Semana On

Domingo 25.ago.2019

Ano VII - Nº 360

Brasil

2 em cada 3 receberam fake news nas últimas eleições, aponta pesquisa

Fake news ainda vão trazer desinformação nas próximas eleições, dizem especialistas

Postado em 23 de Maio de 2019 - Patrícia Campos Mello e Reynaldo Turollo Jr. (Folha de SP)

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Mais de dois terços das pessoas afirmam ter recebido fake news pelo WhatsApp durante a campanha eleitoral de 2018, revela pesquisa divulgada durante o Brazil UK Forum, conferência realizada nos dias 18 e 19 de maio na London School of Economics e na Universidade Oxford, no Reino Unido. 

Segundo a pesquisa, realizada pela Ideia Big Data com 1660 entrevistados, 67% concordam com a frase “eu certamente recebi fake news no WhatsApp durante a campanha eleitoral em 2018”, enquanto 17% discordam e 16% nem discordam, nem concordam.

De acordo com a pesquisa, a internet via celular é a principal fonte de notícias para 32% das pessoas, perdendo apenas para TV, com 36%. Rádio é a principal fonte de informação para 10% e jornais impressos para 6% –os dois perdem para amigos e família, com 12%.

No levantamento, 14% afirmam ter compartilhado fake news de conteúdo político na campanha de 2018, enquanto 44% dizem não ter feito isso e 42% nem concordam, nem discordam da afirmação.

“Os resultados estão em linha com pesquisas de outros países e mostram que as fake news se tornaram parte estrutural das campanhas eleitorais, antes elas não alcançavam tanta gente, com tamanha velocidade”, diz Mauricio Moura, fundador e CEO da Ideia Big Data.

O levantamento também demonstra a descrença das pessoas na mídia tradicional. De acordo com a pesquisa, a TV é a fonte mais confiável de notícias para 30%, seguida pela internet via celular, com 29%. Para apenas 8% dos entrevistados, o rádio é a fonte mais confiável, e 5% apontam os jornais impressos. Na opinião de 12% das pessoas, amigos e família são a origem mais confiável de informação, e 16% afirmam não confiar em nenhuma fonte de notícias.

O alvo de maior descrença são os jornais impressos: apenas 26% dos entrevistados concordam com a frase “eu confio nos jornais impressos”, 43% discordam e 31% não concordam, nem discordam. Já os telejornais são considerados confiáveis por 35% dos entrevistados, e não confiáveis por 40%, enquanto 25% nem concordam, nem discordam. Entre os entrevistados, 52% afirmam confiar em notícias enviadas pela família em mídias sociais e 43% crê em informações mandadas por amigos.

“A confiança das pessoas em notícias compartilhadas por amigos e familiares é o dobro da confiança em jornais; isso é muito preocupante, porque a maior parte das fake news são recebidas de amigos e família”, diz Moura. De acordo com a pesquisa, apenas 22% das pessoas checam a veracidade das notícias antes de compartilhar.

A enorme maioria dos entrevistados na pesquisa, 92%, não sabe o que são agências e checagem de fatos ou notícias.

Veja os dados da pesquisa Brazil UK Forum, da Ideia Big Data, feita entre 01 e 08 de maio

Sentimento em relação à frase “eu certamente recebi fake news no WhatsApp durante a campanha eleitoral em 2018”

67% concordam 

17% discordam

16% nem concordam, nem discordam

Sentimento em relação à frase: “eu compartilhei fake news de conteúdo político durante a campanha eleitoral de 2018”

14% concordam

44% discordam

42% nem concordam, nem discordam

Qual a sua principal fonte de notícias?

TV - 36%

Internet via celular - 32%

Rádio - 10%

Jornais impressos - 6%

Amigos/família - 12%

Outros - 4%

Qual a fonte mais confiável de notícias?

TV - 30%

Internet via celular - 29%

Rádio 8%

Jornais impressos 5%

Amigos/família 12%

Nenhuma 16%

Em relação à seguinte frase: “eu confio nos jornais impressos”

26% concordam

43% discordam

31% não concordam, nem discordam

Em relação à seguinte frase : “eu confio em telejornais”

35% concordam

40% discordam

25% nem concordam, nem discordam

Em relação à seguinte frase: “eu compartilho notícias em mídias sociais frequentemente”

41% concordam

26% discordam

33% nem concordam, nem discordam

Em relação à seguinte frase: “eu checo a veracidade das notícia antes de compartilhar”

44% discordam

22% concordam

34% nem concordam, nem discordam

Em relação à seguinte frase: “eu confio em notícias enviadas pela minha família em mídias sociais”

52% concordam

19% discordam

29% nem concordam, nem discordam

Em relação à frase: “eu confio em notícias enviadas pelos meus amigos em mídias sociais”

43% concordam

18% discordam

39% nem concordam, nem discordam

Em relação à seguinte frase: “Eu checo a veracidade de notícias recebidas de família e amigos nas mídias sociais”

38% concordam

34% discordam

28% nem concordam, nem discordam

Sabe o que são agências de checagens de fatos/notícias?

92% não

8% sim

Mais problemas

As fake news são um fenômeno que continuará a causar desinformação nas próximas eleições. O combate delas por meio das leis penais é insuficiente e ineficiente. O WhatsApp é a plataforma em que o enfrentamento é mais difícil. A solução não deve ser por meio de censura, mas pelo uso de ferramentas de checagem e pela prática do jornalismo profissional.

Essas são algumas das previsões e conclusões de especialistas que participaram, no úktimo dia 17, de um seminário internacional promovido pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) em parceria com a União Europeia para discutir as fake news.

Representantes de três das principais plataformas, WhatsApp, Facebook e Twitter, apresentaram no evento iniciativas tomadas para coibir a propagação de informações falsas, especialmente em período eleitoral.

Neste sábado, o presidente Jair Bolsonaro postou um comentário sobre o seminário no TSE. "Seminaristas querem proibir o termo Fake News e usam Folha de SP como fonte. A cada dia o brasileiro tem mais acesso à informação e conhece a verdade sem precisar de alguns órgãos de imprensa famosos pelas Fake News. Sigo defendendo uma internet livre."

Evento

“O WhatsApp não é uma plataforma pública, ele é desenhado para ser um app de mensagens particulares, diferentemente do Facebook e do Twitter, que são uma praça pública”, disse Ben Supple, gerente de políticas públicas do WhatsApp, ao tratar das dificuldades encontradas.

Segundo ele, nem o próprio aplicativo vê as mensagens trocadas, o que faz a empresa ter conhecimento limitado sobre quem são os usuários e quais são seus comportamentos.

Algumas medidas, porém, foram tomadas, como a limitação de encaminhamentos simultâneos, segundo Supple. Nas eleições de 2018 no Brasil, uma mensagem podia ser repassada para apenas 25 usuários por vez.

Ainda segundo Supple, o WhatsApp bane cerca de 2 milhões de contas por mês, por meio de inteligência artificial empregada para identificar condutas suspeitas.

Já o gerente de políticas públicas do Twitter, Fernando Gallo, destacou iniciativas da plataforma como as contas que têm sua autenticidade verificada e a desativação de robôs —o que, segundo ele, fez cair pela metade o número de denúncias de spam por usuários desde 2017.

O Facebook afirmou que apostou em transparência. “Toda propaganda eleitoral que rodou no Facebook foi para uma biblioteca de anúncios, pesquisável. Todo esse conteúdo vive no Facebook por sete anos, e o pesquisador tem acesso à propaganda, ao valor gasto e ao público que foi atingido”, disse Mônica Rosina, gerente de políticas públicas do Facebook no Brasil.

O consultor de marketing digital Marcelo Vitorino propôs que o TSE passe a cadastrar empresas que fazem disparos de mensagens via WhatsApp para auxiliar candidatos que queiram contratar esse tipo de serviço de forma legal.

“Assim como o TSE homologou empresas de 'crowdfunding' [financiamento coletivo], facilitou muito a vida da gente. Que empresa de 'crowdfunding' eu vou contratar? Eu vou contratar uma que já está homologada pelo TSE. As mesmas regras poderiam ser estendidas às empresas de big data que disparam mensagens de WhatsApp, porque facilitaria para o agente político a contratação de alguém que é sabidamente seguidor da lei”, sugeriu.

Em um painel do seminário no TSE voltado à discussão dos limites da liberdade de expressão, a advogada Taís Gasparian, que é especialista no assunto, disse que qualquer controle da liberdade de expressão tem de ser posterior à divulgação da informação. Nesse caso, há dois caminhos possíveis para quem se sentiu prejudicado: ajuizar uma ação de indenização e/ou pedir direito de resposta.

“A Constituição cita a palavra 'censura' duas vezes, e é para vedá-la”, afirmou.

Para o delegado Flúvio Garcia, da Polícia Federal, e para a procuradora da República Raquel Branquinho, que atua na PGR (Procuradoria-Geral da República), as leis penais não dão conta de combater as fake news.

“O caminho não é o direito penal, não é o direito processual penal que irá resolver essa questão”, disse Garcia. Apesar disso, a PF distribuiu às delegacias de todo o país um roteiro com artigos do Código Penal, do Código Eleitoral e de leis como a do racismo que preveem crimes nos quais as fake news podem se enquadrar, a fim de auxiliar os investigadores nos estados.

Nessa lista estão os crimes contra a honra na propaganda eleitoral e de divulgação de pesquisa eleitoral falsa, ambos previstos no Código Eleitoral, e o de contratação de grupo para ofender a honra ou denegrir imagem na internet.

Segundo Branquinho, é difícil enquadrar as fake news nas definições de crime existentes porque todos os tipos penais têm, além dos elementos objetivos —que são facilmente verificáveis—, elementos subjetivos dificilmente comprováveis.

Um exemplo é o artigo 323 do Código Eleitoral, que diz que é crime “divulgar, na propaganda, fatos que sabe inverídicos, em relação a partidos ou candidatos e capazes de exercerem influência perante o eleitorado”. A dose de subjetividade está na parte final, que exige que a informação falsa seja apta a influenciar os eleitores.


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