Semana On

Quinta-Feira 18.jul.2019

Ano VII - Nº 356

Coluna

Revelando conversas gravadas

Mário Juruna, Moro e registros muito pouco republicanos

Postado em 12 de Junho de 2019 - Ricardo L. N. Moebus

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Todo o material com as revelações que a série de reportagens publicadas pelo “The Intercept” vem trazendo à luz ao longo dos últimos dias tem permitido uma inesperada visibilidade necessária e urgente do “modus operandi”, dos envolvimentos, dos bastidores de boa parte da “Lava Jato”.

Esse verdadeiro “Making Off” denominado “Vaza Jato” impressiona pela coragem, ousadia e fôlego do trabalho.

Revelar conversas gravadas como estratégia de exigir coerência destes interlocutores, ou, em última instância, como “produção de verdade”. Em especial, quando estas verdades produzidas desmentem o discurso oficial ou a prática destes mesmos interlocutores.

Impossível não associarmos esta estratégia a um marcante momento anterior da política brasileira que ficou conhecido como “o gravador do Juruna”.

Isso mesmo, o primeiro índio a alcançar um mandato de deputado no Brasil, ainda na década de 1980, em plena ditadura militar, Mário Juruna iniciou seu mandato em 1983, mas, muito antes disto, ganhou visibilidade nacional revelando conversas gravadas com altos funcionários e políticos, em sua trajetória em defesa dos direitos indígenas.

Mário Juruna nasceu no estado do Mato Grosso, em 1943, viveu sem contato com a civilização “dos brancos” até 1960, e na década de 1970 circulava intensamente pelos Gabinetes da Fundação Nacional do Índio e outras instâncias, buscando apoio e soluções para os problemas indígenas, em especial a demarcação das terras.

Após algum tempo entendeu que o mundo “dos brancos” funcionava de modo bem diferente do mundo indígena, que a palavra dada “pelo branco” não tinha o peso de um compromisso, o que as autoridades e políticos diziam e prometiam nas tantas reuniões que participava não traziam nenhuma garantia de nada.

Juruna comprou então um gravador em Cuiabá e passou a usar aquela tecnologia como seu novo “arco e flecha”, armado do mesmo pendurado no pescoço em todas as reuniões que participava, gravando as declarações das autoridades.

Não demorou muito para que ganhasse uma notoriedade nacional com as contínuas revelações que fazia, contrapondo o discurso e a prática de tantas autoridades, revelando suas “conversas gravadas”, exigindo “dos brancos”, que considerava mentirosos, coerência e respeito pela palavra empenhada: “Eu comprei gravador porque branco faz muita promessa. Depois esquece tudo”, disse em entrevista ao Pasquim.

Foram tantos os episódios de revelações feitas por estas “conversas gravadas”, em uma época ainda muito distante do atual Telegram, que Mário Juruna publicou em 1982 o livro “O Gravador do Juruna”, pela série “Depoimentos”, juntamente com Antônio Hohlfeldt e Assis Hoffmann.

Antes disto porém, em 1980 havia enfrentado a proibição do governo brasileiro para participar, com Darcy Ribeiro e outros, do IV Tribunal Bertrand Russel em Hotterdam na Holanda, como um dos delegados representantes dos indígenas do Brasil, no julgamento dos crimes contra os povos indígenas do mundo inteiro. A luta de Juruna para ir a Holanda foi parar na justiça e ganhou a imprensa nacional.

Em 1982, quando após quase duas décadas o povo brasileiro voltava a eleger governadores, em um momento eleitoral de início da redemocratização e avanço dos setores progressistas, Mário Juruna é eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro, juntamente com Leonel Brizola para governador, como o primeiro indígena deputado da história do Brasil.

Fato que só iria se repetir agora nesta legislatura iniciada em 2019, com a eleição da deputada federal Joenia Wapichana pelo estado de Roraima.

Com Juruna no congresso foi instalada a “Comissão do Índio” como instância técnica permanente, presidida por Juruna ao longo de todo seu mandato.

Claro que durante seu mandato continuou usando seu famoso “gravador do Juruna”, mas foi bem além. Quando da eleição indireta para presidente do Brasil pelo colégio eleitoral, após a derrota da emenda “Dante de Oliveira” pelas “Diretas Já”. Os deputados escolheriam o presidente entre Paulo Maluf e Tancredo Neves.

Foi durante esta disputa eleitoral que Mário Juruna convocou os jornalistas para uma coletiva na agência do Banco do Brasil do anexo 4 da Câmara dos Deputados, chegando lá com uma caixa de papelão na mão, quando chegou sua vez de ser atendido, anunciou que estava devolvendo o dinheiro, em espécie, para ser depositado na conta do sr. Calim Eid, chefe da Casa Civil do Maluf no governo paulista.

Eram vários pacotes de dinheiro que somavam uns 30 milhões de cruzeiros. Juruna gerava um fato que correu a imprensa nacional, denunciando o esquema Malufista de corrupção eleitoral, com a prova cabal da devolução do dinheiro ao vivo e a cores para os jornais e telejornais.

O episódio deu um forte impulso à campanha de Tancredo Neves, eleito presidente pelo colégio eleitoral, marcando a história da política nacional como a única vez em que um deputado veio a público devolver dinheiro dos esquemas ilícitos da política.

Mário Juruna já antecipava assim a força e a necessidade de se revelar continuamente e atualmente as “conversas gravadas” e os subterrâneos das disputas políticas.

Ricardo L. N. Moebus - Professor Universidade Federal de Ouro Preto


Voltar


Comente sobre essa publicação...