Semana On

Domingo 22.set.2019

Ano VIII - Nº 364

Coluna

Yawanawá

Re-existindo na Diferença

Postado em 29 de Junho de 2019 - Ricardo Moebus

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Estamos no grande terreiro da aldeia Yawanawá “Nova Esperança”, durante um “Festival Yawa”. Muitos indígenas de várias etnias, muitos visitantes brasileiros e estrangeiros. Entre muitos rituais e ritos, antigos e atuais, estou ali vendo no meio da alegria de muitas crianças, uma ou outra que me chama a atenção, atenção de médico condicionado a fazer diagnósticos. Um garoto em especial me parece muito inquieto e um tanto quanto “desadaptado” ao contexto dos outros.

O saudoso pajé Yawarani, sempre circulando por todo o ambiente, do seu modo sempre bem humorado, parecia estar distraído, rindo daquilo tudo do alto de seus mais de noventa anos. Mas na verdade ele mantinha um tipo de “atenção flutuante”. Perspicaz ao que acontecia, logo percebeu minha preocupação e veio falar comigo, dizendo: “você notou, não é?” Fiquei surpreso, e respondi apenas “sim”, achando logo que ele estava se referindo àquele garoto que para mim parecia ter algum “problema”. Então ele apenas completou dizendo algo do tipo, não me lembro exatamente as palavras: “ele tem um dom”.

Nesse momento aprendia com ele algo da maior importância para mim. O que eu via como uma “doença” ou um “transtorno”, era uma diferença, um diferencial em uma criança que ele enxergava como um “dom”. Eu já tinha estudado muito a proposta do psiquiatra italiano Franco Basaglia de colocar a doença “entre parênteses”, de suspender um pouco este juízo diagnóstico automático, para podermos enxergar outras facetas e possibilidades daquela mesma pessoa. Já vinha tentando praticar isso por muito tempo, mas foi nesse momento com Yawarani que realmente entendi a realidade concreta desta possibilidade. Isto ficou bem evidente para mim no choque destas perspectivas culturais bem distintas, o ponto de vista dele sobre a mesma situação que víamos era tão mais generoso que o meu. Pude aprender com ele dessa forma discreta e sutil, sem nenhuma formalidade, muitas vezes, durante alguns festivais.

Os festivais culturais indígenas, de inúmeras etnias, acontecendo em variados territórios indígenas, já são há vários anos uma feliz realidade no estado do Acre, este extremo oeste da amazônia brasileira.

Alguém que passe por um destes festivais pode ficar maravilhado com as vivências tão intensas que experimenta, alguns podem até se sentirem surpresos por encontrarem todos aqueles rituais e aquelas tradições sendo perpetuadas ali, muitos podem até pensar que tudo aquilo veio acontecendo continuamente, como se aquelas celebrações tivessem vivido em alguma bolha que as protegeu de tudo que veio acontecendo nestes últimos quinhentos anos, como se a produção da cultura indígena fosse apenas uma repetição, fosse apenas uma passividade permitindo que nada mude e as tradições sigam como sempre foram.

Quando na verdade a cultura indígena, como toda cultura viva, vem sempre se recriando, se reinventando, em um contínuo processo de auto-criatividade, autopoiese, se repensando a cada momento, buscando saídas a cada desafio, reestruturando, recuperando, reconstruindo e ao mesmo tempo expandindo, alargando suas tradições, em releituras atuais de si mesmo, como é próprio de tudo que vive.

A própria forma “festival” é uma reinvenção de antigos modos dos momentos de celebração. Momentos de fortalecimento dos laços de pertencimento cultural, mas agora, também momento de resgate da própria “crença”, momento de acreditar na força e na potência da própria cultura indígena, nas atuais circunstâncias em que as ofertas de outras formas de viver são feitas intensamente, continuamente.

Os festivais começaram como celebrações da própria cultura, como estratégia de cultivar as próprias identidades e diferenças das etnias que os promoviam. Mas também, desde o início, como ferramenta de fortalecimento interno e externo da valorização destas culturas, tradições, saberes.

Ao mesmo tempo, estes festivais foram reinventando o encontro de culturas, entre “brancos” e indígenas, de modo totalmente diferente dos encontros que ali mesmo aconteceram, pelo menos desde o século XIX, com as invasões dos chamados “caucheiros” que vieram desde o Peru, promovendo massacres, escravidão, destruição das tradições dos povos indígenas.

Os festivais são um novo encontro de culturas, que ao contrário do tradicional encontro entre “brancos” e “índios”, que prodiziam uma aculturação dos povos indígenas, uma perda de suas tradições, estes encontros atuais acontecem justamente para valorizar e divulgar estas tradições indígenas, inclusive entre os “brancos” que frequentam em grande número estes festivais.

O primeiro destes festivais culturais indígenas no Acre foi o “Festival Yawa”, dos Yawanawás, que já existe há mais de 15 anos, tendo sido inspirado e estimulado pelos festivais de cultura indígena realizados nos anos 1990 por Ailton Krenak, na Serra do Cipó em Minas Gerais, reunindo inúmeras etnias, entre elas os Yawanawás.

A trajetória dos Yawanawás é bem emblemática deste movimento de resgate cultural indígena, de retomada dos seus territórios existenciais após a reconquista de seus territórios geográficos, de suas terras.

É a história de uma longa jornada de volta para casa.

Como as outras etnias da região, os Yawanawás foram invadidos pelos “caucheiros”, foram mortos em grande medida, fugiram, buscaram outros territórios, foram novamente invadidos, metamorfoseados em seringueiros, ribeirinhos, depois novamente invadidos pelos grandes latifundiários, pecuaristas, já na década de 1970, submetidos a condições de trabalho análogo ao escravo, muitas vezes controlados por milícias locais.

A última invasão foi pela empresa PARANACRE – Companhia Paranaense de Colonização Agropecuária e Industrial do Acre, no início dos anos 1970, que comprou os seringais do Rio Gregório, território ocupado pelos Yawanawás desde tempos imemoriais.

Chegaram nos barcos “batelão” e até de helicópteros, com seus “funcionários”, muitas vezes armados, “explicavam” que aquelas terras tinham sido compradas e que aquele povo todo que vivia ali não tinha mais direito a nada, não poderiam nem mesmo fazer os seus roçados, plantar suas bananas, nada sem a permissão dos “verdadeiros” donos da terra, a partir daquele momento.

O próprio governo acreano, desde o início da década de 1970, vinha criando projetos econômicos financiados por bancos públicos, como o Banco do Estado do Acre, Banco do Amazonas, Banco do Brasil, para transformar o Acre em grandes fazendas de pecuária, como nova “solução” para incrementar a economia do estado. Em sintonia com o governo federal militar da época, com seu Plano Nacional de Integração (PIN), estimulando a “colonização” da Amazônia brasileira.

Tendo seus territórios invadidos por caucheiros, seringueiros e por fim pecuaristas, os povos indígenas se viram reduzidos às piores condições de vida, com destruição de seus territórios físicos mas também de suas tradições, cultura, língua, identidade.

Em 1981 o antropólogo Txai Terri publica uma reportagem no jornal “O Varadouro” de Rio Branco, denunciando a situação dos Yawanawás, em campanha pela conquista dos direitos indígenas:

“Dentro do imenso latifúndio de 463 mil hectares de terras que a PARANACRE alega ser proprietária no rio Gregório, município de Tarauacá, existem cerca de 300 indios Iauanauá e Katukina vivendo uma situação de verdadeira escravidão.

São índios que não tem direito a nada, nem sequer à área onde sempre viveram e morreram seus antepassados. Como seringueiros, são duplamente explorados: nos altos preços das mercadorias adquiridas nos barracões da PARANACRE, e no baixo preço de sua produção de borracha. São também obrigados a pagar a renda de estradas de seringa existentes dentro de sua terra, além de também pagarem a “tara” e outras “comissões” para os gerentes da Paranacre, empresa de propriedade do Café Cacique, Viação Garcia e outros, todos de Londrina, no Paraná. Trabalhando como peões, recebem uma baixa diária de 250 cruzeiros, quando uma lata de leite em pó, de 400 gramas, custa 500 cruzeiros nos depósitos da Paranacre.

A Ajudância da FUNAI no Acre é omissa, apesar das denúncias já apresentadas pelo chefe Iauanauá, Raimundo Luís. Os missionários norte – americanos das Novas Tribos do Brasil, que vivem há seis anos entre os índios do Rio Gregório, só se preocupam com o proselitismo religioso, pregando o evangelho do “deus branco”, enquanto desconsideram as festas e rituais tradicionais dos índios, chamando-os de “coisas do diabo”

Invadidos em seus territórios geográficos por grandes empresas, que queriam a força de seus corpos para o trabalho praticamente escravo, invadidos em seus territórios existenciais, culturais, transcendentais pela cultura “dos brancos”, pelos missionários protestantes, pelos pastores que queriam a força de suas almas, os Yawanawás passaram os piores momentos de sua trajetória, mas resistiram.

Nos anos oitenta, depois de um longo processo de persistente e árdua luta por seus direitos conseguiram a demarcação de suas terras em 1984. Alguns anos depois também a ampliação, abarcando as cabeceiras do Rio Gregório, deste Território Indígena TI, finalmente devidamente reconhecido.

Mas este era só o começo de uma longa trajetória de reconstruir a casa material e imaterial que havia sido invadida e tomada.

Conseguiram com muito custo expulsar de suas terras tanto fazendeiros pecuaristas quanto os missionários protestantes que já haviam criado fortes laços de aliança para se manterem ali, muitas vezes negociando com tratamentos médicos ou outras benesses em troca de “conversão” religiosa cristã.

Voltaram a incentivar e praticar a língua, o idioma indígena. Abriram a “Aldeia Nova Esperança” com o cacique Nixiwaka, Biraci Brasil, retomando também a “aldeia sagrada”, mais antiga, que havia sido esvaziada.

Procuraram os anciãos, retomaram a valorização dos velhos pajés Tatá e Yawá, para resgatarem os rituais, os cânticos, as “dietas” de aprofundamento na espiritualidade indígena, os usos das plantas sagradas, os usos das plantas medicinais, os antigos ritos de passagem e formação interna cultural e transcendental.

Foram retomando seus modos tradicionais de pescar, de construir cocares, adereços, arcos, flechas e a tradicional lança Yawanawá. Retomaram também sua tradicional culinária, seus modos tradicionais de construir, sua singular arquitetura.

Retomaram seus grafismos, pinturas corporais tradicionais, os seus “Kenês”, o uso e o sentido desta antiga literatura escrita na própria pele.

Isto tudo ao mesmo tempo em que participam ativamente dos processos políticos locais e estaduais, absorvem novos modos de cultivar com a agroecologia, a agrofloresta, a agricultura sintrópica, novos modos de garantir a qualidade da água com o poço artesiano, novos modos de garantir a conexão com o mundo com a internet por satélite, a energia das placas solares, novos direitos para as mulheres, que passam também a serem lideranças espirituais, antes reservadas exclusivamente aos homens.

Ou seja, uma reconstrução, retomada cultural tradicional e viva, aberta para a diversidade, para a alteridade, complexa, autopoiética e autopoética.

Isto tudo vem sendo também estimulado e alimentado nos festivais de cultura indígena, dos quais os Yawanawás são precursores no Acre, são um belo exemplo da viabilidade, da real concretude desta caminhada, desta jornada de volta para casa, deste reencontrar-se reinventando-se continuamente.

Em sua re-existência os Yawanawás vão mostrando o caminho, o tradicional está no futuro, em uma temporalidade circular que dá vertigem ao nosso pensamento linear.

Ricardo L. N. Moebus - Professor Universidade Federal de Ouro Preto


Voltar


Comente sobre essa publicação...