Semana On

Terça-Feira 22.out.2019

Ano VIII - Nº 368

Brasil

Diante de violência a indígenas, Bolsonaro aposta em teoria da conspiração

Em discursos, presidente têm fomentado a ação ilegal de garimpeiros

Postado em 01 de Agosto de 2019 - Leonardo Sakamoto (UOL) e Bianca Santana (Revista Cult)

Foto: Apu Gomes - AFP Foto: Apu Gomes - AFP

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Diante de invasões de garimpeiros a territórios indígenas ocorridas em seu governo, como aquelas contra os Waiãpi, no Amapá, e os Yanomami, em Roraima, Bolsonaro tem reforçado a velha teoria conspiratória de que há um complô internacional para a transformação dessas áreas em países independentes a fim de que suas riquezas possam ser exploradas.

"Esse território que está nas mãos dos índios, mais de 90% nem sabem o que que tem lá e mais cedo ou mais tarde vão se transformar em outros países. Está na cara que isso vai acontecer, a terra é riquíssima. Porque não legalizaram indígena em cima de terra pobre? Não existe. Há um interesse enorme de outros países de ganhar, de ter para si a soberania da Amazônia", disse no último dia 29, segundo registro da Folha de S.Paulo.

Antes, uma correção. Há muitas terras indígenas espalhadas pelo país que não são objeto de interesse da mineração. Aliás, há uma fila de territórios assim a serem demarcados, por exemplo no Mato Grosso do Sul, que crianças Guarani e Kaiowá passam fome, que demandariam apenas uma assinatura do presidente.

Contraditoriamente, enquanto denuncia uma suposta trama internacional contra o país, afirma que a ida de seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, para a Embaixada do Brasil em Washington DC, vai ajudar a trazer apoio dos Estados Unidos para a exploração mineral em territórios indígenas brasileiros. Em junho, disse que iria se reunir com o primeiro-ministro japonês para propor de "explorarmos a biodiversidade na região amazônica". Em abril, afirmou que ofereceu "abrir para ele [Donald Trump] explorar a região amazônica em parceria".

Ao mesmo tempo, seus discursos têm fomentado a ação ilegal de garimpeiros nesses territórios, que acreditam que o presidente está a seu lado.

Teorias da conspiração apontam que devolver terras aos indígenas em regiões de fronteira, demarcando e homologando territórios, pode fomentar a independência desses povos do restante do Brasil. Esse argumento tacanho foi usado largamente sobre a Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. Para membros do atual governo, solução melhor teria sido manter arrozeiros e outros produtores rurais, muitas vezes ocupantes ilegais das áreas e que adotam uma política de terra arrasada no trato ambiental. Porque estes sim seriam confiáveis e estariam lá para desenvolver o país.

Os territórios indígenas – que são responsáveis por altas taxas de conservação ambiental – nunca realizaram um plebiscito ou montaram uma campanha de guerra pela independência do Brasil. Pelo contrário, querem é mais atenção do governo federal, sentirem-se efetivamente brasileiros através da conquista de sua cidadania, o que inclui o direito à sua terra. Coisa que o país nunca garantiu totalmente a eles. E, se depender do atual presidente, vai continuar assim porque prometeu não demarcar mais território algum.

Trago de novo o que escrevi aqui quando ele usou da mesma teoria conspiratória no mês passado. Ao recuperar indiretamente o lema da ditadura do "integrar para não entregar", Bolsonaro não conta – por má fé ou ignorância – que a região já está integrada ao capitalismo global. Ou seja, a Amazônia já foi internacionalizada. E não é de agora. Desde o período militar, ela está conectada aos centros do capitalismo nacional e mundial através de cadeias produtivas que exploram recursos naturais, mão de obra e energia – o que não significou, necessariamente, melhora na qualidade de vida de populações indígenas, camponesas e trabalhadores rurais. Pelo contrário, temos assassinatos de lideranças, deslocamentos forçados para a construção de hidrelétricas, como Belo Monte, trabalho escravo em grandes fazendas.

Para que ter o trabalho de tomar conta daquela bagunça fundiária, se as riquezas já fluem para fora da Amazônia por caminhões, porões de navio ou linhões de transmissão de energia? Empresas que, aliás, durante muito tempo financiaram políticos nacionalistas que são chegados numa teoria da conspiração. Há organizações da sociedade civil picaretas? Claro. Da mesma forma que empresas e governos desqualificados e exploradores. Mas a quem interessa combater, por igual, os problemas nos três setores da sociedade?

O que seria deste governo sem teorias da conspiração? Para começar, teria que crescer e assumir a sua responsabilidade e a de seus aliados pelos impactos causados na região sem jogar a culpa apenas no desconhecido, no oculto e no estrangeiro. E isso é algo que ele não parece disposto a fazer porque mostraria ao mundo quem é de fato.

Cova no quintal, e o país que liquida ativistas

Em 27 de julho de 2019, se não tivesse sido assassinada, Marielle Franco completaria 40 anos. Além dela, entre janeiro e julho de 2018, 58 defensoras e defensores de direitos humanos foram mortos no Brasil. Em 2017, foram 71. A situação é ainda mais grave no campo. De 2016 a 2017, houve um aumento de 350% nos assassinatos de quilombolas. 

“Mas nós continuamos defendendo nossos territórios, nossas comunidades. Botamos a cara para alertar nosso povo a não vender a terra, que é patrimônio ancestral”, afirma Sandra Braga, liderança do Quilombo do Mesquita, em Goiás, e membro da coordenação executiva da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq). “Não podemos abrir mão do espaço sagrado onde vivemos em favor do capitalismo e de um modelo de desenvolvimento que não beneficia o nosso povo.”

Há cerca de quatro anos, a mãe de Sandra encontrou uma cova no quintal de sua casa. Era a ameaça mais concreta, furada na terra, que a quilombola recebia. A luta coletiva de sua comunidade, corporificada em lideranças como ela, tem sido atacada de muitas formas. Alguns quilombolas têm sido cooptados a defender a venda de terrenos a fazendeiros, empresas e empreendimentos imobiliários. E outros têm sido alvo de bala. 

O primeiro registro do Quilombo do Mesquita, formado atualmente por quase 800 famílias, é de 1746. A localização, a 50 quilômetros de Brasília, e as muitas nascentes de água têm atraído a especulação imobiliária que envolve uma das empresas de José Sarney. 

Mais de 6 mil quilombos estão em luta para preservar seus territórios, por acesso a terra, água, moradia, educação e proteção a defensores e defensoras de direitos humanos. No último mês de abril, a Conaq – na figura de Sandra Braga, Danilo Serejo (da cidade de Alcântara, MA) e Sandra Silva (do Quilombo Carrapatos da Tabatinga, MG) – esteve na Jamaica com outros onze representantes do movimento negro brasileiro para denunciar o pacote genocida, chamado “anticrime”, de Sergio Moro. 

Entre as demandas apresentadas à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, protocolaram a exigência de que o Estado brasileiro “atue de forma coordenada para intervir em situações de violências ocorridas em comunidades quilombolas, em especial as que atentem contra a vida, agindo de forma a prevenir as violações e, quando ocorram, para investigar, processar e responsabilizar mandantes e executores de ações violentas”. 

Sandra Braga, aos 51 anos, “filha e neta do quilombo”, como gosta de dizer, conta que sofre ameaças desde 2009. Por defender que a terra pertence à sua comunidade e às futuras gerações, ouve relatos de colegas que foram alertados a não andarem com ela porque “sua cabeça vai rolar”. Em 2010, Sandra enfrentou uma campanha de difamação de jornais locais, depois de acionar o Ministério Público (MP) contra uma fazenda que planejava desmatar 84 hectares de cerrado pertencentes ao território do quilombo. Conseguiram barrar o desmatamento de 50 hectares. “Queriam construir um condomínio na região. Barramos e vieram com tudo para cima de mim e de outras lideranças”, conta Sandra. “Mas a gente não pode parar a vida.” 

A vitória da comunidade se repetiu em 2018, quando o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) publicou uma resolução que aprovava a redução do território do quilombo em mais de 80%. A luta organizada constrangeu o conselho diretor do próprio Incra a revogar a decisão. 

No último 11 de junho, Sandra Braga recebia representantes de 60 entidades do movimento negro para uma reunião na sede da Conaq, em Brasília, quando Carlos Cabral, de 58 anos, presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais do município de Rio Maria (PA), foi assassinado com quatro tiros, um deles na cabeça. A média é de um defensor a cada seis dias. “Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”, postou Marielle Franco no Twitter, um dia antes de ser alvejada com quatro tiros na cabeça.


Voltar


Comente sobre essa publicação...