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Sábado 24.ago.2019

Ano VII - Nº 360

Poder

Bolsonaro volta a atacar professores e diz que eles ‘usam estudantes’ para desestabilizar governo

Para governo, protesto só é legítimo quando é para apoiá-lo

Postado em 31 de Maio de 2019 - Forum e Leonardo Sakamoto (UOL)

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Em entrevista ao programa The Noite, de Danilo Gentilli, transmitida na madrugada de sexta-feira (31), Jair Bolsonaro (PSL) reiterou as críticas aos atos em defesa da educação, voltando a chamar os estudantes de “inocentes úteis”, e acusou os professores de tentarem “desestabilizar o governo”.

“O certo é falar inocentes úteis. A grade maioria da garotada presente não sabia o que estava fazendo ali, diferente dessa última manifestação pedindo agilidade ao Parlamento. Uma minoria de professores espertalhões usa a garotada em causa própria tentando sempre desestabilizar o governo”, disse ao apresentador do SBT.

A entrevista foi gravada no início da semana, logo após os atos favoráveis a pautas do Planalto, como a reforma da Previdência e o pacote anticrime, e antes das manifestações de quinta-feira (30) contra o bloqueio de verbas na Educação.

Bolsonaro disse ainda que as confusões de seus ministros na pasta da Educação se dão porque o ministério é o “mais aparelhado de todos”. “Tem um busto do Paulo Freire lá embaixo. E o Paulo Freire não deu certo. Se tivesse dado certo, as provas do Pisa estariam mostrando o contrário agora”.

Segundo Bolsonaro, “esse aparelhamento é porque a esquerda tomou lá atrás as universidades e depois tomou o ensino médio e o ensino fundamental também”.

Ao contrário dos atos dos estudantes, Bolsonaro classificou as manifestações do dia 26 como “espontânea”.

“Foi uma manifestação espontânea, uma pauta definida que deu sinal de alerta a todos os políticos do Brasil. Não aceitamos mais só participar das eleições e achar que isso é democracia. Democracia (é) a classe política estar perfeitamente afinada com os anseios da população”, disse.

Erro crasso

Apoiadores do presidente e de seus ministros foram às ruas, no último dia 26, manifestar-se a favor deles, contra aqueles que limitam o poder do "mito" e defender sua pauta de reformas.

Ato contínuo, membros da administração federal passaram a semana dizendo que é necessário e urgente atender o que as ruas pedem. Mas não qualquer rua, apenas aquela com a qual eles estão sintonizados. Ou seja, a rua preenchida com seus apoiadores, que também são adversários de seus adversários e empunham uma agenda que foi pautada pelo próprio governo e seus patrocinadores.

Com exceção das demandas por fechamento do Congresso Nacional, deposição de ministros do Supremo Tribunal Federal, intervenção militar constitucional, vulgo, golpe, a defesa dessa agenda é legítima. Mas o comportamento do governo, como se não tivesse ajudado na convocação das manifestações e não estivesse instrumentalizando essa pauta a seu favor, é um elogio ao descaramento.

Simultaneamente, as pautas em defesa da educação e da ciência, defendidas na manifestação do 15 de maio, são consideradas ideologizadas e fruto da manipulação de pobres estudantes-zumbis por professores-doutrinadores. É necessário e urgente atender o que as ruas pedem? Sim, mas como disse, não qualquer rua.

Porque, para o governo, há ruas com as pautas certas (aquelas com as quais ele concorda) e com pautas erradas (aquelas das quais discorda). Por esse ponto de vista, dia 26 valeu e, com isso, suas pautas e os manifestantes receberam o Selo Talkey de Qualidade.

Já dia 15, não. Inicialmente porque foi composto de milhares de "idiotas úteis" e "imbecis", nas palavras do próprio presidente. Após um toque por partes dos auxiliares de que chamar esse grupo dessa forma não pegou bem, os estudantes foram reembalados como "inocentes úteis" e "garotos inocentes, [que] nem sabiam o que estavam fazendo lá". O que nos leva a uma dúvida: se fossem garotas, talvez soubessem?

Para Bolsonaro, "a molecada foi usada por professores inescrupulosos para fazer manifestação política contra o governo". Os exércitos digitais do presidente passaram a semana seguinte tentando vender a ideia de que a manifestação era um grande "Lula Livre" e os alunos eram todos do MST – tendo um certo sucesso.

Nem a pauta, nem os manifestantes receberam o Selo Talkey de Qualidade porque falam outro idioma. O presidente, novato na administração pública, se expressa pela língua do contingenciamento, enquanto estudantes e professores, pós-graduados na cristalização da precariedade de condições de ensino, falam a língua do corte.

Como disse a este blog o reitor da Universidade Federal do Paraná, Ricardo Marcelo Fonseca, entrar num debate semântico sobre se o orçamento foi 'cortado' ou 'contingenciado' ou numa discussão sobre o percentual que saiu das contas das instituições federais de ensino só esconde um fato bem verdadeiro: no segundo semestre todas vão parar. Diz que nenhuma delas pode funcionar sem contratos de limpeza, vigilância, manutenção, luz e água.

As pautas das manifestações, de quinta (30), não serão bem recebidas, nem defendidas como legítima expressão social. O problema é que, ao avaliar atos de acordo com o grau de amém que proferem ao poder, o governo deixa claro que quer governar para quem ele vê no espelho. E que ideológicos são sempre os outros.

Não se ignora um elefante dançando na sala de estar. Dessa forma, o governo faz uma concessão aqui, evita mais um corte ali, pede uma desculpa por ter chamado estudantes de "imbecis" – apesar de continuar os tratando dessa forma. Mas não abre uma discussão com a sociedade sobre o bloqueio de verbas no orçamento. Pelo contrário, o ministro da Educação entrega baldes de ironia em audiência na Câmara dos Deputados, buscando lacrar, não dialogar.

Discute-se se os estudantes deveriam ter marcado nova manifestação tão pouco tempo depois da outra, por conta da possibilidade dela ser menor. Muitos dos "idiotas/inocentes úteis", terminologia do Yin Yang bolsonarista, que estão indo para a rua com faixas e cartazes não estão muito preocupados em estratégia e sim demonstrar sua insatisfação. Daí reside o problema: a imprevisibilidade.

Portanto, mesmo não vendo legitimidade em suas pautas, é bom o poder público tratar esse pessoal com respeito. Simbolicamente, fisicamente.

Vale lembrar que, em duas semanas, será o aniversário do sarrafo de policiais e de parte da mídia nos estudantes durante as Jornadas de Junho de 2013. E, mais quatro dias, o aniversário da explosão deles nas ruas, o que ajudou a mudar a cara da política nacional.


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