos amizades eternas nem inimigos perpétuos. Apenas os nossos interesses'”.

EM LONDRES

Um grupo de manifestantes ambientalistas jogou tinta vermelha na embaixada do Brasil em Londres em protesto contra as políticas do governo de Jair Bolsonaro, o desmatamento da Amazônia e a violência contra povos indígenas da região. Os ativistas pertencem ao grupo Extinction Rebellion, segundo a agência de notícias Reuters. Dois manifestantes escalaram um toldo de vidro na frente da embaixada, enquanto outros dois subiram em janelas. A fachada da embaixada foi pichada com tinta vermelha e frases como “ele não”, slogan usado contra Bolsonaro nas eleições de 2018, “No More Indigenous Blood” (sem mais sangue indígena, em tradução livre), e “For The Wild” (pelo selvagem). A polícia foi chamada ao local e prendeu os ativistas. À Reuters, o grupo afirmou que o intuito do ato era desafiar o governo brasileiro sobre “abusos de direitos humanos sancionados pelo Estado”.

JOYCE

O jornalista Glenn Greenwald ironizou hoje no Twitter a deputada federal Joice Hasselmann, líder do governo, ao se defender das críticas que vem sofrendo por conta das reportagens publicadas no site The Intercept Brasil, do qual é cofundador.

"(...) Somente no PSL uma pessoa expulsa da profissão de jornalista por plágio reincidente poderia ser a porta-voz da ética no jornalismo. Por favor, Joice, nos ensine mais (*este tweet foi escrito por mim*)", escreveu Greenwald, anexando um link do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná com uma notícia de 2015 informando que o conselho de ética da entidade havia comprovado plágio por parte de Joice.

O jornalista do Intercept comentava postagem do jornalista Guilherme Caetano, da revista Época, que afirmava ter questionado a deputada sobre se ela realmente defendia a prisão de Greenwald, como teria insinuado anteriormente. Ao jornalista Caetano, conforme reportagem publicada no dia 9, a deputada disse que não defende a prisão de Greenwald, mas "a prisão de bandido".

Ainda no Twitter, Greenwald disse que continua a se chocar com pessoas, especialmente do PSL, partido do presidente Jair Bolsonaro, que o vêm criticando, ressaltando ser o principal alvo dos ataques apesar de jornalistas de outros veículos estarem publicando os vazamentos envolvendo o ministro da Justiça, Sergio Moro, e procuradores da Lava Jato, como o coordenador da força-tarefa no Paraná, Deltan Dallagnol.

"Continua a me chocar (não realmente) com os covardes que essas pessoas são. @Veja, @folha, @elpais_brasil e muitos outros jornalistas 'receberam' e publicaram a mesma 'informação roubada', mas eles [críticos] não têm coragem de insinuar que tb deveriam ser investigados criminalmente", disse Greenwald na rede social.

"Se a mentalidade do PSL prevalecesse nas democracias - que os jornalistas são culpados de crimes quando divulgam informação obtida ilegalmente por suas fontes - metade das redações mais importantes do oeste (do NYT e WashPost ao Guardian e LeMonde) estaria na prisão. #fascismo", completou.

TORTURA

Governos costumam padecer de um mal crônico: têm excesso de cabeças e carência de miolos. A gestão de Jair Bolsonaro sofre da mesma carência, mas com uma cabeça só. Movido a obsessões, o capitão encontrou uma forma criativa de acabar com a fiscalização dos maus tratos em presídios sem extinguir a atividade. Mandou exonerar os servidores remunerados do órgão que realiza esse tipo de trabalho. Mas alegou que o serviço continuaria sendo executado por voluntários, sem remuneração. Deu chabu.

Em decisão provocada por recurso da Defensoria Pública, o juiz federal Osair Victor de Oliveira Júnior, da 6ª Vara Federal do Rio de Janeiro, sinalizou ao presidente da República que as regras costumam ser menos perigosas do que a imaginação. Determinou a reintegração dos 11 peritos exonerados do MNPCT, o Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura.

O magistrado recordou que servidores públicos não podem ser enviados ao olho da rua sem uma condenação judicial ou a abertura de procedimentos administrativos que atestem a desídia no exercício de suas funções. Realçou também que a interrupção das vistorias para checar as condições de tratamento nos presídios e outros locais de retenção de seres humanos fere acordos internacionais firmados pelo Brasil.

A decisão judicial coloca o governo de Jair Bolsonaro, por assim dizer, ao lado da tortura e dos maus-tratos. O capitão decerto mandará recorrer a instâncias superiores do Judiciário. O recurso potencializará a sensação de descaso com os direitos humanos. Mas isso não parece tirar o sono do presidente. Ao contrário, o que ele deseja é justamente reforçar a imagem de que seu governo é implacável com a bandidagem.

Como não há pena de morte nem prisão perpétua no Brasil, os presos um dia levarão seus rancores para as ruas. Como solução, o presidente sugere facilitar o acesso do brasileiro às armas. O desejo presidencial, que enfrenta resistências no Congresso, não resolve o problema. Mas serve para comprovar que há método na barafunda da gestão Bolsonaro.

Por Josias de Souza

NÃO ESQUEÇAMOS OS PLANOS

Numa entrevista muito boa ao Observatório de Análise Política em Saúde, o professor da USP Mario Scheffer diz que, embora o momento atual seja especialmente positivo para os planos de saúde, a conjuntura política nunca foi ruim para eles e nunca houve de fato uma frente de resistência contra os seus avanços: a mobilização é restrita e ficaram de fora do debate os trabalhadores e sindicatos, inclusive no funcionalismo público, os gestores e conselhos de saúde  e mesmo parte do movimento sanitário. 

Ele traz algumas provocações importantes. “É bom tocar em nossas contradições. Muitos de nós, sanitaristas, na hora da assistência médica e hospitalar, pouco usamos o SUS; para nós mesmos e nossos familiares preferimos planos privados. Temos experiências ruins como usuários do privado, temos dificuldade de agendar consultas (pagamos, então, particular) e de pagar as mensalidades, como o resto da população que tem planos. Recentemente, me deparei com o material de propaganda do FioSaúde, o plano privado da Fiocruz, que passou a vender um plano mais barato chamado Total Saúde (o público-alvo devem ser os trabalhadores menos remunerados). Esse material menciona, com depoimentos de colegas pesquisadores, os méritos de ter um plano privado de atenção primária”.

E mais: “Retomemos a pergunta tradicional, que forjou nosso campo: quais são as especificidades de um sistema de saúde em um país capitalista como o Brasil? O SUS não é um fenômeno extra-mercado ou extra-capitalismo. Não é possível seguir nesse ritmo de resistir, falhar ao governar o SUS, resistir de novo. Disputar o hegemonismo em bolhas pode até saciar desejos emocionais, mas quem fracassou e desviou-se no governar dificilmente triunfará sozinho no resistir. Como uma minoria isolada, é o que somos, se transforma em uma voz e em uma demanda unificada pelo SUS?”

DEPOIS DE UMA BUZINA

Sempre fica a dúvida se é improviso ou cálculo, mas o fato é que Bolsonaro ontem reagiu a uma buzina de um caminhoneiro durante a inauguração da duplicação da pista da BR-116 anunciando o fim dos radares móveis nas estradas federais. Perguntado como pretendia colocar a ideia em prática, respondeu: “É só eu determinar à PRF [Polícia Rodoviária Federal] que não use mais.” 

QUILOMBOLA

O presidente da Federação das Comunidades Quilombolas e Populações Tradicionais do Pará, Paulo Oliveira, está sendo acusado por um vereador e por integrantes do Executivo de dar golpe usando o nome de Jair Bolsonaro, da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, e de outros do governo. Na época das eleições, Paulo era usado por Bolsonaro como escudo de questões raciais, sendo apresentado ao público e imprensa como seu amigo, em tentativa do então candidato de mostrar que não tinha preconceito com as populações tradicionais. O próprio Paulo fazia campanha, em nome da Federação das Comunidades Quilombolas, para que Bolsonaro fosse eleito.

Assista ao vídeo em que Paulo Quilombola mostra apoio e pede voto ao então candidato Jair Bolsonaro:

ANTIMERCADO

A senadora Kátia Abreu (MDB-TO), ex-ministra da Agricultura e ex-presidente da CNA, afirma que a política ambiental do presidente Jair Bolsonaro vai acabar fechando as portas do mundo para os produtos agrícolas brasileiros. “Os agricultores que estão alegres hoje vão chorar amanhã”, afirmou em entrevista ao Estadão. Para ela, o discurso antiambientalista, do qual admitiu ter sido adepta no passado, é na verdade ultrapassado e antimercado.

“Bolsonaro está se comportando como antimercado. Hoje, as empresas mais valorizadas na bolsa tem um componente fortíssimo tecnológico e de sustentabilidade. Todo mundo já incorporou isso como necessidade, e não como uma coisa de politicamente correto. Quem é que não está vendo, mais do que nós, agricultores, que as chuvas mudaram, a temperatura mudou, rios que não secavam antes, que eram perenes, e hoje secam? Quem nega isso está fora da realidade. O presidente precisa entender que meio ambiente e agronegócio não são uma questão gastrointestinal”, afirma a senadora.

Não repercutiu bem a declaração da senadora Kátia Abreu (PDT-TO), de que os ruralistas vão chorar amanhã pelo fato de apoiarem a política ambiental do governo federal marcada por descrença com índices de desmatamento, para o presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, o deputado Alceu Moreira (MDS-RS).

“Kátia Abreu, nesse momento, expressa uma posição política de oposição. Aliás, se a Kátia Abreu estivesse falando na condição de presidente da CNA (a senadora foi presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária), ela diria completamente o inverso. É que a Kátia Abreu muda de opinião muito rápido, como troca de blusa”, disse Moreira. Na réplica, a senadora respondeu: “Prefiro mudar de opinião pelo amor, que é a ciência e o bem-estar dos consumidores, do que pela dor, que é a perda de mercados internacionais”, declarou.

CINEMA DE DEUS

No que depender do presidente Jair Bolsonaro, a Ancine não apenas deixará de financiar projetos como o filme “Bruna Surfistinha”. No último dia 12, o presidente disse que quer o órgão focado em peças que respeitem a tradição “judaico-cristã”. “Não admitiremos que a Ancine faça peças fora da tradição judaico-cristã”, disse o presidente em Pelotas. Ele afirmou também que o Brasil esteve em na “encruzilhada de perder sua liberdade”.

DESITRATADA

O presidente do STF, ministro Dias Toffoli, se posicionou reiteradas vezes como defensor de uma Constituição mais “desidratada”. “Sou a favor da desidratação da Constituição Federal”, disse o ministro durante a 20ª Conferência Anual Santander. O ministro do STF também afirmou que tem conversado com o presidente da República Jair Bolsonaro e com o ministro da Economia, Paulo Guedes, para que as questões tributárias sejam retiradas da Constituição.

Na avaliação de Toffoli, a cada reforma que se faz no País o texto constitucional cresce e, por isso, ocorre a judicialização dos temas, o que colabora para aumentar a insegurança jurídica no Brasil. O presidente do STF recebeu o apoio do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), para quem uma Constituição mais enxuta trará maior segurança jurídica para os investidores, de acordo com o Broadcast Político.

“LIBERDADE” DE TRABALHAR DOMINGOS

O plenário da Câmara aprovou o texto-base da medida provisória 881, mais conhecida como MP da Liberdade Econômica – embora o nome não ajude a compreender direito do que se trata. Foram 345 votos a favor e 76 contra. Os destaques da matéria serão votados hoje. A Repórter Brasil publicou uma lista com as principais mudanças da MP, considerada uma segunda reforma trabalhista. Algumas delas caíram ontem, durante a negociação para que a votação acontecesse antes de a medida perder a validade – mas outras permaneceram. É o caso do fim da restrição de trabalho aos domingos e feriados, que dispensa o empregador de pagar em dobro pelo tempo trabalhado nesses dias. A proposta original previa autorização para que as pessoas trabalhassem por até sete domingos seguidos. Os deputados encurtaram esse período para quatro domingos. “Na prática, trabalhar ao domingo não trará nenhum benefício para o trabalhador, nem financeiro”, resume o site. A MP 881 também libera os bancos para abrir aos sábados. Se as agências aderirem, os bancários podem ter que trabalhar um dia a mais.

A proposta também dá autorização para que o controle da jornada seja “por exceção”, quando o trabalhador só registra o horário de horas extras e faltas. Na avaliação do Ministério Público, isso aumenta o risco de fraude. E cria a carteira de trabalho digital. A MP ainda precisa ser aprovada pelo Senado até o dia 28 de agosto.

BEM MAIS AMEAÇADAS

O governo Trump tomou uma série de medidas para mudar a Lei de Espécies Ameaçadas. Entre elas está a remoção de uma regra que concede às espécies ameaçadas de extinção as mesmas proteções dadas às espécies consideradas extintas. Há também a permissão para que empresas construam estradas, oleodutos, minas e outros projetos de grande escala em áreas designadas como ‘habitat crítico’ para espécies. As mudanças foram elogiadíssimas pelo secretário do Interior, David Bernhardt… que, segundo a Deutsche Welle, já atuou como lobista da indústria do petróleo e do gás.

A Lei de EspéciesAmeaçadas é apoiada por 90% dos americanos, protege mais de 1,6 mil espécies e apontada como responsável pela recuperação na população de animais como o lobo-cinzento e a águia-americana. Sua alteração faz parte de uma longa caminhada (para trás) do governo Trump, que já agiu sobre mais de 80 regulamentações ambientais e de saúde. Alguns estados podem processar o governo federal pelas mudanças – Califórnia e Massachusetts já anunciaram que o farão. 

Aliás, 22 estados e sete municípios entraram ontem com uma ação para bloquear outra medida do governo federal: o desmantelamento do Plano de Energia Limpa aprovado por Obama em 2015 para reduzir emissões e promover a adoção de fontes renováveis de energia. Trump revogou esse plano e aprovou outro, o Energia Limpa Acessível – que dá mais liberdade aos estados na decisão de usar usinas termoelétricas a carvão e não substitui significativamente as emissões de gases de efeito estufa.

CAMPANHA ACUSA MINISTÉRIO

A Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida publicou um posicionamento sobre os esclarecimentos do Ministério da Agricultura em relação ao uso de agrotóxicos no país – e acusa a pasta de utilizar dados falsos. O texto é longo e tem vários pontos, mas destacamos dois. Um é que, segundo o Ministério, os agrotóxicos permitidos no Brasil e proibidos na Europa não são usados naquele continente por conta de diferenças culturais e de temperatura. Mas Brasil e Europa produzem por exemplo uva e laranja em condições similares. E, dos 71 agrotóxicos autorizados para a uva no Brasil, 13 são proibidos na União Europeia, enquanto dos 116 agrotóxicos liberados aqui para laranja, 33 são proibidos pelo bloco europeu. 

Outra informação da pasta é que, segundo a FAO, o uso relativo de agrotóxicos no Brasil é menor do que na Europa. A Campanha afirma que os dados desse cálculo contradizem os do Ibama, usados pelo próprio Ministério em outros momentos. Para a FAO, o Brasil usou 377.176 toneladas de agrotóxicos em 2016, e, nas contas do Ibama, foram  541.862 toneladas. Também divergem as informações sobre a área cultivada – para a agência da ONU, temos 87,5 milhões de hectares, mas segundo o IBGE a soma de lavouras temporárias e permanentes em 2016 foi de 76,7 milhões de hectares. No fim das contas, a Campanha afirma que nosso consumo de agrotóxicos por hectare naquele ano foi de 7 quilos por hectare e não 4,3kg/ha, como afirmam a FAO e o governo.

PRIORIDADES

Um levantamento feito pelo Paraná Pesquisas (aqui, na íntegra) aponta que áreas o governo Bolsonaro deve priorizar na opinião dos brasileiros. Como costuma acontecer, a saúde pública está lá na frente, e deve ser prioridade para 44,3% das pessoas. Depois vem educação pública (citada por 16%) e criação de empregos (15,6%). Bandeiras de Bolsonaro, segurança pública e combate à corrupção são citados por 7,3% e 6,3% das pessoas. A pesquisa ouviu 2.082 pessoas em 174 cidades de todo o país, entre os dias 5 e 9 de agosto.

TERCEIRA ONDA

Segundo a União Nacional dos Estudantes, os protestos contra o governo levaram 1,5 milhão às ruas em 205 cidades do país. Houve manifestações em diversas capitais, como São Paulo, Rio, Brasília, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre e Recife. A contagem do site G1 aponta um número menor nesta terceira onda de protestos, tendo registrado atos em 85 cidades, contra 220 em maio e 136 municípios em junho. 

El País destaca como a situação é grave para várias universidades, com o contingenciamento de 30% decretado pelo governo em maio podendo paralisar as atividades de instituições como UFBA, UFPB, Ufpel, UFCG, UFPA e UFPR em setembro, e da UFRJ já neste mês de agosto. 

RESISTENTE

Aécio Neves está recluso, evita exposição e não fala sobre o ultimato que o PSDB lhe deu para que deixe a legenda sob pena de ser expulso. “Quem vai me expulsar?”, costuma perguntar o mineiro aos poucos que conversam com ele a respeito. Ele não pretende tomar a iniciativa de sair e tem dito que duvida que a direção da sigla, sob a orientação do governador de São Paulo, João Doria Jr., vá cumprir o ultimato.

Isso porque, até a queda no caso JBS, Aécio não só passou raspando da Presidência, mas era o senhor absoluto do PSDB. Sabe, portanto, tudo que os que hoje comandam o partido fizeram nos verões passados. Bruno Araújo, hoje presidente nacional do PSDB, já foi um aecista fiel. Foi graças à proximidade com o mineiro, por exemplo, que foi nomeado para o primeiro ministério de Michel Temer, antes de o caso JBS colher o senador mineiro e o próprio então presidente.

Por Vera Magalhães

TUCANO PORN

O deputado federal Alexandre Frota (SP) confirmou sua filiação ao PSDB. Ao lado do governador de São Paulo, João Doria, o ex-membro do PSL disse estar emocionado. Já o tucano enalteceu o novo filiado: “Novo PSDB tem espaço para quem tem coragem de falar”, disse. A mudança ocorre três dias após o deputado ser expulso do PSL, partido do presidente Jair Bolsonaro. A expulsão se deu porque nos últimos meses Frota passou a criticar frequentemente decisões do governo.

O deputado Alexandre Frota (SP) trocou farpas com o presidente após sua expulsão do PSL. Em sua primeira entrevista após o episódio, Frota disse que sua expulsão foi “um aviso para aqueles que acham que estamos vivendo em uma democracia”. Segundo ele, o presidente do PSL, Luciano Bivar, que é seu amigo pessoal, ficou “entre a cruz e a espada”, quando Bolsonaro pediu a cabeça do deputado. “Entrei na sala do Luciano, na sala da vice-presidência da Câmara, e ele estava sentado, cabisbaixo, olhou para a minha cara, e eu já sabia naquela hora… Perguntei como estavam as coisas e ele disse: ‘Tá difícil, Frota. O Jair pediu para te tirar do partido, pediu sua expulsão'”, descreveu, em entrevista à Folha.

Questionado sobre qual foi o estopim para sua expulsão, Frota soltou o verbo contra o presidente Bolsonaro. “Foram vários os fatores, mas o fato de falar a verdade incomodou muito, de criticar quem não gosta (de ser criticado) e não está preparado para as críticas. Isso pesou muito para o Bolsonaro. Bolsonaro não é burro, senão ele não chegaria onde chegou, mas é um idiota ingrato que nada sabe. Aquela cadeira de presidente ficou grande para ele e ele se lambuzou com o mel da Presidência. Bolsonaro se mostra, muitas vezes, infantil. Ele não está preparado para o cargo para o qual foi eleito, para o qual eu, infelizmente, ajudei a elegê-lo”, afirmou. Frota também contou que já recebeu convites de sete partidos —DEM, PP, MDB, PSDB, Podemos, PSD e PRB. E que, após se aproximar do governador de São Paulo, João Doria, está inclinado a se filiar ao PSDB.

O presidente Jair Bolsonaro foi irônico ao comentar a decisão de seu partido, o PSL, de expulsar o deputado federal Alexandre Frota (SP). Questionado por jornalistas sobre a saída do parlamentar, Bolsonaro disse: “Nem sei, quem é Alexandre Frota?”.

De olho nas eleições do ano que vem, o PSL vai implantar uma espécie de “filtro” ideológico para definir quem serão seus candidatos. A intenção é evitar que nomes considerados desalinhados ao governo Jair Bolsonaro representem a sigla. A medida ocorre após cobrança do próprio presidente, que exige o “enquadramento” de parlamentares que discordem de ações da sua gestão. A decisão foi vista internamente como um gesto de “purificação” do partido. Além de “filtrar” novos filiados, o partido quer “enquadrar” os que não seguirem à risca as diretrizes do partido. Ainda não está definido como e quem fará o pente-fino nos nomes que poderão concorrer pelo PSL.“É uma medida para dar uma cara de novo ao PSL. A gente tem de saber quem está vindo se candidatar pelo partido. Temos de saber se ele é ficha-limpa, qual o passado político dele. Se não, daqui a pouco, vamos ver um esquerdista querendo se lançar só porque o partido cresceu e virou viável”, afirmou a deputada federal Carla Zambelli (SP).

PÉS PELAS MÃOS

Na quarta-feira, 14, o presidente Jair Bolsonaro inaugurou de uma escola militarizada batizada com o seu nome em Parnaíba (PI). A Escola Presidente Jair Messias Bolsonaro foi construída pelo Sesc, e foi alvo de críticas de oposicionistas no Piauí por receber o nome de uma autoridade viva. De acordo com a Lei 6.454, de 24 de outubro de 1977, “é proibido, em todo o território nacional, atribuir nome de pessoa viva a bem público, de qualquer natureza, pertencente à União ou às pessoas jurídicas da Administração indireta”. No entanto, para o presidente do conselho regional do Sesc-PI, Valdeci Cavalcante, não há qualquer problema já que o Sesc faz parte do setor privado, e, portanto, não se enquadraria na regra. “Como pessoa do direito privado, pode homenagear qualquer pessoa”, justificou Cavalcante, de acordo com o Estadão.

PARCEIRA

Enquanto se movimentava para se manter à frente da Procuradoria-Geral da República por mais dois anos, Raquel Dodge manteve paradas, durante quatro meses, investigações sobre o presidente Jair Bolsonaro referentes ao período em que ainda era deputado federal. Um dos inquéritos abertos contra o chefe do Executivo havia sido enviado pela Procuradoria Regional do Distrito Federal a Dodge em abril deste ano. Segundo a Folha, a procuradora só deu continuidade às apurações, enviando-as de volta à primeira instância, na terça-feira, 6, após seu nome ter se enfraquecido na disputa pelo cargo. Bolsonaro prometeu que o novo chefe do Ministério Público Federal será anunciado até sexta-feira, 16.

As investigações em questão referem-se a suspeitas de que o presidente, quando era parlamentar, utilizou funcionárias fantasmas em seu gabinete. Em resposta sobre a demora, a PGR afirma que o processo seguiu o “rito normal de funcionamento do setor”. “Os procedimentos foram inicialmente classificados considerando o grau de urgência e prioridade e depois entraram na ordem de análise, considerando a existência de outros casos que já aguardavam análise”.

VOVOZINHA

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) criticou a polêmica que se criou sobre a avó de Michelle Bolsonaro, a idosa Maria Aparecida Firmo Ferrera, de 78 anos, internada por dois dias em uma maca no corredor do Hospital de Ceilândia, na periferia de Brasília. “O meu pai dizia lá trás: ‘Parente bom é parente longe'”, comentou o presidente, irritado com a repercussão do caso.

“Como é que pode uma senhora que trata de deficientes abandonar a vovozinha querida, né. Isso aí que a Folha de S.Paulo fez. Não desiste”, criticou o presidente, em declarações feitas em frente ao Palácio da Alvorada, localizado a 37 km da Ceilândia.

Bolsonaro também alegou que o SUS (Sistema Único de Saúde) deve atender a todos, sem privilégios. “O SUS é para todos. Não vai ter um SUS pessoal para o Bolsonaro, presidente. O SUS é para todo mundo”, disse. No entanto, meia hora depois da reportagem da Folha ter procurado o governador do Distrito Federal, a idosa foi transferida para uma unidade com mais estrutura, o Hospital de Base.

O presidente ainda comentou a relação dele com a avó da primeira-dama, dizendo que teve contato com a idosa apenas “uma vez na vida”. Acrescentou dizendo que a avó de Michelle “tem vida pessoal, é bastante idosa. Pessoa completamente livre, né. Não sei o relacionamento dela com seus oito filhos, não sei, está certo!? E isso é família, né”. Em seguida, o presidente reproduziu a fala do pai, de que “parente bom é parente longe”, e acrescentou: “Cunhado, para que serve cunhado? Para buscar cerveja na geladeira, mais nada”.

Na sexta-feira, 16, a revista Veja traz uma reportagem que indica os motivos pelos quais a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, se afastou da família. Segundo a publicação, a avó, a mãe e um tio da mulher do presidente Jair Bolsonaro (PSL) já se envolveram em crimes que vão desde o tráfico de drogas, falsificação de documentos e relação com milícia no entorno do Distrito Federal. Segundo a reportagem, Maria Aparecida Firmo Ferreira, avó de Michelle, que recentemente foi encontrada pela Folha no corredor de um hospital público onde esperava para fazer uma cirurgia devido a uma fratura de bacia, foi presa aos 55 anos “com 169 ‘cabecinhas de merla’, um subproduto da cocaína”.

Já a mãe de Michelle, Maria das Graças, teve problemas com a Justiça em 1988, quando a filha tinha apenas 6 anos de idade, e a polícia descobriu que a mulher possuía dois registros civis, um verdadeiro e o outro falso. No falsificado, a data de nascimento e altura da mãe de Michelle foram alteradas. Além de o nome do pai dela ter sido excluído. O processo foi arquivado em 1994. Em depoimento, Maria das Graças disse que ao fazer o documento falso, não tinha nenhuma “intenção criminosa”. Por fim, um tio da primeira-dama, João Batista Firmo Ferreira, sargento aposentado da Polícia Militar, um dos pouco membros da família de Michelle convidados para a cerimônia de posse de Bolsonaro, foi preso em maio deste ano sob a acusação de integrar uma milícia que fazia a venda ilegal de lotes na favela Sol Nascente. João Batista está preso na penitenciária da Papuda, em Brasília, e o processo tramita em segredo de Justiça. Procurada, a primeira-dama não quis se pronunciar sobre os familiares.

INSEGURANÇA

O governo de Jair Bolsonaro investiu, até o mês de agosto deste ano, 6,5% da verba prevista para o Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP). O valor equivale a R$ 113,8 milhões do R$1,7 bilhão previsto para o FNSP em 2019. O investimento em segurança pública foi uma das promessas de campanha do presidente durante a disputa eleitoral de 2018. O orçamento previsto é um dos maiores desde a criação do fundo, em 2001, porém o total investido pelo governo está entre os mais baixos, sendo semelhante aos valores liquidados em 2010 e 2011, durante governo do PT, de acordo com informações da Folha. O fundo é considerado a principal ferramenta de repasse de verba do governo federal a projetos de segurança pública.

CAPÍTULO ERRADO

Ao lado do ex-governador Paulo Hartung, o apresentador de TV Luciano Huck voltou a criticar o governo do presidente Jair Bolsonaro – ele já fez duras críticas à política do Ministério da Educação. Desta vez, para uma plateia de jovens no Centro de Convenções de Vila Velha (ES), nesta quarta, 14, na capital capixaba. Huck, que já cogitou se candidatar ao Palácio do Planalto, disse lá atrás que faria parte do que chamou de “resistência positiva”. “Com todo respeito a esse governo, que foi eleito de forma democrática, não acredito que ele é o primeiro capítulo da renovação, mas o último capítulo do que não deu certo”, disparou. Huck também contestou a fala do presidente da República de que “não há fome no Brasil”. “Tem gente que diz que não se passa fome no Brasil. Não está vendo”, avaliou.

O presidente Jair Bolsonaro rebateu a crítica feita pelo apresentador Luciano Huck de que ele seria “o último capítulo do que não deu certo”, durante a live semanal de quinta, 15, sem citar nomes. “Gente está dizendo por aí que estamos no último capítulo do fracasso no Brasil, (que) eu sou opção para 2022, pode até ser, mas a gente vai mostrar o que você fez”, disse o presidente, fazendo referência a um empréstimo de R$ 2 bilhões que Huck teria feito no BNDES para a compra de um jatinho. “Juros de 3% para comprar jatinho? Isso é irresponsabilidade”, acrescentou Bolsonaro. O presidente destacou ainda não haver “ilegalidade” na negociação, “mas a gente vai mostrar para você pobre e miserável, ou você até bem de vida, bom empresário, mas que não era amigo do rei, não tinha como comprar isso aí”. Segundo ele, detalhes da “caixa-preta” dos empréstimos do banco serão revelados na próxima segunda-feira, 19.

RAPOSINHA NO GALINHEIRO

Futura diretora de proteção territorial da Funai, a advogada Silmara Veiga de Souza, já contestou judicialmente a demarcação de terras indígenas. Isso ocorreu em novembro do ano passado, quando ela representava o escritório Veiga e Montemor Assessoria e Consultoria Jurídica para clientes que contestavam a demarcação de terras indígenas do povo guarani mbyá, no município de Iguape, em São Paulo. A advogada pediu esclarecimentos à Funai sobre essa demarcação, e foi informada de que as contestações apresentadas estavam “em período de análise com previsão de conclusão no primeiro semestre de 2019”.

NA CONTRAMÃO

Já se sabia que Jair Bolsonaro levaria o governo para a direita. Foi eleito cavalgando esse pressuposto. Mas em matéria de segurança no trânsito, Bolsonaro leva o Estado para trás. O pior é que ele dá marcha à ré na contramão. No comando de uma nação que ocupa a quarta colocação no ranking mundial de mortes no trânsito, o presidente oferece refresco a motoristas infratores, retirando de cena os radares móveis. Sumiria com os fixos também. Mas a Justiça não deixou. Alega-se que o governo está assegurando direitos individuais. Por esse raciocínio, os caminhoneiros, por exemplo, teriam o direito de trabalhar sem ser importunados pela chamada "indústria da multa". O diabo é que o interesse coletivo da sociedade precisa prevalecer sobre o direito individual. Sobretudo quando a vida alheia está em jogo. No mais, se existe alguém industrializando multas, deve-se eliminar a safadeza, não os radares.

Por Josias de Souza

4.500 BOLSAS SUSPENSAS PELO CPNQ

O aviso foi dado no início do ano – havia um rombo de mais de R$ 300 milhões no orçamento do CNPq e, sem resolver isso, não haveria dinheiro para manter as bolsas. O Congresso aprovou a liberação dessa verba em junho, mas o Ministério da Economia, não

O primeiro resultado chegou: “O CNPq informa a suspensão de indicações de bolsistas, uma vez que recebemos indicações de que não haverá a recomposição integral do orçamento de 2019. Dessa forma, estamos tomando as medidas necessárias para minimizar as consequências dessa restrição”, anunciou o conselho, em notas divulgadas nas redes sociais. 

Ficam suspensas 4,5 mil bolsas para estudantes de graduação e pós-graduação que estavam ociosas – como as que aguardam processos seletivosdentro das universidades. Com a medida, não serão mais ocupadas. Segundo o CNPq, estão no corte as bolsas concedidas por meio de instituições de ensino. As concedidas diretamente pela agência aos pesquisadores, como aquelas de pós-doutorado e de produtividade em pesquisa, não serão afetadas em princípio. 

Porém, há mais problemas à vista, caso nada seja feito. No Jornal da USP, o presidente do CNPq, João Luiz Filgueiras de Azevedo, voltou a dizer que não tem verba para pagar bolsa nenhuma a partir de setembro. Mais de 80 mil pesquisadores podem ficar sem nada. 

Uma grande dificuldade é o famigerado Teto dos Gastos, que amarra o orçamento da União à inflação e impede que ele seja ampliado no decorrer do ano, de modo que, para solucionar o problema do CNPq, o governo tem que tirar dinheiro de algum outro item do orçamento. “Ou seja, para tapar o buraco do CNPq, precisa cavar em algum outro lugar“, resume a matéria.  Mas o ministro da Ciência Marcos Pontes disse que já conversou com Onyx Lorenzoni, da Casa Civil, e que o problema “está sendo resolvido“. A ver.

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência lançou um abaixo-assinado em defesa do CNPq. O manifesto é apoiado por 65 entidades científicas e acadêmicas e já tinha mais de 110 mil assinaturas até esta madrugada.

Para lembrar: a Capes já cortou mais de seis mil bolsas este ano. 

COM P MINÚSCULO

As negociações sobre o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, firmado em julho, saiu com um não tão pequeno detalhe que afrouxou a precaução contra os agrotóxicos. Falamos sobre isso na segunda, a partir da matéria de capa da revista Época. Agora, a explicação foi dada pela  diplomata Valeria Csukasi, diretora-geral para Assuntos de Integração e Mercosul no Uruguai, à Agência Pública e à Repórter Brasil. Ela participou da reunião que negociou o princípio daprecaução, muito usado pelos europeus, que dá ao comprador o poder de recusar uma mercadoria alegando que o produto pode causar algum dano à saúde humana ou ao meio ambiente, mesmo sem provas. O Mercosul queria diluí-lo. E conseguiu: o princípio entrou “parcialmente”, e com letra minúscula. Uma manobra no texto fez com que ele não possa ser invocado em casos diretamente relacionados à saúde humana, e gerou-se a possibilidade de contestar a medida frente à OMC. 

Falando em agrotóxicos, você deve lembrar que uma rede de supermercados orgânicos da Suécia chamada Paradiset decidiu boicotar o Brasil por conta da liberação recorde de Bolsonaro. O fundador da rede, Johannes Cullberg, foi entrevistado pela Agência Pública. E disse que a pressão continua: “O segundo maior supermercado da Suécia está pensando em aderir ao boicote. Eu conheço os CEOs de todos os mercados. Eu acho que vou conseguir persuadi-los porque a campanha pode ser estrategicamente boa para eles em termos de relações públicas”. 

DESSERVIÇO

A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva (Rede) avisou: “Ou o governo repensa sua postura retrógrada, ou as retaliações só tendem a aumentar”. O comentário feito por ela em sua conta no Twitter se refere ao anúncio feito na quinta-feira, 15, pelo governo norueguês de que bloqueará um repasse de R$ 133 milhões para o Fundo Amazônia, maior programa nacional de combate ao desmatamento. Na avaliação de Marina, que constantemente se posiciona em relação à política ambiental adotada pelo governo federal, tanto o ministro Ricardo Salles quanto o presidente Jair Bolsonaro prestam um “desserviço” ao Brasil. “O presidente e o ministro do Meio Ambiente continuam fazendo o desserviço de atacar quem historicamente tem ajudado o País a proteger o patrimônio ambiental brasileiro”.

DESQUALIFICADO

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, tem dedicado tempo ao Twitter após, ironicamente, comparar o volume de participantes do protesto realizado na terça, 13, contra a política educacional praticada pela sua pasta, com o número de torcedores da Associação Portuguesa de Desportos, a Lusa. Desde quarta, 14, Weintraub interage com vários perfis do microblog, repetindo a frase de que “perco o amigo, mas não perco a piada”, inclusive até vestiu uma camisa vermelha, mas avisando: “É vermelha, mas não é 13”. “O excelentíssimo min da educação deveria se ocupar em temas mais nobres para o país do que fazer chacota com o sentimento de milhares de torcedores da Portuguesa”, respondeu o perfil do clube. Do Legislativo, quem reagiu ao episódio foi o ex-presidente da Comissão Especial da reforma da Previdência na Câmara, deputado Marcelo Ramos (PL-AM): “Esse senhor é um desqualificado para estar à frente do Ministério da Educação”, escreveu.

CRISE NA PF

O presidente Jair Bolsonaro afirmou na manhã de sexta-feira, 16, que “ficou sabendo” que quem assumirá a chefia da Polícia Federal no Rio de Janeiro será o chefe da PF no Amazonas, Alexandre Silva Saraiva. A afirmação veio um dia depois de a PF divulgar que o superintendente da corporação em Pernambuco, Carlos Henrique Oliveira Sousa, é quem substituiria o chefe da PF no Rio, Ricardo Saadi. Sobre esse assunto, essa foi a segunda vez, em dois dias, que as versões do presidente e da PF se contradizem. “O que eu fiquei sabendo… Se ele resolver mudar, vai ter que falar comigo. Quem manda sou eu… deixar bem claro”, afirmou Bolsonaro sobre uma possível mudança de nomes para o cargo. “Eu dou liberdade para os ministros todos. Mas quem manda sou eu”, reforçou. “Está pré-acertado que seria lá o de Manaus”, afirmou, sem esclarecer a quem se referia. Ontem, Bolsonaro alegou “questões de produtividade” e “um sentimento” para tirar Saadi do comando da PF no Rio. Questionado hoje se havia partido dele mesmo a decisão, Bolsonaro afirmou apenas que “não interessa o motivo”. Bolsonaro também afirmou que Saadi “vai produzir melhor em outro lugar” e disse que não questionou a “falta de produtividade”

O presidente Jair Bolsonaro disse que não vê problemas em mudar o chefe da superintendência da Polícia Federal no Rio de Janeiro. “Se eu for trocar os superintendentes, qual o problema? Eu não vejo problema nenhum. É igual ao Coaf. Eu tentei deixar o Coaf com o Moro, via medida provisória, o Congresso botou na Fazenda (na verdade, o ministério atualmente é da Economia) e o Paulo Guedes que decide”, disse. O presidente também comentou o assunto pela manhã, afirmando que precisaria ser consultado sobre mudanças. “Quem manda sou eu”.

SEM PARTIDO

Após o imbróglio envolvendo o PSL na votação do abuso de autoridade, o presidente Jair Bolsonaro ressaltou que parte de sua dificuldade em governo é que está “sem partido”. Durante encontro com os medalhistas brasileiros no Palácio do Planalto, Bolsonaro listou os problemas que enfrenta para “fazer a coisa bem-feita”. “Olha minha situação: sem partido, massacrado pela mídia, facada. Mas vencemos para mudar o Brasil”, disse.

NO MUNDO DA LUA

Admitindo não ter provas do que estava falando, o presidente Jair Bolsonaro disse que sua chegada ao Palácio do Planalto expulsou “10 mil fantasiados de médico” que o PT colocou no País para “fazer célula de guerrilha e doutrinação”, se referindo ao programa Mais Médicos que contava com médicos cubanos. “Precisa ter prova disso daí? Você acha que está escrito isso aí em algum lugar?”, completou. Há duas semanas, o governo de Jair Bolsonaro lançou o programa “Médicos pelo Brasil”, em substituição ao Mais Médicos. Na ocasião, o presidente disse que se os cubanos fossem médicos tão bons teriam salvado a vida do líder venezuelano Hugo Chávez.

PERDIDO NA DEMOCRACIA

“As leis têm que ser feitas para proteger as maiorias”, disse o presidente Jair Bolsonaro na manhã de sexta-feira, 16. E continuou: “Eu estou errado? Quero ver se estou errado. Se é para proteger a minoria vamos proteger aí o assassino, o serial killer, eles são minorias”, disse o presidente, Jair Bolsonaro, na manhã desta sexta-feira, 16. O comentário foi feito por ele depois de ser perguntado sobre o que ele espera da atuação do próximo procurador-geral da República no que diz respeito grupo minoritários. Após a explicação de Bolsonaro sobre o que seriam minorias, o presidente foi alertado por uma repórter que o “conceito” de minorias é outro. E ele respondeu: “Eu não sou politicamente correto e ponto final. Eu detesto o politicamente correto”, afirmou o presidente.

-

Com Carta Capital, Outra Saúde, Sul 21, o Globo, BR-18, Folha de SP, Leonardo Sakamoto, Josias de Souza, Fórum, Veja, Dora Kramer


Voltar


Comente sobre essa publicação...