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Sábado 24.ago.2019

Ano VII - Nº 360

Brasil

New York Times denuncia devastação da Amazônia sob o governo de extrema-direita de Bolsonaro

Presidente apela ao ‘patriotismo’ para ocultar os dados do desmatamento

Postado em 01 de Agosto de 2019 - Brasil 247, RBA e Victor David López (El Diario)

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Em reportagem principal da edição do último dia 28, o jornal The New York Times denunciou o aumento do desmatamento da Floresta Amazônica durante os primeiros seis meses do governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro.

“A parte brasileira da Amazônia perdeu mais de 1.330 quilômetros quadrados de cobertura florestal desde que Bolsonaro assumiu o cargo em janeiro, um aumento de 39% em relação ao mesmo período do ano passado, de acordo com a agência do governo que rastreia o desmatamento”, diz o New York Times, em reportagem assinada por Letícia Casado e Ernesto Londoño.

O principal jornal dos Estados Unidos lembra que o Brasil era até então reconhecido internacionalmente pelos esforços e políticas públicas de combate ao desmatamento e proteção da floresta.

“O sucesso do Brasil em desacelerar a taxa de desmatamento tornou um exemplo internacional de conservação e o esforço para combater a mudança climática. Mas com a eleição do presidente Jair Bolsonaro, um populista que foi multado pessoalmente por violar as regulamentações ambientais, o Brasil mudou substancialmente de rota, recuando dos esforços que fez para desacelerar o aquecimento global ao preservar a maior floresta tropical do mundo”, diz o NY Times.

As duas tendências – o aumento do desmatamento e a crescente relutância do governo em enfrentar atividades ilegais – são preocupantes para pesquisadores, ambientalistas e ex-funcionários que afirmam que o mandato de Bolsonaro pode levar a perdas impressionantes de um dos recursos mais importantes do mundo.

“Estamos enfrentando o risco de desmatamento descontrolado na Amazônia”, oito ex-ministros do Meio Ambiente do Brasil escreveram em uma carta conjunta em maio, argumentando que o Brasil precisava fortalecer suas medidas de proteção ambiental, não enfraquecê-las.

Leia a reportagem do The New York Times na íntegra.

Ruralistas investem na propaganda contra o aquecimento global

Em meio ao desmatamento recorde na Amazônia, que Bolsonaro tenta ofuscar com seus ataques ao respeitado Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que faz o monitoramento das florestas, os ruralistas se articulam em busca de dados que os absolvam de sua participação na alteração climática com a derrubada de florestas. E que ao mesmo tempo isentem o avanço de pastos e da monocultura. Uma espécie de propaganda para encobrir os efeitos nocivos da destruição ambiental sobre o clima.

De acordo com o Fundo das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), as florestas são aliadas no combate ao aquecimento global, absorvendo por ano cerca de 2 bilhões de toneladas de gás carbônico, um dos gases de efeito estufa. Mas quando desmatadas, transformam-se em motores do aquecimento global.

A Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) do Senado já autorizou a realização de um seminário para reunir pesquisadores brasileiros e estrangeiros contrários à tese do impacto da ação humana, por meio do desmatamento, mineração e outras atividades agressoras. E por tabela, contra o Acordo de Paris, pacto entre os países para combater o aumento da temperatura do planeta.

Seminário

Proposto pelo agropecuarista e senador Marcio Bittar (MDB-AC), da bancada ruralista, o seminário é desdobramento de uma audiência pública realizada em 28 de maio, que contou com a participação do climatologista Luiz Carlos Molion, professor da Universidade Federal de Alagoas, de Évora (Portugal) e de Western Michigan (Estados Unidos). E o geógrafo Ricardo Felício, da Universidade de São Paulo (USP). Clique aqui para acessar as notas taquigráficas da audiência.

Molion afirma que a tese do aquecimento global é frágil e que serve mais a interesses geopolíticos e econômicos.  Candidato do PSL paulista à Câmara em 2018, obtendo apenas 11.163 (0,05% dos válidos), Felício diz que o aquecimento é “uma farsa”.

Embora haja pesquisas sérias e respeitadas, segundo Bittar, pode existir manipulação e falsificação de dados e resultados com o intuito de legitimar uma “agenda ideológica desconectada da realidade”. O parlamentar defende umamplo debate sobre o tema e que o Ministério das Relações Exteriores explicite o atual quadro das discussões, no âmbito dos órgãos internacionais competentes.

Além dos dois nomes presentes à audiência pública, o requerimento do seminário traz ainda os do geólogo japonês Shigenori Maruyama, professor na Universidade Tecnológica de Tokyo e autor do livro Aquecimento Global?; do físico estadunidense Richard Lindzen, professor no Massachusetts Institute of Technology (MIT), que já admitiu receber dinheiro da indústria do petróleo para dar palestras, e ex-colaborador do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). Devem participar também o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, muito próximo dos ruralistas e distante dos direitos dos indígenas, e o ministro-chefe do gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, general Augusto Heleno. O general também acredita que os dados do desmatamento são “manipulados“.

Coalizão

Ainda sem data definida, o seminário que segundo o Senado vai ser realizado neste semestre terá uma forte concorrência: A Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) vão reunir no mesmo período diversos especialistas no tema.

“A ideia é discutir, entre outras questões, para onde o país está indo do ponto de vista das mudanças climáticas e quais podem ser as consequências para a nossa sociedade. Mas fazer uma discussão realmente decente com cientistas. O formato do evento da ABC e da SBPC ainda não foi definido, mas será algo como um evento paralelo, para fazer o contraponto”, disse o físico Paulo Artaxo. Professor do Instituto de Física (IF) da USP e membro permanente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, ele tem se dedicado ao estudo da política ambiental e das mudanças climáticas.

Artaxo integra ainda a Coalizão Ciência e Sociedade. Trata-se de um movimento que une cientistas de todos os setores e de várias partes do país frente aos ataques desferidos pelo governo de Jair Bolsonaro contra a pesquisa, a ciência, a educação e a eles próprios. A estratégia é contrapor posicionamentos, leis e medidas socioambientais sem fundamentação científica que tem sido adotadas de janeiro para cá. Na prática, um observatório.

Para o cientista, a pressão social é importante para conter retrocessos impostos pelo governo, especialmente na questão ambiental. No entanto, como Bolsonaro se mostra mais sensível aos interesses dos ruralistas do que da sociedade como um todo, é daí que devem vir mudanças de postura.“Quando o agronegócio começar a perceber que está sendo prejudicado pela própria degradação ambiental, e começar a fazer pressão, é que teremos mudança de mentalidade. A pressão do agronegócio será mais bem sucedida”.

Patriotismo?

Entre os avançados sistemas de controle do INPE, destaca-se o Deter-B, que identifica e mapeia em tempo real todos os tipos de alterações na superfície da floresta amazônica. Esse programa detectou, no mês de maio, 1.102,57 km² de áreas de alerta de desmatamento, das quais 739,68 km² correspondem à "eliminação completa da cobertura florestal (corte raso)". No mês de junho, as áreas de alerta atingiram 2.072,03 km², com 920,21 km² de eliminação total. Os estados do Mato Grosso e Pará levam a pior parte. Os dados do Deter-B podem ser consultados no site do Terra Brasilis.

"A área de desmatamento com corte raso, nos últimos três meses (abril, maio, junho), acumula 1.907,1 km²", indica o INPE. "Em 2018, foram registrados 1.528,2 km² no mesmo período, ou seja, se observa um crescimento de 24,8%." É complicado para Jair Bolsonaro se afastar do discurso antiambiental que demonstrou nos últimos tempos e refutar os exaustivos e minuciosos dados da tão elogiada instituição de seu próprio governo. Por isso, o presidente escolheu apelar ao nacionalismo e ao amor-próprio da população.

Nos últimos dias, tem dito, em primeiro lugar, as bases do que deveria fazer o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Ricardo Galvão, toda vez que a realidade do desmatamento aparecer diante de seus olhos: "Pela responsabilidade, respeito e patriotismo" procure o seu chefe imediato, neste caso o ministro: olha, ministro, temos alguns dados aqui, vamos divulgá-los, porque devemos divulgá-los, prepare-se porque você vai sofrer algumas críticas ".

Bolsonaro disse à imprensa que a divulgação desses números dificulta os acordos comerciais, por causa da imagem negativa do país, e que não deveriam vir à luz sem que ele tenha conhecimento prévio. Acusou também o diretor do INPE de produzir e divulgar dados "que podem não coincidir com a verdade" e estar "a serviço de alguma ONG".

Conhecedor do modus operandi de Bolsonaro com aqueles que não se alinham exatamente a suas ideias - ataques em público foram um prelúdio para as saídas do ministro da Educação, do ministro da Secretaria de Governo e do presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento -, Ricardo Galvão respondeu a partir de sua posição como cabeça visível dos dados alarmantes de desmatamento da Amazônia: "Faz parte de um plano para me queimar". Segundo Galvão, o líder ultradireitista "adotou uma atitude pusilânime e covarde de fazer uma declaração em público, talvez esperando que eu peça demissão, mas não vou fazer isso".

As vozes que apoiam o trabalho do INPE foram chegando em cascata. Edegar de Oliveira (diretor de conservação e restauração de ecossistemas do Fundo Mundial para a Natureza no Brasil) afirma ao jornal El Diario que "os dados são bastante consistentes, confiáveis, extremamente relevantes por sua qualidade científica e pelo fato de serem transparentes". Em sua opinião, os ataques de Bolsonaro têm mais a ver com a sua "falta de preparação" do que com o nacionalismo, e pecam mais pelo "imediatismo" do que pelo patriotismo. "Há produtores conscientes e preocupados em favor de produções sustentáveis, o Brasil não precisa desmatar para continuar abastecendo o mercado de commodities", explica Oliveira, perturbado com a atitude de um presidente que "vai na contramão disso."

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), comandada por seu presidente Ildeu de Castro Moreira, publicou um manifesto em defesa do INPE, de seu diretor e suas pesquisas. "Na ciência, os dados podem ser questionados, mas sempre com sólidos argumentos científicos, e não por motivações de natureza ideológica, política ou qualquer outra", apontam no texto.

A SBPC, juntamente com a Academia Brasileira de Ciências, entre outras instituições científicas, também enviou uma carta direta ao presidente, com cópia para os Ministros da Agricultura, Ciência e Tecnologia e Meio Ambiente. Na carta, explicam resumidamente o amplo espectro da palavra desmatamento: "Não se trata apenas de conservar a mata como um sistema essencial para a regulação do processo de mudança climática, de interesse internacional, mas também da preservação da rica biodiversidade e da sobrevivência da agricultura brasileira em todo o país, particularmente no centro-oeste e no sudeste, cujos regimes de chuvas dependem fundamentalmente da existência da floresta amazônica e de sua exploração sustentável."

O ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, citou o diretor do INPE para discutir os dados, e não saiu do script: "Entendo e compartilho a estranheza expressada por nosso Presidente". Pontes, tenente-coronel da Força Aérea Brasileira, uma das peças mais respeitadas do Executivo e o primeiro astronauta sul-americano a viajar ao espaço, também conhece bem o modo de agir de Bolsonaro quando quer encurralar um alto cargo que o atrapalha.


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