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Domingo 16.jun.2019

Ano VII - Nº 355

Brasil

Uso de opioides dispara no Brasil e acende alerta para epidemia

Número de pessoas que usaram analgélsicos como o OxyContin sem receita é o triplo das que experimentaram crack, e as vendas cresceram 465%

Postado em 13 de Junho de 2019 - Thais Reis Oliveira - Carta Capital

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O psicólogo Sérgio Bacchi, de 41 anos, convive há quinze com dores fortíssimas e persistentes nas costas. A agonia começa na parte baixa ou inferior da coluna e irradia para várias articulações.

Sem diagnóstico conclusivo, ele passou a aliviar os sintomas com opióides — remédios derivados da papoula, a flor usada para fazer ópio e heroína. Começou com a oxicodona, passou para a metadona e chegou a instalar no próprio corpo uma bomba que dispara morfina direto à coluna, aliviando a dor em minutos.

Hoje, ele toma todos os dias três comprimidos de 10 miligramas. As dores persistem — em uma escala de zero a dez, no qual o último grau é de dor incapacitante, convive com seis. Apesar de passar boa parte do dia deitado, evita aumentar a dose do remédio. “Um comprimido a mais melhoraria muito, mas tenho medo de me viciar”.

O caso de Bacchi ilustra uma realidade que aos poucos começa a aparecer nas estatísticas: o aumento do uso de opioides no Brasil. Se, de um lado, é uma solução para a dor, de outro acende um alerta: de que o País possa conviver nos próximos anos com uma epidemia como a que varreu os Estados Unidos.

A pesquisa da Fiocruz, que o governo censurou por não atender suas expectativas, trouxe à tona esse fenômeno. O relatório indica que 4,4 milhões de brasileiros já fizeram uso ilegal  (isto é, sem indicação médica) de algum opiáceo.

Esse número, corresponde a 2,9% da população e é três vezes superior ao uso de crack, experimentado por 0,9% da população ao longo da vida.

A cada dez pessoas no Brasil, quatro sofrem de alguma dor crônica — aquela que persiste por mais de três meses. São 80 milhões de pessoas. Um enorme mercado para os analgésicos à base de ópio.

Uma outra pesquisa publicada no jornal American Journal of Public Health, com base em dados da Anvisa, mostra que a venda prescrita desse tipo de analgésico cresceu 465% em seis anos.

O maior aumento absoluto foi para os derivados da codeína, representando mais de 98% das prescrições. A codeína é considerada um opioide leve, geralmente indicado para dores moderadas. Seu derivado mais vendido é o Tylex. “São uma porta de entrada para opioides mais fortes”, diz o neurologista Nilton Lara, especialista em dor crônica.

Isso acontece porque, com o passar do tempo, o organismo desenvolve certa tolerância aos opiáceos. E o paciente precisa de mais comprimidos para sentir o mesmo alívio. Daí o risco de uma overdose.

Outro problema é o potencial viciante. Bacchi admite que a droga “dá um barato”: relaxamento muscular e uma sensação de bem-estar que mistura torpor e euforia. A falta da substância, por sua vez, pode provocar sintomas físicos de abstinência: taquicardia, hipertensão, sudorese, diarreia, arrepios, dores musculares e insônia. 

Não é de espantar, portanto, que o maior crescimento relativo tenha sido de um comprimido mais forte (e perigoso) da família dos opiáceos: a oxicodona.  

Como os opiáceos criaram um mar de viciados nos Estados Unidos

A trágica história do ópio na Ásia no século 19 manchou a reputação dos derivados dessa substância por décadas adiante. Opioides, diziam os médicos, só em casos de câncer e outras moléstias extremas. Na segunda metade dos anos 70, porém, entra no mercado uma droga diferente, alardeada como alívio à dor sem praticamente nenhum efeito colateral. Era a oxicodona, vendida mais tarde como OxyContin ou Percocet.

Naquela época, uma pesquisa do médico americano Hershel Jick constatou que apenas 0,03% dos pacientes tratados com opioides haviam se viciado. Médicos, cientistas e laboratórios farmacêuticos se valeram desses dados para dizer que os opioides eram solução não só para casos graves, mas para diversos tipos de dor. A liberação gradual do princípio ativo supostamente reduzia os riscos de dependência.

A pesquisa, entretanto, tratava apenas de pacientes internados, cujas doses eram controladas, e não ao alcance de uma prateleira na farmácia.

Médicos que receitam mais ganhavam viagens e verba para pesquisa. Sob esse incentivo, passaram a dar oxicodona a pacientes muitos jovens e com problemas simples. Uma torção no pé, por exemplo. Nascia aí a maior epidemia de viciados da história dos Estados Unidos, que em duas décadas tirou a vida de 200 mil pessoas, contando apenas os que tinham receita para o medicamento.

Foi o caso de Michael Jackson e do ator Heath Ledger, cuja autópsias acusaram traços de OxyContin e de um outro opioide, o fentanil.

Criou-se o seguinte cenário: cada vez mais pessoas suscetíveis ao vício, mas diante de um medicamento custava caro. Entraram em cena, então, os traficantes, que passaram a suprir essa demanda com outro derivado da papopula, a heroína. “Foi uma epidemia do uso de heroína causada por prescrição médica”, resume Lara. Atualmente, estima-se que haja no país 2,6 milhões de viciados em opiáceos.

Em 2007, a Justiça dos EUA entendeu que a Purdue Pharma, fabricante do OxyContin, mentiu sobre o potencial viciante do remédio e condenou a empresa a pagar uma multa de 634 milhões de dólares. Mais recentemente, a gigante farmacêutica topou – em um dos muitos processos judiciais em torno do tema – pagar 270 milhões de dólares ao Estado de Oklahoma.

O Oxycontin chegou ao Brasil nos anos 90. Uma cartela era vendida por 400 reais. Hoje, custa na farmácia a partir 111 reais. Naquela época, o alto custo tornava os casos de abuso mais comuns entre anestesistas, enfermeiros e cirurgiões, que têm acesso a medicamentos potentes. Agora, o público é outro: pessoas de alto poder aquisitivo que chegam até a falsificar receitas para obter o medicamento. “É difícil porque os pacientes não se identificam com o problema e negam a dependência”, diz Lara.

Uma questão de mercado

Em meio aos problemas nos Estados Unidos (e também  no Canadá), a Purdue Pharma faz um esforço mundial para quebrar a resistência dos médicos aos derivados do ópio. A MundiPharma, braço internacional da Purdue, chegou ao Brasil em 2013, como parte de um plano de global de faturar 1 bilhão de dólares nos mercados emergentes até 2018.

“Quando um mercado se fecha, busca outros menos regulados. A indústria farmacêutica funciona de forma muito semelhante à do tabaco”, diz o psiquiatra Leon Garcia, que atua no Hospital das Clínicas da USP e no CAPS Álcool e Drogas da Sé.

De lá pra cá, patrocinou ao menos dois estudos que indicam que OxyContin é mais eficaz e barato no tratamento de dores causadas pelo câncer e pela artroplasia (quando uma articulação é trocada por uma prótese). A Organização Mundial da Saúde (OMS) só recomenda os opioides fortes para a dor oncológica quando as alternativas menores são ineficazes, e diz que os médicos devem estar atentos a possíveis efeitos adversos.

Em 2016, a Purdue trouxe um médico americano para falar aos doutores brasileiros sobre o uso de opiáceos em pacientes com câncer e naquilo que ele chamava de “a sentença de morte da dor crônica”. O evento foi divulgado pela própria MundiPharma nas redes sociais.

Lançou também um programa de descontos para o OxyContin e outros medicamentos. O site da iniciativa trazia dois vídeos, já apagados, direcionados a pacientes de câncer. Em um deles, um médico recomenda expressamente o uso de opioides, com a anuência de um homem apresentado como paciente e sua esposa.

Por não citar nominalmente nenhuma droga, o vídeo está no limite das regras de propaganda da Anvisa, que restringe a propaganda de remédios com receita aos médicos e farmacêuticos. Procurada pela reportagem, a MundiPharma preferiu não comentar o assunto.

A empresa também patrocina a Sociedade Brasileira Para Estudo da Dor. A entidade recebe aporte de outras fabricantes de analgésicos opioides: a Zodiac (fabricante do Paratram), a Grunenthal (fabricante do Tramal) e a Libbs (fabricante do Sensitram).

Todas essas iniciativas são consideradas legais pelo Código de Ética Médica. O problema começa quando, para fazer com que o médico prefira um remédio a outro, o propagandista proponha benefícios mais… patentes. Como dinheiro.

O que fazer para evitar uma epidemia?

O Brasil ainda está longe de um cenário como o americano. O país de Donald Trump registrou, em 2017, 731,2 prescrições para cada 1.000 pessoas cadastradas. Por aqui, um caso ambíguo. De um lado, uma população mais pobre e que não recebe o tratamento efetivo para dor. De outro, uma parcela com maior poder aquisitivo que já registra vício em opiáceos.

A venda no Brasil é controlada, mas não tanto. Diferente dos psicotrópicos, como o Rivotril, a oxicodona tem tarja vermelha, a mesma que serve para antibióticos e remédios para hipertensão. E pode ser receitada por médicos de qualquer especialidade.

O medicamento é vendido sob receita de controle especial em duas vias, uma das quais fica retida na farmácia. Não precisa, porém, ser impresso em papel amarelo especial, como a dos remédios tarja preta. Basta uma receita impressa em papel branco comum (sulfite), preenchida com os dados do médico. Facilmente falsificável.

A solução, dizem os médicos, é mais controle e cautela. “É preciso tirar os opioides do pronto-socorro e deixá-lo para as clínicas especializadas”, defende Lara.

O movimento Choosing Wisely, uma das maiores organizações contra a influência da indústria farmacêutica na medicina, recomenda cuidados no uso prolongado de opioides para dor aguda. No caso de dor crônica, o conselho é tentar antes alternativas menos nocivas. De medicamentos mais leves a soluções mais acessíveis, como exercícios físicos.

Como o consumo de analgésicos derivados do ópio é recente, ainda não há uma alternativa mais barata disponível no mercados. Mas nos mercados ilegais, como em todos os outros, a demanda atrai a oferta.


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