Semana On

Sexta-Feira 06.dez.2019

Ano VIII - Nº 374

Coluna

Maio

Do primeiro ao último

Postado em 29 de Maio de 2019 - Ricardo L. N. Moebus

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Em meio a maio, um presidente militar enfrentou sua maior crise política, as ruas foram tomadas por aguerridas manifestações que se iniciaram pelas universidades e rapidamente receberam o apoio de grande parte dos trabalhadores.

Manifestações que subverteram o marasmo das já desgastadas típicas passeatas políticas e passaram para a história com a marca da irreverência, da juventude, da imaginação tomando o poder, das trincheiras do desejo, da vontade de viver, ficando conhecidas como “maio de 68”.

A fogueira da vontade de mudança se espalhou desde a França, o maio de 68 francês, o presidente militar era então o general Charles de Gaulle, seu governo considerado conservador e moralista.

51 anos depois o 15M brasileiro parece despertar as ruas de seu torpor frente aos acontecimentos políticos, segue maio em direção ao 30M, mostrando ao presidente que o pulso ainda pulsa nas veias abertas das cidades, do país.

Maio novamente fazendo valer sua tradição, desde o primeiro de maio de Chicago transformado no dia internacional do trabalhador, de retomada da força legítima das ruas, acordando os corpos e mentes “em coma”, entorpecidos de fake news ou old fakes.

O presidente chuta as universidades como quem chuta um cachorro morto, sem qualquer medo de qualquer reação, mas parece que algo finalmente vai despertando.

É preciso transformar esse “chute em cachorro morto”, que seria sem reação ou consequência, em um “tapa na pantera”, despertando a força de resistência em defesa da vida, em defesa de toda forma de viver a vida como valor maior de nosso ethos societário, “retomada” das ruas, para usar esta pungente expressão do movimento indígena brasileiro.

Enquanto isso, o velho cacique Raoni Metuktire caiapó, do alto de seus 88 anos, mais uma vez decola de sua aldeia em busca de ajuda internacional em meio um cenário nacional que de tão desolador parece não oferecer alianças locais possíveis.

O velho Raoni volta a ter que deixar suas terras e seu povo para circular pela Europa, para divulgar sua mensagem, seu apelo, seu grito em defesa da Amazônia e dos povos originários indígenas do Brasil, vai para se reencontrar com lideranças políticas e culturais, desde o festival de Cannes até o Papa, desta vez Papa Francisco, anteriormente havia se encontrado com João Paulo II em 1989, participa de inúmeros eventos públicos e coletivos, em uma agenda de deixar qualquer jovem exausto.

Vai novamente para denunciar o que está acontecendo no Brasil, para furar o bloqueio midiático que não permite visibilidade dos ataques aos direitos fundamentais dos povos indígenas, vai para dar voz aos que não tem voz, para ampliar essa vocalização buscando que desde lá fora ela ecoe aqui dentro e só então possa ser ouvida.

Raoni sabe que muitos daqui só enxergam o que vem de fora, só tem olhos para esta exterioridade, então ele precisa fazer este movimento de auto-exílio, precisa fazer ver quem não tem olhos para esta causa, nem nunca teve, precisa disputar esse jogo midiático e de produção discursiva sobre sua própria gente, sobre a legitimidade e a necessidade de validação de seus modos de vida como particularmente preciosos na defesa e segurança ambiental.

Raoni vai à Europa e está ao lado da maior autoridade religiosa do mundo católico, ao lado de diretores de cinema, músicos, intelectuais, chefes de Estado, se lança novamente nesta guerra semiótica em defesa intransigente dos modos de vida originários e originais, neste momento em que aqui a intolerância dá o tom do governo nacional. 

Perguntado, em outra ocasião, se tanto engajamento não seria por demais cansativo para alguém da sua idade, depois de tamanha luta desde seu primeiro encontro com o presidente Juscelino Kubitshek em 1956, ou seja, em uma agenda de persistentes encontros com autoridades políticas por mais de sessenta anos consecutivos em defesa dos direitos indígenas, responde Raoni: “eu fui feito para isso”.

Ricardo L. N. Moebus - Professor Universidade Federal de Ouro Preto


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