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Quinta-Feira 17.out.2019

Ano VIII - Nº 367

Coluna

Feiras livres

9 razões para amá-las ou detestá-las

Postado em 12 de Junho de 2019 - Marcos Nogueira – Cozinha Bruta

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Tenho um fascínio bipolar pelas feiras livres. Desde a infância.

Meus pais me levavam toda manhã de domingo à feira da rua Inglês de Souza, no Cambuci. Eu só queria ficar em casa, sem fazer nada. Mas não. A aventura semanal era compulsória. Para mim, dois quarteirões de feira pareciam um oceano intransponível de gente, caquis e peixe.

Os cheiros e o barulho me incomodavam. Certas coisas prendiam a minha atenção: a textura aveludada dos buchos de boi pendurados na barraca da carne, o mosaico multicolorido da gelatina à venda na banca das tranqueiras gerais, o pastel.

Eu só suportava o programa porque tinha pastel no final.

Crescido, eu ainda amo e odeio as feiras livres. Sei que tenho abusado das listas, mas foi o único jeito que encontrei para organizar este post sem criar um mutante esquizofrênico. A seguir, alguns motivos para gostar e/ou detestar as feiras de rua.

1. A feira livre é uma máquina do tempo

Só percebi isso quando fui ao Campo de’ Fiori. É a única praça de Roma que não tem nenhuma igreja –precisei compartilhar o que aprendi com a Wikipédia. E tem feira todas as manhãs, menos aos domingos.

O mercado é assombrosamente parecido com as feiras brasileiras: gritaria, confusão, balbúrdia. E não mudou nada desde os tempos dos etruscos. Ou quase nada. Tem tomate, batata, abóbora, milho, morango, chocolate, pimentão, abobrinha, girassol, feijão –tudo isso só chegaria ao umbigo do mundo depois da viagem do carcamano Colombo à América.

2. O esquema é medieval

A feira livre não poupa pernas, narizes e ouvidos de ninguém. Se instala no meio da rua e toca a zona: vendedores vendem no gogó, compradores têm suas estratégias de barganha, cachorros e gatos ficam por perto para pescar o que vai para o chão.

A parte mais interessante disso tudo é que feirantes e clientes acabam se conhecendo, sendo quase amigos no limite. Rola uma promiscuidade meio bizarra para a era do e-commerce. Até faz fiado… onde já se viu um absurdo assim?

3. Mas é moderno bagarai

Tem sempre uma feira por perto. Abre aos domingos. Tem delivery. Dá pra comprar pelo zap. Aceita débito, crédito, crébrito e dédido. Liberalismo ao vivo e em cores na concorrência das barracas vizinhas. Dizem que às vezes tem até orgânicos.

 

4. Fecha a rua, e não se fala mais nisso

Feiras apareceram muito antes do automóvel. Nas eras priscas, atrapalhavam muito pouco a locomoção das pessoas. Hoje é diferente.

O fdp do Waze toda hora manda você para uma rua interditada pela feira livre. Os arredores ficam intransitáveis.

Nas três vezes em que eu procurei casa para morar, tinha pesadelos: sonhava que acordava belo dia e me deparava com a feira na porta, algo que o corretor havia “se esquecido” de me contar. “Quer andar de carro? Lembre-se de estacionar na rua de baixo na noite anterior.”

Felizmente, meus encontros acidentais com feiras livres são muito raros. Quando elas estão no plano imaginário, no meu universo utópico, me agrada essa coisa de fechar a rua a despeito de tudo. É a resistência de uma humanidade que se recusa a morrer.

5. Surra nos sentidos

Feira é o perfume do cominho, o vermelho gritante do colorau, o futum do bacalhau, as pernas que doem, os berros simultâneos de vários feirantes querendo a sua atenção, a barraca do peixe que se anuncia pelo cheiro, a cebolinha e o coentro, o caqui amassado que fermenta no asfalto quente, a poluição visual, o calor, os caldos indecifráveis que correm pelo chão, o aroma doce do melão, o odor da morte da barraca das carnes, o barulho do moedor de cana. Não tem tédio na feira.

6. Aula grátis (ou não) de economia

Na feira, você aprende os mecanismos que fazem oscilar os preços das coisas. Os valores são diferentes no bairro pobre e no bairro rico. No começo da manhã e na xepa. No inverno e no verão. Na bonança e na crise. Na barraca do feirante que está disposto a faturar e na banca do sujeito que só quer ir embora logo para casa.

7. Tem de tudo, é um mistério

Eu sempre me surpreendo com as coisas que encontro para comprar nas feiras.

Uma das minhas feiras favoritas fica no bairro Praia do Canto, em Vitória,  onde mora a querida sogra –sem ironia.

Com todo o respeito pelos capixabas, lá é uma cidade difícil para fazer compras. Mas a feira em questão tem a Barraca do Turquinho. O cara traz uns feijões que eu nunca vi em nenhum outro lugar. Tem até um tipo de feijão que é verde, mas é seco. Linguiças surreais. Pé e orelha de porco defumados. Farinhas de mandioca em vários tons de bege e amarelo. Fubá artesanal. O mais fascinante: um saco plástico, do tamanho de uma pessoa grande, cheio de torresmo pronto. Salgadinho, crocante e delicioso.

O varejão do Ceagesp, aqui em São Paulo, é um feira livre do tamanho de uma cidade de interior. Tomates, mangas, uvas, ameixas, frutas e legumes variados vêm em incontáveis formatos, tamanhos e cores.

Até a feira que eu mais frequento, o mocó dos orgânicos do Parque da Água Branca, me surpreende com frequência. É uma feira para os humanos evoluídos da zona oeste paulistana: dentro de um galpão fechado, silenciosa, limpinha, 100% orgânica, com estacionamento no local. Onde deveria haver pastel e caldo de cana, há suco verde detox feito com 27 botânicos que variam sazonalmente.

Já encontrei lá coisas que nunca havia visto. Maná-cubiu, uma solanácea ácida da Amazônia. Groselha-do-ceilão, uma baga de suco roxo feito sob medida para manchar a roupa. Tomate heirloom amarelo. Taioba e ora-pro-nóbis tem sempre, batata-doce roxa e laranja também. Minha mania atual é comprar o tomatillo (Physalis ixocarpa) fruta que os mexicanos usam adoidado nos molhos para taco y otras cositas.

8. A BTG (barraca das tranqueiras gerais)

Toda feira tem uma barraca com um monte de coisas aleatórias. Aqueles objetos que você nunca imagina que vai precisar. Até que alguma coisa quebra em casa. E a peça que você precisa só tem na BTG da feira. Válvula para panela de pressão. Borracha para vedar garrafa térmica. Roda para carrinho de compras. Colheres de pau. Acendedor de fogão. Tranqueiras gerais, enfim.

9. O pastel

Não tenho nada contra o pastel, a não ser um pequeno trauma devido à trollagem que sofri no ano passado, por ter dito que eles não são grande coisa.

O paulistano reverencia o pastel. Respeitemos. Eu gosto. Como quase sempre que vou à feira. Só acho que é uma larica de conveniência e nada mais. Não entendo gente que encara comer pastel na feira como um programa em si.

Mas cansei dessa discussão. Se você quiser saber dos capítulos anteriores, clique aqui e aqui.


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