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Domingo 16.jun.2019

Ano VII - Nº 355

Poder

‘Nova política’ abraça a ‘velha’ na saúde indígena, um perigo

Troca em cargos federais em Roraima mostra toma lá, dá cá e influência nebulosa de Romero Jucá

Postado em 24 de Maio de 2019 - André Barrocal – Carta Capital

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O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, nomeou em maio um novo chefe de um dos dois distritos que cuidam de saúde indígena em Roraima. O médico ortopedista Vitor Paracat Santiago comandará o distrito Leste, por indicação do senador Chico Rodrigues (DEM), eleito por Roraima.

Rodrigues deu emprego em seu gabinete no Senado a Leonardo Rodrigues de Jesus. Leo Índio nada tem a ver com indígenas, apesar do apelido. É sobrinho do presidente Jair Bolsonaro e grande amigo de Carlos Bolsonaro, o filho mais ouvido pelo ex-capitão quando o assunto são redes sociais.

Se esse toma lá, dá cá de cargos é sinal de rendição do governo à “velha política” tão atacada pelo presidente, o que dizer do que está prestes a acontecer no outro distrito sanitário indígena de Roraima, o Yanomami?

A escolhida por Mandetta para ser secretária de Saúde Indígena, Silvia Nobre Waiapi, prepara a nomeação de Joseilson Câmara para dirigir o distrito Yanomami, no lugar de Rousicler de Jesus Oliveira. Câmara e Oliveira são ligados a Romero Jucá, presidente do MDB e ex-senador por Roraima cujo nome é associado há mais de uma década a falcatruas com saúde indígena.

Até 2010, cuidar de saúde indígena era uma missão da Fundação Nacional de Saúde (Funasa). Três anos antes, a Polícia Federal havia desmontado uma quadrilha que desviava verba da Funasa de Roraima ao contratar empresa de táxi aéreo para levar indígena doente. Aquela ação da PF ficou conhecida como Operação Metástase.

O chefe da Funasa em Roraima na época era Ramiro José Teixeira e Silva, um indicado de Jucá. Foi um dos 32 presos pela PF. E um dos 22 denunciados à Justiça pelo Ministério Público, em 2012, em decorrência da operação, acusado de corrupção, cartel, fraude de licitações e quadrilha.

A aba larga do chapéu de Romero Jucá

Quando foi criada, em 2011, a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) substituiu a Funasa no cuidado dos indígenas. À frente do distrito sanitário Yanomami desde dezembro de 2016, Rousicler de Jesus faz o mesmo que Ramiro José em 2007. Em mais de um sentido. E também por indicação de Jucá.

Em outubro de 2018, o Tribunal de Contas da União recebeu uma denúncia de falcatruas na Sesai e, mais especificamente, nos dois distritos sanitários de Roraima. Segundo o denunciante, cujo nome é mantido sob segredo pelo TCU, o esquema desbaratado em 2007 tinha renascido. Rousicler de Jesus, o chefe do distrito Yanomami, faria parte dele. Idem Jucá. E vários empresários.

Um dos empresários presos em 2007 foi Hissam Hussein Dehaini. Ele é dono da Icarai Turismo Táxi Aéreo. Tornou-se réu em 2015, em consequência da denúncia do MP em 2012. O que não o impediu de eleger-se prefeito em 2016, pelo PPS (hoje Cidadania), da cidade de Araucária, no Paraná. Nem de continuar a ganhar dinheiro com saúde indígena.

A Icarai é citada na denúncia ao TCU como beneficiada pela ressurreição do esquema criminoso desmontado em 2007. Exemplo disso seria a contratação dela sem licitação pela Sesai em agosto de 2018 para atender o distrito Yanomami. Um contrato de 6,3 milhões de reais.

O aval à contratação partiu de Rousicler de Jesus, descrito na denúncia ao TCU como dono de poço de água em casa enquanto falta água a indígenas. A denúncia foi enviada pelo TCU à PF, que abriu um inquérito. No início de maio, a polícia pediu ao ministério da Saúde cópia de contratos da Sesai.

Ali dentro todo mundo sabe quem manda

Funcionários da secretaria dizem que ali dentro todo mundo sabe que quem manda, à distância e por meio de apadrinhados, são Romero Jucá e o senador amazonense Eduardo Braga (MDB). O distrito Yanomami fica parte em Roraima, parte no Amazonas.

O interesse de Jucá não estaria apenas na gorda verba anual da Sesai, 1,3 bilhão de reais em 2019. O uso indevido de aviões contratados para atender indígenas doentes também seria do agrado dele.

No distrito Yanomami há garimpo ilegal. Em agosto de 2018, o Exército montou bases na região a fim de coibir a atividade.

Na denúncia ao TCU, fala-se que aviões contratados pela Sesai para cuidar de indígenas doentes são usados para levar garimpeiros, além de alimentos e bebidas para eles. Na Sesai, há quem diga já ter estado em um vôo que desceu por engano em terra Yanomami onde há garimpo, devido a um ato falho do piloto.

Uma filha de Romero Jucá, Marina de Holanda Menezes, é dona de uma mineradora em Roraima, a Boa Vista Mineração, aberta em 2009. A se confirmar a escolha de Joseilson Câmara para comandar o sanitário Yanomami, os interesses da família Jucá serão preservados.

Até dezembro de 2018, Câmara comandava o outro distrito sanitário indígena de Roraima, o Leste, aquele agora sob a guarda de um indicado do senador Chico Rodrigues. Estava no posto desde dezembro de 2015, nomeado pelo então ministro da Saúde, Marcelo Castro, hoje senador pelo MDB do Piauí.

Quem indicou Câmara em 2015 foram Romero Jucá e o deputado federal Edio Lopes, do MDB de Roraima. A dupla tinha mandado um ofício ao Palácio do Planalto em novembro daquele ano com a indicação.

Mostra do laço de Jucá e Câmara é uma notícia colocada no site do ex-senador em fevereiro de 2018. Tratava da inauguração de uma espécie de posto de saúde no distrito Leste. Uma construção possível, segundo a notícia, graças a dinheiro providenciado por Jucá no orçamento federal. No evento, Câmara rasgava elogios a Jucá.

A reportagem questionou o ministro Mandetta, da Saúde, se de fato haverá substituição de Rousicler de Jesus no distrito Yanomami. Em nota, o ministério respondeu que “está propondo novos normativos com o objetivo de ampliar os critérios exigidos para a nomeação de ocupantes de cargos de confiança na Saúde Indígena”.

Por meio da assessoria, Romero Jucá disse que não indicou ninguém para cargos no governo.


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