Semana On

Quarta-Feira 23.out.2019

Ano VIII - Nº 368

Coluna

A carta do cacique chegou em junho

Uma política contra a ecologia cultural das subjetivações, contra a ecologia ambiental e social

Postado em 05 de Junho de 2019 - Ricardo L. N. Moebus

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Em 1854 o governador do então Território de Washington foi a Puget Sound mais uma vez para convencer os índios a venderem suas terras.

Sua oferta era na verdade um ultimato diante da recusa dos índios a se curvarem aos chefes brancos de Washington, que já vinham tentando comprar as terras das tribos indígenas Suquamish e Duwamish desde 1852.

A proposta de compra pelo governo dos Estados Unidos continha a ambiguidade de, ao mesmo tempo, ser um ato oficial de reconhecimento dos verdadeiros donos tradicionais daquelas terras, pois seriam os vendedores, mas exigir a venda como um novo poder absoluto, de modo que a venda era decretada como um tipo de “desapropriação” pelo Estado, os índios não tinham muita escolha, teriam que vender mais cedo ou mais tarde, ou seriam retirados forçosamente, o que significaria uma declaração de guerra contra as tropas de Washington e seu poder bélico incomparavelmente superior.

Foi ali diante de uma baía repleta de barcos e uma praia coberta por uma multidão que o Cacique Seattle, chefe maior daqueles povos indígenas, pronunciou seu manifesto diante da inevitável capitulação de seus povos, que seriam removidos para as “reservas indígenas”, uma invenção americana que prenunciava a ideia do que seriam os campos de concentração. 

Este histórico pronunciamento foi registrado, traduzido para o inglês e publicado pela primeira vez em 1887 no jornal “Seattle Sunday Star”, passando a ser conhecido desde então como “A Carta do Cacique Seattle”.

Nela, o Cacique Seattle faz um último apelo comovente aos homens brancos, às suas almas, demonstrando todo seu espanto diante deste encontro tão chocante com uma experiência societária e civilizacional tão distante dos povos tradicionais:

“O grande chefe de Washington diz que quer comprar a nossa terra. Essa ideia é estranha para nós. Como é possível comprar ou vender o céu e o calor da terra? Se o ar fresco e o brilho das águas não nos pertencem, como podemos vendê-los? Cada parte desta terra é sagrada para meu povo. (…)

O homem branco trata sua mãe – a terra – e seu irmão – o céu – como bens a serem vendidos (…) Se vendermos nossa terra, o grande chefe de Washington deverá ensinar a seus filhos que os rios são também seus irmãos, e que, doravante, deverão tratá-los com a mesma gentileza com que tratam seus irmãos.

Nossos Costumes são diferentes. A visão das suas cidades faz doer os olhos do homem de pele vermelha. Talvez porque eu seja um selvagem e não compreenda. (…)”

A carta do Cacique foi retomada mais de um século depois, na década de 1970, pelo movimento ambientalista e ecologista, tornando-a o manifesto maior em defesa da multiplicidade e diversidade da vida, uma declaração de afeto, amor e compromisso com a vida neste planeta, além de defesa dos modos de vida mais respeitosos, sobretudo, uma lanterna a iluminar a falta de perspectivas de uma civilização ocidental auto e hétero destrutiva.

Em 1972, na Conferência de Estocolmo sobre o “Ambiente Humano” a Organização das Nações Unidas (ONU) cria o 05 de junho, o “Dia Mundial do Meio Ambiente”. Parece que o apelo da Carta do Cacique Seattle finalmente chegava aos ouvidos surdos dos “homens brancos”.

Este ano de 2019 o tema definido pela ONU para o dia mundial do meio ambiente é “Combater a Poluição do Ar”, como já pedia a carta do Cacique:

“O ar é precioso para o homem de pele vermelha. Todos os seres compartilham o mesmo ar: os animais, as árvores, o homem. O homem branco parece não notar o ar que respira. Como alguém que agoniza longamente, ele se torna insensível ao mau cheiro.

Se lhe vendermos nossa terra, o grande chefe de Washington deverá lembrar-se que o ar também é sagrado para nós, que o ar compartilha seu espírito com todos os seres a quem dá vida. A brisa que permitiu a nosso avô sua primeira inspiração também recebeu seu último suspiro.”

No Brasil, desde 1981 o governo brasileiro estabeleceu a “Semana Nacional do Meio Ambiente”, a partir deste dia mundial, ocorrendo na semana deste dia 05 de junho.

Deveria ser toda uma semana de intensa mobilização nacional sobre a temática da defesa ambiental, das ações de minimização das mudanças climáticas, da agenda da sustentabilidade.

E sobretudo, uma semana de ampla reflexão sobre novos modos de viver, conviver, coexistir, re-existir na diferença, reflexão sobre nossas apostas societárias, sobre outras possibilidades de construção e reinvenção do comum, em uma perspectiva que Félix Guattari chamou de “As 3 Ecologias”, como busca por modos de superação das “subjetivações capitalísticas”.

No entanto, como era de se esperar nesse sombrio momento da política nacional, a “Semana Nacional do Meio Ambiente” não faz nenhum sentido para os “homens brancos” que lamentavelmente agora conduzem o governo brasileiro, o que não diminui em nada nosso riquíssimo potencial nacional habitado por tantos “Caciques Seattles” que dedicam suas re-existências de uma vida toda a sustentar seus modos de vida e seus compromissos vivos de respeito ambiental e sustentabilidade vital.

Os povos indígenas estão em posição de liderança na preservação de territórios e ecossistemas, para confirmar isto basta verificar os mapas de desmatamento da amazônia legal e observar como as zonas de desmatamento, apagamento da floresta em função da expansão das fronteiras do agronegócio, da pecuária, das madeireiras esbarra nos limites das terras indígenas, sempre que estes limites foram estabelecidos e homologados, já que restam pendentes a validação pelo poder público de muitas das terras tradicionalmente ocupadas por populações indígenas que re-existem na diferença de seus modos de vida.

Neste dia Mundial 2019, nesta Semana Nacional do Meio Ambiente 2019, no Brasil não há nada a comemorar e muito para denunciar.

Vale lembrar que segundo dados do Observatório Global de Desmatamento, o Brasil ficou em primeiro lugar em 2018 no ranking de desmatamento de florestas nativas, florestas primárias, as mais preciosas, com área desmatada três vezes superior ao segundo lugar.

Recentemente, para piorar o cenário atual, a Câmara dos Deputados aprovou no final de maio último, um projeto de lei que liberou o desmatamento de mais aproximadamente 5 milhões de hectares no país. 

O Projeto de Lei de Conversão nº 9/2019, com 35 emendas que segundo os especialistas ambientalistas desfigurou totalmente nosso já combalido “Código Florestal”, tudo isto confirmando a coerência da política nacional atual que ataca os povos indígenas, avança na liberação dos agrotóxicos, desrespeita os direitos humanos, atacando a um só tempo os direitos sociais, ambientais, culturais e educacionais, orquestrando uma agenda que caracteriza uma verdadeira “Três Anti-Ecologias”, contra a ecologia ambiental, contra a ecologia social, contra a ecologia cultural das subjetivações.

Ricardo L. N. Moebus - Professor Universidade Federal de Ouro Preto


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