Semana On

Terça-Feira 17.set.2019

Ano VIII - Nº 363

Coluna

Os Reis da Droga

Metade da política anti-drogas do governo é pose. O problema é a outra metade

Postado em 29 de Maio de 2019 - Rodrigo Amém

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Jan Rader não sai de casa sem suas seringas. Sem elas, a probabilidade de mortes no seu turno de trabalho é enorme. Acontece que ela é a chefe do corpo de bombeiros em Huntington, uma cidadezinha de 100 mil habitantes no interior do estado de West Virginia, nos EUA. O maior desafio que Rader enfrenta não são incêndios, mas overdoses. Estima-se que 10 mil moradores seja viciados em analgésicos. Somente em 2017, foram mais de 100 mortes e 2000 casos de overdose. Por isso, no bolso do seu uniforme, Rader sempre carrega seu kit: uma seringa de Naloxone. Em entrevista à rede americana PBS, Jan relatou já ter socorrido vítimas de overdose mais de vinte vezes. Em uma mesma residência.

A situação é tal que os agentes sanitários da cidade precisam de luvas especiais para limpar as ruas, repletas de agulhas descartadas. Não vou nem comentar o horror da maternidade local, onde bebês sofrem constantes convulsões de abstinência, por terem siudo expostos a opióides no útero das mães viciadas. Se existe uma epidemia de consumo de drogas nos Estados Unidos, essa droga tem nome: Oxicodona. E seu resultado é aterrador. A cada três semanas, a droga mata o mesmo que os atentados de 11 de setembro de 2001.

Você deve estar se perguntando: Como a situação chegou a esse ponto? Por que ninguém faz nada? E que diabos eu tenho a ver com essa história? Vamos lá.

O repórter investigativo Christopher Glazek, da revista Esquire, publicou uma reportagem sobre os verdadeiros reis da droga na terra do Tio Sam. Acontece que a crise dos opióides nos EUA é resultado do trabalho de uma única família, os Sackler. Cidadãos gringos de bem que lucraram, somente em 2017, 4 bilhões de dólares vendendo Oxicodona, um analgésico poderosíssimo e altamente viciante. Tudo dentro da lei.

Respondendo às suas perguntas: Os Sackler frequentam a alta roda da arte moderna em Londres e Nova York. A família que viciou a América é discreta nas aparições na mídia, mas conhecida por doar generosamente para universidades e museus nos grandes centros culturais do mundo.

A parte sigilosa do negócio da família tem a ver com marketing farmacêutico, área onde foram pioneiros. Eles criaram a campanha de marketing para o Valium tornando-o o mais receitado medicamento dos EUA na época. Isso mesmo, o Valium tarja preta.

Daí a família comprou a Farmacêutica Purdue, uma pequena indústria, agora adaptada para para a produção de analgésicos. Seu primeiro produto foi uma pílula de morfina para pacientes de manicômios em Londres. O sucesso foi enorme na terra da Rainha. Mas, para alcançar um maior público nos EUA, o marketing foi redirigido para pacientes terminais de câncer. Era morfina? Claro. Mas, como era para dar conforto a quem o vício era o menor dos problemas, a nova droga foi muito bem aceita.

Aí a patente da pílula de morfina expirou. E agora? Alguém na família decidiu trocar a morfina na fórmula por ópio e marquetar o novo produto para toda e qualquer forma de dor: de torcicolo à fratura exposta.

 

Quando o governo americano se deu conta, já era tarde. Os Sackler usaram de poder financeiro e influência política para desmantelar toda regulamentação e vigilância do país.

Esses barões da droga não usam AR-15 e Bazucas para colocar o mais poderoso governo do mundo de joelhos. Usam lobistas.

E vamos à terceira (e mais brasileira) das suas perguntas: "O que eu tenho a ver com isso?"

Não foi falta de vontade da Roche que impediu que o Valium também fosse a droga mais receitada no Brasil. O trabalho da Anvisa de regular e fiscalizar a comercialização de medicamentos no Brasil é, provavelmente, a única razão pela qual a sua avô não é viciada em ópio.

Moral da história: quando um pateta como o Ministro da Cidadania Osmar Terra tenta desacreditar a pesquisa da Fiocruz sobre o impacto das drogas no Brasil, não é apenas patetice. Existe uma razão mercadológica para que a guerra contra "determinadas drogas" seja mantida, enquanto se orquestra um projeto de desmanche do SUS (e, por tabela, da Anvisa), para que o mercado farmacêutico tenha "mais liberdade" de promover seus produtos.

Pense nisso da próxima vez que afirmar que o governo brasileiro está engajado no combate às drogas.

Ah, em tempo: sabe a Naloxone, a injeção que os bombeitos de West Virginia usam para combater a overdose de Oxicodona? Adivinha qual é a empresa fabricante?


Voltar


Comente sobre essa publicação...