Semana On

Quarta-Feira 23.out.2019

Ano VIII - Nº 368

Poder

Novo aliado de Bolsonaro, Richard Rasmussen é visto pelo Ibama como criminoso ambiental

Escolhido pelo governo Bolsonaro para ser o embaixador do Turismo, Richard Rasmussen já foi multado em R$ 263 mil por maus-tratos a animais

Postado em 09 de Agosto de 2019 - Wilson Lima (Isto É), Catraca Livre

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

O ministério do Turismo é um poço de polêmicas. A começar pelo ministro, Álvaro Antônio, cidadão que vez por outra precisa dar explicações à Polícia Federal (PF) por conta da fraude das candidaturas femininas do PSL. Em julho, o ministério lançou uma campanha de atração de turistas estrangeiros chamada “Brazil. Visit and love us”, em tradução livre “Brasil. Visite e nos ame”.

O problema é que, pelo contexto inglês, a frase pode trazer outra semântica, de caráter sexual. Agora, os gênios do Ministério do Turismo tiveram mais uma ideia fora da casa para alavancar a atividade no Brasil. Eles elegeram o biólogo e apresentador de televisão Richard Rasmussen para incentivar o ecoturismo no País, algo relativamente novo em termos de atividade econômica.

A ideia seria interessante se o embaixador não fosse também conhecido por cometer várias infrações ambientais. Somente pelo Ibama, Richard Rasmussen foi multado por infrações ligadas à fauna. As multas foram aplicadas entre os anos de 2002 e 2009 e chegam ao valor de R$ 263,1 mil. Os processos ainda estão em fase de recurso na Justiça. A maior sanção, porém, data de 2004, no valor de R$ 144 mil. Na época, ele foi acusado de ter dado destinação a espécime silvestre sem autorização do órgão responsável.

As autuações ocorreram na cidade de Carapicuíba, onde ele mantinha um criadouro de espécimes exóticas, chamado Criadouro Conservacionista Toca da Tartaruga, mas sem comprovação de origem dos animais. Na época, o Ibama suspeitava de que o Rasmussen exercia tráfico de animais. Mas isso nunca ficou comprovado. Outra irregularidade encontrada pelos fiscais no criadouro eram cães circulando em recintos destinados a aves e saguis, além de vários animais mortos na sala de atendimento veterinário.

Por conta dessas acusações, Rasmussen respondeu a uma Ação Civil Pública impetrada pelo Ministério Público Federal (MPF) de São Paulo. “Há vasta documentação apta a demonstrar que o réu incorreu em diversas irregularidades, causando danos à fauna”, disse, em parecer, a então procuradora regional da República, Marcela Moraes Peixoto. Segundo as investigações do MPF, no criadouro, Rasmussen reconheceu as irregularidades, como a obtenção de 223 animais sem origem conhecida, a evasão de 96 aves, pelo excesso de chuvas e a manutenção de 485 espécimes (ou seja, 95% do plantel) sem marcação de órgãos como o Ibama.

Reality

Para quem não conhece, Rasmussen é um apresentador com 20 anos de atuação que se especializou em participar de programas exibindo a vida selvagem no Brasil. Ele já trabalhou para o Domingão do Faustão, da Rede Globo e em reality shows do SBT, Nat Geo, TV Record e Band. De fato, a iniciativa é válida, o problema é que o tiro pode sair pela culatra, quando os turistas perceberem que o embaixador do ecoturismo já foi multado por cometer crimes justamente contra… os animais. Sem dúvida, um lance de “gênio”.

O Ministério do Turismo esclareceu que:

1) Não houve qualquer solicitação formal por parte das autoridades – Polícia Federal e Ministério Público – para que o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, prestasse depoimento sobre as supostas denúncias que seguem sendo investigadas. Desde o início, o ministro se colocou inteiramente à disposição da Justiça para prestar todas as informações necessárias em relação às investigações da Polícia Federal e já entregou ao Ministério Público de Minas Gerais as provas das verdadeiras motivações das supostas denúncias. Em diversas declarações, o ministro reiterou que segue no aguardo da conclusão das investigações confiante de que a verdade prevalecerá e acredita no trabalho isento, sério e justo das autoridades.

2) A campanha mencionada pela reportagem “Brazil. Visit and love us” foi uma ação idealizada pela Embratur, autarquia responsável pela promoção, marketing e apoio à comercialização dos destinos, serviços e produtos turísticos brasileiros no mercado internacional. Portanto, é incorreto afirmar que a campanha foi lançada pelo Ministério do Turismo.

3) Na parte “agora, os gênios do Ministério do Turismo tiveram mais uma ideia fora da casa para alavancar a atividade no Brasil”, também é incorreto afirmar que “o biólogo e apresentador de televisão Richard Rasmussen” foi eleito pelo Ministério do Turismo para compor o cargo de embaixador do turismo brasileiro. A atividade configura uma representação do Brasil no exterior e, por isso, é de responsabilidade da Embratur. Conforme já mencionado acima, a partir da criação do Ministério do Turismo em 2003, as atribuições da autarquia foram direcionadas exclusivamente para a promoção internacional.”

Na TV

Rasmussen é um antigo conhecido do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). No último dia 8, ele foi acusado de contratar pescadores para que matassem um boto e, com as imagens, forjar uma denúncia no Fantástico, da TV Globo, exibida em 2014.

O programa mostrou imagens chocantes de pescadores matando um boto cor-de-rosa que seria usado como isca para a pesca da piracatinga. Após ser cortado, descobre-se que o animal esperava um filhote.

Mas esta não é a primeira vez em que Rasmussen é acusado de maus-tratos a animais. Em 2005, o Ibama fechou um criadouro mantido por ele em Carapicuíba (SP) desde 1999.

“A equipe do Ibama autuou o proprietário do local, Richard Rasmussen, em R$ 8.500 por encontrar animais sem a documentação legal necessária”, disse a Folha de S. Paulo na época.

“Outras multas, de aproximadamente R$ 280 mil, já haviam sido aplicadas em 2002 pelo mesmo motivo”, continua a reportagem.

O site Notícias da TV diz que teve acesso às autuações, que totalizariam oito nos últimos 15 anos.

“Nós temos uma ficha extensa dele, em razão de diversas irregularidades, uma série de situações em que ele infringiu o regulamento ambiental brasileiro”, disse Roberto Cabral, coordenador de operações de fiscalização do Ibama, ao mesmo site.

Em 2010, um duro texto do jornal O Estado de S. Paulo chamava Rasmussen de “economista metido a aventureiro” e “Indiana Jones de Araque”.

A interação de Rasmussen com animais em seu habitat rendeu críticas na mesma publicação. “Isso acarreta estresse aos bichos. Mas ele (Richard) tem de fazer o showzinho dele. Se ele não incomodar o animal, não vai ter audiência”, disse na mesma ocasião Valter Barrela, professor de ecologia da PUC-SP.

O biólogo tem negado as acusações de maus-tratos. “Nunca fui autuado, pessoalmente ou durante meus trabalhos em 14 anos de televisão, por essas infrações. Em nenhum momento sofri qualquer autuação por cativeiro ilegal, manipulação não autorizada de animais silvestres e introdução não autorizada de animais no país”, afirmou ao Uol.


Voltar


Comente sobre essa publicação...