Semana On

Segunda-Feira 16.set.2019

Ano VIII - Nº 363

Poder

Sob Bolsonaro, MEC conseguiu acordar o asfalto

Presidente declara guerra à educação pública como parte de projeto de poder

Postado em 17 de Maio de 2019 - Josias de Souza e Leonardo Sakamoto (UOL)

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A manifestação contra os cortes no orçamento da Educação, promovidos pelo governo Jair Bolsonaro, reuniu gente de todo o tipo. Para além das entidades nacionais e regionais estudantis, das associações de classe e dos sindicatos de professores, e de seus carros de som e balões, havia uma participação muito expressiva de estudantes dos ensinos médios e superior que atenderam ao chamamento para o protesto, mas não estavam ligados a nenhuma instituição, movimento ou partido político.

Ostentavam seus cartazes com seus protestos individuais ou levavam faixas, com o protesto de suas turmas, coletivos, centros acadêmicos e grêmios. Ou vieram carregando palavras de ordem por uma educação de qualidade, mas também seu descontentamento com tudo isso que tá aí, talkey?

A crítica à Reforma da Previdência ou a demanda pela libertação de Lula, que também são pautas legítimas, não estavam entre as prioridades desse grupo sem lideranças definidas e sem carros de som.

"Bolsonaro não faz ideia de quem eu sou, de quem minhas amigas são para dizer uma merda dessas", disse-me uma estudante, reclamando da declaração do presidente que tachou os manifestantes de "idiotas úteis" e "massa de manobra". "Ele sabe, mas quer convencer que a gente é zumbi", retrucou uma amiga.

Se o presidente queria, com essas inacreditáveis declarações, deixar estudantes zangados, conseguiu. É possível dizer que ela foi tão desastrada quanto a forma como seu ministro da Educação, Abraham Weintraub, anunciou inicialmente os cortes no orçamento das universidades federais – dizendo que seriam afetadas as instituições que promoviam "barbúrdia".

"É natural [que haja protesto], agora a maioria ali é militante. Se você perguntar a fórmula da água, não sabe, não sabe nada. São uns idiotas úteis, uns imbecis, que estão sendo usados como massa de manobra de uma minoria espertalhona que compõe o núcleo de muitas universidades federais no Brasil", afirmou o presidente.

Isso também serviu como senha para seus seguidores nas redes sociais entrarem na disputa simbólica dessas manifestações, vendendo-as como atos partidários travestidos de manifestações pela educação. 

Ainda é cedo para entender os desdobramentos desse movimento. Mas conversamos com vários estudantes e havia, entre eles, o descontentamento difuso que estava presente em junho de 2013. As pessoas estavam lá por educação – uma pauta que agrega muito mais que o direito ao transporte e é aceita como prioridade em todo o espectro ideológico. Mas também traziam sua insatisfação pela forma como as coisas andam.

A maioria dos jovens que coalharam as ruas há seis anos não voltaram para defender ou criticar o impeachment, como mostraram institutos de pesquisa. As manifestações pelo impeachment, por exemplo, tinham média etária e de renda bem mais altas. Os estudantes permanecerem em compasso de espera por não se verem representados pelo que estava lá e suas narrativas.

Enquanto isso, movimentos e grupos que se autointitularam como "herdeiros" das jornadas de junho, de um lado e de outro, apesar de não serem. Os únicos que poderiam se nomear assim, por sua natureza e estrutura, foram aqueles que ocuparam escolas em São Paulo, Rio de Janeiro, Rio de Grande do Sul, Ceará, Goiás, entre outros lugares, para protestar contra a imposição de projetos de "reorganização" escolar, a falta de qualidade na educação ou de merenda nos anos seguintes. Ou as meninas e moças que coalharam as ruas de várias cidades brasileiras, inaugurando o grito de "Fora, Cunha!", após um projeto do então todo-poderoso presidente da Câmara dos Deputados, que dificultava o aborto legal, caminhar no Congresso.

Porém, não basta um estopim, como foi a violência contra as manifestações naquela quinta, 13 de junho de 2013. É necessário um conjunto de outros elementos que criem uma nova tempestade perfeita, incluindo insatisfação, falta de perspectivas, sensação de impotência. Ou seja, tudo aquilo que também vivemos hoje, mas em outro grau.

Não sei se um movimento como o de 2013 (cujo simbolismo tem sido ressignificado por outros grupos políticos de acordo com seus próprios propósitos), seria capaz de eclodir novamente neste Brasil de 2019. Mas, se acontecer, seria fatal a qualquer governo.

Considerando isso, é de pensar que a estratégia de Jair Bolsonaro não foi a melhor possível. Ele tem estrutura e recursos para influenciar no debate público na rede. Mas a insatisfação a um governo é um motivo, como ele bem sabe, muito mais forte para sair à rua do que a defesa deste. Além disso, ele não é capaz de controlar todas as variáveis que compõem o imponderável – um dos protagonistas de processos catárticos.

A imagem de um mar de estudantes e professores ocupando as ruas de cidades por todo o país nesta quarta já circulam pelo mundo. Qual será o tamanho da próxima? O governo deve manter a sua política de cortes e não voltar atrás, cometendo os mesmos erros dos políticos que vieram antes dele? Chegará o momento em que vídeos de estudantes apanhando de polícias circularão pelas redes como em junho de 2013?

Alguns dos estudantes com os quais conversei estavam participando de um protesto, como esse, pela primeira vez. E, apesar de zangados, tomaram gosto pela rua. Quando isso acontece, é difícil querer sair.

O Ministério da Educação precisa de uma dessas forças de paz das Nações Unidas. Logo num setor tão estratégico, que deveria merecer atenção prioritária, instalou-se uma briga que teve origem nos Estados Unidos. A infantaria de Olavo de Carvalho desperdiçou os primeiros meses do governo de Jair Bolsonaro trocando tiros com a cavalaria dos militares. Poder-se-ia supor que guerreiam por concepções antagônicas de políticas educacionais. Infelizmente, não é esse o caso. O conflito envolve ideologia. Apenas ideologia. Nada além de ideologia.

O governo mal começou e já teve dois ministros da Educação. Ambos professores, com mestrado e doutorado em ciências Olavetes. O primeiro, Ricardo Vélez, deixou duas marcas: o caos administrativo e o plano de impor às escolas a filmagem diária de crianças hasteando a bandeira e entoando o hino nacional, depois de recitar o slogan de campanha do capitão. O segundo, Abraham Weintraub, conservou a balbúrdia gerencial e transformou um corte orçamentário numa cruzada ideológica que uniu a esquerda e a direita universitária numa mesma trincheira.

Juntos, Vélez e Weintraub produziram a única realização social perceptível do governo Bolsonaro nos seus quatro meses e meio de existência: de tanto cutucar a paciência alheia, o MEC conseguiu despertar o asfalto.

Ao xingar estudantes de imbecis, Bolsonaro demonstra que educação faz falta

Idiotas úteis", "imbecis", "massa de manobra." Foi assim que Jair Bolsonaro classificou quem participou das manifestações contra a redução do orçamento da Educação na quarta (15).

A declaração foi dada em Dallas, no Texas, onde o presidente deve receber uma homenagem. Originalmente, ela estava prevista para ocorrer em Nova York, mas Bolsonaro acabou desistindo por conta dos protestos contra sua ida motivados por suas declarações de cunho homofóbico e contra o desenvolvimento sustentável.

"É natural [que haja protesto], agora a maioria ali é militante. Se você perguntar a fórmula da água, não sabe, não sabe nada. São uns idiotas úteis, uns imbecis, que estão sendo usados como massa de manobra de uma minoria espertalhona que compõe o núcleo de muitas universidades federais no Brasil", afirmou o presidente, segundo registro de Marina Dias, da Folha de S.Paulo.

Bolsonaro faz parte do grupo de políticos que não está habituado a lidar com o contraditório de forma tranquila. Mas ao fazer isso, em um dia de mobilização nacional de um tema simpático à maioria da população, demonstra uma incrível falta de tato.

Ao xingar abertamente estudantes e professores que questionam a falta de uma política nacional para a Educação, o presidente demonstra acreditar ter recebido um cheque em branco nas eleições de outubro do ano passado. Ignora o fato que ele não governa apenas para seus seguidores nas redes sociais e em nome de seu projeto de poder, mas é presidente de todos os brasileiros.

Ao atacar quem está indo às ruas pedir educação de qualidade, interdita o debate sobre a construção do futuro e põe a democracia no pau de arara.

Estudantes que resolvem refletir e se organizar pela melhoria da educação não são "idiotas", nem "imbecis". Pelo contrário, reside neles a esperança da criação de uma nova forma de fazer política – ao contrário dos simulacros toscos que se chamam de "novo" mas cheiram a anacronismo. Burrice é atacar esses estudantes por medo da realidade mudar.

Burrice, aliás, não é desconhecer a fórmula da água. Isso é consequência de problemas estruturais da educação brasileira. Como disse no post anterior, o Brasil conta com alunos que saem do ensino médio analfabetos funcionais, assiste a roubo, ausência e baixa qualidade da merenda escolar, paga baixos salários aos professores e não fornece estrutura suficiente – situação que não começou com Bolsonaro, mas para a qual ele não apresentou nenhuma proposta de mudança até agora.

Burrice é o desprezo pelo conhecimento. Burrice é atacar quem busca o aprendizado. Burrice é encarar preconceitos violentos como sabedoria.

Como já disse aqui, a burrice, montada na soberba, tacha os que discordam de sua visão de mundo como mal informados, comprados ou manipulados sem apresentar dados que corroborem a crítica. Burrice sempre tenta destruir, de forma violenta, o conhecimento que ameaça jogar luz sobre sua própria escuridão. Burrice, diante de um questionamento, foge, dizendo que outra pessoa ou partido também faz a mesma coisa. Burrice não aceita a existência de qualquer fato que vá na direção contrária de sua crença. Diante de denúncias ou críticas baseadas em fatos, brada que tudo é "notícia falsa" por não admitir o conteúdo. Essa burrice, que não aceita a existência da realidade, ocorre da direita à esquerda, ou seja, não é monopólio de ninguém.

Mas essa burrice, que busca a guerra e não o diálogo, tem cura. E ela é encontrada principalmente nas escolas e universidades, onde deveria haver liberdade para discutir valores com respeito à divergência e à ética, sem que a saída seja humilhar e destruir o interlocutor.

Pelo menos, por enquanto.

Incompetentes

O governo Bolsonaro conta com uma articulação política incompetente, uma cúpula econômica insensível, um ministro da Educação cheio de ressentimento (chancelado por um "guru" alucinado) e um presidente da República que vive em sua realidade paralela particular. Olhando para essa conjunção de fatores, a impressão seria de que a sequência de decisões tomadas sobre os cortes nos orçamentos de universidades e escolas públicas se explicaria pelo seu comportamento autodestrutivo. Ou seja, que uma mistura de inabilidade, ignorância e insanidade levaram à primeira paralisação nacional desde que o ex-deputado federal assumiu o Palácio do Planalto. Mas não é bem assim.

O governo trata muitas universidades e escolas como inimigas. Em seus discursos, elas aparecem como antros de perversão, nos quais a única produção científica é o desenvolvimento de métodos de cultivo de maconha hidropônica, com o propósito maior de abrigar subversivos que vão inventar maneiras de destruir a família brasileira – de "kit gays" a "mamadeiras de piroca".

Nem Bolsonaro, contudo, acredita nisso totalmente, mas aproveitou o momento de aperto fiscal para atacar uma das instituições com maior potencial de lhe causar problemas exatamente por ser espaço para a liberdade de reflexão, de crítica e de debate. E, por conta de sua pluralidade, é, historicamente e em várias partes do mundo, refúgio do senso crítico quando governos com tendências autoritárias assumem o comando. O enfraquecimento das universidades públicas, antes de ser consequência da crise econômica, é, portanto, parte de um projeto. De poder, não de educação – uma vez que o governo não apresentou, até agora, sua política nacional para a área. Sabemos o que ele quer destruir, não construir.

Quase metade das escolas do país (49%) não está conectada a uma rede de esgoto, cerca de 16% não contam com um banheiro no prédio, 26% não têm água encanada, 21% não possui coleta de lixo regular, de acordo com o Censo Escolar 2018, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Mas o grande problema educacional, segundo o governo, é a doutrinação político partidária gayzista-comunista de crianças.

Mais da metade das escolas  (54,4%) não tem biblioteca ou sala de leitura. A manutenção desse número faz sentido em um país em que o presidente da República, em uma live pelo Facebook, orienta que pais e mães arranquem fora as páginas de cartilhas que dão orientações de saúde a adolescentes porque há ilustrações que mostram os órgãos sexuais. Ou que livros que tratam de direitos humanos sejam rasgados em bibliotecas na Universidade de Brasília.

Cerca de 57% das escolas de ensino fundamental têm acesso à internet de banda larga. As demais dificilmente conseguiriam enviar os vídeos solicitados pela gestão do ex-ministro Ricardo Vélez – que pediu que crianças fossem gravadas cantando o hino nacional e ouvindo o lema de campanha eleitoral de Bolsonaro. Assim como Vélez, o atual ministro Abraham Weintraub está na esfera de influência do ex-astrólogo Olavo de Carvalho e sua "guerra cultural".

Em 44% das escolas de nível médio – 39% na rede pública e 57%, na privada – não há laboratório para ensino de ciências. O governo federal, ao invés de investir para resolver esse déficit, fomentando o interesse de jovens para a pesquisa nas áreas de exatas e biológicas, prefere atacar as ciências humanas no ensino superior. O desprezo pela formação em História e Filosofia ajuda, aliás, a explicar por que membros do governo, incluindo o presidente, consideram que o nazismo seja de esquerda.

Alunos de mestrado e doutorado, principalmente das universidades públicas, são a base da pesquisa científica no país, ganhando vergonhosos R$ 1500,00 mensais (bolsas de mestrado da Capes) e R$ 2200,00 (de doutorado). Mesmo operando no limite, tornaram-se alvos dos cortes da educação. Jovens pesquisadores estão dando entrevistas, desabafando, em desespero, por causa da suspensão das bolsas que passariam a receber. E se isso não bastasse, são obrigados a ouvir o ministro da Educação dizer que as universidades públicas promovem balbúrdia. E ler a horda de seguidores de Bolsonaro os chamarem de "vagabundos" e "drogados" nas redes sociais.

O Brasil conta com alunos que saem do ensino médio analfabetos funcionais. Assiste a roubo, ausência e baixa qualidade da merenda escolar. Paga baixos salários aos professores e não fornece estrutura suficiente. Mantém um teto orçamentário, aprovado no governo passado, que restringe novos investimentos por duas décadas em uma área que ainda está distante de um mínimo aceitável, em uma bomba-relógio que já está estourando. E, mesmo assim, o governo tem adotado um comportamento arrogante e prepotente.

Pois seu objetivo não é melhorar a educação que temos hoje. Em sua concepção de sucesso, ele precisa fazer o modelo de educação pública, foco de resistência simbólica e social mesmo com todas as dificuldades financeiras, vir abaixo e, a partir das cinzas, construir algo sob uma visão utilitarista, subordinada e pró-mercado da educação. Um modelo em que o naco das instituições privadas de nível superior que praticamente não pesquisam e são voltadas a formar apenas mão de obra e não cidadãos seja a pedra fundamental.

O governo Bolsonaro declarou guerra à educação pública no Brasil em nome desse projeto de poder. O presidente age como se comandasse o "Ministério da Verdade" – apresentado no romance "1984", de George Orwell, com a função de ressignificar os registros históricos e qualquer notícia contrária. Ele precisa dar outra interpretação do passado para controlar o presente e, ao mesmo tempo, ressignificar o presente para criar um futuro que possa chamar de seu. Isso passa por castrar a liberdade de ensino conquistada desde a redemocratização, intervindo no sentido da educação pública.

Ao invés de expor a situação financeira e chamar representantes dos diferentes grupos impactados para construir uma saída, considerando que cortes e contingenciamentos são comuns a momentos de crise, o governo, em um ato tresloucado, anuncia que os cortes nas universidades federais seriam guiados por questões ideológicas. Dada a óbvia repercussão negativa, voltou atrás, afirmando que a porrada seria linear nas universidades federais, mas a sinceridade já havia sido posta à mesa.

Na sequência, a horda de apoiadores radicais do presidente despejaram uma grande quantidade de "material de combate" nas rede sociais – de memes ridicularizando as universidades até fotos de títulos de dissertações e teses, cometendo assédio moral contra pesquisadores de todo o país.

Por tudo isso, o governo fomentou as manifestações de rua pela Educação contra ele, coisa que nenhum político oposicionista havia conseguido fazer até agora. É senso comum que foi o próprio governo Bolsonaro o responsável pela paralisação nacional de quarta (15). Foi ele quem reuniu estudantes, professores, pesquisadores e funcionários, entre outros, de diferentes orientações ideológicas, diante de ataques frontais às escolas, às universidades e à liberdade de ensino, de pesquisa e de reflexão.

Estudantes e professores sabem que o que está em jogo não são apenas aulas ou a manutenção de pesquisas, mas um projeto de país. Bolsonaro também. O inverno promete ser longo, tanto quanto essa briga.


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