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Quinta-Feira 24.out.2019

Ano VIII - Nº 368

Coluna

Após desastre, Inhotim quer retomar seu roteiro de visitas com final feliz

Museu a céu aberto perde público, expõe novidades e merece ser mais frequentado

Postado em 19 de Junho de 2019 - Débora Yuri – Folha de SP

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Era uma vez o parque de diversões cult do Brasil, esparramado por 140 hectares de mata atlântica e cerrado, que virou a estrela da cidade de Brumadinho (MG). 

Em 25 de janeiro passado, uma barragem da mineradora Vale rompeu na mina Córrego do Feijão, a 18 km de distância, deixando 246 mortos e 24 desaparecidos.

Desde o desastre, o Instituto Inhotim tem vivido emoções antagônicas. De um dia para o outro, ficou conhecido por gente que nunca soube de sua existência —em setembro, completará 13 anos.

Mas uma cidadezinha mineira envolta em rejeitos de mineração persiste no imaginário, afastando os turistas. Houve queda de quase 40% no número de visitantes, de acordo com a direção do espaço.

A boa notícia é que o museu de arte contemporânea com cerca de 700 obras expostas, inserido num jardim botânico de 4.500 espécies, está em plenas condições de receber curiosos e velhos entusiastas.

Mastodôntico, deslumbrante, o maior museu a céu aberto da América Latina: todos os superlativos já usados para defini-lo permanecem apropriados. O ingresso custa R$ 44 (crianças de até cinco anos não pagam). Às quartas, a entrada é gratuita.

Em setembro, o instituto inaugurou novas exposições temporárias nas galerias Praça e Lago, com obras da japonesa Yayoi Kusama, do americano Robert Irwin, do havaiano Paul Pfeiffer e do argentino David Lamelas, além de uma mostra de audiovisual na Galeria Fonte. Para 2020, prepara a abertura de um pavilhão permanente dedicado a Kusama.

A partir de Belo Horizonte, são 60 km percorridos em estradas em boas condições. Ônibus da empresa Saritur fazem a rota a partir da rodoviária da capital mineira. As passagens partem de R$ 37,15. O caminho também pode ser feito de van (ida e volta por R$ 66, na companhia Belvitur).

Como o ideal é dedicar dois dias ao parque, durma ao menos uma noite em Brumadinho. Pousadas e hostels operam normalmente, assim como restaurantes e bares, voltados a diferentes estilos.

Próximo do instituto, o centro da cidade não foi atingido pelo rompimento e faz a base de acesso mais conveniente para Inhotim. 

Monitores, motoristas de carrinhos de golfe e garçons vão explicar a importância do museu para a economia e a comunidade locais —de seus 600 funcionários, 80% vivem na cidade.
Depois do que aconteceu em janeiro, o mais singular centro cultural brasileiro quer retomar o roteiro com final feliz.

Serra da Moeda tem pousadas de charme e escola de parapente

É como se toneladas de algodão doce pairassem entre o céu e o vale do Paraopeba. As manhãs começam assim no alto da serra da Moeda, uma das zonas turísticas de Brumadinho, na Grande Belo Horizonte (MG).

As brumas, inclusive, deram nome à cidade de 39 mil moradores, ocupada por bandeirantes no século 17: Brumado de Paraopeba foi um de seus primeiros povoados.

Hoje, Inhotim é a referência, mas o sobe e desce entre montanhas revela outros atrativos. A 1.200 metros de altitude, o café da manhã da pousada Estalagem do Mirante (estalagemdomirante.com.br) reúne a vista, o queijo Canastra grelhado, a travessa de pães de queijo e o bolo com doce de leite. Um dos prazeres profanos da região, afinal, vem da gastronomia. Do início ao fim do dia, a promessa de comer bem será devidamente realizada. A diária custa a partir de R$ 440, para o casal.

Entre os vizinhos da capital, a Serra da Moeda virou um destino de inverno favorito. Ela abriga pousadas de charme. Tem “praia de mineiro”: a Escola de Parapente Belo Horizonte, que organiza voos com instrutor a partir de R$ 350. E acolhe uma cena florescente de ateliês de cerâmica —a ideia é replicar o sucesso de Cunha (SP)

Também é terra de ótimos restaurantes, como o Rancho do Peixe (restauranteranchodopeixe.com.br), que faz cachaças e embutidos, e a Casa de Abrahão, onde o neto de sírios Antônio Abrahão, 59, prepara pães markouk e kafta de bandeja enquanto conversa com os clientes.

Ele lembra, agradecido, o casal de paulistas que insistiu para se hospedar em sua pousada semanas após o desastre: “Queriam mostrar apoio”. Lá, a diária para duas pessoas parte de R$ 320.

Brumadinho tem quase o dobro da extensão de Belo Horizonte, e apenas 5% de seu território foi diretamente atingido pelo rompimento da barragem. Hotéis e pousadas, entretanto, sofreram mais de 50% de redução na ocupação depois de janeiro.

No mês passado, a associação de turismo do município lançou a campanha “Abrace Brumadinho” para mobilizar o público e reaquecer as visitas à região. 

A dica é dividir a estadia: fique alguns dias no centro, para conhecer Inhotim, e outros em uma área bucólica. 

Como Casa Branca, povoado aos pés do Parque Estadual da Serra do Rola-Moça.

Na pousada ecológica Verde Folhas, há cachoeiras, loja de artesanato regional, viveiro de mudas e atividades como rapel, arvorismo, escalada e tirolesa —além de pratos para veganos. As diárias partem de R$ 200, para duas pessoas. Mais informações no site verdefolhas.com.br.

A 2 km dali, Carmelita Chaves, 61, chef do restaurante Abóbora, conta que passou dois meses “sem receber uma única pessoa no salão”.

Mas as boas brumas estão voltando. No dia da visita da reportagem, sexta, final de maio, o que não faltava lá era gente pedindo costelinha de porco marinada em goiabada, torresmo de barriga e caipirinhas de sabores mirabolantes.

Planeje sua visita 

Roteiro em Inhotim O museu tem 42 hectares de jardins (sete deles temáticos), 23 galerias e dezenas de obras espalhadas ao ar livre. Se você gosta de arte, arquitetura e paisagismo, um dia é pouco; programe sua visita em dois. Percorra as rotas rosa (RR) e amarela (RA) no primeiro dia e dedique o segundo à rota laranja (RL). Se quiser ganhar tempo, pague pelos carrinhos de golfe, que circulam em oito itinerários (a diária para até cinco pessoas custa R$ 500; em rotas predeterminadas, R$ 30). O Inhotim funciona de terça a sexta, das 9h30 às 16h30, e das 9h30 às 17h30 nos sábados, domingos e feriados. Site: inhotim.org.br

Destaques

Na Rota Rosa, vale visitar as galerias Claudia Andujar e Miguel Rio Branco e as obras “Sonic Pavillion” (Doug Aitken) e “Narcissus Garden (Yayoi Kusama); na Rota Amarela, inclua os trabalhos “Forty Part Motet” (Janet Cardiff), “Desvio para o Vermelho” (galeria Cildo Meireles) e “Troca-Troca” (Jarbas Lopes); na Rota Laranja, passe pela galeria Cristina Iglesias e pelas obras “Folly” (Valeska Soares) e “Beam Drop Inhotim” (Chris Burden)

Onde comer

Ao lado da recepção, o “melhor pão de queijo do mundo” está à espera no Café das Flores. Receita da chef mineira Dailde Marinho, pode vir recheado com queijo (R$ 10) ou pernil (R$ 13). Entre os restaurantes, o Oiticica tem self-service por quilo (R$ 49) e o Tamboril, bufê a preço fixo (R$ 79) e pratos à la carte —prove o risoto de moranga com carne de sol, couve e parmesão (R$ 55)


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