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Terça-Feira 20.ago.2019

Ano VII - Nº 359

Brasil

Como desinformação foi usada nas redes para atacar protestos pela educação

Verificamos algumas das mais populares publicações no Twitter, no Facebook e no WhatsApp e observamos três estratégias comuns

Postado em 23 de Maio de 2019 - Amanda Ribeiro – Aos Fatos

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Manifestações contra o contingenciamento de verbas no MEC (Ministério da Educação) foram registradas nas capitais e em cidades no interior dos 26 estados e do Distrito Federal na semana passada, no primeiro protesto nacional em reação a políticas do governo Bolsonaro. Nas redes sociais, ainda que a mobilização tenha sido majoritariamente favorável aos atos do último dia 15, foi observado amplo uso de desinformação para agitar perfis contrários aos protestos e apoiadores do presidente.

De acordo com levantamento realizado no Twitter pelo professor da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo) Fábio Malini, enquanto a hashtag #tsunamipelaeducacao, em favor das manifestações, foi usada em ao menos 790 mil tweets naquela quarta-feira, a #BrasilComWeintraub, em apoio ao ministro da Educação, Abraham Weintraub, que esteve em audiência na Câmara dos Deputados no mesmo dia, emplacou apenas 5.000 posts.

Com baixa adesão, perfis críticos das manifestações apelaram a fotos tiradas de contexto, registros de anos anteriores e informações distorcidas para afirmar o discurso de que os atos tinham outras motivações que não a educação. Aos Fatos verificou algumas das mais populares publicações no Twitter, no Facebook e no WhatsApp e observou três estratégias comuns:

1. Questionar a inteligência dos manifestantes ao compartilhar fotos com cartazes onde constam erros de português, mas sem indicar que as falhas eram propositais ou não foram clicadas nos protestos de quarta;

2. Afirmar que a educação seria apenas um pretexto para ampliar a campanha 'Lula livre' ao disseminar fotos verdadeiras, mas sem o devido contexto, de manifestantes com bandeiras, cartazes e faixas em favor do ex-presidente Lula nos atos;

3. Sugerir uma ação orquestrada contra o governo Bolsonaro ao vincular a organização dos protestos ao PT e a partidos de esquerda. Para isso, foram amplamente utilizadas fotos de atos organizados pela sigla em 2016, contra o impeachment de Dilma Rousseff.

Confira abaixo, em detalhes, o que verificamos.

Erros em cartazes

Uma imagem em que uma estudante aparece segurando um cartaz com a palavra “mexeu” escrita com “ch” foi compartilhada como fosse dos protestos ocorridos na última quarta (15). Em pesquisa no Facebook, no entanto, foi verificado que a foto vem circulando pelas redes desde o dia 10 de maio. A imagem já acumula cerca de 16 mil compartilhamentos na rede social.

A foto foi tirada durante um protesto na cidade de Muzambinho (MG), no dia 9 de maio, contra os cortes nos institutos federais. Depois de tornar-se viral, o cartaz teve seus erros justificados pelo coletivo feminista IFSuldasMinas, do campus na cidade do Instituto Federal do Sul de Minas. Segundo a postagem, a inscrição no cartaz foi proposital e é “um exemplo bem claro de como podemos ser afetados pela falta de investimento na educação”.

É importante contextualizar também a legenda presente na imagem, que afirma que a “educação do Brasil era a penúltima colocada na educação mundial durante o governo socialista comunista”. Levando em consideração que a frase faz referência aos governos petistas, houve, sim, um ranking em 2012 em que o país conquistou a penúltima colocação. O estudo foi organizado pela Pearson International, uma instituição americana privada de educação, e levou em conta apenas 40 países.

Se for considerado o resultado do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), realizado naquele mesmo ano com 65 países, o Brasil, apesar de ainda figurar entre os últimos colocados, ocupa posições distintas do ranking. Em leitura, o país garantiu a 55ª posição; em ciências, a 59ª; em matemática, a 58ª.

Também é de um protesto antigo a faixa com erros ortográficos que vem circulando pelo WhatsApp como se retratasse as manifestações da última quarta. Na imagem, professores seguram um banner com os dizeres “Somos professores e exijimos respeito”. A imagem vem sendo usada para zombar da inteligência dos manifestantes.

A faixa é, na verdade, de uma manifestação de professores da rede municipal de São Luís (MA), ocorrida em junho de 2014. A primeira publicação da foto ocorreu no dia 9 daquele mês, no blog de Gilberto Léda. Ali, o autor afirma que a imagem havia sido encaminhada por um leitor, que avistou a faixa durante um protesto organizado pelos docentes na avenida Beira-Mar da capital. O Sindeducação (Sindicato dos Professores da Rede Municipal de Ensino) confirmou ao Aos Fatos que a faixa era deles, e que foi tirada de circulação no mesmo ano.

Na época, os professores ficaram cerca de três meses paralisados, exigindo readequação salarial e melhora na infraestrutura das escolas municipais. A greve, que começou em 22 de maio de 2014, terminou apenas no início de setembro daquele ano.

Ainda em tom jocoso sobre os protestos, foi compartilhada cerca de 900 vezes no Facebook uma imagem de um cartaz que ironiza os eleitores do presidente Jair Bolsonaro. Com a palavra “arrenpendido” entre aspas, seguida de “#táserto”, o cartaz questiona a inteligência de quem votou no presidente. No entanto, o comentário sobre a imagem desconsidera a ironia para criticar a ortografia dos manifestantes.

Em busca nas redes, Aos Fatos não conseguiu determinar em qual cidade a foto foi tirada. Ela aparece pela primeira vez em uma postagem do site Alagoas Alerta, que lista os cartazes mais criativos das manifestações.

Ângulos seletivos

As imagens de protestos em Brasília com balões da CUT e faixas de “Lula Livre” realmente são das manifestações da última quarta. Organizado em frente ao Congresso Nacional, o protesto teve participação de entidades como a UNE (União Nacional dos Estudantes) e a CUT e de partidos como o PT, além da atuação massiva de estudantes de universidades e institutos federais. Juntas, essas imagens já foram compartilhadas ao menos 9.000 vezes.

Apesar de as fotos serem verdadeiras, a legenda que acompanha a primeira tenta distorcer o propósito do evento e o contexto em que aconteceu. Ao questionar se o que ocorreu foi uma “manifestação espontânea de estudantes”, o texto omite que os protestos haviam sido convocados pela UNE no dia 10 de maio e tiveram seus locais e horários anunciados dias antes. Apesar de ter havido a participação de partidos políticos e outras organizações, eles aderiram às passeatas que já haviam sido marcadas.

É possível ver, aqui e aqui, outros ângulos da manifestação.

Uma imagem dos protestos em que uma camiseta “Lula livre” está presa a uma cruz foi compartilhada cerca de 1.200 vezes no Twitter para questionar a neutralidade do evento e defender as ações do MEC. A foto é, na verdade, o print de um vídeo postado na rede social pelo coletivo Mídia Ninja e retrata uma cena da manifestação em Salvador.

Apesar de as publicações só destacarem a camisa de Lula, pode-se ver que o que predomina ao fundo da cena são faixas com dizeres sobre a educação. Veja mais imagens desse protesto aqui.

Imagens antigas

A imagem de uma manifestação estudantil ocorrida na cidade de Patos (PB) em 2018 vem sendo republicada como se retratasse os protestos da última quarta-feira. A foto tem sido alvo de piada por apresentar um erro de português na faixa que está em primeiro plano. A palavra “sulcateamento” foi circulada nas postagens. No Facebook, a foto acumula 8.600 compartilhamentos.

Encabeçada pela Associação Paraibana dos Estudantes Secundaristas (APES), a manifestação cobrava melhorias no sistema de educação pública e tinha pautas como a valorização de professores e servidores e a reforma e a ampliação de escolas. As cobranças eram endereçadas ao governo do estado da Paraíba e não tinham nenhuma relação com o MEC.

Uma foto que mostra uma jovem cuspindo em uma imagem de Jesus Cristo também vem sendo compartilhada como se retratasse alunos de universidades federais durante os protestos. No entanto, a imagem, que já acumula cerca de 2.000 compartilhamentos, foi encontrada por Aos Fatos em postagens de 2016.

Em publicação feita à época no Facebook, a youtuber Sara Winter afirmou que a foto retratava um membro da União da Juventude Socialista (UJS) durante performance. A organização, contatada por Aos Fatos, afirma que a foto é antiga e vem sendo usada há alguns anos para “expor de forma negativa a nossa organização”, mas não deu mais detalhes sobre o contexto em que foi tirada.

Também não é da última quarta uma foto em que duas pessoas seguram uma faixa do PCO (Partido Comunista Operário) que pede liberdade para Lula e repudia o governo Bolsonaro. A imagem é, na verdade, de um protesto realizado no dia 31 de março deste ano contra o golpe militar de 1964. Publicada fora de contexto, a imagem foi checada por Aos Fatos e já acumula cerca de 4.000 compartilhamentos.

Realizada em frente ao vão do Masp, a manifestação era uma forma de repúdio às declarações do presidente, que convidou os quartéis a comemorarem o aniversário da ditadura. Além de militantes do PCO, participaram partidários do PT, torcidas organizadas de São Paulo e outros ativistas de esquerda não filiados.

Fotos de um ato ocorrido em março de 2016 contra o impeachment da então presidente Dilma Rousseff também estão sendo compartilhadas fora de contexto. Checada por Aos Fatos, a imagem já foi compartilhada erroneamente cerca de 1.400 vezes no Facebook.

A imagem, ambientada em Natal, voltou a circular nas redes graças à profusão de bandeiras e camisas vermelhas, tomadas pelos usuários como uma prova de que as manifestações pela educação eram compradas pela esquerda.

De acordo com o jornal Tribuna do Norte, o protesto pró-Dilma realizado há três anos reuniu cerca de 17 mil pessoas, de acordo com estimativas da Secretaria de Segurança.

Também usa fotos antigas um meme criado para criticar os protestos. As fotos são de quatro manifestações diferentes, nenhuma delas de 2019. O conteúdo, que foi checado por Aos Fatos, já acumula cerca de 10 mil compartilhamentos no Facebook.

• A primeira imagem, que mostra um cartaz com os dizeres “Lula livre!” é na verdade o recorte de uma foto de Albari Rosa, publicada em sites como A Tribuna do Paraná ainda em 2018;

• A segunda imagem, em que dois jovens se beijam enquanto um terceiro segura um cartaz com os dizeres “Meu cu é laico”, retrata um protesto ocorrido em Ribeirão Preto (SP), em janeiro de 2015, contra um caso de homofobia relatado em um bar da cidade;

• A terceira imagem, de um incêndio em via pública, também não se passa nos protestos. Tirada em 2013 por Gabriela Batista, da revista Veja, a foto mostra uma das manifestações contra o aumento da tarifa do transporte público;

• A última foto também não é das manifestações de 15 de maio. A imagem, tirada por Rodolfo Buhrer, da Reuters, já circula por sites de notícias desde o dia 10 de maio e, segundo a revista Exame, retrata um protesto ocorrido logo após o anúncio de contingenciamento de verba das universidades e institutos federais pelo MEC.


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