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Sábado 21.set.2019

Ano VIII - Nº 364

Artigo da semana

O Brasil está preparado para enfrentar o ebola?

As incertezas da epidemia.

Postado em 19 de Agosto de 2014 - Esper Georges Kallás

Ao longo da história, os humanos enfrentaram germes com grande frequência, com maior ou menor impacto. Ao longo da história, os humanos enfrentaram germes com grande frequência, com maior ou menor impacto.

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A natureza continuamente nos apresenta novos desafios. Ao longo da história, os humanos enfrentaram germes com grande frequência, com maior ou menor impacto.

A tuberculose e o HIV, por exemplo, mudaram hábitos e construíram o mundo de hoje. A epidemia do vírus ebola é mais um caso.

Embora o ebola tenha sido identificado em 1976, diferentes tipos do vírus vivem há muito tempo em várias espécies de morcegos na África e na Ásia. O avanço da população na vida selvagem, contudo, fez com que o vírus fosse transmitido para humanos em diversas ocasiões, um encontro que tem sido desastroso.

Com capacidade de ser transmitido pelo contato, o ebola provoca uma doença que inflama o organismo, afeta o controle dos líquidos corporais, pode provocar sangramentos e levar à morte uma grande proporção dos infectados.

As condições no oeste da África são socialmente precárias em várias regiões e a população tem difícil acesso à saúde e limitada infraestrutura. A Libéria, por exemplo, usa menos energia elétrica em um ano que Nova York em uma hora. Foi a associação Médicos Sem Fronteiras que se esforçou em enviar uma missão para prestar socorro frente a uma situação que se transformou em tragédia humanitária.

Ninguém sabe se a transmissão inter-humana do vírus é capaz de sustentar uma epidemia em países com melhores condições sanitárias.

Há cerca de uma década, um outro vírus também veio de morcegos. O agente causador da pneumonia asiática, também conhecida como SARS (Severe Acute Respiratory Syndrome), era muito mais fácil de ser transmitido que o ebola. Causou mais de 8.200 casos de pneumonia e quase 800 mortes em várias regiões do mundo, entre 2002 e 2003. Ações de vários governos, da Organização Mundial da Saúde (OMS) e de autoridades em saúde auxiliaram na contenção da epidemia, até que ela se esgotou.

O risco de o ebola chegar ao Brasil ainda é remoto, mas possível. É imperativo que exista um plano de ação coordenado, num país grande e populoso como o nosso. A circunscrição da transmissão ao primeiro caso, ou a poucos casos iniciais, é a chance mais preciosa para evitar uma epidemia como experimentam Guiné, Serra Leoa e Libéria.

Só um investimento maior e duradouro em todos os níveis da saúde pode melhorar o combate de epidemias que já temos e as que virão.

Autoridades de saúde brasileiras lançaram um plano de combate e estão trabalhando na sua implementação, diante de um quadro de transmissão do ebola no país.

A dúvida é se estamos preparados para enfrentar, no Brasil, uma epidemia da doença causada pelo ebola. Na minha opinião, nenhum país está preparado, caso a doença se espalhe em maior escala. Não sabemos ainda qual magnitude a transmissão e a proporção de casos graves poderia atingir.

No Brasil, a epidemia de gripe em 2009 e os diversos surtos de dengue nas diferentes regiões do país expõem um sistema de saúde que ainda está em estruturação e pode ficar sobrecarregado em situações epidêmicas. Precisamos reconhecer a necessidade do investimento em pesquisa, priorizar a vigilância e a notificação de doenças que são ou podem se transformar em uma epidemia e criar novas formas de monitorar agentes com o potencial de fazer o que o ebola provocou.

Precisamos rastrear casos suspeitos nas principais vias de entrada do país, como aeroportos internacionais, portos e pontos de grande migração em fronteiras. Os prontos-socorros e os serviços de saúde devem conhecer os sintomas da doença e ter os meios suficientes para rastrear casos suspeitos e fazer o diagnóstico com rapidez.

Precisamos de profissionais treinados e distribuídos em locais estratégicos do país para cuidar dos doentes e colocá-los em isolamento.

Só um investimento maior e duradouro em todos os níveis da saúde pode melhorar o combate de epidemias que já temos e as que virão.

Esper Georges Kallás - Médico, é infectologista e professor da Faculdade de Medicina da USP.


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