Semana On

Sexta-Feira 13.dez.2019

Ano VIII - Nº 374

Poder

Pela primeira vez, pesquisas apontam desaprovação maior que aprovação de Bolsonaro

Levantamentos mostram que aprovação da gestão cai cinco pontos e quem avalia como ruim ou péssimo bate 36,2%

Postado em 24 de Maio de 2019 - Flávia Marreiro (El País), Guilherme Amado (Época) e André Barrocal (Carta Capital)

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

A desaprovação do Governo Jair Bolsonaro superou a aprovação pela primeira vez: 36,2% da população considera a gestão do presidente "ruim" ou "péssima", uma cifra que supera os 28,6% que avaliam como "ótima" ou "boa" em apenas cinco meses. Os números são da pesquisa exclusiva da consultoria Atlas Político, divulgada no último dia 21, e mostram que a percepção positiva continua em queda: desde abril, quando Bolsonaro completou 100 dias no poder, a desaprovação às decisões do Planalto subiu cinco pontos.

Para Andrei Roman, diretor do Atlas Político, o resultado, colhido entre os dias 19 e 21 de maio, não surpreende "dado o intenso noticiário negativo" a respeito do Governo nas últimas semanas, com repercussão dos cortes na Educação, que provocaram as primeiras manifestações nacionais contra Bolsonaro desde janeiro, a investigação sobre as finanças do filho do presidente, senador Flávio Bolsonaro (86,3% disseram ter tomado conhecimento do caso e 54,3% dizem ser a favor de que ele seja preso), e os resultados econômicos ruins. A pesquisa, feita com 2.000 pessoas recrutadas na Internet e com amostra balanceada por meio de algoritmo, tem margem de erro de 2 pontos percentuais.

"O resultado mostra uma conversão de avaliação regular em ruim ou péssimo. Ou seja, uma intensificação da rejeição entre os que já não estavam gostando tanto assim do Governo. Por outro lado, se você olhar a aprovação, ela caiu menos. Mostra uma certa resiliência da base que ele tem e que parece estar segurando bastante bem", pondera Roman.

Esta base ainda fiel ao bolsonarismo será posta à prova no próximo domingo, dia 26 de maio, para quando os apoiadores do presidente convocam manifestações em ao menos 50 cidades do país. A mobilização não é um consenso na coalizão que ajudou a eleger Bolsonaro, que inclui os movimentos que fizeram campanha pelo impeachment de Dilma Rousseff, e nem mesmo no próprio partido do presidente, o PSL. "O que a pesquisa mostra é que ainda existe um percentual grande da população que apoia o presidente e eu não ficaria surpreso se há manifestações expressivas a favor do presidente e, dias depois, manifestações expressivas contra ele. É só um resultado da polarização da sociedade que continua", analisa do diretor do Atlas. Para ele, ainda é cedo para dizer se Bolsonaro conseguirá estancar a queda de apoio. "Depende de produzir resultados na economia e na queda do desemprego", diz.

A pesquisa também perguntou aos eleitores sobre o tema que levou professores e estudantes às ruas. No total, 51,5% da população é contra os cortes na Educação, que atingem em média 30% de todo o orçamento não obrigatório das universidades. A margem dos que apoiam a medida do Governo não é baixa: 45% dizem estar de acordo com o contingenciamento, que o Ministério da Educação diz ser obrigado a fazer por causa da crise fiscal ao passo que também critica ideologicamente as instituições.

Vocabulário da crise e Lula

No momento em que os problemas de governabilidade do gestão Bolsonaro ficam mais evidentes, 50,2% dos entrevistados não acredita que o Congresso pode eventualmente se decidir por abrir um processo de impeachment contra o presidente. Além disso, 49,4% seria contra essa possibilidade (contra os 38,1% que apoiam o "Fora, Bolsonaro").

A pesquisa também mostra que o político mais bem avaliado do Governo segue sendo o ministro da Justiça, Sérgio Moro, com 60% de aprovação, conforme revelou o Atlas Político em abril, de modo similar aos resultados encontrados pelo Instituto Datafolha. Entre as personalidades políticas pesquisadas, quem mais subiu na aprovação foi o ex-candidato à presidência, Ciro Gomes (PDT), que, no entanto, segue majoritariamente rejeitado pela população e atrás do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, avaliado positivamente por 31% dos brasileiros.

O ex-presidente petista, preso desde abril de 2018, concedeu sua primeira entrevista exclusiva ao EL PAÍS e à Folha em abril. Segundo a pesquisa Atlas, 41,1% assistiu à entrevista. Na população geral, 56,1% é a favor da prisão de Lula, condenado por corrupção no âmbito da Operação Lava Jato.

Outra pesquisa aponta queda

A avaliação negativa do governo Bolsonaro ultrapassando a positiva também foi apontada pela nova pesquisa da XP Investimentos, realizada pelo Ipespe. Dos entrevistados, 36% avaliaram o governo como ruim ou péssimo, enquanto 34% o classificaram como ótimo ou bom.

Em comparação com a última edição da pesquisa, divulgada há duas semanas, a avaliação de ruim ou péssimo subiu 5%. A de ótimo ou bom caiu 1%.

Apenas 4% dos entrevistados responderam que é "satisfatório" o andamento da agenda do governo no Congresso, enquanto 85% julgaram que é o ritmo é "lento".

Do total, 57% disseram que os protestos do dia 15, contra os cortes na Educação, tiveram importância, ante 38% que responderam que não tiveram relevância. Quando perguntados se as manifestações acontecerão novamente, 86% afirmaram que sim.

Mil entrevistas foram realizadas em 20 e 21 de maio. A margem de erro é de 3,2%.

Derretendo

A crise política de Jair Bolsonaro deixa a oposição progressista num beco sem saída, como alguns de seus cabeças admitem a portas fechadas. Se o presidente sair de cena, o poder cairá no colo do vice Hamilton Mourão, tido como lobo em pele de cordeiro. Ou será tomado pelo establishment político-partidário, simpático demais aos interesses econômicos dos bancos, por meio da institucionalização do parlamentarismo informal já em curso.

PCdoB, PDT, PSB, PSOL e PT não enxergam sindicatos, estudantes e movimentos sociais em geral capazes de impedir, neste momento, que um pós-Bolsonaro seja desenhado apenas em Brasília. Em outras palavras, chance zero de nova eleição. Nem mesmo os protestos estudantis de 30 de maio e a greve geral planejada para 14 de junho mudariam isso, em caso de sucesso.

Dirigentes petistas discutiram a crise na terça-feira 21 e apostam que o desfecho mais provável para a enrascada de Bolsonaro é à la Jânio Quadros. Para quem um dia pensou em explodir bombas por aumento salarial, renunciar não parece uma opção. O ex-capitão teria de ser forçado a sair, crê o PT, e para isso seria usado o caso Fabricio Queiroz-Flavio Bolsonaro, uma ameaça ao clã presidencial.

A oposição sente-se impotente para liderar as ruas, e com isso influenciar Brasília, devido ao fato de Bolsonaro perder força política rápido demais, sem ter havido tempo de os progressistas superarem as sequelas do racha eleitoral. “O governo desmorona não por ação nossa. O Bolsonaro se tornou disfuncional para a direita, para os bancos, para os militares”, diz um petista graúdo.

O ex-presidenciável Ciro Gomes, do PDT, bate sem parar em Lula. Se bem que a visita do chefe pedetista, Carlos Lupi, ao prisioneiro na quinta-feira 23 fosse um gesto a desautorizar as bordoadas.

O PCdoB, que preferia ter apoiado Ciro, não o petista Fernando Haddad, faz jogo duro com o PT. E até topa se aproximar de setores direitistas, vide a boa relação de sua bancada de deputados com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).

O PSB deu apoio envergonhado a Haddad, preferia ter lançado a candidatura de Joaquim Barbosa e agora volta a namorar o ex-juiz do Supremo Tribunal Federal (STF). Convenceu-o a participar de debates internos.

O racha e as diferenças não impedem, contudo, esforços por entendimento. Na quarta-feira 22, os presidentes de PDT (Lupi), PSB (Carlos Siqueira), PSOL (Juliano Medeiros), PT (Gleisi Hoffmann) e o vice do PCdoB (Walter Sorrentino), reuniram-se em Brasília, no PSB, a fim de achar interesses comuns, como a resistência à agenda impopular e ultraliberal do governo.

Decidiu-se tentar montar uma espécie de frente com CNBB (igreja), OAB (advogados), SBPC (cientistas), Andifes (reitores), centrais sindicais, UNE, MST e MTST. Resolveu-se ainda pedir uma audiência ao presidente do STF, Dias Toffoli, para falar da crise.

A libertação de Lula é vista no PT, com certa concordância dos outros partidos, como capaz de organizar a oposição. Mas Toffoli não quer pôr em votação já a ação contra prisões em segunda instância. Daí que Lula livre, só em setembro, quando o petista fará jus ao regime semiaberto no caso do triplex. A menos que até lá seja sentenciado de novo, agora pelo sítio de Atibaia.

Em conversas reservadas com empresários e militares, o ministro José Múcio Monteiro, do Tribunal de Contas da União (TCU), tem dito que a salvação do Brasil está em Curitiba e chama-se Lula. Para ele, a notícia política mais importante do ano foi a do namoro do ex-presidente. Mostra que o petista está vivo e ativo, com sangue nas veias.

O Exército é responsável por Lula acuar o STF e impedir a soltura de Lula no ano passado. Uma quase confissão feita em novembro de 2018, na Folha, pelo então chefe do Exército, general Eduardo Villas Boas, hoje assessor especial no GSI, órgão de inteligência do governo.

O PT escalou o senador pela Bahia Jaques Wagner para sondar oficiais das Forças Armadas. Wagner foi ministro da Defesa em 2015, início do natimorto segundo mandato de Dilma Rousseff.

Recentemente, o ministério da Defesa propôs a assessores técnicos do PT no Senado uma reunião sobre reforma da Previdência. Queria entender as críticas à reforma da Previdência proposta por Bolsonaro. Um gesto visto como uma abertura, ainda que seja mínima, para algum tipo de diálogo.


Voltar


Comente sobre essa publicação...