Semana On

Quinta-Feira 24.out.2019

Ano VIII - Nº 368

Brasil

Para além dos muros

Como projetos de extensão impactam positivamente a vida das pessoas, democratizam os saberes e transformam as universidades públicas em espaços mais inclusivos

Postado em 12 de Agosto de 2019 - Luiz Felipe Stevanim – Radis

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Olhos curiosos iniciam o percurso pela praça para descobrir como a universidade produz conhecimentos que fazem parte do cotidiano das pessoas. Logo na chegada, Rayssa Costa, de 13 anos, e Victor de Oliveira, 15, surpreendem-se ao constatar que três biscoitos recheados contêm um saquinho de açúcar equivalente a cerca de 20 gramas. Em seguida, aprendem técnicas simples de primeiros socorros que podem ser usadas no dia a dia, quando, por exemplo, uma criança fica engasgada. Por fim, deparam-se com soluções criativas que têm sido pensadas para economizar energia dentro de casa, como um ar condicionado ecológico e um carregador de celular que utiliza energia solar.

Para os dois adolescentes, estudantes de escola pública e moradores de bairros da periferia de Juiz de Fora, cidade da Zona da Mata mineira, a universidade poderia parecer um local distante de suas vidas: o pai de Victor é entregador de leite e a mãe, faxineira em uma academia; já a mãe de Rayssa é empregada doméstica e o padrasto, dono de um ferro-velho. Porém, ao passarem a tarde de sexta-feira pela Praça da Estação — ponto de partida e chegada na cidade mineira de cerca de 560 mil habitantes —, eles descobrem que a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) está mais presente em seu cotidiano do que eles imaginam e, em conversa com a Radis, contam de seus planos para o futuro. “Quero ser professora de matemática”, revela Rayssa. Já Victor é apaixonado por carros e tecnologia. “Meu sonho é cursar engenharia mecânica, trabalhar com projetos de ciências e aprender como ajudar a preservar o meio ambiente”, relata.

Ao se depararem com projetos que geram conhecimento, cultura e serviços na universidade, durante o evento “UFJF na Praça”, promovido por alunos, professores e funcionários entre 24 e 28 de junho, em uma das praças mais movimentadas da cidade, Rayssa e Victor descobrem que a universidade não é um espaço fechado em seus muros. “Aprendi que a ciência é algo útil em nossa vida e podemos fazer ciência brincando”, descreve Rayssa. Além da UFJF, outras instituições de ensino superior (IES) pelo Brasil afora decidiram organizar eventos públicos, como aulas a céu aberto e exposições de projetos de ensino, pesquisa e extensão em praças, como forma de reagir aos cortes de investimentos anunciados pelo governo e obter o apoio da população, mostrando o quanto a universidade contribui com a sociedade e pode ser mais aberta e inclusiva. Eventos como esse ocorreram em diferentes cidades como Belém (PA), Santa Maria (RS) e Niterói (RJ).

O que a universidade tem a oferecer à população como retorno dos investimentos? Essa é uma indagação frequente para quem trabalha com projetos de extensão, uma das três funções básicas da universidade, segundo a Constituição Brasileira, ao lado de ensino e pesquisa. “Quando a gente vem para um evento como esse na praça, consegue mostrar para as pessoas o que acontece numa universidade. Muita gente tem a noção equivocada de que ela é um espaço fechado e isolado. Não veem que o dinheiro delas está sendo empregado na geração de conhecimento”, afirma Ayla Machado, 20 anos, aluna do 6º período de nutrição da UFJF. A estudante integra o Grupo de Educação Tutorial (GET) responsável pelo projeto de educação alimentar que surpreendeu Rayssa e Victor com a informação de que os alimentos industrializados e ultraprocessados podem ser prejudiciais à saúde pelo excesso de açúcar e sódio. “Ao trazer esse conhecimento para a praça, mostramos à população que a universidade afeta a vida das pessoas positivamente. Tem muita coisa bacana acontecendo: não é só sala de aula, nem só conhecimento teórico. É muita ação e extensão também”, resume.

A extensão é um caminho para socializar e democratizar o conhecimento, levando-o a um público não universitário. Ayla conta que o grupo de bolsistas do qual faz parte promove oficinais em escolas do município para discutir com crianças e adolescentes sobre alimentação saudável. Um dos colégios em que fazem visitas duas vezes ao mês é a Escola Estadual Maria das Dores de Souza, que atende cerca de 150 crianças e jovens com algum tipo de deficiência. “Levamos materiais educativos, fazemos colagens, abordamos a educação alimentar de forma bem lúdica com eles”, descreve a estudante. Como entre os alunos da escola há muitos deficientes visuais, o grupo de oito universitários estimula a análise sensorial com o uso de temperos, frutas e hortaliças. “É muito difícil pegar o que aprendemos na sala de aula e pensar como seria aplicar em nossa rotina profissional. Mas a extensão nos estimula a dialogar mais com as pessoas e entender como podemos fazer o nosso conhecimento ser útil”, aponta.

As estudantes de enfermagem Larissa Aparecida Marinho, 22 anos, e Mylena de Oliveira Botelho, 19, venceram a timidez para assumir os personagens de fantoche que conversam com crianças do 1º e 2º ano do ensino fundamental sobre prevenção da dengue, higiene das mãos, conjuntivite e cuidados com a pediculose — os famosos piolhos. Elas fazem parte de um projeto de extensão da universidade que duas vezes ao mês visita a Escola Municipal Adhemar Rezende de Andrade, na periferia da cidade, para promover saúde com as crianças. Foi por meio do projeto que elas conheceram a obra de Paulo Freire, até então um ilustre desconhecido para elas — a proposta pedagógica de Freire estimula a educação por meio do diálogo e não da imposição, e é utilizada como base do projeto. “De forma lúdica, com rodas de conversa e fantoches, abordamos questões de saúde que tem relação direta com o cotidiano das crianças”, pontua Larissa. “Eles levam na brincadeira, mas acabam transmitindo o que aprendem à família”, completa Mylena.

As duas defendem que a universidade é muito mais do que a sala de aula — e o conhecimento que adquirem por meio da articulação entre ensino, pesquisa e extensão servirá de base para sua atuação profissional no futuro. “A extensão nos permite levar conhecimento científico para pessoas de fora da universidade e geralmente são as que mais necessitam de cuidados e informações sobre saúde e prevenção de doenças”, ressalta Larissa. Para Mylena, é preciso mostrar que a universidade realmente gera benefícios para a população. “Na praça, muitas pessoas que não conhecem a universidade se surpreendem com tudo que é produzido em seus laboratórios e salas de aula”, comenta.

Comunidade de encontros

No quilombo onde Lucas Paulo da Silva nasceu, fazer uma faculdade era um sonho distante. As terras da comunidade quilombola São Sebastião da Boa Vista ficam próximas ao distrito de Dores do Paraibuna, a cerca de 20 quilômetros do município de Santos Dumont (MG). A maioria dos 125 moradores vive da agricultura, mas alguns são obrigados a migrar para Juiz de Fora, maior cidade da região, onde vão trabalhar na construção civil. Lucas estava prestes a completar o ensino médio, na escola quilombola, quando um projeto de extensão da UFJF, coordenado por Leonardo de Oliveira Carneiro, professor do curso de Geografia, chegou até seu povoado. A proposta era valorizar os saberes quilombolas e auxiliar os moradores na luta por direitos, como a regularização das terras.

O encontro de Lucas com os pesquisadores foi um despertar. “O projeto me fez entender que o ensino superior não estava longe da minha realidade”, conta. Aos 26 anos, hoje ele cursa o 3º período de Geografia na UFJF e trabalha no mesmo projeto de extensão do qual foi beneficiário. “Sempre sonhei em fazer um curso superior e hoje estou realizando este sonho”, relata o estudante, que antes de ingressar na faculdade foi obrigado a se mudar para Juiz de Fora e trabalhou alguns anos como ajudante de obras. Sobre as dificuldades de um negro, pobre, morador da zona rural em permanecer na universidade, ele destaca que a fase pior já passou: “O difícil era trabalhar e estudar, mas com a ajuda de uma bolsa melhorou bastante”. Hoje ele é bolsista de extensão em outras comunidades quilombolas e ajuda em questões como a valorização dos saberes comunitários e a implantação da educação quilombola. “Sou como uma ponte entre a academia e o quilombo. É um sonho se realizando, e por meio dele posso ter base o suficiente para ajudar a minha comunidade. Luto por mim e por eles”, ressalta.

Também Ana Lívia Coimbra, pró-reitora de extensão da UFJF e professora da Faculdade de Serviço Social, defende que a universidade não pode estar alheia aos problemas sociais. “As atividades de extensão são uma oportunidade para os estudantes estarem em contato com a sociedade, da qual eles fazem parte. Ao exercerem projetos em diversas áreas, eles conseguem articular conhecimento e formação profissional com as demandas que a sociedade coloca”, explica. Para ela, esses projetos procuram entender o contexto social e apresentar soluções interventivas para melhorar as condições de vida da população brasileira — além de gerar conhecimento, a universidade também tem o dever de promover cidadania. “Ao entender as origens e as consequências das mais diferentes formas de ausência de direitos, o aluno reflete sobre sua própria formação e, em conjunto com os professores, consegue dar respostas no campo do resgate e fortalecimento de direitos”, completa.

A extensão universitária abrange projetos em áreas diversas como educação, cultura, comunicação, saúde, trabalho, meio ambiente, inovações e tecnologias. De acordo com as novas Diretrizes para a Extensão na Educação Superior Brasileira, publicadas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) em dezembro de 2018, esse tipo de atividade deve compor, no mínimo, 10% da carga horária dos cursos de graduação no país. Porém, como lembra Ana Lívia, não se trata apenas de “transmitir” conhecimento da universidade para a sociedade: é preciso primeiro ouvir as necessidades da população. “O que temos feito é sempre ouvir a comunidade, perguntando a ela quais são as demandas que eles têm para apresentar para a universidade no campo da extensão”, pontua.

Uma das iniciativas adotadas pela UFJF é a reunião com lideranças de associações de moradores, coletivos culturais, igrejas e equipamentos públicos do seu entorno, por meio do programa Boa Vizinhança. Segundo Ana Lívia, essa “inversão de lógica” é importante porque não parte daquilo que os professores julgam prioritário, mas sim do que a própria comunidade compreende como necessário. Outra saída é o diálogo com movimentos sociais. “Há um respeito sobre o que a comunidade de fato considera importante. É isso que dá sentido à existência da universidade pública em nosso país: ouvir o outro e estabelecer uma relação horizontal”, acrescenta.
Porém, ela ressalta que ainda há muitas barreiras a enfrentar, dentre elas o reconhecimento das atividades de extensão como formas de atuação tão relevantes quanto a produção de conhecimento mais “tradicional”. “A universidade forma profissionais e produz conhecimento por meio das pesquisas, mas quando os projetos de extensão são executados, há de fato um resultado mais imediato e efetivo junto à sociedade”, defende, ao destacar que a extensão é uma dimensão fundante da universidade pública brasileira.

Ciência que dialoga com a sociedade

O que os jogos têm a ver com ciência? A pergunta desperta os semblantes ainda sonolentos dos alunos do 3º ano da Escola Estadual Delfim Moreira, às 8h de uma manhã fria em Juiz de Fora. Letícia Perani, professora do Instituto de Artes e Design (IAD) da UFJF, esclarece que os games que eles costumam jogar no celular ou no computador são “coisa séria” e podem ser usados no aprendizado ou como fonte de renda — e ainda são temas de estudo na universidade. A oficina é parte do projeto “A ciência que fazemos”, que reúne pesquisadores de diferentes áreas para aproximar as pesquisas científicas de estudantes de ensino médio e mostrar que a universidade pode ser um caminho mais acessível. “Jogos estão sempre muito presentes no consumo de entretenimento desses jovens. Fica mais fácil estabelecer uma conexão com eles, pois conversamos uma língua comum”, descreve a professora.
Os estudantes são então desafiados a criarem eles mesmo um personagem de jogo — os desenhos, feitos livremente numa folha, são levados até os alunos do curso de Artes e Design, que reelaboram as criações no computador com traços profissionais e trazem de volta para os adolescentes. Geralmente as reações são de surpresa e encanto ao verem seu personagem “ganhar vida”. Do lápis de Raíssa Pereira, estudante de 17 anos, surge uma fada negra inspirada em sua avó Helena, falecida a um mês, aos 88 anos. “Meu desenho foi inspirado em uma pessoa muito importante para mim. Minha avó sempre foi um exemplo, uma mulher guerreira que sustentou sozinha os filhos e netos depois da morte do meu avô”, explica. A personagem é uma versão jovem da avó, com personalidade e presença marcantes, descreve. A estudante, que cursa o técnico de enfermagem à noite, sonha em fazer medicina. “Antigamente era muito difícil ver pessoas da minha classe social entrar na universidade. Noto que isso mudou um pouco nos últimos anos”, comenta. Segundo Letícia, a oficina também é uma oportunidade para os estudantes exercitarem a sensibilidade e a criatividade — além de despertarem o olhar para as profissões criativas.

A professora acredita que este é o momento das universidades mostrarem à sociedade o que produzem e oferecem na área de saúde, direito, esportes e cultura, por exemplo. “Infelizmente com as campanhas de desinformação, que se tornaram frequentes nos últimos anos, nós começamos a sofrer mais ataques de determinadas parcelas da sociedade. Nosso objetivo deve ser demonstrar, com a maior transparência, o trabalho que é feito nas universidades”, afirma. Ela aposta que um dos caminhos é aproximar o saber universitário dos jovens, que são um dos públicos prioritários das universidades. “Precisamos apresentar ao público os resultados do investimento que é feito pela sociedade”, reforça. Segundo ela, essa é uma oportunidade também para as profissões criativas, que sofrem de certo desconhecimento da população, mostrarem suas potencialidades não somente culturais, mas também na área de economia criativa, como moda, design, cinema e jogos.

Há 18 anos, Letícia saiu de Franca, no interior de São Paulo, para ingressar na mesma universidade onde hoje é professora. Nessas quase duas décadas, ela viu o espaço universitário se transformar. “Hoje eu vejo uma universidade mais diversa, mais aberta. Vejo que as cotas trouxeram realmente maior diversidade. A cultura popular tem mais espaço hoje do que no passado”, reflete. Ela também aponta que os alunos atualmente têm mais coragem de se expressar, em relação por exemplo à sua sexualidade, e também identifica uma mudança na postura dos docentes. “Hoje os professores se reconhecem mais como servidores públicos e têm uma preocupação maior não apenas com a formação acadêmica, mas também com a formação cidadã e o bem-estar mental dos alunos”, considera.

Frente aos cortes anunciados e às notícias de perseguições políticas e ideológicas contra professores e alunos, Letícia diz que este não é momento de se intimidar e sim de “sair dos muros”. “Por muito tempo, a universidade brasileira ficou muito fechada em si, num esforço de desenvolver internamente suas pesquisas e inovações. Acho que agora é a hora da gente sair, mostrar essa nova universidade que está surgindo, que é viva, ativa e está dando muito retorno para a sociedade”, destaca. A menina que sonhava em ser cientista quando criança descobriu que ciência não era feita somente em laboratórios de química ou matemática, ao chegar na universidade e conhecer projetos de pesquisa em comunicação, área na qual se graduou. Logo que ingressou, ela se tornou bolsista do Programa de Educação Tutorial (PET), que concilia atividades de pesquisa, ensino e extensão, e dedicou sua formação para se preparar para o sonho de ser professora. “Estamos num caminho bom que não pode ser interrompido. Temos que continuar cada vez mais democratizando o acesso e abrindo as portas da universidade para as demandas da sociedade”, conclui.

A universidade é do povo

Quando foi criada, em 2013, a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) adotou um modelo inovador voltado para a formação interdisciplinar e a integração social dos estudantes — como propunham os princípios da “Universidade Nova”. No entanto, a instituição sofreu este ano o maior corte no orçamento entre todas as IES (correspondente a 53,96% de suas despesas discricionárias), segundo dados da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes). A perda de recursos, sobretudo para uma universidade criada há poucos anos, compromete o andamento de projetos de pesquisa e extensão, como a realização da Feira da Agricultura Familiar, que acontece quinzenalmente desde abril de 2018 no campus Paulo Freire, em Teixeira de Freitas (BA).

A feira é uma proposta de integração entre a universidade e a sociedade, como explica Dirceu Benincá, um de seus idealizadores e professor da UFSB; ela é fruto do projeto “Universidade e extensão popular: diálogos de saberes e práticas agroecológicas”, coordenado por ele em parceria com outro professor, Frederico Neves. “A feira se constitui como importante experiência de extensão universitária popular e de integração social, bem como um espaço de resistência diante da vasta monocultura do eucalipto e das pastagens para criação de gado”, pontua. É uma oportunidade de encontro e diálogo entre a comunidade acadêmica, escolas da cidade, movimentos sociais, comunidades tradicionais e agricultores familiares que produzem com base na agroecologia. A cada edição, pelos menos 100 pessoas participam das atividades, que não se restringem à comercialização de produtos da terra, mas abrange também oficinas, exibição de filmes, aulas abertas e atividades artísticas e culturais.

“Na maioria das vezes, são as vozes de fora da universidade que mais se expressam, contribuindo com o processo formativo da comunidade acadêmica, de estudantes e professores de escolas públicas e privadas da região, dos próprios feirantes e demais frequentadores da feira”, conta o professor. Na sua visão, a extensão tem um papel fundamental, pois promove a inserção do estudante e da própria universidade na sociedade [leia entrevista completa no site da Radis]. Contudo, é preciso estar atento sobre a visão que se tem sobre extensão: se mera transmissão de saber ou promoção efetiva de diálogo. “Se ela for compreendida como mero ato de levar um conhecimento pronto até quem é visto como despossuído de conhecimento, a extensão pode se constituir em uma ação agressiva, impositiva e colonialista”, ressalta. Para tanto, Dirceu se utiliza dos conceitos de “comunicação dialógica”, de Paulo Freire, e de “extensão ao contrário” ou como via de mão dupla, de Boaventura de Sousa Santos, em que se respeita os valores e a cultura do outro, para propor um modelo baseado no diálogo. “Assim ela adquire uma perspectiva construtiva, democrática, libertadora e emancipatória”, afirma.

De acordo com o professor, a comunidade universitária pode aprender com os saberes e as práticas populares. “Ao desenvolver a prática de uma extensão como via de mão dupla, em que há relação entre pessoas que têm conhecimentos e saberes distintos e, juntas, podem aprender umas com as outras, se fortalece o modo de ser de uma Universidade Popular”, reforça. Foi da feira que nasceu o curso de pós-graduação “Agroecologia e Educação do Campo”, do qual ele é vice coordenador, que em 2019 conta com a primeira turma de 30 estudantes. Em pauta, estão temas como agricultura familiar, soberania alimentar, consumo consciente, práticas sustentáveis e ecologia dos saberes.

Dirceu aponta que o cenário de cortes no orçamento das universidades prejudica projetos como a feira pois ocorre a diminuição ou ausência completa de bolsas para estudantes se engajarem com mais tempo e dedicação à extensão. “Ao invés de incentivar práticas de promoção da integração social da universidade, várias políticas atuais se orientam no sentido de fomentar a cisão das relações de intercâmbio, a reprovação do senso crítico e a censura a determinados temas em nome de certo moralismo científico, ideológico e cultural”, critica. Um dos temas na rota de ameaça, segundo ele, é a agroecologia: ao invés de estimular a promoção de saúde das pessoas e do ambiente, o que se vê é a liberação de mais agrotóxicos. “A agroecologia no atual governo passa a ser ameaçada como se fosse uma prática nociva à sociedade”, constata. Porém, segundo Dirceu, é papel da universidade contribuir com a resistência contra ameaças e projetos que ferem a democracia, a segurança alimentar e a justiça social.

Qual é o caminho para a universidade ser de fato do povo? “Mais do que simplesmente transmitir informações ou conhecimentos, a universidade tem o compromisso de contribuir com o desenvolvimento regional sustentável, integral e integrado”, defende. Para Dirceu, a universidade só será realmente democrática, plural e inovadora se ela, “como instituição milenar”, e a sociedade tiverem consciência do papel fundamental da educação. “Não acredito que a educação avance nesse país por obra de misericórdia ou por consciência política dos governantes. Ela é um permanente processo de construção coletiva e necessita sempre, e talvez mais do que nunca, de se imbuir de uma perspectiva humanizadora, socialmente justa e ecologicamente responsável”, define.


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