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Segunda-Feira 19.ago.2019

Ano VII - Nº 359

Poder

Bolsonaro arma palanque para rivais do Nordeste

Verborragia recheada de preconceito é tiro no próprio pé

Postado em 09 de Agosto de 2019 - Josias de Souza - UOL

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Jair Bolsonaro ainda não notou. Mas tornou-se uma oportunidade que os governadores nordestinos da oposição aproveitam. As críticas do presidente servem de matéria-prima para que os rivais armem palanques fora de época no Nordeste, um pedaço do mapa onde a aprovação popular do presidente é mais frágil e sua rejeição é mais vistosa.

Em nova investida, Bolsonaro acusou os adversários de "dividir o país", para instalar "uma Cuba" no Nordeste. Sem citar nomes, insinuou que são desonestos: "Eu tenho preconceito é com governador ladrão." Foi contestado por dois dos seus alvos: Flávio Dino (PCdoB) e Rui Costa (PT), respectivamente governadores do Maranhão e da Bahia. Ambos reagiram no Twitter, habitat natural de Bolsonaro.

Flávio Dino anotou que Bolsonaro "insistiu em perpetrar impropérios com agressões pessoais." Aconselhou o presidente a "governar". Mencionou como prioridades dois flagelos agravados pela ex-aliada Dilma Rousseff: "O desemprego e a recessão exigem providências urgentes."

Rui Costa esgrime a retórica da pacificação. "Luto por uma Bahia, um Nordeste e um Brasil de igualdade e sem ódio", escreveu, com calculadas intenções. "Precisamos de paz e união…"

A exemplo de Bolsonaro, os governadores foram eleitos. Nos casos de Dino e Costa, houve a reeleição. Sinal de que o eleitorado, certo ou errado, desejou premiá-los. O risco da estratégia de Bolsonaro é o de comprar briga com os eleitores nordestinos, não com os governadores. Essa possibilidade aumenta na proporção direta da elevação do ânimo do presidente de recorrer à discriminação monetária.

Indagado sobre o repasse de verbas federais para estados geridos por rivais, o capitão declarou: "Não vou negar nada para o estado. Mas se eles [os governadores] quiserem que realmente isso tudo seja atendido, eles vão ter que falar que estão trabalhando com o presidente Jair Bolsonaro. Caso contrário, eu não vou ter conversa com eles…"

As declarações de Bolsonaro foram feitas na cidade baiana de Sobradinho, na solenidade de inauguração de uma obra idealizada sob Dilma Rousseff e tocada sob Michel Temer. O episódio faz lembrar uma polêmica de 2016.

Em junho daquele ano, nas pegadas da votação em que a Câmara decidiu abrir processo de impeachment contra Dilma, o mesmo governador Rui Costa inaugurou a obra de duplicação de uma avenida em Salvador. Na placa, os nomes das autoridades responsáveis pela obra. A lista abria assim: "Dilma Rousseff, presidenta da República." Alegou-se que, embora afastada do cargo, a petista ainda não fora deposta pelo Senado.

Duas semanas antes, em São Paulo, o então governador tucano Geraldo Alckmin inaugurou um centro de treinamento paraolímpico. Ali, lia-se na placa que o presidente da República era Michel Temer.

Ao exigir que os governadores deixem claro que "estão trabalhando com o presidente Jair Bolsonaro", o capitão adere a uma prática arcaica: o uso de obras públicas como peças de propaganda para promoção pessoal. Se alguém merece ser mencionado nesse tipo de empreendimento é o contribuinte brasileiro, dono do dinheiro.

Ao desperdiçar parte do seu tempo com a reedição da politicagem, Bolsonaro arrisca-se a transformar sua aversão ideológica a governadores eleitos numa reação emocional de nordestinos pragmáticos.

Pesquisa Datafolha divulgada no mês passado informou que é justamente no Nordeste que a aprovação de Bolsonaro é menor (25%) e a rejeição é maior (41%). Repare no quadro abaixo. Contra esse pano de fundo, o presidente faria um bem a si mesmo se parasse de falar dez vezes antes de pensar. Faria melhor ainda se privilegiasse a ação em detrimento do falatório.


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