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Segunda-Feira 16.set.2019

Ano VIII - Nº 363

Poder

Após criticar classe política, Bolsonaro é orientado a dar guinada em discurso

Frustrado, presidente demonstra que não sabe governar em uma democracia

Postado em 24 de Maio de 2019 - Thais Arbex, Gustavo Uribe , Talita Fernandes , Thiago Resende , Angela Boldrini , Daniel Carvalho e Nicola Pamplona (Folha de SP) e Leonardo Sakamoto (UOL)

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Com dificuldades para reorganizar a frágil articulação com o Legislativo para a aprovação de projetos prioritários do governo, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) acirrou o desgaste entre os Poderes ao dizer que "o grande problema do Brasil é a classe política", mas foi orientado a baixar o tom e deu uma guinada no discurso no mesmo dia, fazendo um aceno para valorizar o Congresso.

Em evento na Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro), o presidente repetiu conceitos da mensagem que compartilhou no dia 17, segundo a qual o país "é ingovernável" sem "conchavos" que ele se recusa a fazer.

"O Brasil é um país maravilhoso, que tem tudo para dar certo. Mas o grande problema é a nossa classe política", disse ele, que se incluiu na crítica e pediu apoio do governador e do prefeito do Rio, Wilson Witzel (PSC) e Marcelo Crivella (PRB), respectivamente. "Nós temos que mudar isso."

O presidente recebeu um diagnóstico do núcleo moderado do Palácio do Planalto de que suas declarações elevaram a tensão e agravaram o risco a pautas governistas, como a medida provisória que reestrutura a Esplanada dos Ministérios e a reforma da Previdência.

A conversa teve efeito imediato. Em seguida, em evento de lançamento da campanha da Previdência, Bolsonaro indicou a guinada de discurso.

"Temos cinco deputados federais [no governo]. Nós valorizamos, sim, o Parlamento brasileiro, que vai ser quem vai dar palavra final nesta questão da Previdência, tão rejeitada nos últimos anos", disse.

Na mesma cerimônia, o presidente agradeceu nominalmente os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP). Ele disse que gostaria de receber mais os parlamentares, mas citou a "falta de agenda".

"Só não recebo mais por falta de agenda, mas gostaria de continuar a conversar com o maior número possível de vocês", afirmou.

Nesta semana, Bolsonaro precisa de votos no Congresso para aprovar 11 medidas provisórias prestes a expirar —a maioria com relevante impacto econômico e na estrutura administrativa do governo.

Em outra frente, após ser alvo de protestos pelo país devido ao bloqueio de verbas da Educação, o presidente tentará mostrar que mantém o apoio popular conquistado nas urnas —está marcada para domingo (26) uma série de atos em defesa de sua gestão.

"Cada vez que eu toco o dedo numa ferida, um exército de pessoas influentes se vira contra mim, buscam de todas as maneiras me desacreditar", afirmou ele no evento no Rio, conclamando os presentes a pressionar parlamentares a votar propostas do governo.

"Nós temos uma oportunidade ímpar de mudar o Brasil. Mas não vou ser eu sozinho —apesar de meu nome ser Messias— que vou conseguir", disse Bolsonaro, negando crise entre Poderes e atribuindo esse tipo de informação a "uma grande fofoca" de "grande parte da nossa mídia".

As críticas do presidente à classe política criaram indisposição no Congresso, apesar de ele já ter feito outros acenos recentes aos partidos —como a sanção de um projeto que prevê anistia a multas aplicadas às legendas.

Insatisfeitos, líderes partidários reclamaram à Casa Civil de que a conduta de Bolsonaro inviabilizava a votação nesta semana da MP (medida provisória) sobre a estrutura de ministérios de seu governo.

Se ela não for aprovada até 3 de junho na Câmara e no Senado, perderá a validade. Nesse caso, o número de pastas passaria de 22 para 29, como era na gestão de Michel Temer.

"Eu acho que o presidente está tensionando o Congresso sem necessidade. Eu vejo que, a cada declaração, ele vai tensionando ainda mais", reclamou o líder do Podemos na Câmara, José Nelto (GO).

Na reunião com o núcleo moderado, o presidente foi aconselhado a procurar líderes partidários, inclusive do centrão (grupo informal de partidos como DEM, PSD, PTB, PP e PR), para esclarecer as declarações.

A proposta da articulação política do governo, o que inclui ministros e parlamentares, é realizar um café da manhã para acalmar os ânimos.

Em outra frente, também há um esforço para convencer o presidente a substituir o líder do governo da Câmara, Major Vitor Hugo (PSL-GO). Bolsonaro tem oferecido resistência e diz que não costuma abandonar os aliados mais fiéis. Uma das soluções seria realocá-lo em outro cargo do governo. 

A avaliação no Palácio do Planalto, no entanto, é a de que o gesto de Bolsonaro será em vão caso o PSL, seu partido, insista no enfrentamento com o centrão na Câmara. Nos últimos dias, parlamentares da sigla têm atacado deputados nas redes sociais.

"O que tem de acontecer é uma boa conversa e baixar a guarda. Chega de clima beligerante. Não se consegue aliados atacando pessoas. Nós não vamos conseguir aliados atacando aqueles que podem votar conosco", afirmou a líder do governo no Congresso, Joice Hasselmann (PSL-SP).

A bancada do PSL, porém, indicou nesta segunda que não vai baixar a guarda. Os deputados do partido de Bolsonaro pretendem apresentar ao menos cinco requerimentos para tentar derrubar as alterações feitas pelo Congresso na medida provisória que reestrutura o governo —o que pode inviabilizar a votação do texto. 

O ministro do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), Augusto Heleno, criticou a possibilidade de retomar a configuração de 29 ministérios no governo.

"22 já é duro [para administrar]. É um número acima de tudo que é livro de gestão. Imagine 29. Ele [Bolsonaro] mesmo disse, ontem: ‘Vai ter camarada que eu vou ver de ano em ano. Tem camarada que eu não vou ver nunca’”, afirmou.

O discurso do presidente no Palácio do Planalto foi precedido pelo do chefe da Secom (Secretaria de Comunicação Social), Fábio Wajngarten, que adotou linha semelhante de conciliação, mas dessa vez com veículos de comunicação.

O secretário afirmou que "é um equivoco quem acredita no fim das mídias consideradas tradicionais" e disse que todos os brasileiros só serão atingidos pela campanha da reforma da Previdência se a comunicação for plural.

"O maior antídoto contra as fake news é, sem dúvida nenhuma, lutar por uma mídia responsável, sustentável e livre de qualquer controle. E isso se faz valorizando os bons meios, os bons veículos e a boa comunicação", disse.

Em sua fala, Wajngarten agradeceu a presença de executivos de emissoras televisivas como Rede Globo, TV Bandeirantes, RedeTV! e SBT.

Um presidente ingovernável

Após cinco meses de governo, Bolsonaro ainda não se deu conta de que, em uma democracia, o sistema é organizado para que um poder da República seja monitorado, balizado e contido pelos demais para que não opte por caminhos extravagantes, que não estejam previstos na lei. Encara, portanto, como defeito uma qualidade da democracia: a possibilidade de impedir o surgimento de regimes autoritários e despóticos, nos quais inexiste barreira entre a vontade expressa de seu líder e a realidade.

"O grande problema do Brasil é a classe política", disse Bolsonaro, na manhã do dia 20, em evento no Rio de Janeiro. À tarde do mesmo dia, seguindo o padrão presidencial de falta de padrão, afirmou: "nós valorizamos sim o parlamento brasileiro".

Bolsonaro é político há décadas e seus três filhos mais velhos também são políticos. Eles nos fazem lembrar cotidianamente o quão complicada pode ser a classe política, com suas necessidades pessoais, familiares e corporativas passando por cima dos interesses nacionais.

Mesmo assim, a democracia representativa continua sendo a menos pior das opções. As soluções encontradas através dela podem não ser as melhores, mas ainda assim seus erros são menos danosos do que a ignorância de ditadores.

Se os crescentes ataques do presidente da República e de seus seguidores ao Congresso Nacional e ao Supremo Tribunal Federal preocupam pela frequência e ferocidade, eles também demonstram que o sistema – até agora – vem funcionando.

Cada vez mais frustrado por não conseguir impor sua visão de país, sendo derrotado no parlamento e tendo decisões questionadas no STF pelo Ministério Público Federal, Bolsonaro promete inundar as ruas com seguidores. Nos mesmos memes que convidam para manifestações há demandas pela aprovação da Reforma da Previdência, do pacote legislativo de Sérgio Moro e da nova estrutura de governo, mas também pedidos de impeachment de membros do Judiciário, prisão de líderes políticos, ataques a veículos de comunicação e fechamento do Congresso Nacional. O presidente não vem a público ameaçar um golpe, mas nem precisaria.

Bolsonaro é o político que, por desconhecer as regras, joga damas com peças de xadrez. E, ao perceber que está tendo dificuldades, pede ajuda para melar a partida. Deveria ter aprendido as regras, afinal ficou 28 anos no Congresso Nacional. Mas estava mais preocupado em derrubar as peças dos outros jogadores do que aprender as estratégias para movimentá-las.

Demonstra falta de interesse ou despreparo para articular os interesses de seu governo e do país junto ao Congresso Nacional; acredita de forma messiânica, que ao revelar a "verdade" aos parlamentares, ela os libertará; percebe como suja toda e qualquer negociação para atendimento de demandas justas de parlamentares (sim, elas existem); evita repartir poder, por mais que sua base partidária seja restrita a 54 dos 513 deputados federais; e mobiliza hordas de fãs e seguidores em redes sociais e aplicativos de mensagens para desmentir e atacar jornalistas, opositores e mesmo aliados que adotam viés crítico a suas ações.

Em sua cabeça, Bolsonaro foi eleito para destruir a política que está aí e implementar algo – que ele acha que é novo, mas tem 50 anos – no lugar. Não corromper e ser corrompido deveria ser condição mínima para atuar na vida pública, mas não é isso que ele está combatendo ao criminalizar a política. Pelo contrário, ao administrar tentando agradar apenas quem ele enxerga como seu semelhante e atacar os freios e contrapesos que limitam seus poderes na República, o presidente faz algo tão antigo quanto a própria política. Às vezes, isso descamba para a irrelevância, às vezes para a tirania.

Neste domingo, Bolsonaro postou um vídeo em que um pastor afirma que ele foi "escolhido por Deus" para comandar o país. O que é pertinente não apenas para a narrativa de que está em uma "cruzada" em nome de valores reacionários, mas também mostra a seus seguidores que Jair Messias representa o "bem" enfrentando o "mal". E o que é o mal? Tudo o que ele assim nomear.

Antes dele, outros disseram isso. Como Michel Temer: "Tenho orgulho de ser presidente. É algo que, não sei como Deus me colocou aqui, dando-me uma tarefa difícil, mas, certamente, para que eu pudesse cumpri-la".

No Evangelho atribuído a Mateus, capítulo 22, versículo 21, está escrito "Dai, pois, a César o que é de César e a Deus, o que é de Deus". Isso é tão simples mas, ao mesmo tempo, tão difícil de ser entendido.

Ou seja, o que se espera de Bolsonaro não é que seja o salvador de um povo, pois o Brasil precisa ser salvo apenas de autointitulados salvadores. Mas que ele proponha um programa de governo para gerar postos de trabalho e renda para 13,4 milhões de desempregados, por exemplo. Para tanto, terá que aprender a trabalhar junto com outras pessoas, compondo com aliados, dialogando com adversários, aceitando que nem tudo será como ele quer, mas como a Constituição permitir.

Não há possibilidade da economia voltar a crescer se Bolsonaro não parar de sabotar o seu próprio governo e resolver fazer política ao invés de promover a guerra. O problema é que ele pode ter atingido um ponto de não-retorno, em que não importa o que faça, a política e a economia não vão levá-lo a sério.


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