Semana On

Quinta-Feira 18.jul.2019

Ano VII - Nº 356

Coluna

Caruaru expande o São João para a roça e celebra patrimônio cultural do agreste

Festança junina - que vai até julho - celebra xilogravura, artesanato, comida e música de raiz

Postado em 12 de Junho de 2019 - Pedro Diniz - Folha de SP

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O cheiro de milho cozido mal começou a impregnar a roupa, os olhos ainda nem ardem com o fumaceiro. Mas o São João já começou para as quase 190 mil pessoas que passearam no último fim de semana pelos 24 palcos montados em Caruaru, no agreste pernambucano, a 135 km da capital, Recife.

Se as estimativas da prefeitura estiverem certas, trata-se de um recorde para a cidade, capital do forró e dona do terceiro festejo mais cobiçado pelo viajante brasileiro, segundo pesquisa encomendada pelo site de reservas Booking.com, atrás apenas do Carnaval e da Oktoberfest na lista de desejos dos turistas.

O interesse não se esgota na programação pop, com nomes como Marília Mendonça, Alok e Fagner, que animam o palco principal. O esforço da organização em resgatar a raiz da dança, da gastronomia e do artesanato da região também chama público.

Só nesse período junino (desta vez julino, a festa se estende até 14 de julho) é possível ouvir, ver e dançar diferentes estilos musicais. O forró pé de serra, com sanfona, voz e triângulo, se encontra com o coco, o maracatu e o rock em espaços afastados.

Assim como fez Recife em seu Carnaval, Caruru descentralizou a festa para levar o turista a 12 vilas e povoados que circundam a cidade.

Nesse São João na Roça, como foi batizado o projeto, o chão de terra é alternativa ao redemoinho de gente aglomerada nas ruas asfaltadas.

Um festival de comida gigante integra a programação: tem bolo de rolo de 30 metros e mais de 40 receitas tradicionais em escala maximizada.

Ao combo doce de milho, roupa de matuto e arrastapé "“como se define o passo do forró, no qual os pés não desgrudam do chão"“, soma-se também uma miragem.

Caruaru, fincado no horizonte árido, usou o preto e branco da xilogravura para se enfeitar, em contraste com as bandeirolas coloridas e o ocre da argila colhida no rio Ipojuca, base do artesanato dali.

O xilógrafo J.Borges, 83, um dos maiores artistas vivos do gênero, criou quatro desenhos para marcar este São João.

A forma como ele imagina figuras e cenas do cotidiano para gravá-las na madeira inspira o trabalho de outros mestres, só que do barro.

Esse legado ganha a cena neste ano por meio da homenagem ao artesão Severino Vitalino, morto em janeiro, que era filho do mestre Vitalino (1909-1963), o mais famoso das terras agrestinas.

Famílias da arte do barro lutam para manter as mãos dos filhos na argila. Ainda dá para descer a rua Mestre Vitalino, no bairro Alto do Moura, e encontrar bonecas, lampiões e marias bonitas, criaturas surrealistas inspiradas nas de mestre Galdino e vasos estrelados da família Gonzaga.

O turista, porém, terá de perguntar e achar por conta própria o melhor artesanato. A dica é concentrar esforços da metade para o final da rua, onde é possível ver netos e bisnetos de Vitalino criando esculturas que custam a metade ali, se comparadas às exportadas para outras praças.

Os mestres locais são descendentes de Vitalino e de seus cinco discípulos, que na primeira década do século passado se destacaram. Zé Caboclo, Manuel Eudócio, Luiz Antônio, Seu Elias e Luiz Galdino encabeçaram o grupo.

Na rota dos ateliês, Marliete Rodrigues, 61, filha de Caboclo, ainda trabalha suas miniaturas, reconhecidas pelo detalhismo. No ateliê de Luiz Carlos, filho de Manuel Eudócio, cenas do cotidiano brejeiro ganham vida em obras pintadas lentamente, como manda o protocolo.

São raros os jovens que praticam o ofício porque "ninguém quer trabalhar para ganhar R$ 70 por semana", diz o vice-presidente da associação dos artesãos em barro e dos moradores, Elton Rodrigues.

O artesanato anda desvalorizado e a prova é que faltam projetos de incentivo, sinalização e guias para indicar os ateliês que fizeram do lugar o "maior centro de artes figurativas das Américas".

O aposto está escrito num pórtico que leva ao corredor de barracas na entrada do bairro famoso.

Para sobreviver, muitos artistas, como Zezinho Muriçoca, 58, aderiram à produção em série, com máquinas de moldar barro. Ele, porém, não abandona a técnica de usar só os dedos para criar humanóides com mãos e pés gigantes que identificam seu estilo. Um desses consome um mês de trabalho, por isso custa cerca de R$ 800. "Isso é nossa vida e nossa história", diz ele.


Veja a programação das festas deste ano

Aracaju
O evento vai acontecer na área dos mercados centrais da cidade nos dias 23, 24, 28 e 29 de junho. São esperadas cerca de 120 mil pessoas por noite. 
Destaque para o Arraiá do Povo, na orla da Atalaia, um dos pontos principais da festa, com atrações locais e nacionais, apresentações de quadrilha junina, grupos folclóricos, shows e comidas típicas

Arcoverde
A festa na cidade começa no dia 21 junho e vai até o dia 29 do mesmo mês, com shows todos os dias. O valor investido é de, aproximadamente, R$ 2,5 milhões. A prefeitura espera receber 50 mil pessoas por dia. 
A programação ainda está sendo fechada, mas já estão previstos shows com a banda Aviões do Forró, Alceu Valença e o cantor sertanejo Leonardo

Campina Grande
Serão cem atrações de 7 de junho a 7 de julho. Elba Ramalho vai cantar com convidados no dia 23. Apresentam-se também: Wesley Safadão, Xand Avião, Alceu Valença, Márcia Fellipe, Léo Santana, Gusttavo Lima, Joelma e Aldair Playboy

Caruaru
A festa começou em 1º de junho e vai até o dia 30 do mesmo mês. Entre os shows previstos estão os de Alceu Valença, Dorgival Dantas, Marília Mendonça, Alok, Léo Santana e Bruno e Marrone

Mossoró
O Mossoró Cidade Junina acontece de 8 a 29 de junho. A festa vai do sertanejo ao forró. Entre os shows programados estão os de Elba Ramalho, Wesley Safadão, Mastruz com Leite, Fagner, Alceu Valença e Nayara Azevedo

Recife
Começa em 12 de junho e termina em 7 de julho. O evento contará com apresentações de quadrilha, celebrações da tradição de matriz africana e festa de pescadores. Principais atrações: Nando Cordel, Geraldinho Lins, Silvério Pessoa, Genival Lacerda, Glorinha do Coco e Petrúcio Amorim


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