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Domingo 22.set.2019

Ano VIII - Nº 364

Poder

Capitão dá cabeça de general a Carlos e Olavo

Saída de Santos Cruz demonstra que fritura é o método para demissão no Planalto

Postado em 14 de Junho de 2019 - Jussara Soares (O Globo), Igor Gielow (Folha de SP) e Josias de Souza (UOL)

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Sob aplausos do polemista Olavo de Carvalho, o vereador carioca Carlos Bolsonaro derrubou mais um ministro. Influenciado pelas opiniões do filho, o presidente da República demitiu o general Carlos Alberto dos Santos Cruz do posto de ministro-chefe da Secretaria de Governo. É o segundo titular da pasta que o Zero Dois elimina em menos de seis meses. O primeiro foi Gustavo Bebianno. A diferença está no processo de cozimento. Bebianno virou carvão no micro-ondas. Santos Cruz foi dissolvido lentamente em banho-maria.

Para Carlos, Santos Cruz conspirava contra os interesses de Bolsonaro na área de comunicação, sob responsabilidade da Secretaria de Governo. Pelas contas do Zero Dois, o Planalto emprega nesse setor algo como 2 mil pessoas. Com toda essa mão de obra à disposição, dizia o vereador, Santos Cruz não conseguiu constituir nem mesmo um grupo capaz de trombetear os "feitos" do governo na internet. De resto, o general havia comprado briga com Olavo de Carvalho. E Carlos abomina qualquer desafeto do guru ideológico da família Bolsonaro.

O filho do presidente convenceu-se de que o governo do seu pai tem "feitos" a exibir. Culpava Santos Cruz por não levá-los à vitrine. Carlos encantou-se com o desempenho de Fábio Wajngarten, nomeado secretário de Comunicação da Presidência em abril. Dizia que o novo auxiliar aproximara Bolsonaro do povo ao negociar aparições dele em programas televisivos como os de Silvio Santos, Ratinho e Luciana Gimenez. Exergarva em Santos Cruz um estorvo para o desenvolvimento do trabalho de Wajngarten. Despejava sua insatisfação nos ouvidos do pai.

Para complicar, o general Santos Cruz saiu em defesa do pedaço fardado do governo Bolsonaro ao reagir aos ataques de Olavo de Carvalho contra os militares. Abespinhou-se sobretudo com as críticas de Olavo de Carvalho, o autoproclamado filósofo da Virginia, ao vice-presidente Hamilton Mourão. Chamou-o de desequilibrado. De repente, Carlos, Olavo e o séquito de ambos nas redes sociais juntaram-se para malhar Santos Cruz.

Enxergou-se nas entrelinhas de uma entrevista concedida pelo general em abril uma inexistente defesa de censura à internet. Santos Cruz limitara-se a dizer que as redes sociais exercem influência benéfica, desde que não sejam usadas como "arma da discórdia" por pessoas interessadas apenas em "tumultuar".

Num post cuja autoria foi atribuída pelos militares a Carlos Bolsonaro, o Twitter do presidente veiculou recomendação de "estágio na Coreia do Norte ou em Cuba" para pessoas que defendem o controle das redes sociais. No seu melhor estilo, Olavo de Carvalho também reagiu pelo Twitter. Golpeou o general abaixo da linha da cintura: "Controlar a internet, Santos Cruz? Controlar a sua boca, seu merda."

Atacado sem defesa do chefe, Santos Cruz cogitou deixar o governo há três meses. Foi demovido pelos colegas de caserna, sobretudo o vice Mourão, o ministro Augusto Heleno (GSI) e o ex-comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas. Deveria ter seguido sua intuição. Teria evitado um constrangedor banho-maria.

Fritura

A queda do ministro mostra que o chefe do Executivo escolhe a “fritura” como método para demitir seus principais auxiliares.

Os ministros Gustavo Bebianno (Secretaria Geral) e Ricardo Vélez Rodriguez (Educação) passaram pelo mesmo processo de desgaste antes de serem, enfim, dispensados. Nos três casos, Bolsonaro já havia decidido exonerá-los, mas deixou os auxiliares terem a imagem corroída nas redes, tornando a permanência insustentável.

Bebianno, o primeiro a cair, já sofria um afastamento do presidente desde o segundo turno das eleições. Em fevereiro, quando foi acusado por Carlos Bolsonaro de ter mentido ao dizer que havia entrado em contato por telefone com o presidente, negando que vivia uma crise por causa das suspeitas de candidaturas laranjas no PSL, a decisão de tirá-lo do governo foi tomada. Após uma conversa tensa entre Bebianno e Bolsonaro, circulou a informação que a demissão era certa. O presidente esperou um fim de semana e o demitiu numa tarde de segunda-feira.

Em meio a uma série de polêmicas no Ministério da Educação, Bolsonaro chegou a negar que demitiria Vélez Rodríguez. Depois, em conversa com jornalistas também em uma sexta-feira, sinalizou que poderia dispensá-lo na segunda-feira seguinte, o que aconteceu.

No caso atual, Bolsonaro decidiu pela exoneração no início de maio, quando mencionou que haveria “um tsunami”, garantem alguns de seus principais assessores. Os constantes embates entre Santos Cruz e a chamada ala ideológica, incluindo os filhos do presidente, causavam irritação pelo menos desde abril. Ele adiou a decisão até que outros generais passassem a aceitar a saída. O anúncio, desta vez, pelo menos veio antes de mais um fim de semana.

Substituto é chefe de militar da ativa mais próximo de Bolsonaro

O general de Exército Luiz Eduardo Ramos já vinha sendo chamado de o “nono ministro militar” do governo há tempos, dada sua proximidade com o presidente. Agora, manterá a oitava cadeira.

À frente da tropa mais poderosa do Brasil, o Comando Militar do Sudeste (São Paulo), Ramos é o chefe militar da ativa mais próximo de Bolsonaro.

Eles dividiram quarto quando eram cadetes, e eles se falam quase diariamente. Entre eles, o presidente é o “cavalão” e Ramos, o “pitbull”.

Quase não há evento em São Paulo com a presença de Bolsonaro no qual Ramos não está presente.

Sua escolha teoricamente compensa o mal-estar causado no Alto Comando pelo sacrifício de Santos Cruz, considerado um soldado exemplar que só não integrou o colegiado dos quatro estrelas porque foi preterido por questões políticas.

Resta saber se assim o será na prática. Dois fatores pesam. O primeiro é que Ramos, de resto popular por seu estilo bonachão e bem humorado, tem sua afinidade com o presidente vista como excessiva por alguns de seus pares.

Um deles citou, reservadamente, que parecia inadequado que um membro do Alto Comando integrasse o ministério após o grupo ideológico do governo ter obtido a cabeça de um general respeitado.

Além disso, a pretendida distância entre a ativa e a administração fica mais comprometida, explicitando a simbiose entre Exército e o governo. O risco de a Força incorporar os desgastes naturais do governo é grande.

A mudança também pode resolver um mal-estar que vinha ocorrendo com o protagonismo do comandante do Sudeste junto ao presidente.​

Em Brasília, o prestígio era visto como demeritório para o ministro da Defesa, general da reserva Fernando Azevedo, que tem longa história como superior direto de Ramos.

Um amigo comum dos dois, contudo, sustenta que isso é intriga de quartel e que o companheirismo entre eles é inquebrantável.

Já a questão da vitória tardia do escritor Olavo de Carvalho sobre seu principal desafeto na ala militar seguirá como um problema.

No episódio em que defendeu o ideólogo do bolsonarismo no embate com Santos Cruz, o presidente viu os fardados do governo e da ativa se calarem por uma questão hierárquica.

Mas eles nunca engoliram o episódio, até porque nele foi exposto o respeitado ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas, ora lotado como assessor no Planalto.

Continuam apontando os filhos presidenciais e expoentes olavistas Eduardo, deputado federal pelo PSL-SP, e o vereador Carlos (PSC-RJ), como responsáveis pela fritura de longo prazo de Santos Cruz.

Um aliado do presidente brincou, dizendo que agora o placar estava 1 a 1: o olavista Ricardo Vélez foi defenestrado da Educação em uma disputa que envolveu indiretamente os militares, que agora veem o general ir para a rua.

Segundo um político com intenso entre os fardados, tal leveza de avaliação não deveria ocorrer porque é incerto como ficará o relacionamento de Bolsonaro com a ala militar.

A chegada ao governo do oficial, promovido a general-de-Exército (quatro estrelas, topo da carreira) em 2017, mantém intacta a cota informal de militares com passagem pela Missão de Paz do Haiti no governo.

Ele será o segundo general da ativa no Planalto: o porta-voz, Otávio do Rêgo Barros, é general-de-divisão.

Ele é cotado para receber a quarta estrela na próxima rodada de promoções, no fim deste mês –haveria uma só vaga, para a turma de oficiais de 1981, mas a ida de Ramos ao governo na condição de agregado ao serviço civil permite a abertura de mais um posto.

A área de comunicação poderá ser afetada pela mudança. Subordinado a Santos Cruz, o titular da Secretaria de Comunicação, Fábio Wajngarten, pleiteava mudar-se para o guarda-chuva da Presidência. Isso pode vir acontecer agora.


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