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Sábado 24.ago.2019

Ano VII - Nº 360

Brasil

Noção de ordem e igualdade norteia eleitor conservador não radical

Pesquisa traçou perfil de brasileiros intermediários e o que pensam de questões sociais

Postado em 13 de Junho de 2019 - Vinicius Torres Freire - Folha de SP

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Imagine-se um grupo de brasileiros “intermediários”. Não estão entre aqueles de renda mais baixa ou alta; não são adeptos mais extremos de opiniões tidas como conservadoras, mas certamente não são de esquerda ou seus eleitores recentes.

Uma pesquisa da Fundação Tide Setubal, em parceria com a empresa Plano CDE, procurou saber o que pensam esses cidadãos em tempos de escolhas políticas de direita e debates ainda mais extremados no Brasil. Para tratar de “Conservadorismo e Questões Sociais”, os pesquisadores entrevistaram longamente 120 pessoas de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Recife.

Esses brasileiros dizem que a desigualdade econômica é estrutural e o maior problema do país. Julgam que há privilégio para os mais ricos no acesso a educação, saúde, transporte, segurança, Justiça e melhorias urbanas.

Afirmam que há preconceito contra negros, além de violência policial; machismo, em particular no trabalho. Geralmente aceitam o reconhecimento oficial da união estável de casais homossexuais e testemunham e criticam também discriminações e violências contra pessoas LGBT. Na maioria, têm uma crença profunda na ideia de igualdade.

Essas pessoas são também muito críticas de políticas afirmativas, como cotas raciais, ou de militantes feministas, pelos direitos LGBT ou defensores de direitos humanos em geral e de presidiários em particular. Criminosos “merecem” o tratamento desumano que recebem da polícia e do sistema prisional; de resto, agem como “bandidos” em virtude de seu mau caráter.

A militância ou políticas públicas focalizadas em grupos sociais desfavorecidos, mesmo o Bolsa Família, são vistas com desconfiança ou causam repulsa aberta por violarem a premissa de igualdade dessas pessoas, mais universalista e menos identitária, por assim dizer. Isto é, aquelas políticas e militâncias seriam discriminatórias e uma injustiça: favorecem arbitrariamente alguns grupos em detrimento de outros tão ou mais necessitados.

O “cidadão de bem”, “batalhador”, “pagador de impostos”, se sente, pois, negativamente discriminado. Feministas, defensores de LGBT e partidos de esquerda são vistos como arrogantes, desrespeitosos ou imorais, “lacradores” pouco propensos ao diálogo e mais à doutrinação. Por falar nisso, os entrevistados geralmente temem a doutrinação de professores e mídia tradicional. A internet é a alternativa de informação, embora reconheça-se o risco de por aí se disseminarem fake news e conteúdos impróprios para jovens.

Acreditam que a superação das desigualdades passa mais pelo aperfeiçoamento individual e menos por movimentos coletivos que procurem tratar de problemas estruturais, até porque o preconceito e a violência teriam fundamento individual, “psicológico”, e não em relações sociais. Melhorias na sociedade e pessoais dependem intensamente do aperfeiçoamento moral, missão primordialmente da família, que deveria ter papel mais relevante do que o da escola, decadente.

Tal melhoria no plano individual depende, claro, de condições como oportunidades de educação e de acesso a serviços básicos, emprego, salários melhores, além de mais competitividade e eficiência na economia, maré que também elevaria os barcos em que estão negros, mulheres e LGBTs. Mas há grande desconfiança na política, ao menos na partidária, e na ação do Estado.

A maioria dos entrevistados não se diz de direita, mas votou em Jair Bolsonaro (PSL) no segundo turno da eleição presidencial, resultado algo esperado porque os eleitores que votaram em Fernando Haddad (PT) nos dois turnos foram excluídos do grupo objeto de estudo.

Nas conversas, era muito comum a afirmação de que se votou no “menos pior”, embora Bolsonaro fosse considerado político “diferente” e capaz de conduzir “mudança”.

Partidos de esquerda são identificados com estatismo, correção política doutrinadora, defesa de bandidos/direitos humanos, do aborto e da distorção de valores familiares (em especial relacionados à sexualidade).

Tais opiniões estão baseadas em um sistema de valores “organizado em torno de um eixo central: ordem”, escrevem os autores do estudo.

Falta ordem dentro de famílias, escolas, ruas e na política, pois há “decadência moral generalizada”: mais crime, violência em geral e corrupção na política, relacionada ao “jeitinho brasileiro” e com a ineficiência geral do Estado. Faltam autoridade, disciplina, respeito e honestidade, em parte também porque o convívio familiar é menos intenso, prejudicado, entre outros fatores, pela entrada da mulher no mercado de trabalho (que em si não é malvista, ressalte-se).

Metodologia teve filtro de renda e opinião política

O estudo “O Conservadorismo e as Questões Sociais” foi baseado em entrevistas de três horas, em conversas com trios masculinos ou femininos, em suas casas.

Procurou-se uma amostra de brasileiros “intermediários”, tanto no aspecto político quanto econômico, embora algo enviesado para o espectro conservador.

Os entrevistados não poderiam ter vínculos com organizações políticas.

Um filtro aplicado foi de opinião. Foram selecionados os que concordassem com não menos do que 3 e não mais do que 8 de um total frases de teor conservador (exemplos: “Adolescentes que cometem crimes devem ser punidos como adultos”; “O Bolsa Família faz com que os mais pobres tenham mais filhos”; “Direitos humanos não deveriam valer para bandidos”). Foram excluídos os que votaram em Haddad (PT) nos dois turnos em 2018.

Ficaram de fora pessoas cujo rendimento pessoal era inferior ao dos 25% mais pobres ou superior ao dos 25% mais ricos. A amostra incluiu quem tivesse rendimento mensal entre R$ 469 e R$ 1.499.


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