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Sábado 21.set.2019

Ano VIII - Nº 364

Mundo

Opositor de Macri na Argentina agradece Lula e diz que Bolsonaro é racista

Presidente brasileiro tornou-se sócio do fiasco de Macri

Postado em 13 de Agosto de 2019 - Veja, Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL)

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Principal candidato peronista à presidência da Argentina, Alberto Fernández agradeceu ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela mensagem de apoio enviada após a vitória da oposição nas eleições primárias realizadas no país no último domingo. Mais tarde, em entrevista ao programa de TV Corea del Centro, Fernández comentou ataques de Jair Bolsonaro à sua candidatura e disse que “celebra” ser criticado pelo atual chefe de Estado brasileiro, a quem classificou como “um racista, um misógino e um violento que é a favor da tortura”.

“Muito obrigado, querido amigo Lula. Como você bem disse, devemos dar esperança ao nosso povo e cuidar dos que mais precisam”, escreveu Fernández no Twitter, em resposta à mensagem enviada pela equipe de Lula na mesma rede social.

Preso por corrupção na sede da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba desde o ano passado, Lula destacou o “significativo resultado” de Fernández, que tem a ex-presidente Cristina Kirchner como candidata a vice, nas eleições primárias realizadas na Argentina.

A chapa da Frente de Todos obteve 47% dos votos contra apenas 32% do atual presidente da Argentina, Mauricio Macri.

Os resultados, piores que o esperado para o governo, geraram pânico no mercado financeiro. O índice Merval, das principais ações cotadas na Bolsa de Comércio de Buenos Aires, caiu quase 38%. O peso despencou em relação ao dólar e o risco-país disparou.

Além de agradecer a mensagem, Fernández desejou poder em breve dar um abraço em Lula. Recentemente, o principal candidato peronista à presidência da Argentina visitou o petista na carceragem da Polícia Federal em Curitiba.

Reação

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), reprovou o comentário de Bolsonaro. Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, o parlamentar analisou a situação.

“A gente deveria primeiro aguardar o resultado do processo eleitoral para depois tomar qualquer tipo de atitude. Isso é importante para não ficar parecendo tentativa de interferência. Não sei se essa tentativa é real ou não. Mas sendo, acho que talvez dê voto e até consolide voto pra chapa da ex-presidente Kirchner. Creio que ninguém goste de ver interferência de um país no outro”, avaliou Maia.

O deputado considera que, de forma geral, certos comentários do presidente Jair Bolsonaro podem prejudicar relações do Brasil com outros países.

Sócio

O nariz de um presidente da República pode brilhar, espirrar e coçar. Mas jamais deve se meter onde não é chamado. Ao tomar o partido de Mauricio Macri, candidato à reeleição, Jair Bolsonaro meteu o bedelho nos assuntos internos da Argentina. Fez isso a pretexto de ensinar os eleitores do país vizinho a votar direito, de preferência à direita. Com isso, o capitão tornou-se sócio de um fiasco.

A chapa presidencial encabeçada por Alberto Fernández, com a ex-presidente Cristina Kirchner acomodada na vice, deu uma surra em Macri. Mantido esse cenário, Macri será enviado de volta para casa já no primeiro turno das eleições, marcadas para 27 de outubro. E as relações bilaterais do Brasil com a Argentina tomarão o caminho do brejo.

Desde que tomou posse, Bolsonaro derramou muita saliva no seu esforço para convencer os eleitores da Argentina de que seria melhor ter paciência com o liberalismo de Mauricio Macri e seus desacertos do que devolver ao Poder a chapa envenenada pela presença da antecessora esquerdista Cristina Kirchner. Com o auxílio do chanceler Ernesto Araújo, o presidente mandou às favas a tradição do Itamaraty, que tinha na política de não intervenção em assuntos domésticos de outros países uma de suas principais marcas.

No último mês de maio, em cerimônia de formatura do Instituto Rio Branco, o chanceler Araújo declarou à turma de novos diplomatas: "Diplomacia não significa ficar em cima do muro. Não é ver os grandes embates e aderir ao vencedor. Diplomacia precisa ter sangue nas veias." O resultado das eleições primárias da Argentina revela que o tipo sanguíneo de Araújo, em sistemática ebulição, não é o mais adequado ao Itamaraty. O sangue que deve correr nas veias de um bom diplomata é outro: o sangue-frio.

Na mesma solenidade de formatura, Jair Bolsonaro discursou em timbre militar: "Quando acaba a saliva, entra a pólvora. Não queremos isso." Os repórteres perguntaram ao presidente s

e estava pensando na Venezuela quando espalhou pólvora em ambiente diplomático.

Ao responder, o capitão desceu do muro, só que do lado errado: "Não, aminha preocupação é com a Argentina hoje em dia." Segundo ele, uma nova Venezuela brotaria na vizinhança se o esquerdismo de Cristina Kirchner retornasse à Casa Rosada, sede do governo argentino.

Horas depois, discursando para uma plateia de evangélicos, Bolsonaro afirmou que um "milagre" salvou sua vida depois da facada que levou durante a campanha presidencial. Disse encarar a Presidência como "missão de Deus." Parece acreditar que todos aceitarão as presunções que cultiva a seu próprio respeito. Em matéria de política internacional, isso inclui concordar que sua missão divina lhe confere a prerrogativa de tratar Buenos Aires como uma espécie de Brasília hipertrofiada.

O eleitorado portenho ensina a Bolsonaro que ele faria muito bem a si mesmo se passasse a olhar para o quintal do vizinho com olhos de aluno, não de professor. Levando a coisa a sério, talvez perceba que o governo de Macri é um extraordinário aviso, não um bom exemplo.

Assim como Bolsonaro, Macri chegou à Presidência surfando a raiva da maioria do eleitorado com a velha política e o esquerdismo sem resultados. A esperança de prosperidade resultou em grossa decepção. Deve-se a nova perspectiva de ascensão do peronismo à moda Kirchner à queda dos indicadores econômicos. As reformas prometidas por Macri viraram suco. Seu discurso liberal virou pó. Recorreu até ao congelamento de preços contra a inflação.

Bolsonaro tem muito a desaprender com Macri. A exemplo do capitão, o atual presidente argentino também encostou sua administração na figura do presidente americano Donald Trump. Nem por isso a Argentina livrou-se do colapso econômico. Evidência de que, nas relações internacionais, o pragmatismo e o equilíbrio valem mais do que o personalismo ideológico.

Confirmando-se a derrocada de Macri, as declarações de amor feitas por Bolsonaro podem custar caro. De saída, fica ameaçado o acordo comercial recém-firmado entre o Mercosul e a União Europeia. O favorito Alberto Fernández já declarou que, eleito, pretende rever esse acordo.

Mais doçura

Bolsonaro corre o risco de ter que conviver, ao menos, três anos com a esquerda na Argentina.

Ninguém vai votar ou deixar de votar por conta do apoio de Bolsonaro, mas ele dá uma cara mais violenta à direita sul-americana – o que não ajuda quem precisa agregar votos em torno de seu nome. Pelo contrário, causa constrangimentos. No dia 24 de março, logo após o fim da visita oficial do mandatário brasileiro ao Chile, o presidente de lá, Sebastián Piñera, afirmou que as declarações do colega sobre as ditaduras latino-americanas eram "tremendamente infelizes". E disse que não compartilhava com muito do que Bolsonaro diz sobre o tema. Uma das frases mais conhecidas é "quem procura osso é cachorro", em referência à busca por ossadas de desaparecidos políticos. Ela estampava as paredes do gabinete do então deputado federal no Congresso.

A Argentina pode ter um milhão de problemas. Mas além de contar com índices de educação superiores aos nossos, conseguiu lidar com seu passado de uma forma melhor do que nós, punindo responsáveis por sua ditadura militar (uma das mais cruéis da América Latina), reformando sua anistia.

No Brasil, o coronel Brilhante Ustra, torturador e assassino da ditadura, herói confesso do presidente e do vice, morreu livre sem ter cumprido pena. Já o general e ex-ditador Jorge Videla, morreu, aos 87 anos, no Centro Penitenciário Marcos Paz, onde cumpria pena de prisão perpétua por cometer crimes de lesa humanidade. Ele comandou o golpe e coordenou a repressão entre 1976 e 1983 – quando mais de 30 mil pessoas foram assassinadas por questões políticas, e mais de 500 bebês de ativistas foram sequestrados ou desapareceram. Seria o equivalente a Médici ou Costa e Silva terem morrido no xilindró.

Videla chegou a dizer que as mortes foram necessárias. Tal qual o próprio Bolsonaro.

Como não resolvemos o nosso passado e não deixamos claro para as instituições que mortes e tortura não são aceitáveis, continuamos contando corpos de trabalhadores, lideranças rurais, populações tradicionais e pobres em geral no Brasil. O impacto de não resolvermos o nosso passado se faz sentir no dia a dia dos distritos policiais, nas salas de interrogatórios, nas periferias das grandes cidades, nos grotões da zona rural, com o Estado aterrorizando parte da população (normalmente mais pobre) com a anuência da outra parte (quase sempre mais rica). Agora, inclusive, temos um governo que ao engrandecer a tortura, dá um salvo conduto simbólico a quem quiser fazer a sua Justiça com as próprias mãos.

Enquanto isso, no Brasil, uma parte do poder econômico fecha os olhos diante da escalada do discurso contra liberdades individuais e direitos humanos do presidente da República. Estão de olho na Bolsa e no dólar – e apenas neles. Querem preservar as reformas para fazer o país sair do buraco. O problema é que corremos o risco de sair de um buraco para entrar em outro, mais sombrio, com o enfraquecimento das instituições que levamos décadas para construir.

Torcer pela Argentina? Temos é que pedir para eles torcerem por nós.


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