Semana On

Quinta-Feira 18.jul.2019

Ano VII - Nº 356

Poder

Ato pró-Bolsonaro mostrou fraqueza do Governo

Apoiado por uma minoria estridente, presidente continua enredado em seus próprios deslizes

Postado em 31 de Maio de 2019 - João Filho (The Intercept_Brasil) e Josias de Souza (UOL)

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A manifestação pró Bolsonaro do último dia 26 foi uma demonstração de fracasso do governo. Bolsonaro assumiu com uma boa base de apoio no Congresso e apoio popular, mas conseguiu destruir tudo isso em poucos meses.

O ato foi convocado logo após dois episódios que fragilizaram ainda mais o presidente. O primeiro foi o avanço das investigações do caso Queiroz, mostrando que a lama na qual Flávio Bolsonaro está atolado é maior do que se supunha. Uma lama que respinga no presidente. Jair Bolsonaro manteve transações financeiras mal explicadas com Queiroz, um amigo de confiança de mais de 30 anos, que operou o esquema de corrupção no gabinete do seu filho e é suspeito de ser miliciano.

O segundo episódio foi uma carta escrita por um filiado do Novo e compartilhada por Bolsonaro, em que classifica o país como “ingovernável fora de conchavos” e coloca o presidente como um anjo indefeso cercado por ratos. STF, Forças Armadas, Congresso e as corporações estariam boicotando o governo. Ali foi dada a senha de qual seria o objetivo do ato. É uma carta golpista de cabo a rabo.

A convocação da manifestação foi iniciada por seus apoiadores nas redes com palavras de ordem que pediam o fechamento do congresso e do STF. Eduardo Bolsonaro compartilhou tweet do deputado Marcio Labre (PSL-RJ) convocando a população para apoiar o presidente contra “chantagens e traições em curso”. O golpismo ficou tão evidente que assustou parte dos aliados bolsonaristas. O Instituto Brasil 200, formado por empresários, se negou a participar: “A forma como surgiu essa manifestação foi um pouco nebulosa no nosso entendimento. Vimos pessoas com hashtags sobre invadir o Congresso ou fechar o STF. A nossa orientação é refutar qualquer tipo de pedido neste sentido”, disse o líder do movimento Flávio Rocha, que também é presidente do grupo Riachuelo.

O MBL e o Vem Pra Rua abandonaram o Titanic bolsonarista pelo mesmo motivo. A Fiesp, cujo presidente apoiou Bolsonaro nas eleições, também não vai encher o pato inflável. Eles estão decepcionados com o mito, coitados. Liberais se arrependendo de ter apoiado extremistas de direita é um clássico da história política. Poxa, como eles poderiam imaginar que o político que passou a vida defendendo tortura, fechamento do Congresso e até fuzilamento de ex-presidente teria tendências autoritárias quando virasse presidente, não é verdade?

Bolsonaro publicou no Facebook um vídeo de um pastor congolês maluco dizendo que o presidente brasileiro é um enviado de Deus, e que não se deve fazer críticas nem oposição a ele. Bolsonaro acrescentou as seguintes palavras ao compartilhar o vídeo: “Não existe teoria da conspiração, existe uma mudança de paradigma na política. Quem deve ditar os rumos do país é o povo! Assim são as democracias.” O recado aos manifestantes não poderia ser mais claro.

Os organizadores do ato trataram de trocar as pautas golpistas por republicanas. A defesa da reforma da previdência, do pacote anticrime de Moro, da Lava Jato e outros temas caros aos bolsonaristas passaram a fazer parte da lista das pautas oficiais do protesto. A repentina moderação no tom da convocação foi estratégica. A mudança trouxe de volta o Brasil 200, mas a maioria dos movimentos já tinha sacado que a motivação era antidemocrática.

Bolsonaro, que havia cogitado ir pras ruas, desistiu. A participação direta do presidente em um ato que ataca outros poderes constituídos configuraria um crime de responsabilidade.

Mas a mudança das pautas não alterou o espírito golpista dos mais fanáticos. Uma análise feita pelo Estadão utilizando o WhasApp Monitor, ferramenta criada por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais, mostra que o teor da maioria das mensagens sobre a manifestação é de ataque ao Congresso e ao STF. Também pipocam ataques contra esses poderes nas redes sociais.

Um dos motes expressos nas convocações para a manifestação é “O Brasil contra o Centrão”, o que não parece muito inteligente para quem precisa desses votos para aprovar a reforma da previdência, que é justamente uma das exigência dos manifestantes. “Ninguém vai conseguir aprovar reforma chamando todo mundo de ladrão, de traidor, de comunista” como afirmou Janaína Paschoal, que é contra a manifestação e até apelou para o amor de Deus.

Como tudo o que envolve o bolsonarismo, o ataque ao Centrão é esquizofrênico. Bolsonaro passou boa parte da sua vida parlamentar nele, cumprindo exatamente o mesmo papel fisiologista que hoje revolta os bolsonaristas. Sua carreira parlamentar foi feita em partidos como o PP, o PTB e PSC. O próprio PSL sempre foi Centrão antes de virar governo.

Bolsonaro foi um deputado governista em praticamente todos os seus mandatos na Câmara. Durante os governos Collor, Itamar, o primeiro mandato de FHC e os dois mandatos de Lula, votou a favor do governo na maioria das votações. Em todo esse tempo, jamais se levantou contra conchavos partidários e, durante oito anos, foi mais fiel ao governo Lula do que muito deputado petista. Ele chegou até a fazer campanha para que o comunista Aldo Rebelo ou o ex-guerrilheiro Genoino — “homens competentes”, segundo ele — assumissem o Ministério da Defesa.

Durante discurso para empresários na Firjan nesta semana, Bolsonaro afirmou que o “grande problema do Brasil é a nossa classe política”. Sim, o político do Centrão que colocou seus três filhos na política e distribuiu empregos para parentes e amigos em gabinetes de políticos está reclamando da classe política.

Parte dos caminhoneiros que ainda está com Bolsonaro entendeu muito bem qual é o espírito da manifestação. “Estamos aí com uma gangue, o câncer do Brasil chamado Congresso Nacional, engessando, impedindo o presidente de trabalhar”, disse José Raymundo Miranda, caminhoneiro que é líder da Associação Nacional de Transporte do Brasil, em áudio ao qual a Folha teve acesso. Ele está organizando um “cerco” de caminhões no Congresso. “O ideal é todos os caminhoneiros partirem para Brasília, fazerem um cerco. Quero ver se eles conseguem guinchar um monte de carro desses. Fechar aquele Congresso, rodear e sitiar aquele povo ali dentro”, afirmou Miranda no áudio enviado para grupos de caminhoneiros no Whatsapp.

Um outro caminhoneiro de Minas Gerais gravou vídeo convocatório para a manifestação dizendo que “o consumidor não tem dinheiro para comer. E vem essa turma do centrão lá em Brasília não deixando Bolsonaro consertar o que precisa ser feito no país”. Como se vê, os apoiadores do presidente entenderam exatamente do que se trata esse protesto.

A manifestação vai servir para mostrar qual o tamanho da base popular bolsonarista capaz de apoiar um auto-golpe. Se as ruas encherem, Bolsonaro seguirá firme no seu projeto autocrático, mas continuará isolado politicamente. Sobrará apenas o apoio do maluco da Virgínia. O que ele fará com a sua sanha golpista inflada pelo possível sucesso da manifestação? Vai fechar o Congresso? Vai mandar um cabo e um soldado para o STF? Ou ele acredita que os parlamentares vão passar a fazer tudo o que o Executivo mandar por causa de uma minoria nas ruas insuflada pelo presidente?

Se houver baixa adesão popular, Bolsonaro será obrigado a diminuir seu ímpeto autoritário caso queira completar o mandato, o que me parece bastante improvável. Nesses cinco meses já ficou claro que a rejeição a todas as mediações democráticas não é circunstancial, mas um projeto de governo. Qualquer que seja o resultado da manifestação, o Brasil continuará vivendo esse pesadelo.

Bolsonaro tira das ruas suas próprias confusões

Na campanha presidencial de 2018, havia três grandes problemas sobre a mesa: ruína fiscal, estagnação econômica e corrupção endêmica. Jair Bolsonaro manda em Brasília desde janeiro de 2019. Para dar certo, precisa aprovar reformas no Congresso, destravar a economia e higienizar o Estado. Em cinco meses, forneceu tuítes, crises e ineficiência. Demora a aprovar a reforma da Previdência. Assiste ao aumento do desemprego. Convive com malfeitos atribuídos ao primogênito Flávio Bolsonaro. Alega que o Congresso trava o governo. Sustenta que as corporações resistem às mudanças. E acusa o Ministério Público de "perseguição".

No dia 26, o pedaço da sociedade que tem simpatia por Bolsonaro foi às ruas para ronronar por ele. Imaginar que isso fortalece o governo do capitão é uma fantasia. Em seis meses, se tudo o que o governo tiver a apresentar contra o buraco fiscal, a sedação econômica e a perversão ética for um conjunto de desculpas, o mesmo asfalto que faz ronrom pode rosnar para Bolsonaro. Uma das belezas da democracia é a capacidade da opinião pública de identificar empulhações. Pragmático, o povo não costuma ser leal senão aos seus próprios interesses. Foi graças a essa peculiaridade, aliás, que Bolsonaro chegou à Presidência.

No segundo turno da disputa presidencial, parte do eleitorado escolheu um vencedor, não um presidente. Muita gente votou em Jair Bolsonaro para impedir que o triunfo de Fernando Haddad devolvesse o Poder ao PT. Prevaleceu a exclusão, não a preferência. Numa conjuntura assim, marcada pela polarização extrema, caberia ao vitorioso a generosidade da pacificação. Bolsonaro preferiu acentuar as diferenças. Trocou o "nós contra eles" do petismo pelo "eles contra nós". A fratura nunca esteve tão exposta. O Brasil parece condenado à campanha perpétua.

No curtíssimo intervalo de 11 dias, houve duas manifestações de rua —uma contra, outra a favor do governo. Bolsonaro chamou de "idiotas úteis" os alunos, pais e professores que chiaram em 15 de maio contra o bloqueio de verbas para a Educação. Não se deu conta de que havia entre os manifestantes um sem-número de eleitores daquele contingente que votou contra o PT na disputa de 2018. Neste domingo, em visita à igreja, Bolsonaro pregou para convertidos: "O povo está indo às ruas defender o futuro dessa nação." O presidente endossou os atos. Fez isso sem perceber que um governante recém-eleito que precisa socorrer-se das ruas em cinco meses é um governante fraco.

Após a manifestação dos bolsonaristas Bolsonaro continuou pressionado pela mesma necessidade de entregar o que prometeu em 2018. Para isso, precisa de três quintos dos votos da Câmara e do Senado —308 deputados e 49 senadores. Declarou que não cederá ao troca-troca. Ótimo. Falta agora sanear seu próprio governo, apinhado de contradições, e estabelecer laços decentes com os partidos, denunciando as propostas indecorosas. Esse tipo de tarefa, por intransferível, não pode ser terceirizado às ruas.

Os dois últimos presidentes que imaginaram que seria possível emparedar o Congresso —Fernando Collor e Dilma Rousseff— foram mandados para casa mais cedo. A ideia de que o presidente manda e o Congresso obedece é consequência do pior tipo de ilusão que costuma acometer os presidentes novatos: a ilusão de que presidem. É notável o refinamento, o cuidado, o acabamento extremo e, sobretudo, o custo com que a administração Bolsonaro atinge a ineficiência.

Mantido o ritmo, o capitão logo descobrirá que não há popularidade sem prosperidade. E os manifestantes do dia 15 de maio e deste domingo tendem a se encontrar em manifestações conjuntas. Nessa hora, o centrão continuará representando um problema para o governo. Com uma diferença: o preço do apoio será bem mais caro. Quem tiver dúvidas, que pergunte para Michel Temer.

Impeachment precoce

O asfalto forneceu as informações. E Jair Bolsonaro tirou suas próprias confusões. O capitão obteve das ruas um respaldo sólido o bastante para espantar a assombração de um impeachment precoce. Mas o meio-fio não lhe deu musculatura suficiente para emparedar o Congresso. As conclusões são óbvias: A conjuntura continua envenenada. E não há melhor antídoto do que a saliva. Entretanto, tomado por suas confusões, Bolsonaro planeja continuar trafegando na contramão.

Em entrevista à Record, sua emissora predileta, Bolsonaro soou como se considerasse um crime dialogar. Referindo-se à reforma da Previdência, afirmou: "Eu te pergunto: O que tenho que fazer? Ir para dentro do Parlamento conversar? Não é uma boa prática. Se nós não enfrentarmos isso, e rápido, o Brasil pode sucumbir economicamente, como o ministro [da Economia] Paulo Guedes já falou." Foi como se declarasse: "Já fiz a minha parte. O povo está comigo. Se não quiser fechar o Posto Ipiranga, o Congresso que engula a proposta e não chateie."

Mais cedo, num culto evangélico, Bolsonaro havia afirmado que a manifestação pró-governo revelara "um firme propósito de dar um recado àqueles que teimam, com velhas práticas, em não deixar que o povo se liberte." Na entrevista televisiva, o capitão refinou sua mira:

"Centrão virou um palavrão. A melhor maneira de mostrar que não tem motivo de satanizar esse nome é ajudar a votar aquilo que interessa para o Brasil. Agindo dessa maneira, haverá reconhecimento por parte da população. Acredito que uma parte considerável dos parlamentares não quer ser rotulada de Centrão, o grupo clientelista, ou aquele grupo que quer negociar alguma coisa para votar."

De fato, quem olha de longe não enxerga inocentes no centrão, só culpados e cúmplices. O problema é que esse aglomerado partidário concentra algo como 200 dos 513 votos da Câmara. Nesse contexto, cabe indagar: Se Bolsonaro fala sério quando diz acreditar que um pedaço do centrão deseja se livrar da pecha clientelista, por que não conversar? Ou por outra: como um presidente minoritário fará para prevalecer no Legislativo sem um diálogo consequente com parlamentares novatos e legendas independentes, que fogem do contágio com o centrão?

Alguma coisa subiu à cabeça de Bolsonaro. Deve ter subido pela escada, pois certos raciocínios do presidente parecem ter fôlego curto. Não conversa com o centrão, mas quer estreitar sua inimizade com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, um dos principais alvos da manifestação deste domingo.

"O Rodrigo Maia é uma pessoa diferente de mim", afirmou o entrevistado. "O que eu falo, os ministros cumprem aquele objetivo, mas ele não tem esse poder dentro da Câmara, porque cada partido tem uma direção." Ai, ai, ai… Bolsonaro exerceu mandato parlamentar por 28 anos e não notou que o Congresso não é como um governo, onde todos se colocam —ou deveriam se colocar— a serviço dos mesmos fins.

O Legislativo existe para abrigar os conflitos. Contém ao mesmo tempo uma coisa e o seu contrário. Abriga parlamentares que perseguem um determinado objetivo e outros que defendem o oposto. Se compreendesse essa lógica, Bolsonaro talvez percebesse que sua Presidência seria menos atribulada se tentasse convencer pelo diálogo em vez de imaginar que pode prevalecer aos solavancos.

As confusões que Bolsonaro tira das ruas estimulam conclusões pouco animadoras. Fica-se com a sensação de que o presidente supervaloriza o "Messias" que carrega no sobrenome. Se Deus pudesse escolher um lugar para morar, a despeito da instabilidade, esse lugar seria o Brasil. Como não pode, Bolsonaro imagina ter plenas condições de representá-lo. Falta convencer o pedaço do Congresso que enxergou nas ruas deste domingo evidências de que o "messias" do Planalto nunca esteve tão sujeito à condição humana.


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