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Segunda-Feira 14.out.2019

Ano VIII - Nº 367

Brasil

Dados mostram explosão do desmatamento na Amazônia

‘Sou o capitão motosserra’, diz Bolsonaro

Postado em 08 de Agosto de 2019 - DW e RBA

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Novos dados divulgados no último dia 6 pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) confirmaram o aumento significativo no desmatamento da Floresta Amazônica. Em julho deste ano, a devastação do bioma cresceu 278% em relação ao mesmo mês de 2018.

Segundo o Sistema de Detecção do Desmatamento na Amazônia Legal em Tempo Real (Deter), em julho, 2.254,9 quilômetros quadrados de floresta foram devastados. Em relação ao mesmo período do ano passado, o aumento do corte raso foi de 278%. Este foi o maior crescimento nas taxas de desmatamento desde que o Inpe adotou sua atual metodologia em 2014.

Um grande aumento do desmatamento já havia sido apontado em junho, quando a devastação da floresta cresceu 88% em relação ao mesmo mês de 2018. A divulgação destes dados causou uma crise entre o Inpe e o governo de Jair Bolsonaro, que culminou com a demissão do presidente do instituto.

Logo após a divulgação dos dados que revelaram o aumento do desmatamento em junho, Bolsonaro contestou a informação e acusou o então diretor do Inpe, Ricardo Galvão, de mentir e de agir "a serviço de uma ONG". Em resposta, Galvão rebateu as críticas, defendendo o trabalho do instituto.

"Ele [Bolsonaro] tem um comportamento como se tivesse falando num botequim. Isso me assustou muito. Ele fez acusações indevidas a pessoas do mais alto nível da ciência brasileira, e não foi só eu", disse Galvão em entrevista ao Jornal Nacional.

Bolsonaro voltou então a atacar Galvão na última quinta-feira e ameaçá-lo de demissão durante uma coletiva de imprensa, que foi convocada pelo Ministério do Meio Ambiente para contestar novamente a metodologia do Inpe. O presidente disse que os números teriam sido "espancados" para atingir o país e chamou de "irresponsabilidade" a divulgação dos dados.

Já o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, apresentou mapas para supostamente mostrar que os dados do Inpe seriam "sensacionalistas" e "não condizentes com a realidade", alegando que 31% dos registros das maiores áreas desmatadas contabilizadas em junho último teriam ocorrido, na verdade, em meses passados.

Diante da crise, Galvão acabou sendo exonerado. O afastamento do diretor foi criticado por ambientalistas. Na segunda-feira, o ministro de Ciência e Tecnologia, que é responsável pelo Inpe, nomeou o oficial da Aeronáutica Darcton Policarpo Damião, que é formado em Ciências Aeronáuticas e tem doutorado em desenvolvimento sustentável, para assumir o comando do instituto interinamente.

Em entrevista ao jornal O Globo, Damião garantiu que o instituto continuará divulgando dados sobre o desmatamento, porém, afirmou que isso ocorrerá apenas em situações alarmantes e após o presidente e os ministros do Meio Ambiente e Ciência e Tecnologia terem sido informados. O diretor interino disse ainda que não está convencido que o aquecimento global seja causado pela ação humana.

Já Pontes afirmou a jornalistas nesta segunda-feira que os dados do Inpe não passaram por filtros antes de serem divulgados. "A entrega dos dados será feita com transparência. Isso é importante. Precisamos trabalhar na solução do problema que é reduzir esse desmatamento", disse.

O Brasil abriga 60% da Floresta Amazônica, que é um regulador chave para os sistemas vivos do planeta e também para o índice de chuvas no país. Suas árvores absorvem cerca de 2 bilhões de toneladas de dióxido de carbono por ano e liberam 20% do oxigênio do planeta.

Depois de ter sido considerado uma história de sucesso ambiental, o Brasil vem perdendo esse espaço, principalmente, desde a eleição de Bolsonaro, que já declarou várias vezes a intenção de explorar a floresta e negou a existência das mudanças climáticas. Devido ao discurso do presidente e à agenda ambiental do governo, especialistas temem que o desmatamento atinja níveis alarmantes nos próximos anos.

Nos últimos meses, o governo brasileiro reduziu a composição do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), além de tentar transferir a demarcação de terras indígenas para o Ministério da Agricultura. O ministro Ricardo Salles questionou publicamente a eficiência do Fundo Amazônia, que aloca dinheiro para projetos voltados a diminuir o desmatamento.

Capitão Motoserra

“Eu sou o capitão motosserra (…) Se divulga isso, é péssimo para a gente”, disseo presidente Jair Bolsonaro (PSL), sobre o aumento agressivo no desmatamento da Amazônia.

A estratégia bolsonarista para resolver o problema tem sido negar a ciência, demitir profissionais e ridicularizar qualquer questionamento sobre o tema. Tal estratégia se repete no comportamento de Bolsonaro em outros temas. O presidente e seu grupo de apoio usam a mentira como estratégia (desde a campanha eleitoral). Nega o aquecimento global, nega a ditadura, apoia torturadores e afirma que não existe fome no Brasil.

Chamado por aqueles que o idolatram de “mito”, Bolsonaro parece abraçar a mitomania; uma patologia em que o doente tem compulsão pela mentira.

A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva afirmou que Bolsonaro tenta “esconder o grave problema do desmatamento ilegal e da corrupção por meio da grilarem de terras públicas”, apesar dos fatos. “Sua estratégia diversionista é típica dos maus governantes e um reforço da sua incapacidade crônica”, disse.

Outro ex-ministro, Carlos Minc, lamentou: “Estamos voltando à Idade Média. Só valem os dados do rei”, completou.

Por sua vez, o humorista José Simão debochou da nomeação de um militar para o Inpe: “Ministro Astronauta Vendedor de Travesseiro nomeou militar para calcular o desmatamento! O desmatamento vai usar camuflado!”


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