Semana On

Domingo 16.jun.2019

Ano VII - Nº 355

Brasil

Os jovens que incendeiam as ruas contra Bolsonaro

Mobilizações, antes difusas, ganham unidade: enfrentar a ‘austeridade’ e o conservadorismo. Nova geração, que viveu a ampliação de políticas para educação, recusa-se a aceitar que ‘governo inconsequente’ coloque seu futuro em risco

Postado em 13 de Junho de 2019 - Paolo Colosso – Carta Capital

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A crença de que a nova direita estaria se impondo nas políticas institucional e extrainstitucional, principalmente após a vitória de Bolsonaro, vem perdendo força. A leitura de que ela estaria capilarizada nos territórios a ponto de sufocar as forças progressistas e intoxicar a vida cotidiana, tem se demonstrado uma avaliação equivocada e exageradamente influenciada pelo impacto da novidade assustadora.

Nos últimos anos, mesmo com uma conjuntura adversa, houve grandes mobilizações marcadas por uma heterogeneidade de forças sem unidade, mas com confluência na ação, conexões geracionais e percepção partilhada sobre a regressão civilizatória das políticas de austeridade e do conservadorismo cultural. A Greve Geral de 28 de abril de 2017 levou mais de 30 milhões de pessoas às ruas de mais de 150 cidades. O #EleNão de 2018 foi muito expressivo e central para a maturação da primavera feminista. De perfil ainda mais jovem e também massivas foram as ocupações secundaristas em 2015 e em 2016, além do 8 de março deste ano de 2019.

Mais setoriais, mas não menos relevantes, foram as grandes greves de funcionários das redes públicas, bastante puxadas por professoras/es precarizadas/os, sobretudo em São Paulo e no Rio de Janeiro. Há um grosso caldo de cultura política cujos personagens devem ser compreendidos, se quisermos tornar viável um próximo ciclo de avanço democrático. O bom ponto de partida diz respeito ao grande contingente de jovens que veem seus ganhos recentes e seus futuros em risco.

Em 2002, 3,4 milhões de jovens ingressavam no ensino superior; em 2015, esse número subira para 8 milhões. A ampliação do acesso modificou em muito o perfil das universidades. Não por acaso entre os jovens formados em 2015, 33% eram os primeiros de suas famílias a ter um diploma de curso superior. Famílias cujos pais estavam em funções subalternas formam advogadas/os, engenheiras/os, médicas/os, assistentes sociais, professoras/es. Com a mudança em postos de trabalho que essas/es jovens passam a ocupar, muda também o horizonte de necessidades e expectativas, o autorespeito que têm consigo, a relação com seus círculos familiares e meios mais amplos. Ao ascenderem a essas novas condições, esses jovens participam de questões coletivas de igual para igual com as autoridades políticas e elites econômicas.

No tocante à educação pública, nesse período entre 2002 a 2015 o País passou de 45 universidades federais em 148 campi para 65 universidades com 327 campi; somente nessas, o número de matrículas passou de 512 mil para 1,06 milhão. Foram construídos também centenas de Institutos Federais de formação superior, profissional e técnico. Essa ampliação se deu em todas as regiões e em cidades do interior do País. A experiência da educação pública de qualidade certamente marca a trajetória desses sujeitos e famílias. Eles personificam a noção de que educação não é gasto, mas investimento.

Entretanto, lembrar aqui dessas transformações não significa um elogio acrítico aos governos petistas. Muitos desses jovens se politizaram fora da órbita do Partido dos Trabalhadores, mas obviamente se dão conta de que os governos Temer e Bolsonaro atacam diretamente os avanços obtidos. O que ocorreu no ensino superior privado é paradigmático.

Com o aumento exponencial das universidades particulares, cujas matriculas passaram de 3 milhões em 2004 para 5,86 milhões no ano de 2014, estudantes das classes trabalhadoras passaram a frequentar os espaços elitizados das particulares existentes e, também, enfrentar a precarização do ensino das novas empresas de educação. Passaram a lidar com as dificuldades da permanência na universidade, com a sobrecarga da dupla jornada feita de estudo e trabalho, além da frustração com empregos precários após a conclusão do curso. Atentos a esse cotidiano sofrível, forças do movimento estudantil passaram a politizar a realidade de jovens em espaços da FMU (Faculdades Metropolitanas Unidas), Uninove, Unip, etc.

Além disso, nesse período surgiram novas forças jovens a partir do diagnóstico partilhado de que era urgente retomar trabalhos de base não só nas universidades, mas também nos territórios periféricos das cidades desiguais e segregadas — algo secundarizado entre os quadros do Partido dos Trabalhadores. Para ficarmos em apenas algumas dessas novas forças de alcance nacional, capilaridade em universidades e periferias, vale lembrar do Movimento Rua, do Coletivo Juntos e do Levante Popular da Juventude.

Somam-se a esses fatores, as políticas afirmativas de cotas sociais e raciais – esta última transformada na Lei Federal 12.711/2012 – resultantes de esforços persistentes do movimento negro, que é por si só transversal e heterogêneo, presente nos movimentos acima e em muitos outros autonomistas. Essa juventude negra escolarizada e politizada saíra do silenciamento imposto por séculos de violência institucional, segregação e estigmatizações características do racismo estrutural. É irreversível o fato de que esses contingentes de jovens lutam para contar suas próprias histórias e transformar as condições de vida de seus pares.

Há outro elemento menos estudado, mas perceptível nas ruas em luta pela educação. O aumento da procura pelas universidades públicas e privadas fez multiplicar as iniciativas dos denominados “cursinhos populares”, voltados para juventudes urbanas de baixa renda. Estes estão distribuídos pelos territórios periféricos, organizados e geridos por essas forças de juventude do movimento negro e por igrejas remanescentes da teologia da libertação. Movimentos de sem teto e universidades federais também sediam cursinhos da nova geração. Bons exemplos disso são os cursos realizados pela Rede Emancipa, da Uneafro, do Podemos + e do cursinho da Universidade Federal do ABC.

São estes os jovens que, cientes da gravidade da situação, ocupam as ruas ao lado de seus professores, de sindicatos e de movimentos por direito à cidade – moradia, mobilidade e espaços públicos. Nesse sentido, tais jovens mostram um grau considerável de maturidade política e abertura para construções de amplo alcance.

Esses outros personagens que entraram em cena recentemente, estão nas ruas novamente e têm um cotidiano politizado – na medida em que vivem o impacto direto das decisões governamentais e também porque imprimem esforços persistentes para forjar formas mais igualitárias e justas de viver juntos. Por mais que o governo Bolsonaro se esforce, será impossível anular a incidência desses sujeitos na vida coletiva.

É possível construir no interior do próprio cenário de destruição o novo ciclo de democratização. Precisamos de apoio imediato às lutas contra a perseguição à educação, mas também abrir espaço para formulações generosas, em ações confluentes e com heterogeneidade, inclusive geracional, capazes de se alimentar desses ânimos jovens.


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